Nas duas horas de sono que teve após chegar na paróquia e desmaiar em um dos quartos de hóspedes, Lester teve um sonho recorrente, algo que vinha, inicialmente, todos os meses, mas fora sendo reduzido no decorrer dos anos, para uma vez a cada dois meses, quatro vezes por semestre, e atualmente, tinha-o uma ou duas vezes por ano. Por vezes, passava mais de doze meses sem ter aquela visão, achando finalmente ter se livrado daquilo, mas aí ele passava por uma difícil situação de quase morte, ou tinha um coma alcoólico, e lá estava de novo a maldita situação. Em um lugar escuro, onde ele não era capaz de distinguir formas em meio ao denso e escuro véu que se apossava de seus olhos, ainda podia ver claramente apenas a si mesmo, e, um pouco mais à frente, uma criança, sentada, de costas para ele. Lester não sabia quem era, não a reconhecia, mas ouvia seu choro baixinho, ecoando pelo vazio até desaparecer em um eco de tristeza, e o simples ato de ouvir aquilo, trazia para ele uma angústia que se perpetuava pelo resto do dia em que tinha o sonho, era algo tão... Melódico, tão soturno e desesperançoso, que dava-lhe a impressão de ouvir o choro de um anjo cujo as asas foram cortadas. Quando ele se aproximava da criança, afim de tentar apaziguar a sua dor, ela se desfazia em uma cascata de luz, e então, ele acordava...
Os sons de batidas na porta fizeram-no se erguer, ficando sentado na cama; Lester aplacou a cabeça com a mão, sentindo ainda um suave latejar em seu interior, sentindo ainda a angústia e o eco do choro do seu anjo sem asas, quanto a essa sensação estranha, essa vertigem pós cura, provavelmente duraria por alguns dias, como outros caçadores que já haviam passado pelo processo lhe retrataram; não que os membros da irmandade fossem lá muito fãs uns dos outros, na verdade, o ato de pertencer àquela organização, já os colocava em uma constante disputa uns contra os outros que, por vezes, acabava de forma sanguinária, mas as informações relevantes eram sempre compartilhadas entre eles. Era melhor ferrar os monstros do que ferrarem a si mesmos, isso ficava para as horas vagas.
— Entra — Lester murmurou com a voz um tanto rouca, esfregando os olhos.
— E então, como se sente? — perguntou o reverendo Constantine, enquanto entrava no quarto, fechando a porta atrás de si, sua grande bata negra com entalhes brancos indicava que havia participado de algum evento social naquela manhã.
— Como se um caminhão tivesse passado por cima de mim — Lester disse, cansado — E depois voltado de ré, pra... Cê sabe, terminar o serviço.
— Não devia ter ido sozinho pra algo tão perigoso, imagine minha surpresa quando vi essa mensagem que você me mandou — murmurou Constantine, erguendo o celular brevemente para Lester.
"Estou indo caçar uma outra coisa, não são os Karsteins, posso não voltar vivo, se for o caso, ligue pra organização"
Abaixo, havia o número para entrar em contato com Ruber, seu "conselheiro" particular irritante que o ligava de tempos em tempos com as "boas novas".
— Ah, direta e prática — Lester disse em um dar de ombros.
— Sim, mas muito preocupante também — Constantine retrucou com aquela voz calma e suave que era tão comum nele, como alguém que, de forma até irritante, não parece ficar bravo nunca.
— O que você escreveria? Ah, não, deixa quieto, me fala dos Karsteins, como ficou o caso? — Lester disse, sem querer perder tempo com paternalismo.
— Eu consegui marcar uma reunião na casa dele, com nós dois, por isso vim te avisar, não é uma coisa boa? — o reverendo respondeu, mostrando um sorriso, os dentes brancos, provavelmente de uma prótese, em meio aos lábios murchos.
Lester meneou a cabeça, não sabendo bem como responder isso.
— Imagina duas moscas entrando num ninho de vespas — ele disse, gesticulando com as mãos de um jeito que provavelmente só fazia sentido para si mesmo — Quer dizer, eu já tô acostumado, mas e você, como iria se sair se as... Vespas... Resolvessem fazer picadinho de você?
— Eu? Bom... Eu entregaria a minha alma ao pai e aceitaria o destino que ele me trouxe — Constantine disse após pensar por alguns instantes, em seguida, sorrindo novamente, com uma expressão que quase esperava algum tipo de aprovação.
— Você... — Lester, com uma expressão um tanto pasma, fez um último gesto com a mão, procurando uma forma de expressar o que passava em sua cabeça agora — É mais doido que eu...
— Eu sou um servo do senhor, e você, é um guerreiro que luta pela humanidade, acredito que Deus irá abrir as portas pra nós, aconteça o que acontecer.
Diante dessa insistência, Lester levou algum tempo antes que pudesse responder, isso, depois de soltar um pesado suspiro e fazer menção de se erguer.
— Dois suicidas e um bando de vampiros malucos, o que pode dar errado, né? — murmurou pessimista, puxando os lençóis e finalmente se levantando da sua cama.
...
Quando retornou ao seu apartamento, Lester ligou o notebook sobre a bancada de trabalho, dando uma última olhada nas notícias locais. Não haviam registros indicando a morte dos Thierrys que ele eliminou naquela casa, na verdade, não haviam sequer registros indicando seus desaparecimentos após o que houve, e a casa, que não era uma propriedade registrada pela família, permaneceu sendo como um fantasma em Blackvalley. Ele procurou notícias, procurou informações, citações, testemunhas, invadiu as câmeras de segurança, mas não achou nada que pudesse atrelar ele ao crime, já que sequer havia um crime sendo investigado, os olhos de Lester se estreitaram, o que houve com os cadáveres ou com qualquer outra prova? Ele não fazia ideia, mas sentiu um estranho arrepio subir pela sua espinha quando imaginou que algo ou alguém, havia apagado seus rastros por ele, porque, se havia alguém fazendo isso, talvez a preocupação com a justiça humana fosse, definitivamente, o menor dos seus problemas...
Enquanto pensava e repensava naquele assunto, Lester levou um breve susto ao ouvir o súbito som do seu celular tocando e vibrando na cama, resultando em um sobressalto de leve e um palavrão sussurrado em um estalar de língua:
— Porra.
Ele pegou o celular, vendo o número do seu contato da irmandade e revirando levemente os olhos, já sabia do que se tratava, e se sua cabeça já parecia ter sido pisoteada por uma escola de samba, é claro que não estava apta a dar justificativas pelos seus gastos excessivos (porém necessários) na noite passada, no bar da White Flag.
— Fala aí, Ruber, como é que tá aquele seu gato pulguento? — ele perguntou casualmente, não conseguindo evitar de elevar um pouco a sua voz ao entender.
— Ela está bem, na verdade, mas você sabe porque eu tô ligando, né? — a voz aguda de Ruber soou do outro lado da linha.
— Na verdade eu não sei, não, pode me explicar? — ele perguntou, sínico, se levantando da cadeira e andejando pelo quarto.
— Então, ontem você realizou um gasto de mais de quatrocentos mil dólares em uma casa noturna chamada White Flag, nas imediações de Blackvalley, por volta das nove e meia da noi...
— É, disso eu tô sabendo, pode pular os detalhes e ir direto pro que importa — ele disse.
— Não sei se você está sabendo, mas sou eu quem tenho que fazer um relatório dos seus gastos, amigão — Ruber murmurou, sem muita paciência agora — E você andou extrapolando ontem, é sério que você precisava de tantas garrafas de whisky?
— Fazer o que, né? Eu gosto de esbanjar — Lester disse em um dar de ombros, se Ruber estivesse ali presencialmente, iria revirar os olhos diante do seu meio sorriso e menear de cabeça.
— Isso é sério, tá legal? Eu preciso dar uma desculpa por você e você não tá ajudando.
— Eu tava caçando, foi um gasto desnecessário — Lester disse, sua voz grave em tom resoluto, perdendo o bom humor.
— Caçando em uma casa noturna, ótimo — Ruber murmurou com desânimo, provavelmente batendo cabeça sobre como iria explicar isso aos superiores da irmandade.
— Faz o seguinte, fala pra eles que eu consegui um passe pra entrar na mansão dos Karsteins, nossos principais suspeitos — ele disse — Isso aí deve... Cê sabe, acalmar os velhotes.
— Você conseguiu? Como vai ser?
— Ah, longa história, eu explico depois — Lester disse — Por agora, eu não vou partir pra cima dos sangue sugas, só reconhecimento... — ele emendou, abrindo uma gaveta na bancada e pegando um pequeno dispositivo circular de dentro, com uma camada cheia de furinhos em sua superfície.
— Tá legal, você é o profissional... O que pretende fazer?
— Você já vai saber — Lester disse, fechando a mão envolta do pequeno objeto.
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Atualizado até capítulo 69
Comments
Alessandra Almeida
Essas observações do Lester são bem cômicas 😂😂😂
2024-11-17
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