Por entre as tulipas

Houve uma época em que Teresa realmente dançava ballet, dançava tão bem quanto uma adulta, ainda que tivesse pouco mais de metade do tamanho de uma. A academia de dança de Paulo Portas era uma construção de três andares na Rua Xavier da Silveira, em Copacabana, vizinha de uma lanchonete mequetrefe que, em dias de sábado, inundava-a com o cheiro salgado dos pastéis de queijo e frango; eles pareciam ser uma delícia, mas as alunas da academia estavam terminantemente proibidas de comerem esse tipo de porcaria. Teresa foi matriculada ali pouco depois de quebrar os dois dentes incisivos de Emanuele Souza (obrigando-a a usar uma prótese dentária), e esteve se aperfeiçoando na dança pelos próximos sete anos, ganhando força, técnica e flexibilidade. Sua rotina era dura, as aulas começavam uma hora da tarde, e duravam até às seis. Primeiro as alunas se trocavam no vestiário, vestindo os collants e as sapatilhas de meia ponta, depois, elas se reuniam no salão de dança, e a professora Maria Pascoal as obrigava a rezarem o pai nosso em um coro agudo e frenético; elas se alongavam e começavam a ensaiar. A barra fixa ficava acoplada em uma parede espelhada, que permitia que as alunas vissem perfeitamente os seus próprios movimentos, e seus próprios defeitos, fosse uma perna mal esticada no Grand Battement ou um Frappé lento demais. Maria Pascoal era uma espécie de Cruela da vida real, seu rosto era enrugado por conta da idade, seus cabelos eram ralos e grisalhos, e seus olhos tinham saliências nas laterais superiores, que lhe davam um tom maligno e pretensioso. Em todos os anos que estudou ali, Teresa só a viu sorrir umas duas vezes. Óbvio que o aspecto intimidador daquela mulher, foi um dos principais motivos para Teresa ter entrado na linha por ali, ela podia se lembrar perfeitamente do dia em que ingressou, cerca de uma semana depois do "incidente" com os dentes de Emanuele. Era uma manhã de segunda feira, e todas as quinze alunas estavam no salão, apreensivas, quando Maria Pascoal se aproximou de Teresa, abaixando até que estivessem na mesma altura, fitando-a com seus olhos cruéis e agressivos, inspirando fortemente o ar, e falando:

— Você sabe que eu não vou tolerar nenhuma mal criação vinda de você, né?

— Uhum — Teresa murmurou, assentindo.

— Certo, isso vale pra todo mundo — Maria Pascoal disse, se afastando dela e erguendo a voz para que todas a ouvissem — Vocês vieram pra cá pra aprender a dançar Ballet, não vieram pra ficar de brincadeirinhas, nem vieram pra ficar brigando, entenderam? — todas ficaram em silêncio, paralisadas pela sua aura diabólica — Entenderam?!

— Sim!! — elas responderam em uníssono. A aula seguiu.

Apenas quando tinha quinze anos de idade, Teresa teve a chance de se apresentar em um evento de grande relevância. Naquela época, a academia Paulo Portas acabou firmando uma parceria improvável com a Flaviano Duquez, sua principal rival, e local de onde Teresa foi chutada, uns cinco anos antes. Ambas se uniram ao centro cultural de Tulipas, para fazer uma apresentação em versão moderna do Lago dos cisnes, no Jardim Botânico. Teresa nunca tinha visto tanto tumulto envolvendo ballet, ao menos, não fora da televisão, os membros do Tulipas prepararam palco, iluminação, cenário e até trouxeram alguns (dos raros) bailarinos homens de fora para fazer os papéis masculinos. Todos estavam falando disso, nas ruas, na escola e nas igrejas. Como já era de se esperar, Teresa foi indicada pela professora Pascoal para o papel de Odette, e acabou ganhando-o, ao impressionar todos os organizadores com a sua performance. A apresentação ocorreu no dia vinte e quatro de setembro, em um sábado. O Jardim Botânico nunca esteve tão lotado de pessoas; o palco estava iluminado por luzes verdes, e havia um cenário lindo de fundo, de uma lagoa, com cortinas azuis balançando frequentemente, semelhante a uma queda d'água, e a figura de um castelo, parte cenário, parte real, feita de isopor e tecido. Mais acima, várias nuvens de crepúsculo artificiais estavam suspensas por fios de aço, iluminadas por um refletor cor de abóbora, que lhes dava um tom melancólico e abstrato. Teresa estava pronta, quase subindo no palco, quando a primeira bola de fogo explodiu no céu, expandindo em cores. Nessa época, o medo dos fogos de artifício já estava enraizado em seu coração, mas o trauma insano e perturbador, nasceu nesse dia em especial, com o ascender de uma explosão violeta e branca, que parecia formar uma estrela acima da plateia. Teresa gritou, pondo as duas mãos entorno da cabeça, tentando se proteger das múltiplas explosões que vieram em seguida, e as luzes coloridas que salpicavam o negro da noite, trazendo uma onda de pânico e ansiedade direto de suas entranhas. Naquela noite, Teresa fugiu da apresentação, foi ali que nasceu o seu trauma de fogos de artifício, e foi ali que começou a sua negligência em relação ao ballet. A parte mais frustrante, foi saber, mais tarde, que a desdentada da Emanuele Souza fez o papel principal em seu lugar.

Aquele evento cultural, em 1988, acabou servindo para promover o ballet no Rio de Janeiro, muitas pessoas foram assistir, muitos gostaram, e muitos passaram a estudar. Como a academia Paulo Portas e a Flaviano Duquez continuaram em parceria com o centro cultural Tulipas, vindo a fazer parte dela em determinado momento, elas acabaram se unindo com o tempo, no prédio onde ficava a Paulo Portas, a nova geração foi chamada de Academia de dança Tulipas. Naquele momento, sentada em sua cama, vendo aquela prótese de ponta de pé, Teresa mal podia acreditar que a melhor ideia que Samanta teve foi de enviá-la de volta para aquele lugar.

— Bailarina? — ela perguntou, arqueando uma sobrancelha, e tentando acalmar o seu coração da emoção inicial. Pouco antes da trava de impossibilidade se ativar em sua mente, aquele pé de bailarina realmente a fez arfar de emoção, como se (veja que ridículo) realmente houvesse esperança.

— É, eu pedi pro doutor Julho Cezar criar uma prótese de ponta de pé, pra você poder dançar — Samanta disse em um tom encorajador — Você tava tão feliz quando conseguiu dar os primeiros passos de prótese, imagina você dançando, Teresa, imagina.

— Imaginar eu consigo — ela disse, fechando a caixa — Mas continuo achando impossível.

— Não é impossível, eu falei com o doutor, e ele disse que é perfeitamente possível você fazer exercícios — Samanta disse, usando a palavra "perfeitamente" ênfase.

— E onde eu ia fazer isso? Só tem a academia Tulipas aqui, eu nem sei se eles vão querer uma aleijada por lá — Teresa respondeu, realmente passando a ponderar a ideia, ainda que soubesse que a maioria dos planos de Samanta eram feitos nas coxas.

— Você não é uma aleijada — Samanta disse em tom de repreensão — Eu mandei uma carta pra eles semana passada, e eles disseram que vão ter o maior prazer em ensinar você de novo, o centro de cultura tá até animado com a ideia.

— Ah... Sério?

— Sério; eu fui lá um dia desses, e tá cheio de professoras, Tê, você vai gostar de lá — Samanta disse, tomando suas mãos entre as dela — Você, meu amor, só tem que se dar uma chance...

Teresa fitou os olhos castanhos de sua mãe, notando, pela primeira vez desde o hospital, o quão abatida ela aparentava estar. Samanta vinha sofrendo tanto quanto ela com tudo isso, ela era, acima de tudo, a sua melhor amiga nesse mundo, a única que estava a acompanhando desde o começo, fizesse chuva ou sol, e olhando aquelas orbes cor de mel, Teresa decidiu que se daria uma chance, por ela.

— E se der tudo errado?

— Não vai dar, confia em mim...

— T-tá... Tá bom — ela disse.

Samanta estacionou em frente à academia Tulipas e saiu do carro, dando a volta para ajudar Teresa a sair. Era uma segunda-feira, dois dias após a conversa que tiveram no quarto. Teresa sentia uma euforia estranha enquanto olhava para a forma como a construção estava. As grandes paredes, que outrora lilases, tinham ganhado uma cor amarela suave, e as janelas de madeira do primeiro e segundo andar tinham sido substituídas por vidraças de última geração, mas a porta de entrada ainda era feita de madeira, o que lhe dava um tom rústico e nostálgico.

— Preparada? — Samanta perguntou, segurando sua mão e puxando-a para fora do carro.

— Não — ela respondeu, ficando de pé com certo esforço, e fazendo outro para se manter equilibrada, até que seu pé se adequasse ao piso irregular de paralelepípedos que preenchia a calçada.

— Relaxa, Tê, eles vão te tratar bem aí — Samanta disse, caminhando ao seu lado, quase ficando para atrás, para garantir que ela não iria colar a cara no chão a qualquer momento — E se não tratarem, você me fala, viu?

— Você não tá me passando muita confiança, não, viu? — ela disse, e elas riram um pouco. Teresa até se surpreendeu com o som de seu próprio riso, fazia um tempo que ela não o ouvia.

Quando tocaram a campainha, foram rapidamente atendidas por uma mulher baixinha, usando um moletom e um rabo de cavalo; ela sorriu gentilmente quando viu a prótese de Teresa, como se estivesse recebendo algum tipo de celebridade, dando passagem para ela.

— Maria Teresa, né? Eu tava esperando por você — a mulher disse.

— Viu? — Samanta murmurou, indicando a porta para que Teresa fosse na frente.

— Então, eu acho que não consigo fazer os movimentos sem a barra fixa, eu ainda tô me acostumando com a prótese — Teresa disse, enquanto entrava no lugar, e quando foi fitada por dezenas de olhos que estavam ali na recepção, sentiu seu coração encolher no peito, e deu graças a Deus por ter coberto sua cicatriz com dois band-aids antes de sair de casa. Seria um porre se tivesse que aguentar ainda mais piedade vinda deles.

— Tá tudo bem, a sua professora vai te ajudar a se acostumar de novo com os movimentos — a atendente respondeu de forma calorosa — O vestiário fica naquela porta ali — ela indicou uma porta à esquerda, onde havia uma estrela amarela estampada na maçaneta, como se aquilo fosse o camarim de um artista ou algo assim.

O vestiário estava vazio quando ela e Samanta entraram, o que facilitou as coisas. Teresa tirou a blusa e a saia que usava, vestindo seu collant azul bebê com a ajuda de sua mãe, e as sapatilhas de meia ponta de cetim, que tinham comprado no dia anterior. Ela caminhou lentamente até o espelho de corpo inteiro que se localizava na parede ao lado do armário, fazendo um coque rosquinha em seus cabelos, tão perfeitamente quanto tinha aprendido com Maria Pascoal em seus anos de glória. Teresa deu uma boa olhada em si mesma, e em como aquela vestimenta casava perfeitamente com a parte de seu corpo que ainda estava inteira, contrastando horrivelmente com a sua perna de plástico e ferro, que era algo completamente incoerente, como se não devesse estar ali. Por um tempo indeterminado, ela esteve hipnotizada por aquela figura, invadida por lembranças e ressentimentos, pensando que talvez não devesse estar ali, não depois de tudo que aconteceu. Samanta chegou por trás dela, tirando-a de seus devaneios, tocando em seus ombros e sorrindo para ela pelo espelho.

— Você tá linda — Samanta disse.

— Você não tinha que ir no mercado? — ela perguntou, apenas para se ver livre.

— Você vai ficar bem? — Samanta perguntou.

— Vou — Teresa respondeu de forma hesitante.

— Certo, se comporta, viu? —  Samanta disse, por fim, se afastando e pegando a bolsa.

— Claro, vou tentar não sair correndo por aí — ela disse, sem um pingo de animação, enquanto sua mãe se afastava, acenando para ela uma última vez, antes de sair pela porta do vestiário. Quando se viu sozinha ali, ouvindo o leve burburinho que vinha da sala de dança, trazido pelas paredes de madeira, sentiu-se nervosa, nesse momento, estava desamparada.

Quando chegou ao salão de dança, caminhando com certa dificuldade, Teresa foi bombardeada pelos olhares de todas as alunas e professoras que ocupavam o lugar. O salão ainda era o mesmo de que se lembrava, com algumas pequenas alterações. As paredes, que antes tinham uma cor rosa, agora haviam ganhado um tom de verde limão; as duas grandes janelas de madeira da parede à esquerda, agora eram uma vidraça, e os espelhos eram mais extensos, ocupando toda a parede da direita e refletindo lindamente as vidraças; era bonito de se ver, mas ela pensou que aquilo devia ser insuportável no crepúsculo, quando o sol estaria pessoalmente dando as caras pela vidraça.

— Ah, você deve ser a Teresa — uma das mulheres mais velhas veio até ela, com um sorriso no rosto — Bom dia, querida.

— Oi — ela disse, forçando um sorriso

— Olha, saiba que é um prazer pra academia ter você aqui, sua história é inspiradora, sabia? — a mulher disse, como se realmente conhecesse a sua história, e não um único trecho que lhe contaram.

— Não, não é pra tanto — Teresa disse — Então, eu vou treinar junto com o pessoal? Por onde a gente começa?

— Começa vendo o que você consegue fazer na barra fixa — uma voz grave e autoritária veio pela sua nuca, fazendo-a arrepiar, principalmente pelo fato de lhe soar tão familiar. Teresa olhou sobre o ombro, e se assustou ao ver aquela mulher ali.

— Luíza? — ela perguntou, não acreditando no que os seus olhos estavam vendo. Luíza, a avó de Gustavo. Por um tempo, ela tentou ponderar se aquilo era mesmo real, ou apenas a sua mente lhe pregando peças...

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