Em dias como aquele, Blackvalley se tornava um local estranhamente sombrio. A população de aproximadamente quarenta e dois mil habitantes, a formação de basicamente duas avenidas ao norte do rio Dean, com uns quatro bairros minúsculos com prédios que não passavam de quatro andares e a diversão local dividida entre igrejas católicas e bares mequetrefes. A cidade estava localizada após os pomares de macieiras dos Karsteins, em meio à densa floresta de pinheiros. Não dava para dizer que Blackvalley era uma cidade muito presente nos mapas da Inglaterra, alguns chegavam até a desconsiderar a sua existência, categorizando-a simplesmente como mais uma fatia da propriedade dos Karsteins, muito presentes e influentes no local.
Qualquer um que fosse na rua naquele dia, veria a frota de veículos caros, com vidros fumês que ocultavam seus respectivos passageiros; liderando a "marcha", um Jaguar F-type completamente negro irrompia através do asfalto. Dois garotos brincando na rua, tiveram de correr e pular para fora do caminho, caso contrário, teriam sido esmagados como insetos.
Delta ficou um pouco surpresa quando notou os automóveis estacionando no grande pátio à frente da mansão. Eram mais do que da última vez, na última reunião que tiveram com todos os membros do alto conselho. Ela manteve a expressão séria, como de costume, enquanto desviava o olhar para a porta espelhada do grande armário de carvalho da cozinha. Não havia motivos para se produzir, exceto em situações como aquela, os jantares do alto conselho, liderado pelo seu pai, Alphonse Karstein. O vestido negro e o sobretudo azul com laços e enfoques de ouro, tal qual o colar de pérolas negras que pesava em seu pescoço, eram nada mais do que uma variação mais apresentável da forma como ela sempre se vestia. Seus olhos tinham um brilho azul quando vistos em um ambiente de pouca iluminação como aquele, que combinavam com os tons que escolheu para as suas roupas. Os cabelos de um castanho escuro avermelhado, onde usava de uma franja, eram como uma extensão de seu vestido...
— Elisabeth! — A voz de Alphonse soou alta, chamando Delta pelo seu verdadeiro nome (ele odiava apelidos) enquanto ele descia as escadas, ajustando a sua gravata carmesim. O terno bem como o colete e a camisa que usava por baixo, era completamente negro, sendo aquela gravata como uma cascata de magma em meio à escuridão. Alphonse já não ficava tempo algum ali na mansão, faziam anos que ele comparecia apenas para eventos como esse.
— Pai — ela fez um gesto respeitoso de cabeça.
— Onde está a sua irmã? Eu não a vi desde que cheguei, por acaso ela se esqueceu do compromisso? — ele perguntou, áspero e seco como de costume.
— Eu não sei... Tenho certeza que ela não vai demorar — Delta disse em defesa da irmã, ela sabia melhor do que ninguém o quanto Lenna apreciava aquelas reuniões, assim como ela, eram o único tipo de socialização que a irmã tinha nesse mundo, uma vez que era ainda mais reclusa que a própria Delta.
— E a Maria, está dormindo? — perguntou Alphonse, já no salão principal.
— Está...
— Bom dia, vossa excelência — murmurou Duque no momento em que chegou na sala; seus dois metros de altura, com os ombros duas vezes mais largos que os de um homem comum, faziam duque parecer uma parede de terno. Ele fez uma reverência a Alphonse, que o dispensou com um gesto desdenhoso.
Duque foi quem atendeu a porta, recepcionando os convidados que foram entrando um a um e deixando seus guarda chuvas encima dele como se fosse um cabide gigante. Parte do motivo pelo qual Delta odiava os vampiros do alto conselho, era pelo modo como tratavam Duque, que, na prática, havia assumido um papel de pai em sua vida, diferente de Alphonse. Lenna, sua irmã, não tinha essa mesma visão; mas a Maria, se pudesse falar, com certeza concordaria com ela. Desde literatura clássica, até jogos de tabuleiro, e mais recentemente, músicas e itens dessa tal "Cultura pop" que entrou em acessão no último século; tudo havia sido apresentado a elas por Duque, que era o braço direito de seu pai, e aquele que cuidava delas na ausência dele, ou seja, noventa e nove por cento do tempo; mesmo sendo tratado como um capacho pelos membros do conselho, o grandalhão sorria gentilmente e acenava para eles, até recebendo algumas respostas, mas sendo ignorado em cerca de setenta por cento dos casos.
— Vou te ajudar — ela disse calmamente, pegando três dos guarda chuvas molhados que foram jogados sobre ele.
— O que acha disso aí? Pelo rosto de vossa excelência, é coisa séria — Duque murmurou, movendo as sobrancelhas na medida em que olhava de soslaio para os membros se afastando ao salão de reuniões, daquela forma expressiva que era tão comum dele.
— Eu não sei... — ela disse, mantendo a mesma expressão de sempre. Em outra ocasião, ele lhe dissera que ela era uma "minhoca morta", já que dificilmente demonstrava o que estava sentindo, mas isso era mais um meio de alto defesa, cada uma das filhas Karsteins tinha o seu próprio mecanismo de defesa. Lenna, era a raiva que parecia estar sempre sentindo, somada às suas exageradas demonstrações de poder e superioridade; Delta, era a indiferença quase mórbida presente em seus aspectos, Maria, ou Picle (apelido dado a ela), simplesmente se fechou para o mundo, e não falava absolutamente nada, nem uma palavra, mesmo que já fosse uma garota de doze anos...
Uma vez reunidos no grande salão, a primeira coisa que Delta reparou, foi a ausência de sua irmã, isso era extremamente incomum, e lhe trouxe uma onda de preocupação. Mas não teve muito tempo para pensar nisso, os rostos sérios e impacientes dos membros do conselho insistiam em ocupar o foco das preocupações. Nas cadeiras à esquerda, os membros do continente Americano, vampiros versados em capturar humanos em todos os ambientes, desde as florestas tropicais na América do sul, até os mares do caribe e o oceano atlântico, agindo como piratas que sequestravam navegadores em pleno mar. Na direita, eram os europeus, vampiros mais cordiais, usando roupas mais chiques e com uma necessidade maior de mostrarem suas supostas superioridades étnicas. Eram eles quem mais destratavam o Duque, por conta da sua cor de pele. Nesse caso, não sujavam tanto suas mãos, focando em contrabando de bolsas de sangue e sumiço de prisioneiros condenados à morte, os quais rapidamente se tornavam vinhos tintos para vampiros. Não que a selvageria fosse menor, era apenas... Mais ocultada.
— Creio que... Já estão todos cientes do que vem sendo falado ultimamente no continente americano — Alphonse começou, atraindo imediatamente o foco de todos — Aqueles selvagens das montanhas, e seus deuses pagãos, mais uma vez, se colocam no caminho da nossa espécie.
— Creio que se refere às tais profecias que vem enlouquecendo os lupinos do sul; bem, detesto informar, mas elas já chegaram aqui na Europa também — um dos homens murmurou, Sinatra, aquele que dirigia o Jaguar, e que, na ausência de Alphonse, comandava o conselho.
— Já estou ciente, e logo vou enviar um grupo de ação para calar esses boatos, a última coisa de que precisamos, é de humanos e outras coisas xeretando os nossos planos — Alphonse disse, sua voz era como o ronronar de uma fera, baixo, tranquilo até, mas estranhamente mordaz.
— Planos, você diz — disse um dos tais "piratas" do oceano atlântico, Grisaldo, um homem de bigode imponente e olhos vorazes — Pelo que ouvi dizer, os lupinos andam por aí falando em eclipse eterno, como se algo assim fosse possível...
— Um eclipse eterno, não parece o paraíso para a nossa espécie? — Alphonse perguntou calmamente.
— S-sim... Mas...
— Elisabeth — Alphonse chamou por Delta, que apenas olhou para ele com uma expressão de dúvida — Um eclipse total e eterno; seria ou não uma vantagem aos vampiros?
Delta ficou um pouco surpresa com a pergunta, normalmente, ele chamava por Helena, mas como ela estava ausente pela primeira vez, Delta foi o alvo dos seus pedidos de afirmação.
— Seria uma grande vantagem — ela respondeu em um assentir, notando os olhares que caíram sobre si, não fazia isso com a mesma naturalidade da irmã.
— E isso é possível? — alguém ali perguntou, mas ela não viu quem foi.
— Não só é possível... Vai acontecer — Alphonse disse, e atmosfera do local, que já não era das mais tranquilas (nunca foi), se tornou duas vezes mais pesada. Os membros do grupo europeu não demonstram nenhuma surpresa, ao contrário de seus "amigos" americanos, que pareceram todos atônitos, quase como se tivessem sido atingidos por bofetadas invisíveis.
— Me perdoe a minha ousadia, mas estamos confiando em profecias feitas por selvagens que devoram vísceras? Como exatamente isso seria possível? — Grisaldo perguntou, a descrença e o desdém em sua voz, atraindo um olhar zangado de Alphonse.
— Acredita que eu os convocaria de seus afazeres para uma reunião urgente e sigilosa por conta de boatos falados por lupinos das montanhas? Tente de novo, Grisaldo... — Alphonse disse, e a intimação foi bem clara pelo tom de voz.
— Não senhor...
— O nosso conselho tem, agora, as chaves que podem abrir as portas para uma nova era... Mas para que isso funcione, vou precisar que cada um de vocês fique de prontidão, e venham até mim no momento em que eu os chamar... — prosseguiu o seu pai, implacável e sórdido como de costume — Posso contar com todos vocês?
Acenos e olhares de concordância irromperam o silêncio após suas palavras. Delta não pôde deixar de reparar em como o seu pai a olhava de soslaio, como se esperasse um sinal vindo de sua parte. Ela assentiu, embora suas entranhas ardessem de antecipação com o que poderia estar sendo tramado ali; ela não fazia ideia do quão longe Alphonse poderia ir em prol do borbulhante ódio que sentia pela espécie humana; isso, e o fato que aquele homem, seu bruto e carrasco pai, que mantinha todos aqueles burocratas e criminosos sob o seu pesado julgo, com seus mais de setecentos anos de idade, era o unigênito do Drácula; o rei definitivo e inegável de sua espécie.
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Atualizado até capítulo 69
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