Gustavo estacionou o seu Mitsubishi eclipse em frente à sua casa, na avenida Princesa Isabel, depois de dirigir por pouco mais de um quilômetro. Ele desceu do carro, deu a volta pela frente e abriu a porta para ela. Ao sair do carro, se equilibrando nos saltos altos, ela ajustou o vestido e a jaqueta, e o acompanhou para dentro de casa, não deixando de reparar em como a avenida estava calma naquela noite, os únicos sons que reverberavam, além de o distante rugir dos motores dos carros, eram as lamúrias dos gatos nos telhados.
— Só pra lembrar, ela não é muito simpática, não, tá? Seja boazinha — Gustavo disse em um tom autoritário que ela desconhecia.
— É, e nem eu, é melhor ela ser boazinha — Teresa respondeu com um ar impassível.
— Comparada com minha vó, você é um anjo — ele disse, e ela estranhou o uso da palavra anjo para se referir a alguém simpática. Saber que a avó dele era toda essa simpatia em pessoa, só fazia com que Teresa desejasse ainda menos estar ali.
— Já to até vendo, Gustavo, eu vou logo avisando que não vou ficar aguentando mau humor dos outros, não, se ela me tratar mal, eu vou corresponder — Teresa disse, resoluta.
— Fica tranquila...
Quando eles entraram, e Teresa olhou nos olhos finos e julgadores de Luíza, ela teve certeza que elas não se dariam bem, a mulher tinha uma aura de mau humor que irradiava de sua pele, como uma usina nuclear em atividade, derretendo e destruindo qualquer partícula de bom humor que pudesse existir nos arredores. Teresa assentiu para ela, sorrindo, tentando soar natural, apenas para que não tivesse que aguentar a cara de tatu que Gustavo faria mais tarde, acusando-a novamente de não ter se esforçado para simpatizar com a sua família. Luíza respondeu ao seu gesto com um simples mover de olhos, como se estivesse estudando-a e decidindo se ela era boa o bastante para o seu netinho. Os Fonsecas tinham um lema bizarro e assustador, se você se casa com alguém, se casa com a família dele também; Teresa discordava completamente disso (e pensava seriamente se esse relacionamento com Gustavo tinha mesmo futuro), porque ela realmente não queria ter uma mulher como aquela fitando-a com aqueles olhos maldosos em todos os dias de sua vida, olhos cheios de má vontade e antipatia, não queria ter esse compromisso, não, muito obrigada. Quando foram se sentar à mesa, o jantar ainda não estava servido, Lúcia trabalhava em tempo integral em casa, para cuidar dos pequenos detalhes do lar, e da bebezinha chorona que eles tinham. O pai de Gustavo era advogado, e trabalhava fora o dia inteiro. Nos poucos momentos que ele via Teresa, apenas assentia, dizendo algum monossílabo como oi, ou opa, e saindo o mais rápido possível do ambiente. Uns quatro anos atrás, sua mãe tinha lhe dito que homens velhos ficam desconfortáveis perto de mulheres jovens, e se não ficam, é bom ter cuidado com eles. Quando veio a entender o que ela queria dizer, Teresa passou a ter a ligeira impressão que ele (o pai do seu namorado) sentia algum tipo de atração por ela, e esse era o motivo de ele evita-la, homens velhos se sentem desconfortáveis perto de meninas jovens, mas o pensamento era tão esquisito, tão repugnante, que ela, para evitar pesadelos, simplesmente o afastava de sua mente.
— Ah, aqui, amor, a cadeira da borda é da vó — Gustavo disse, no momento em que Teresa foi se sentar à mesa, puxando uma cadeira na lateral para ela.
— Isso não é tão importante assim, não — Luíza disse, mas não recusou a cadeira da borda, puxando-a por conta própria e se sentando com destreza e facilidade. Ela tinha razão, aquilo não era tão importante, mas foi irritante ver como Gustavo fazia tanta questão de agradá-la.
Quando ele disse que sua avó tinha sessenta e cinco anos, Teresa imaginou que veria uma senhora mais debilitada, que o mal humor ao qual ele se referiu, era fruto da rabugem que vem com a idade, mas não era o caso de Luíza, ela estava em ótima forma física, quem a olhava sem saber de sua idade, lhe daria uns cinquenta anos, talvez menos (se você não fosse do tipo que repara nas linhas de expressão abaixo dos olhos, elas eram um fator determinante); Luíza ainda tinha o corpo e a mente de uma bailarina, mas os seus olhos eram os de um lobo, o seu mal humor não era rabugem de gente velha, era um mal puro e genuíno.
— Pois é — Gustavo murmurou, tentando quebrar o silêncio — Maria Teresa, essa é Luíza Fonseca, Luíza Fonseca, essa é Maria Teresa.
— Oi — Luíza disse secamente.
— Oi — ela respondeu.
— Então... Vó, a Teresa dançava ballet também.
— Ah, era dessa menina que você tava falando? — Luíza disse, arqueando as sobrancelhas por um instante e lhe oferecendo o que devia ser a sua versão de um sorriso de deboche — Eu achei que era a mesma namorada do ano passado, você já terminou outro namoro?
— Vó... — ele sussurrou, um pouco sem graça, enquanto olhava diretamente para Teresa, como se quisesse ver se ela já estava se enchendo daquilo, e ela correspondeu com um olhar que dizia que sim, ela estava se enchendo.
— Você vai passar pela vida trocando de parceiro a cada ano? — Luíza prosseguiu, sem a menor consideração — Eu espero que dessa vez seja de verdade, pelo amor de Deus.
Teresa não pôde evitar de revirar os olhos, era quase uma reação natural. Pessoas velhas sempre tinham o dogma doentio e obsessivo daquilo que chamavam de relacionamento sólido, mas ela sabia, melhor do que eles, que suas terríveis relações só duravam uma vida inteira porque eles tinham um medo congelante de ficarem sozinhos, o que os limitava a infelicidade eterna da junção de duas personalidades repulsivas, ao menos, foi isso que sua mãe lhe disse quando deixou o seu pai.
— Tá bom, vó — Gustavo disse, rindo da situação, em uma tentativa de amenizar as coisas.
— E você, dançava ballet, né? — Luíza perguntou, lhe apontando o indicador em forma de cobrança.
— Sim — Teresa disse.
— E por que não dança mais? — Luíza perguntou.
— Eu ... Não sei, eu abusei — ela respondeu de forma impassível, sem fazer muita questão de parecer interessada no assunto, ou de se aprofundar em seus motivos (ela tinha motivos, mas eles não eram da conta de ninguém). Luíza riu de leve, não por achar aquilo engraçado, mas como uma espécie de afronta, seu riso era grave e baixo, como um motor entalado.
— Esse é o problema dessa geração de vocês, vocês não tem consistência em nada que fazem, nadinha — ela disse ao fim do riso.
— Pronto, saiu o rango — Lúcia veio da cozinha, salvando-os daquela situação constrangedora, com dois panos de prato fazendo o trabalho de luvas de cozinheiro, e uma panela grande entre ambos — Desculpa a demora, gente, a Mariana tava chorando de novo, eu nem sei mais o que eu faço com essa menina.
— E por que você não me avisou? Eu ficava com ela — Luíza disse em tom absurdo.
— Você não ouviu ela chorando? A menina parece um apito gaiato! Meus Deus — indagou Lúcia, pondo a panela sobre a mesa e voltando para a cozinha para guardar os panos de prato, mas o choro pertinente de bebê voltou logo em seguida.
— Eu pensei que fosse a tevê, ou a filha do vizinho — Luíza respondeu, se levantando e indo atrás do bebê. Ficando apenas os dois na mesa, Teresa instintivamente desviou o olhar para Gustavo, erguendo as sobrancelhas através da franja fina, apenas para vê-lo retesar a feição e balançar a cabeça negativamente; ela fez o mesmo. Teresa sabia que ele odiava esse joguinho de linguagem corporal, e ele sabia que ela sabia, mas não importava, o motivo de Gustavo odiar esse jogo, sendo um jogo onde quem perdia era o primeiro a se afobar e começar a falar, é que ele sempre era o perdedor, sempre o primeiro a ficar de saco cheio e entregar os pontos. Parte disso, é porque Teresa sempre fazia o truque de erguer as sobrancelhas com um olhar de cobrança, sem que estivesse claro exatamente o que ela queria dele.
"O que foi?" Gustavo sussurrou, ou apenas moveu os lábios, o choro recém iniciado da bebê, acabou omitindo qualquer outro resquício de som; a mãe dela tinha toda razão, sua choradeira aguda e desafinada era quase como um apito gaiato.
"Queria ir pra casa" ela sussurrou de volta, vendo-o se retesar ainda mais, suspirar e balançar a cabeça negativamente pela segunda vez; ela fez o mesmo, de novo.
"Você acabou de chegar" ele sussurrou, mais alto dessa vez, de forma que foi audível apesar do apito gaiato que era a sua irmãzinha.
"Mas sua avó é um saco", ela respondeu, tão alto que quase excedeu o limite estabelecido para se caracterizar um som como sussurro.
"Não é, não, você é um saco", ele sussurrou de volta.
"Não tô brincando, ela é um saco", Teresa respondeu.
— Isso aí é sobre mim? — a voz de Luíza veio de trás de sua nuca, fazendo-a arrepiar por completo por um instante, e olhar de volta para o assento da borda, onde Luíza já havia retornado e se sentado, com a garotinha no colo, finalmente silenciando com o chororô. Mariana gemeu e murmurou alguma coisa no idioma abstruso dos bebês, antes de se aquietar de vez.
— Não — Teresa disse com falsa veemência.
— Eu tô brincando — Luíza disse, sorrindo pela primeira vez, tentando dissipar a tensão que ela mesma causou no ambiente. Lúcia se juntou a eles um segundo depois, trazendo uma pequena pilha de pratos de porcelana e talheres para a mesa, sentando-se ao lado de Gustavo.
— Podem se servir, o Pedro vai chegar tarde hoje — ela disse, o que era ótimo, porque Pedro ficava desconfortável em sua presença, o que fazia com que Teresa se sentisse desconfortável na presença dele. Lúcia pegou o prato de cima para si e abriu a panela. Uma esfera de vapor subiu dela e se dissipou nos ares, o cheiro de sua sopa de abóbora se espalhou pela sala de refeições. Gustavo foi o primeiro a ir em direção da panela para encher o prato, ele era sempre o mais afoito quando se tratava de comer e beber, era quase um mistério da ciência que ainda não tinha desenvolvido a barriguinha saliente de seu pai. Teresa o conheceu justamente por conta de um purê de abóbora, em uma noite de 1991; uma boa lembrança...
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Atualizado até capítulo 23
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