Delta observou a face de Alphonse se alterando e tornando-se mais intimidante no momento em que Lenna entrou pelas portas duplas da mansão. O conselho havia acabado de se retirar, e no momento, a família, com exceção de Picle, estava toda reunida na sala de estar. O caminhado firme e resoluto de sua irmã, que era sem muita elegância e até um pouco masculino de um certo modo, não se abalou diante do olhar incisivo que era lançado pelo pai, pelo contrário, ela o fitou com igual intensidade, com seus olhos de esmeraldas brilhantes. Lenna era como uma versão diminuta da própria Delta, embora fosse a mais velha das três, ela era somente um pouco mais alta que Picle (ou seja, tinha um metro e meio), seus cabelos eram curtos em um "quase Channel", e naquele momento, como em todos os outros, usava de roupas negras, sendo um vestido com decote quadrado. Justo o suficiente para conseguir desenhar as escassas curvas de seu corpo delgado.
— Será que pode me dizer o motivo de não ter comparecido à reunião de hoje? — Alphonse perguntou uma vez que se viu frente a frente com sua primogênita.
— Estava ocupada — Lenna disse, cruzando os braços, sem nenhum sinal de submissão ou apreensão em relação ao pai.
— Que ocupação poderia ser mais urgente do que as prioridades da sua própria espécie?
— O que? Reunir um monte de velhos em uma sala e discutir sobre planos que os súditos deles vão colocar em ação? — Lenna retrucou, tão ácida e desdenhosa como de costume.
— Olhe como fala! — ele ergueu a voz.
Delta e Duque não se atreviam a se meter quando os dois começavam, isso, de uns anos pra cá, se tornou algo bem frequente nas tais "reuniões de família". Talvez, quando os poderes de Lenna se mostraram superiores aos de Alphonse, talvez um pouco antes; ela perdeu completamente o medo que já teve por ele algum dia, e um sentimento novo parecia ter surgido, algum tipo de proteção pelas suas irmãs...
— Quer saber onde eu estava? — ela perguntou, sorrindo de um jeito desafiador que exibia suas presas, então, enfiou a mão em um dos bolsos do seu vestido, erguendo-a e deixando que as peças flutuassem dali com o poder da sua mente.
— Isso... — Delta murmurou, tentando focar a visão, e um segundo depois, percebeu do que se tratava. Flutuando ali, haviam oito caninos de licantropos, com suas pontas brancas como a neve, e as bases ainda machadas de sangue.
— O que você andou fazendo, Helena? — Alphonse perguntou, depois de observar como flutuavam os caninos dos lobos. Após a sua pergunta, todos eles desceram subitamente ao controle de Lenna, cravando-se no centro de carvalho que havia ao lado de ambos, o som de cada um dos caninos caindo consecutivamente foi como de uma metralhadora disparando.
— O que você acha, hein? Estava caçando os linguarudos que andam rondando a nossa propriedade e soltando essas "profecias" ridículas por aí — ela respondeu.
— Você estava causando alarde e atraindo atenção de caçadores ... — Alphonse disse, sua voz mudando e se tornando mais sombria, ele deu um passo na direção de Lenna, mas pensou duas vezes e parou.
— O que? Acha que eu não sou boa o bastante pra lidar com um bando de humanos? — perguntou Lenna, claramente ofendida pelas palavras do pai.
— Eu sugiro que você seja mais cuidadosa, Helena, em todas as suas ações; está andando em uma linha fina...
Pelo rosto dela, com certeza havia uma resposta na ponta da língua, mas Lenna apenas ergueu o queixo em um sinal de afronta, como fazia quando não queria mais discutir com alguém, então, soltou um "Humf", e foi se retirando da sala a passos firmes. Antes de subir as escadas, ela desviou brevemente o olhar para Delta.
— Já vou indo... Tenho muito o que resolver, e não tenho tempo para essa revolta infantil — Alphonse murmurou; caminhando em direção da saída, o sol já havia se posto, e seu poder estava a todo vapor agora.
— Até a próxima reunião, pai — Delta disse calmamente.
— Até logo, vossa majestade — Duque disse.
Sem dizer mais nada e como vapor, Alphonse se desfragmentou, e as suas partículas, se movendo através das sombras, desapareceram diante dos olhos dos dois.
— E lá vai ele de novo...— Duque murmurou...
Delta observou tudo em silêncio como sempre fazia. Ela havia sido, irremediavelmente, durante toda a sua vida, um pilar entre um pai exigente e sem um pingo de amor no coração, e uma irmã mais velha instável e excessivamente ciumenta. Ela amava ambos, e temia a ambos na mesma medida.
Podia se lembrar, tão claramente quanto o céu leitoso que se fixava sobre suas cabeças em dias de outono, da época em que conheceu Soren, filho mais velho de Rahgar, um dos principais membros do lado direito da mesa e velho amigo de Alphonse. Era um rapaz alto, de cabelos negros como a noite, costumava visitar as reuniões junto do pai desde de bem jovem, antes que, muito tempo depois, os sistemas de tráfico de sangue na Dinamarca o levassem para novos mares. Soren era praticamente da mesma idade de Delta, além de partilhar de interesses e um senso de humor altamente específico, e aos fins de reuniões, conversava com ela durante algumas horas, enquanto seus pais, sozinhos, bebiam vinhos das safras de 70 com gotas de O negativo pela madrugada a dentro. Eram boas lembranças, eles se davam bem, e embora seu sentimento por Soren fosse algo mais relacionado a um tipo de irmandade, com o tempo, a atenção recebida (que era rara principalmente vinda de garotos) e o claro interesse amoroso que ele tinha por ela, fez com que seus sentimentos ficassem um tanto confusos; na época, ela não saberia explicar os motivos ou como exatamente isso surgiu em seu peito, mas havia criado uma mistura de sentimento amoroso e fraterno por Soren, e isso germinou e cresceu com o passar dos anos em que interagiam ali, sempre no grande sofá escarlate que contrastava com a madeira negra do piso central da mansão Karstein.
Quando esse sentimento se tornou grande e difícil de esconder, eles passaram a namorar escondidos. Um beijo foi trocado no sofá, simples e sem luxúria alguma, e selou o início da relação. Mais tarde, ela viria a sentir seu lábio inferior cortado pela presa de Soren, o qual era desajeitado para beijar devido à sua clara falta de experiência. Tudo isso azedou um belo dia, quando Soren a convidou para sair em um evento de humanos. O ano era 1945; os humanos, tolos, travaram uma terrível e avassaladora guerra contra a própria espécie. Soren teve a ideia de sair com ela pela cidade, às escondidas de seus pais, para que pudessem ver os fogos de artifício e a enorme comemoração que o povo de Blackvalley fazia em celebração ao retorno de seus filhos, pais e irmãos que retornavam dos territórios alemães.
O passeio não teve nada demais, foi agradável e calmo, o que ambos não sabiam, era que havia um caçador de monstros em seu encalço, eles quase foram mortos por sua ingenuidade. Se fosse Rahgar, ou mesmo Alphonse quem tivesse dado cabo do humano e os encontrado, a situação teria sido menos desastrosa, mas foi Lenna quem chegou lá, logo depois de eles entrarem em um beco para sumir da vista dos humanos e poderem retornar à propriedade... Em seu vestido negro, com uma fenda na altura da coxa, o sangue do caçador formava manchas que se mesclavam ao tecido, o qual ondulava, como se estivesse sob a água, em contato com a energia que emanava de Lenna, os passos eram firmes, como sempre, o olhar dela era de um ódio tão gutural, que a sensação avassaladora, de fato, era como estar submersa nas águas. Delta ainda teve forças pra falar, mas Soren ficou paralisado de medo...
— L-Lenna — ela tentou apelar, mas foi em vão. Com um aceno de mão que pareceu calmo, Lenna lançou Soren para longe usando o poder da mente. Ele bolou pelos chãos em grunhidos de dor, até se chocar com um latão de lixo em um baque metálico que assustou um grupo de gatos, os quais correram em todas as direções.
— Lenna! — Delta tentou de novo, mas Lenna fez algo com ela, erguendo a mão em sua direção e a prendendo bem onde estava, com um campo de força invisível.
— Se você se aproximar da minha irmã mais uma vez... — Lenna murmurava conforme caminhava na direção de Soren, seu salto alto gerando estalos no chão. Ao chegar perto, ela ergueu a mão, fechando-a, e fez com que o sangue dele escorresse pelas narinas e orelhas, enquanto seu rosto se distorcia em uma expressão de dor, e um horrendo gemido abafado se fazia, as veias dele todas saltadas sob a pele...
— Lenna, para, por favor, não foi culpa dele!! —Delta gritava em lágrimas, mas não adiantava.
— eu mato você, ouviu? — Lenna emendou, sua expressão era obscura, permeada pelo mais puro ódio... quando soltou Soren de seu domínio, ele jurou de joelhos que jamais se aproximaria de Delta. Dito e feito...
Desde então, ela não teve mais nenhum namorado...
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Atualizado até capítulo 69
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