Contato duplo

É claro que não demorou muito para que corresse o boato sobre Lester. Os rios de dinheiro que gastou naquele bar, pelo qual teria que dar boas satisfações quando reportasse à irmandade, foram um ótimo atrativo de atenção. Uma isca suculenta para que seus alvos mordessem, e uma ótima oportunidade de conseguir subir ao camarote e fazer um contato direto. Após quase meia hora esbanjando dinheiro, comprando drinks e bebidas caras para todos que estavam ali, os quais já comemoravam e se amontoavam em uma balbúrdia ao seu redor, ele finalmente recebeu o convite... 

— Amigo — um dos funcionários da casa noturna veio até ele, usava uma camisa social branca e a cabeça careca via-se cheia de tatuagens — Posso saber o seu nome?! — perguntou-o, em alta voz, uma vez que a comunicação em meio àquele barulho se fazia aos berros.

— Chris Westwood — Lester disse em resposta, usando uma das suas identidades falsas para iniciar o contato. O disfarce de reverendo Jacob precisava ser protegido acima de tudo, especialmente naquele lugar.

— Senhor Westwood, você gostaria de se juntar a nós lá encima?! Talvez ... Seja melhor pra alguém como você — disse o funcionário, fazendo um gesto em direção do camarote, o qual Lester acompanhou com o olhar, assentindo.

— É, até que uma visitinha no camarote cairia bem — ele disse casualmente após fingir pensar um pouco, como se aquilo não fosse o principal objetivo de sua missão.

— Por aqui — murmurou o funcionário, abrindo caminho pela pista de dança em direção do camarote, ele tirou uma das pulseiras fluorescentes do bolso e entregou-o. Lester agradeceu com um gesto de cabeça e foi de encontro com o brutamontes, que inicialmente revirou os olhos, mas se empertigou no exato momento em que colocou os olhos na pulseira em seu braço.

— Foi mal aí, amigão, não mexe com os vips, não, que... Não dá bom — Lester disse em uma terna provocação, dando dois tapinhas no ombro do homem e subindo em galgos pelas escadas de luz neon roxas, enquanto a música parecia se distanciar dos seus tímpanos, dando-lhe um pouco (bem pouco) de sossego.

Uma vez lá encima, notou como a escuridão e o parco neon das luzes se fundiam em uma elegante e, de um certo modo, erótica sintonia. As pessoas ali eram meras silhuetas, objetos de fascínio e admiração, para si mesmas e para os outros. Um tipo de ambiente que alguém como ele, definitivamente não era acostumado a frequentar. Salvo a elegância, a música mais amena e o preço das bebidas (cada garrafa ali valia um testículo), aquele não era um lugar tão impressionante como os ricassos faziam parecer...

Mesmo em meio à intencional iluminação ruim, ele podia sentir os olhares grudando nele, vindo de todas as direções e com todos os tipos de intenções diferentes. Lester caminhou, inicialmente, com uma leve hesitação, tinha mais medo de ricos do que de monstros, e monstros ricos então, eram um verdadeiro problema. Ele se soltou um tempo depois, caminhando em meio ao local enquanto alguns funcionários engravatados lhe davam caminho, e finalmente avistando a mesa onde reconheceu algumas silhuetas em meio ao breu. Três mulheres e um velhote, duas delas eram as ditas "filhas" da família Thierry, e seu mordomo, os quatro ali, curtindo o camarote como se não fosse nada demais. Lester se aproximou, tentando encontrar uma desculpa para chegar ali, uma que não soasse brega como normalmente soava.

— Opa, eu ... Tava olhando aqu...

— Senta — disse uma das mulheres, indicando a cadeira com um olhar pretensioso em sua direção, o qual se via mesmo através do breu. 

— Ah, tá — ele balbuciou, omitindo um sorriso um tanto sem graça, enquanto se sentava na cadeira, até parecendo uma criança quando mandada por um adulto.

— E então, você é o homem que chamou atenção lá embaixo? Queria tanto subir pra cá? — perguntou a sua "anfitriã", enquanto os outros da mesa apenas murmuravam em concordância. Era uma mulher de longos cabelos negros, o rosto delgado e um vestido de couro que mal cobria a polpa de sua bunda.

— É, eu diria que... Gosto de boa companhia — Lester disse em um menear de cabeça, já entrando de cabeça naquele joguinho. Mais uma vez, não haviam formas de testar os Thierrys sem que isso colocasse um alvo enorme em suas costas, precisava, mais do que nunca, de sutileza.

— É mesmo? Temos algo em comum então — disse a mulher.

— E nós podemos saber o seu nome? — uma outra "irmã" perguntou.

— Chris Westwood — disse Lester novamente — E vocês são... 

— Cinthia Thierry — disse a anfitriã — Essa é minha irmã, Pamela, aquela é uma amiga que conhecemos hoje, Lídia — ela emendou — E esse, é o Rufhus, é a nossa "babá".

Lester meneou novamente a cabeça, como fazia quando não sabia bem como se expressar com palavras. Provavelmente, a tal Lídia era uma humana, um alvo, assim como ele. Era uma garota de traços asiáticos, não devia ter mais de vinte e dois anos.

— É um prazer — ele murmurou, desenrolando as palavras da garganta.

— É um prazer — repetiram as outras duas, enquanto o Rufhus apenas assentia levemente.

 — E o que você faz? Um homem tão bem sucedido, deve ter uma ótima história pra contar — Cinthia perguntou animadamente, enquanto se inclinava na sua direção, quase como se fosse cair sobre ele. Um dos garçons trouxe uma taça para ele logo em seguida, e ele notou como, daquela posição, a taça poderia facilmente ser omitida pelo corpo dela, ainda que bem brevemente. 

— Ah, aquisição de imóveis — ele disse; uma das suas táticas, era passar endereços de centrais da irmandade, que se assemelhavam a mansões e grandes centros, dessa forma, se passando por um proprietário.

— Aquisições? É um negócio bem semelhante ao da nossa família, onde ficam as suas prioridades? — disse Cinthia, enquanto o velhote, Rufhus, servia do vinho branco para Lester. Ele notou Cinthia tomar um pouco à frente, e percebeu que foi ali, naquele momento, aquele ínfimo instante em que a taça não era visível pra ele, que foi feito... O veneno dos ghous foi colocado em sua bebida, algo que, caso ingerindo, faria Lester se transformar em algo como eles...

Por sorte, existia um antídoto, embora o efeito dele fosse mais lento do que o efeito do veneno, em outras palavras, uma vez bebesse daquilo, Lester teria de encarar pelo menos algumas horas como um monstro, antes que seu corpo pudesse reagir e expurgar esse mal para fora. Não havia jeito, e não era a primeira vez que ele se arriscava de maneira tola. A conversa que se seguiu, foi apenas uma extensa lista dos locais onde ele supostamente possuía propriedades, nos estados unidos, Flórida, Kansas, nova York, Maine, todos os locais onde haviam centrais. O vinho foi rapidamente bebido por ele, que sentiu suas entranhas de caçador se contraindo ao sentirem aquela profanação maligna que descia garganta a baixo. Não foi difícil entender o jogo dos Thierrys, eles procuravam pessoas com bons status sociais, pessoas que tinham grana e poder aquisitivo, e então, recrutavam-nas para seu clubinho de comedores de gente. 

— Estou vendo que você é alguém que sabe o que quer, gosto disso — Cinthia disse, bajulando-o.

— É, só se vive uma vez — ele disse, gesticulando suavemente com a taça.

— E então... Chris... — Cinthia murmurou, com sua voz embargada de pretenciosidade, agora, já praticamente se debruçava sobre o corpo dele, deslizando o dedo indicador pelo centro de seu peito.

— Estou ouvindo — Lester murmurou baixinho, como que só para ela escutar.

— Você... Gosta de ir fundo quando sai pra curtir? Ou você... — ela fez uma pausa, como que procurando as palavras certas para prosseguir — Só fica no básico? 

— De quão fundo estamos falando? — ele perguntou em um quase sussurro, a voz grave, deixando uma nota de interesse evidente pelo tom.

— Isso você teria que descobrir por conta própria.

Ele mostrou um sorriso, meneando a cabeça em um aspecto pensativo, como se ponderasse a ideia, claro, não podia dar muito na telha, isso seria como se atirar do precipício. 

— Aqui? — ele perguntou, se fazendo de bobo.

— É claro que não, querido, aqui ... seria complicado — ela murmurou, rindo suavemente, todo o aspecto dela era sedutor, e Lester sentiu, no fundo do seu ser, um instinto primitivo de estar com ela, sabia, era o veneno dos ghous começando a fazer efeito em seu corpo.

— Aí — uma voz irrompeu, sobressaindo através do da grande balbúrdia sonora que se fazia, e atraindo a atenção de todos na mesa. 

— Posso ajudar? — perguntou o Rufhus, ficando de pé em frente ao elemento que chegou ali sem ser convidado. Um cara alto, magro, usando jaqueta de couro, era tudo que Lester podia enxergar na escuridão. Mais atrás, notou outras pessoas se aproximando, e não pode deixar de reparar em um deles que parecia ter dois metros de altura e ombros tão largos quanto de dois homens juntos.

— Ah, é, você pode me ajudar sim — disse o rapaz em um tom desafiador, encarando Rufhus cara a cara, que retribuiu ao gesto se aproximando bruscamente dele.

— Rufhus! — Cinthia o repreendeu rispidamente.

Uma outra voz em tom repreensivo veio do meio das pessoas que se aproximavam, também feminina, mas portando um tipo de autoridade que não era presente em Cinthia.

— Benny, já chega.

— O que vocês querem aqui? — Cinthia perguntou, também se colocando de pé, e finalmente deixando-o momentaneamente em paz.

— Você sabe... Cês estão longe de casa... Não é? — disse o cara magro, sem tirar os olhos de Rufhus, mantendo o queixo erguido em desafio, e ignorando completamente as repreensões que vinham dos companheiros. 

"Longe de casa" pensou Lester... Aquilo era uma briga de monstros?

 

Baixar agora

Gostou dessa história? Baixe o APP para manter seu histórico de leitura
Baixar agora

Benefícios

Novos usuários que baixam o APP podem ler 10 capítulos gratuitamente

Receber
NovelToon
Um passo para um novo mundo!
Para mais, baixe o APP de MangaToon!