Estar dentro do espaço de mais de mil quilômetros que separa um pai ausente e uma mãe depressiva, não foi nada fácil para o pequeno Lester, para aquela que deveria ser a sua protetora e cuidadora, ele foi pai. Todas as manhãs, se arrumava sozinho para ir à escola, às vezes, tendo que tirar a carcaça bêbada da sua mãe do sofá ou do carpete surrado da sala e leva-la até a cama. Ele preparava algo para que ela tivesse o que comer quando acordasse, tal qual sua própria comida, e mais tarde, chegava para encontrar apenas um olhar de descontentamento e remorso que doía mais nele do que nela. Quando chegava bêbada em casa, Lester ainda estava acordado, usando a distração da televisão para não admitir que o motivo da insônia era o fato de estar preocupado com ela; mergulhando parcialmente em algum programa de auditório chato daqueles que passavam nos anos noventa, ou algum filme noturno do Jackie Chan ou Chuck Norris (seus ídolos de infância). Ela gritava com ele, chamava-o de desobediente e imprestável e, quando a raiva subia ao ápice, comparava-o com o seu maldito pai.
"Por que você tem que ter o mesmo rosto daquele homem?!" Era uma frase que se repetia todos os fins de sábados e domingos.
Nas segundas, já sóbria, ela o abraçava aos prantos e se desculpava com tanta veemência, que até parecia que algo do tipo jamais aconteceria de novo, mas passava uma semana estressante de trabalho, Lester quebrava um copo ou um vaso por acidente ou ela tinha uma noite de bebedeira, e voalá, acontecia de novo, exatamente do mesmo jeito e exatamente com as mesmas palavras.
Quando Gregório (seu pai) faleceu no Afeganistão, Lester tinha quinze anos, ao receber a notícia, sua mãe travou, ficou em silêncio, não disse uma única palavra nem demonstrou nenhuma reação. Até mesmo se ela ficasse feliz, ele teria entendido, mas... Nada...
Na manhã seguinte, em seu banheiro que mais parecia um banheiro de boteco, uma cartela recém comprada de comprimidos anti depressivos estava vazia, sua mãe, em estado vegetativo.
Aos vinte anos, quando tinha metade dos músculos de atualmente e um terço das cicatrizes, Lester se alistou no exército. Não que quisesse seguir os passos do seu pai idiota, ou fugir da literal figura meio viva meio morta de sua mãe, apenas foi porque não tinha mais para onde ir, nada que quisesse fazer, nenhum rumo no qual quisesse se dedicar, apenas queria um jeito de morrer sem precisar puxar o próprio gatilho. Você sempre corre para a morte, Charles viria a dizer isso uns anos mais tarde.
Naquela época, ele nem sonhava que monstros e conspirações milenares realmente existiam, mas tudo isso mudou quando Lester conheceu Mathew. Era uma manhã de terça, após receberem seus rifles, se apresentarem ao sargento Rowell e serem todos humilhados ou apelidados pelas suas características físicas (Lester ganhou o apelido de DiCaprio). O alojamento do bloco C ficava próximo à floresta de pinheiros que havia na zona sul da cidade, e onde lendas sobre criaturas meio humanas meio monstro eram contadas, claro, Lester não acreditava nelas, mas muitas pessoas que iam acampar naquela região, utilizavam-nas como histórias de fogueiras para assustar uns aos outros. Nas noites de lua, quando todos os recrutas dormiam silenciosamente em suas beliches, você poderia escutar, tão parcos quanto o cantar dos grilos, quase se mesclando ao som pertinente do soprar dos ventos sobre as copas das árvores, os uivos que, para ouvidos aguçados de um caçador, seriam um frágil, mas perfeito indicativo de que havia uma matilha de lobisomens habitando as imediações daquela floresta; mas não era o caso de Lester, ao menos, não naquela época, em que tudo que ele era, era um recruta dos fuzileiros com um apelido baseado em sua beleza e um passado traumático. Mathew, a quem ele veio conhecer naquela terça feira, também não era algo de se admirar, era um rapaz alto e magro, desengonçado, que usava um par de óculos fundo de garrafa e cultivava um bigode de pentelhos na tentativa de desviar a atenção de seus braços e pernas finos.
Naquela noite em específico, Mathew entrou nos alojamentos sendo carregado por outros dois recrutas, um o segurava pelos pés, outro, pelas mãos, ele se debatia e tentava se livrar dos caras, enquanto um pequeno mutirão os acompanhava.
— O nerdola vai descer! — um deles cantava firmemente aos berros, em um ritmo de marcha de treinamento.
— O nerdola vai descer!!! — os outros repetiam no mesmo tom e ritmo, em um coro doentio.
— Na privada vai beber! — cantou o "líder"
— Na privada vai beber!! — o coral em seguida.
Ignorando os apelidos e pedidos que vinham do rosto e voz chorosos de Mathew, eles o arrastavam impiedosamente em direção do banheiro, que, Lester veio a descobrir depois, ainda não havia sido limpo naquela noite e estava com o odor e os resquícios das bundas de mais de trinta recrutas. "Isso não é problema seu"... Lester disse mentalmente para si mesmo, cobrindo os olhos com o antebraço e tentando afastar seus pensamentos daquela muvuca. Os clamores do rapaz ficando cada vez mais altos e chorosos. "Não é problema seu..." Ele tentou repetir. "Não é problema seu", "não é problema seu", "não é..."
— Aí! — ele berrou, pulando da cama superior de sua beliche e correndo na direção dos recrutas, ele empurrou dois marmanjos pra fora do caminho e acertou aquele que segurava as pernas do rapaz com o próprio corpo, fazendo-o soltar e liberando-o momentaneamente, o que deu tempo para Mathew se debater e escapar, correndo para algo ponto atrás de Lester, enquanto o grupinho formava uma concha envolta de ambos.
— Ih, qual é a sua, Hollywood?! — o brutamontes grunhiu irritado, dando um leve empurrão no peito de Lester.
— Vai levar esporro do DiCaprio? — alguém perguntou zombeteiro.
— Aí, eu sei que vocês não rendem no treinamento, mas tem gente aqui que precisa descansar, falou? — Lester disse em provocação, sabendo que ele era o número um da turma, erguendo o queixo para mostrar ao brutamontes, Steve era o nome dele, que não tinha medo apesar da diferença de tamanho.
— Ah, é? Tem certeza que você quer comprar essa briga? Vai defender o namoradinho? — perguntou o Steve, acompanhado pelos risos ruidosos de seus camaradas, que, cada vez mais, os cercavam.
— Aí, cara, vamo embora, deixa eles aí — o Mathew segurou em seu ombro, puxando-o de leve, havia um desespero bem evidente em sua voz.
Lester deu um passinho pra trás, para que pudesse sussurrar para Mathew.
— Confia em mim, você não pode deixar se intimidar, é só falar grosso.
— Que? — Mathew perguntou em um tom absurdo.
— Aí, grandão, é melhor dar no pé, se não quiser que eu faça VOCÊ beber a água da privada — Lester disse, cutucando o peito de Steve com o dedo indicador para acentuar a sua ameaça vazia.
Steve sorriu, depois, riu...
— Você tá morto — ele disse em um sussurro maligno, seus colegas finalmente cercaram ambos, uma dezena de mãos envolveram ameaçadoramente Lester e Mathew naquele momento.
— Falar grosso, né? Bom plano!! — Mathew murmurou em desespero, ainda sem perder a ironia.
— Aí, tira a mão daí!! — Lester gruniu ao sentir uma mão boba em seu traseiro.
O resultado é que ambos acabaram sendo mergulhados na privada, mas, depois disso, se tornaram amigos. Uma pena que essa história acabou de forma tão trágica, pouco menos de sete meses após esse ocorrido, quando...
Lester acordou, a luz do sol projetava uma cortina por entre as folhas de pinheiros altos que circundavam a estrada para a propriedade dos Karsteins. Apesar da dor alucinante que sentia em sua cabeça e em seus músculos, os sons, a luz, o tato de seu corpo e principalmente o olfato, tudo havia voltado ao normal, o antídoto terminou o processo e ele voltou a ser humano, graças aos céus. A lembrança do que teve que fazer ao avistar a garota transformada em Ghoul, numa estrada sem volta, ainda fervilhando em sua cabeça, o que o levou a sonhar com o passado, com a época em que ele teve que, forçadamente, entender que monstros eram monstros, não havia salvação para eles. Após o ápice do efeito do remédio, ele sentiu uma fraqueza e fadiga tão grandes, que sequer teve tempo de se livrar dos cadáveres ou omitir as provas da sua pequena cachina, saiu daquele lugar aos mancos, evitando roubar qualquer veículo (já que, em uma cidade pequena, ele seria facilmente rastreado) e desmaiando na beira da estrada.
— Mas que... Porra... — ele murmurou consigo mesmo, aplacando a cabeça com a mão, afim de tentar conter o latejar que sentia. Lester caminhou pela beira da estrada, sabendo que haviam alguns bons quilômetros até que pudesse retornar à avenida stonewood... Mas, no meio daquela paisagem deserta de pinheiros que o faziam lembrar ainda mais do passado, uma picape surgiu, o motor velho rugindo como uma besta, soltando um som que pareciam dezenas de peidos consecutivos.
— Isso...
— Achei que precisaria de ajuda — a voz aguda e familiar, calorosa de um certo modo, ele olhou na direção do veículo que estacionara ao seu lado.
— É... Não dá pra negar que você é um homem de Deus — Lester respondeu, fitando o reverendo Constantine e sorrindo de canto.
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Atualizado até capítulo 69
Comments
Alessandra Almeida
O final do parágrafo foi muito engraçado😂😂😂😂
2024-11-17
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