Naquela noite, Teresa não ligou o rádio, e não assistiu televisão, ela apenas se deitou em sua cama, observando a pequena mancha de chuva que havia se formado no forro branco do teto, e pensando, pela primeira vez, em como aquilo se parecia com uma tartaruga (se elas tivessem caudas grandes como as dos crocodilos). Na agonia daquele momento, ela sequer se lembrou de dizer para Luíza que sentia muito, sentia por ter subestimado o sofrimento dela, e tudo que teve que passar para chegar onde chegou. O silêncio era eloquente naquela noite, sem músicas, sem ruídos, apenas uma curiosidade insana e quase paranoica a respeito do final daquela história. A forma como os olhos de Luíza se contraiam quando ela chegava ao ápice de sua vida, a forma como suas mãos pareciam suar, e seu rosto envelhecer, indicavam que com certeza havia alguma coisa por vir, com certeza havia alguma coisa. Enquanto pegava no sono, estando naquele lugar entre a lucidez e o mundo fantasioso da imaginação, sua mente desenhava a figura de uma jovem bailarina, negra, nos anos 40, dançando, em uma praia, sob a luz alucinante das estrelas, do pó branco luminoso da via láctea, que formava um caminho pelo abismo infinito do cosmos; e tinha a melodia do oceano, parca e distante, como o cântico de mil sereias, sob o chacoalhar das ondas iluminadas; o cântico chamava por ela, o cântico chamava por Luíza.
Teresa ouviu Samanta conversando pelo telefone, enquanto se preparava para ir ao ensaio. Ela prendeu os cabelos em um coque rosquinha, vestiu um collant, com uma calça e uma blusa branca por cima, guardou as sapatilhas e o pé de ponta na bolsa de couro e se levantou, cambaleando um pouco até a porta, mas Samanta a ignorou, e prosseguiu sua conversa no telefone, assentindo sozinha de forma soturna.
— Aham — ela disse, com a voz trêmula — Entendi... Nossa, eu sinto muito, sinto muito mesmo.
— Mãe? — Teresa se aproximou dela — O que foi? Alguém morreu? — ela perguntou, mas Samanta ergueu uma mão em sua direção, em um pedido de silêncio; ela se calou, diante da suposta seriedade do assunto.
— Tudo bem, tudo bem, eu vou falar com ela — Samanta disse ao telefone — Certo, meus pêsames — ela concluiu, e pôs o telefone novamente no gancho, suspirando pesadamente e olhando para Teresa.
— Quem era? — Teresa perguntou, enquanto sua mente desenhava todos os possíveis cenários catastróficos que era capaz; ela tentou afastar os pensamentos, enquanto Samanta parecia organizar as palavras dentro de si, olhando-a com uma expressão de súplica, chorosa, como uma genuína mãe que, por mais que saiba que isso é inevitável, não quer, de forma alguma, partir o coração de sua filha.
— Teresa...
— Fala! — ela disse, um pouco cansada daquela enrolação. Samanta engoliu em seco.
— Luíza, sua professora, ela faleceu essa manhã... — suas palavras, por um ínfimo momento do espaço e do tempo, foram como lâminas de antimatéria, que cortaram Teresa da realidade. Por um momento de choque, ela não sentiu seu corpo, e seu cérebro pareceu se expandir dentro do crânio, ela sentiu tontura, depois, uma dor alucinante no peito, como se seu coração estivesse tentando sair da caixa torácica.
— Luíza... A minha Luíza? A avó do Gustavo? — ela perguntou, tentando se encontrar na realidade, tentando fugir daquela situação.
— Foi, Teresa — Samanta disse, com os olhos contraídos e tristonhos — Parece que ela caiu e bateu a cabeça na quina de um degrau.
— Não é possível — Teresa disse, negando com a cabeça, enquanto as lágrimas se formavam em seus olhos — Eu falei com ela ontem, mãe.
— Eu sei, meu amor, mas a morte é assim mesmo — Samanta disse, se aproximando e a abraçando, mas isso só a fez se sentir ainda mais sufocada. Teresa se desfez dela, tomando um pouco de distância, enquanto as lágrimas escorriam de seus olhos.
— E-ela tava me contando uma história, mãe, a história dela — Teresa disse, começando a gaguejar — E-ela ia t-terminar hoje.
— A história dela? — Samanta perguntou, inclinando a cabeça para o lado.
— A história da vida dela — Teresa disse.
— Lucia disse que você era bem vinda no velório — Samanta disse, tentando manter a voz calma, mas, aos poucos, cedendo para a tristeza.
— Lucia... — Teresa disse, a mãe de Gustavo, por todo esse tempo, ela imaginou que Lucia culpava ela pela morte de seu filho, mas, de certa forma, ambas tinham perdido as mesmas pessoas importantes, talvez em graus diferentes para cada uma delas, ainda assim, eram pessoas importantes.
O velório de Luíza ocorreu naquela tarde, umas cinco horas depois de Teresa receber a notícia de sua morte. Uma parte dela ainda acreditava que tudo aquilo não passava de uma piada de mal gosto, uma forma tosca que Luíza achou que lhe ensinar uma lição por desdenhar do sofrimento dela. Ela queria que fosse assim, elas se reencontrariam, e ela pediria desculpas por essa parte, diria que Luíza teve uma vida mais difícil que a dela, e tudo voltaria ao normal, sua maior angústia seria, novamente, o fato de não conseguir realizar um pirouette, uma angústia que, nesse momento, parecia não ter mais importância alguma. O que fez Teresa cair na real, de uma vez por todas, foi a terrível visão que ela esteve evitando pelos últimos dez anos de sua vida, uma visão que, embora pareça uma promessa distante e vazia, embora pareça, lá no fundo, apenas um boato, sempre alcança a todos, sempre leva todos. O caixão de Luíza era de uma madeira cinzenta, com algumas rosas estampadas nas laterais. Havia uma cruz propagada logo atrás dele, com uma escultura metálica de Jesus Cristo crucificado. Luíza usava um vestido negro, sem joias, apenas uma pulseira em sua mão direita, igualmente negra, os cabelos estavam soltos e frágeis. A expressão dura em seu rosto era como a de uma boneca (e Teresa queria que fosse uma), era como uma senhora de sessenta e cinco anos, como se todos os anos que ela magicamente não envelheceu, tivessem retornado subitamente ao seu rosto depois da morte. Os olhos cheios de mal humor, agora estavam fechados, as mãos e pés que eram donos dos movimentos mágicos, agora estavam aposentados. Teresa segurou as lágrimas enquanto olhava para o cadáver de Luíza, naquele caixão, segurou as lágrimas porque aquilo não lhe parecia real, porque aquilo era como um pesadelo.
A casa de Lucia estava cheia naquela tarde, várias pessoas compareceram para o velório, muitos deles eram parentes, mas também haviam vizinhos e amigos por ali, e até algumas pessoas da academia Tulipas, que estaria com suas portas fechadas pelos próximos três dias. Todas as pessoas pareciam soturnas e serenas, não haviam muitas lágrimas, com exceção da própria Lucia, que chorava nos braços de Pedro. Ele a apertava contra o peito, com uma expressão distante e desnorteada, agora, só havia sobrado a pequena Mariana para eles. Quando algumas mulheres da igreja, com terços nos pescoços e longos vestidos, começam a cantar Ave Maria à capela, ela pensou em dizer: Não, Luíza odeia essa música, foi isso que cantaram no funeral do pai dela, parem com isso! Mas ela não teve tempo de dizer nada, porque uma outra melodia veio, trazida do abismo congelante da morte, se arrastando pelas paredes da casa, como uma coisa indecifrável, algo que vinha do nada, e ia para o nada. O som de milhares de violinos ecoava no ambiente, cada um deles, com suas cordas propositalmente desafinadas, cada um deles, invocando um terror abissal e profano. Quando juntos, ela tinha certeza, aqueles violinos se tornavam a sinfonia da morte. Teresa não queria encarar esse terror mais uma vez, mas conforme olhava para o rosto morto de Luíza, aquela coisa se expandia ao seu redor, as cores morriam, o mundo ganhava tons de preto e branco, os rostos das pessoas pareciam falsos e doentios, como as máscaras do teatro. As pessoas estavam vivendo uma mentira, tudo sempre terminava daquela forma, tudo sempre terminava em morte, e todas aquelas pessoas sabiam disso, por esse motivo, seus sorrisos eram falsos, sua alegria era falsa... As tartarugas nascem na terra, foi uma das últimas coisas que Luíza lhe disse, e havia um brilho em seus olhos, um brilho que fazia-a, por um instante, fugir da verdade inegável e abismante da morte, e Teresa queria saber o que era, queria saber de onde vinham as suas forças para lutar contra esse sentimento; mas Luíza estava morta agora, ela estava esticada naquele caixão, sob a melodia da música que que sempre lhe trouxe pesadelos com o cadáver de seu pai. De que havia servido aquele brilho em seu olhar? A melodia da morte se expandiu, até que apenas ela fosse ouvida, e continuaria se expandindo até acabar com tudo, não importava quanto tempo levasse...
— Minha mãe... — Lúcia se colocou à frente do caixão, engolindo o choro, no momento em que a cantoria das senhoras deu uma trégua — Minha mãe foi uma mulher incrível, vocês todos sabem disso... A vida nem sempre foi fácil pra gente, e foi pior ainda pra ela, mas ela foi uma guerreira, uma guerreira que lutou até o último instante. Eu espero que um dia... — Sua voz se quebrou, e as lágrimas voltaram a escorrer pelo seu rosto, por um momento, todos pensaram que ela não conseguiria ir em frente — Um dia... Eu possa ver ela e o meu filho de novo — ela concluiu, cobrindo os olhos com a mão e desabando novamente, enquanto o marido a puxava, abraçando-a. Todas as pessoas ao redor, que provavelmente eram católicas, responderam amém em um coro macabro.
Teresa realmente queria falar com Lúcia, mas viu que ela não estava em sua melhor forma nesse momento, ela tinha muitas perguntas, perguntas que poderiam machucar, então, por hora, ela apenas concordou, mentalmente, com o que Lúcia disse à respeito de Luíza, ela foi uma grande mulher, lutou mais do que qualquer um ali, lutou contra uma cultura que esteve o tempo todo tentando mantê-la abaixo do chão onde pisavam, que dizia que ela era menos do que os outros, mas que encontrou, através da paixão pela dança, as asas que precisava para subir mais alto do que qualquer um poderia chegar. A velha ave finalmente deixara de bater as suas asas, acabou. Que fim será que levou a Ariel? Ela tinha uma estranha impressão que nunca chegaria a essa resposta, que nem mesmo os amigos mais íntimos de Luíza sabiam.
O enterro ocorreu cerca de uma hora depois, no cemitério São João Batista, no bairro do Botafogo, a pouco mais de dois quilômetros dali. Pedro e mais dois homens fortes ergueram o caixão, levando-o até a van da funerária Deus conosco, que tinha a imagem de uma cruz e uma meia lua douradas como logomarca. As pessoas foram caminhando atrás da van, em um ritmo lento e melancólico, como um grupo de penitentes andarilhos. Embora estivesse fazendo sol pela manhã, ele se escondeu assim que a tarde chegou. Uma crosta de nuvens brancas cobria o céu, e uma leve garoa pingava sobre suas cabeças. Teresa fez todo o percurso ao lado de Juliana, a coordenadora da academia Tulipas, que falava aos montes, mesmo em meio à crescente marcha da morte.
— Ela era muito fechada, né? — Juliana perguntou — Não se abria muito com os sentimentos, mas ela gostava muito de você, isso eu tenho certeza.
— Aham — Teresa disse, a marcha de quase três quilômetros não era exatamente um problema para ela, uma vez que já estava completamente acostumada com a sua prótese, mas caminhar por três quilômetros ao lado de Juliana, sim, seria um problema.
— Vocês foram na academia ontem, né? É incrível como as pessoas morrem do nada, num dia elas tão aqui, e no outro...
— É — Teresa murmurou — É assim mesmo — a lembrança disso, apenas fez com que o nó em sua garganta se tornasse ainda mais apertado, as pessoas morrem do nada.
Teresa sentiu um calafrio no momento em que viu os portões negros do Cemitério São João Batista, com colunas imponentes aos lados, uma cruz no topo, e seus muros altos de pedra cinzenta, onde haviam janelas de vidro. Foi ali que Gustavo fora enterrado, alguns meses atrás, e ela se perguntou o que restava dele, debaixo da terra, o quanto a sua carapaça havia sido devorada pela natureza, e pensou que o mesmo aconteceria com Luíza, era apenas questão de tempo até que as pessoas a esquecessem, que seu rosto fosse, aos poucos, apagado da memória dos vivos. Eles entraram no cemitério, em uma marcha organizada e chorosa; haviam lágrimas, rezas e cantigas católicas, tudo misturado, unido ao uivar dos ventos e da sinfonia da morte. Já havia uma cova aberta aguardando por Luíza, sete palmos de profundidade, ainda não havia uma lápide, mas chegaria em alguns dias, ela ouviu Lúcia comentando, nos poucos momentos em que esteve perto dela na caminhada, que a lápide de Luíza teria a estatueta de uma bailarina, realizando um Jeté, e até pensou em sugerir que fosse adicionada uma tartaruga também, mas a ideia morreu em sua garganta. Quando o caixão foi descido, através de cabos metálicos, até o fundo de sua cova, e as pessoas se reuniram em uma meia lua ao seu redor, para observar de perto o seu enterro, Teresa se afastou, ela teve que se afastar, porque seu coração não aguentou assistir aquilo, não aguentou assistir Luíza sendo engolida pela terra. O primeiro punho de barro foi jogado por Lúcia, então, os coveiros iniciaram o seu trabalho, com pesadas pás, jogando bolos de barro sobre o caixão, enterrando-o até que desaparecesse em meio ao solo. As tartarugas nascem na terra, Luíza tinha dito; e os humanos vão pra lá quando morrem, Teresa emendou. Seus devaneios levaram Teresa até o túmulo de Gustavo, localizado muito ao norte de onde Luíza era enterrada naquele exato momento. Sua lápide era simples, tinha meio metro de altura, e uma imagem circular dele na parte superior, acima de seu nome completo e o ano de nascimento e de óbito: "Gustavo Fonseca Dos Santos, 1972 - 1992".
— Oi, Gusta — ela disse suavemente, se aproximando da lápide, olhando diretamente para o rosto sorridente e brilhante dele, lembrando-se de como seus dentes eram perfeitos — Desculpa por não ter vindo aqui antes — foi tudo que ela disse, antes de se dar conta que estava conversando com uma lápide, Gustavo não estava ali para ouvi-la, e embora fantasiar nessa ideia fosse, de certo modo, reconfortante, também lhe trazia uma sensação súbita de sufoco.
— Eu achei que você não ia ganhar coragem nunca — uma voz veio de sua nuca, a voz de Luíza, e Teresa olhou sobre o ombro, em uma esperança tola de encontra-la ali, fitando-a com seus olhos profundos e orgulhosos, mas era Lúcia que estava atrás dela, afastada da multidão, o que significava que o enterro já estava acabado, e mais uma vez, ela tinha passado mais tempo do que devia pensando em Gustavo, não, pensando na morte dele.
— Desculpa — ela disse em um sussurro seco — Eu não sabia com que cara eu iria aparecer aqui depois do que... Aconteceu...
— Meu marido chegou a culpar você... Vocês duas, na verdade — Lúcia disse, tentando encontrar as palavras, sua voz séria, profunda, lembrava bastante a de sua mãe — Mas a ficha caiu um tempo depois, não foi culpa de ninguém, foi uma fatalidade... Nos dois casos.
— Mas eu me sinto culpada... Ao menos, no caso do Gustavo — ela respondeu, vendo umas quatro pessoas se aproximando para falar com elas (ou só com a Lúcia), uma delas era Pedro, as outras, eram irmãs da igreja.
— Por que? — Lúcia perguntou serenamente.
— Porque... Fui eu quem tirei ele do sério enquanto ele dirigia — ela respondeu.
— Eu imaginava, ele era muito cuidadoso no trânsito — Lúcia disse, olhando para a imagem de Gustavo, na moldura circular, havia um amor diferente em seus olhos, um amor daqueles que não desaparece com o tempo, que não cede nem mesmo ao silêncio da morte, mas que nunca deixa de ser uma tortura.
— Ele era...
— Eu já perdoei você por isso, cabe a você, perdoar a si mesma — Lúcia disse, no momento em que Pedro e as irmãs da igreja chegavam para cerca-la novamente, a essas alturas, já haviam pelo menos umas dez pessoas vindo mais atrás.
— Oi, amor — Pedro disse, abraçando Lúcia — Oi, Teresa — ele a cumprimentou com um triste aceno, e ela retribuiu.
— É aqui que o Gustavo foi enterrado? Eu vou fazer uma reza pra ele, eu posso, irmã? — uma das irmãs idosas da igreja pediu para Lúcia, que apenas assentiu, com o queixo apoiado no ombro do marido. A irmã começou a reza, aos sussurros. Teresa saiu de perto, dando espaço para a nova remessa de pessoas que chegava ali.
— Lúcia — ela a chamou, assim que se recordou desse detalhe — A Luíza lhe disse alguma coisa sobre as tartarugas nesse meio tempo? Ela... Tava me contando a história da Ariel, mas... Ela não conseguiu terminar — ela disse, e viu uma interrogação tomar o rosto de Lúcia, que apenas negou com a cabeça.
— Não... Nunca falou nada, por que?
— Na praia do perigoso, a Ariel, ela nunca te falou nada? — ela perguntou, com um desespero crescente em seu peito, mas Lúcia continuou negando com a cabeça, com o cenho franzido em uma expressão confusa.
— Não, minha mãe nunca foi muito de falar da vida dela... Ela me levava na praia do perigoso às vezes, quando eu era criança, mas a última vez foi há uns vinte e cinco anos — ela respondeu, enquanto sua fala se distorcia pela chegada do choro, ela voltou a chorar, e Pedro voltou a ampara-la com os braços.
— T-tudo bem — Teresa respondeu, sentindo o ar fugir de seus pulmões, merda, merda, merda, ela repetia dentro de sua mente, a história de Ariel estava perdida para sempre, assim como tantas outras histórias que jamais seriam contadas. Enquanto se afastava dali, ela conseguia ver os milhares de dentes afiados que espreitavam a vida, aguardando ansiosamente pelo dia em que devoraria todos eles.
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Atualizado até capítulo 23
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