— Professora Luíza — Luíza (ou professora Luíza) corrigiu-a duramente — Por que essa cara? Você já sabia que eu dançava ballet.
— Mas... Eu não sabia que você era professora — Teresa disse, fazendo um esforço para desfazer a expressão pasma em seu rosto.
— A professora Luíza ficou com a turma de novatas, você vai começar com ela, tudo bem? — A mulher disse, tocando gentilmente em seu ombro. Não estava tudo bem, não estava nada bem, mas aquela coincidência assustadora fulminou com a capacidade de Teresa raciocinar, ela assentiu, embora quisesse negar.
— Certo, então eu vou deixar você com ela por hoje — a mulher disse, dando um tapinha no ombro de Teresa e se dirigindo para uma outra turma de alunas, que ocupava o centro do salão. Agora ela estava sozinha com Luíza e cada músculo do seu corpo estava tenso.
— Eu não sabia mesmo — Teresa disse, olhando para ela.
— Não sabia que eu seria sua professora? Ninguém me disse nada também — Luíza respondeu, olhando-a como se ela fosse um inseto asqueroso, a fala dela era arrastada e sombria — Eu achei que você tinha abusado o ballet.
— Aham, só que... Eu não tenho muita coisa pra fazer agora — Teresa respondeu, querendo, por algum motivo, que Luíza sentisse pena dela.
— Então é esse o seu motivo? Tédio? — Luíza perguntou em tom de desdém — O acidente não colocou juízo na sua cabeça, né?
— Como é que é? — Teresa franziu o cenho, diante de tamanha afronta, firmando sua prótese no chão e abrindo bem o peito, ela era pelo menos uns dez centímetros mais alta que Luíza, e achou que soaria intimidadora, assim como Natália normalmente soava, mas foi em vão, a senhora não demonstrou a menor hesitação diante dela.
— Você ficou surda também?
— Ah... Me poupe desse sarcasmo, tá? Se quiser, eu falo com a coordenadora pra mudar minha professora, e você fica livre de mim, e eu de você — Teresa disse, um tanto desconcertada.
— E eu fico como vilã da história, por rejeitar a menininha debilitada, é isso que você quer, né? — Luíza respondeu.
— Então, pro seu azar, você vai ter que aceitar a menininha debilitada — Teresa disse, imitando a voz grave de Luíza de um jeito ridículo, e gesticulando exageradamente com as mãos. Luíza suspirou.
— Vamo pro terceiro andar, sua aula vai ser lá, e é bom você vir preparada, Teresa — ela disse, usando aquele tom de voz arrastado de antes. Teresa revirou os olhos e a seguiu.
Havia um elevador no final do prédio, logo depois do pequeno refeitório, que não existia na época em que ela estudou ali; era um alívio, uma vez que ela ainda não era muito boa em subir degraus, e preferia ser jogada da escada a pedir ajuda de Luíza para subi-la. Elas pegaram o elevador juntas, e ficaram o mais distante possível, como se uma radiação ao nível de Chernobyl estivesse vazando da outra. Quando chegaram à sala de dança do terceiro andar, Teresa viu que ela era como uma replica da primeira, com exceção da vidraça, que era um pouco menor, e suas cortinas, que ao invés de brancas, eram azuis. Uma turma já as esperava ali, haviam umas dez alunas, e todas aparentavam ter quinze ou dezesseis anos. Mais uma vez, foi bombardeada por olhares penosos e fascinados, olhares que doíam em locais profundos do seu ser. O silêncio que se seguiu, foi quebrado pela voz retumbante de Luíza:
— Muito bem, turma, essa aqui é a Teresa — ela disse — Ela vai ficar com a gente até reaprender a dançar ballet com a prótese. Não quero ninguém conversando com ela, nem fazendo perguntas, nada. Sem distração aqui, cada uma se concentra em seu próprio treino, fui clara?
— Sim, senhora — as garotas responderam em coro, elas pareciam nutrir um profundo respeito por Luíza, o que era inconcebível para Teresa, dada a face terrível que ela vinha lhe mostrando.
— E você — Luíza olhou-a — Troca esse pé e vai pra barra.
Teresa obedeceu, mas fez o contrário, primeiro ela foi até a barra fixa, tentando não olhar o seu próprio reflexo, e só então ela removeu o encaixe parafusado do pé de sua prótese, trocando-o pelo pé vertical, e calçando-o com a sapatilha de ponta. Luíza a observava com os braços para trás, imitando algum tipo de ditador maligno e frio.
— quinta posição dos pés — Luíza disse, e Teresa só precisou erguer o pé esquerdo, até que estivesse na ponta da sapatilha, assim como o direito. Apesar das condições, aquilo lhe trouxe uma sensação de nostalgia agradável.
— Assim?
— Tá, agora eu quero ver o seu Coupé com o pé esquerdo — Luíza disse, descruzando os braços e observando, enquanto Teresa ajustava o pé esquerdo, dobrando a articulação do calcanhar. Se equilibrar quase completamente em sua prótese de ponta foi quase como andar em uma corda bamba, a única coisa que a sustentava era aquela barra fixa. Para piorar o seu estado, o corpo de Teresa já não era o mesmo de antes, seus músculos tremiam, e rapidamente passaram a arder completamente. Sua sensação agradável de nostalgia foi rapidamente por água abaixo. Apesar de Luíza ter mandado as outras garotas se concentrarem em suas atividades, todas elas foram irremediavelmente atraídas pelos movimentos de Teresa; quando ela se deu conta, todos os olhares estavam novamente encima dela, enquanto realizava uma sessão de Coupé de esquerda.
— Passé com a perna esquerda, vai — Luíza disse, e por um momento, Teresa não soube muito bem o que fazer, erguendo a sua perna esquerda e dobrando a articulação do joelho. A intenção, era fazer o seu pé serpentear como uma cobra, mas ela não conseguiu se equilibrar unicamente na prótese, tremendo e descendo o pé esquerdo novamente ao chão.
— Não dá — ela disse.
— Tenta de novo — Luíza disse, fria como gelo.
— Mas não dá! — ela repetiu.
— Por que não? — Luíza perguntou, sem um pingo de ironia.
— Eu não tenho equilíbrio pra isso — ela respondeu, sua voz desanimada.
— É esse o problema? Então por que você veio pra cá? — Luíza perguntou — Com essa prótese, tem uma série de movimentos que não dá pra você também, Plíés, Demi-plíés, Battements, são todos movimentos que precisam que você apoie os pés no chão — ela concluiu, sem empatia ou gentileza na voz, havia apenas uma frieza ressentida e amarga.
— Eu sei, é pra isso que você tá aqui — Teresa respondeu no mesmo tom.
— É pra isso que eu tô aqui? — Luíza perguntou com ironia.
— Não é? Por que quis virar professora?
— Não interessa pra você.
— Então não vai adiantar ficar me diminuindo por que eu só tenho um cotoco de perna — Teresa disse.
— Eu não estou te diminuindo, de onde você tirou isso? — Luíza questionou, se aproximando perigosamente dela.
— E só pra lembrar, foi o seu neto que fez isso comigo! — Teresa emendou no seu argumento, mas se arrependeu disso no milésimo seguinte. A expressão de Luíza mudou, em um instante, de furiosa para surpresa.
— O que ... Você disse? — ela questionou em um sibilar, perigosamente perto agora.
— V-você ouviu — Teresa disse, um pouco hesitante.
— Eu ouvi, mas não tô acreditando, menina. A culpa disso foi toda sua, toda sua — Luíza disse em baixo tom, quase um sussurro, mas suas palavras foram tão afiadas quanto lâminas, e cortaram profundo.
— Ah, agora a culpa disso é minha? — Teresa perguntou, sentindo sua voz fraquejar.
— A culpa disso tudo é sua, e não é de agora coisa nenhuma! — Luíza confirmou, dessa vez, quase gritando, e um silêncio se fez no salão de dança. Todas as garotas calaram com os seus murmúrios, ninguém queria perder nem um trecho daquela acalorada discussão.
— Qual foi a última vez que você foi no túmulo dele? — Luíza prosseguiu, quebrando o silêncio do local.
— Eu... Não fui — ela respondeu.
— Você não foi, mas veio aqui, no meu santuário, pra tirar a minha paz.
— Seu santuário? Eu já estudava aqui muito antes de você vir pra cá, e a gente só brigou naquele carro porque você foi uma idiota!! — Teresa disse aos berros, não conseguindo mais conter as suas lagrimas.
— Meu neto não merecia aquilo, ele não merecia o que você fez com ele! — Luíza disse, com tanta amargura, que sua voz se tornou rouca e quebradiça, ela já estava em choque, não ouvia mais uma palavra do que Teresa dizia. Aquilo foi a gota d'água, não adiantava mais.
— Ah, quer saber? Já chega! — Teresa disse, desparafusando o seu pé de ponta e praticamente arrancando-o, com tanta violência que as suas lágrimas se desprenderam da maçã do rosto, caindo nos chãos. Ela colocou o pé plano novamente em uma encaixada que gerou um estalo, parafusou-o, levantou dali, com certa dificuldade, e caminhou (aos mancos) para fora do salão. As outras alunas pareciam atônitas, alternando o olhar entre ela e Luíza, que parecia ainda mais soturna nesse momento, com lágrimas densas presas nos olhos, sem escorrer, mas sem desaparecer. Ainda havia uma série de palavras que estavam entaladas na garganta de Teresa, e enquanto descia pelo elevador, se imaginou dizendo todas elas na cara de Luíza, e até sendo um tanto irônica, como costumava fazer antigamente, mas nada disso era válido agora, nada disso era relevante, e as palavras continuariam engasgadas em sua garganta, e a cena continuaria se repetindo em sua mente, até que ela finalmente conseguisse esquecer esse assunto, isso SE ela conseguisse.
Depois de colocar suas roupas de novo e guardar toda aquela porcaria inútil de ballet, Teresa fugiu da Tulipas e ficou sentada em um dos banquinhos de concreto que se viam no final da calçada, observando o movimento na rua, enquanto tentava afastar a última cena de seus pensamentos. O local onde era aquela lanchonete de antigamente, havia se transformado em uma sorveteria, o que era bom, o cheiro de sorvete não era, nem de longe, tão gritante quanto o de pasteis de frango, se fosse esse o caso, ela já teria vomitado o pouco de arroz que comeu no almoço. Vez ou outra, passava uma criança ou um idoso sem ter o que fazer, paravam, olhavam fixamente para ela e para a sua prótese, Teresa levava a mão ao rosto, para ver ser os band-aids ainda estavam grudados nela, e a pessoa seguia caminho. Teve uma única senhora que se aproximou para perguntar como ela estava, ela usava um vestido branco com ilustrações de várias ferraduras de cavalo, e tinha um guarda-chuva fechado debaixo do braço. Depois de, assim como os outros, olha-la fixamente, a senhora perguntou, com uma voz doce:
— Tá tudo bem com você, querida?
— Tá — Teresa respondeu secamente, não se atrevendo a uma palavra maior, falar fazia a sua garganta doer.
— Como você perdeu essa perna? Foi acidente? — a senhora perguntou, passando subitamente de gentileza para atrevimento.
— Não interessa — Teresa disse, sentindo sua voz tremer, o primeiro sinal que ela estava prestes a desmanchar em lágrimas.
— Mal educada — a velhinha grunhiu, batendo a ponta do guarda-chuva no chão e saindo dali aos mancos, um pouco parecido com a forma como Teresa caminhava, mas bem mais corcunda. Ela observou-a sumir no mundo, observou muitas outras pessoas que passaram por ali, e sumiram no mundo também, umas contornavam o outro lado da rua, em direção do Mercado Cardoso, outras desciam para a avenida Atlântica, outros subiam para a avenida Henrique Dodsworth. Todos pareciam ocupados, todos pareciam ter um rumo, um destino, mas ela estava ali, tentando encontrar o seu.
Quando Samanta buzinou, Teresa tomou um susto, olhando para ela em um sobressalto. A tarde inteira tinha se passado, e ela mal pôde notar o tempo voando.
— Eles deixaram você ficar aqui sozinha? — Samanta perguntou, saindo do carro para ajuda-la.
— Eu vim escondida — ela respondeu, ficando de pé em um solavanco e fazendo um esforço para se equilibrar.
— Tê, você sabe que é perigoso fazer essas coisas, você não tem mais... — Samanta parou, tentando achar a palavra para concluir.
— Perna? — Teresa perguntou.
— Não, Tê, quinze anos, eu ia dizer quinze anos! — Samanta disse com urgência — Aconteceu alguma coisa?
— Você acha que aconteceu? — ela perguntou ironicamente, rejeitando a ajuda de sua mãe com um gesto de mão, indo até a porta do carro e entrando ali, mostrando, de uma vez por todas, que não precisava de ajuda para isso. Samanta a seguiu com o olhar, e ficou um tempo ali, pensativa, antes de entrar no carro, colocando o cinto de segurança e ligando o motor.
— O que foi? — Samanta perguntou gentilmente.
— Nada.
— Não, Tê, alguma coisa aconteceu!
— É. Sabe quem é a minha professora? Luíza, a avó do Gustavo — Teresa disse áspera.
— É sério?! — Samanta perguntou, e olhou-a com espanto, depois de engatar a primeira marcha e tirar o carro do mini-estacionamento.
— Aquela velha... A-aquela velha... — ela tentou resgatar as palavras de sua garganta novamente, mas já era tarde, já havia engolido todas elas; agora só restavam lagrimas.
— Ela disse alguma coisa com você? — Samanta perguntou.
— É claro que ela disse, mãe, o que você acha? — Teresa respondeu, com a voz trêmula de raiva (e desgosto).
— O que ela disse?
— Não, deixa isso pra lá.
— Fala pra mim...
— Não, mãe, esquece, eu não quero falar disso! — ela praticamente gritou, e Samanta apenas assentiu, com um olhar ressentido.
Elas não tocaram mais no assunto, ao menos, por todo o percurso de volta para casa. As lágrimas de Teresa secaram, e ela ficou apenas com um nó na garganta, arfando, se afogando em mágoa, sofrendo em silêncio. Mesmo agora, sua cabeça repetia a cena da conversa com Luíza de novo, e de novo, e de novo. A sensação de ter alguém para lhe dar a culpa que ela sabia que a pertencia, mas fingia não ver, era quase pior do que o acidente em si, a única coisa pior do que perder o Gustavo de forma tão trágica ao ponto de nem ter ido ao seu velório, e tampouco ao seu enterro, ou sequer ter ido ver seu túmulo nos dias em que esteve largada, era saber que a culpa era dela, ele estava morto por sua causa, não havia nada que ela pudesse fazer para mudar isso.
Só quando estacionou o carro em frente à sua casa, é que Samanta recobrou o assunto:
— Eu vou falar com a coordenadora, pra mudar sua professora.
— Não — Teresa disse, e pela expressão de Samanta, sua voz pareceu feri-la como uma lâmina.
— Por que não? — Samanta perguntou.
— Porque pra mim já deu, foi besteira achar que isso ia dar certo, sinceramente — ela disse, abrindo a porta do carro e saindo, mais uma vez, sem precisar de ajuda.
— Não foi besteira, Tê, esse encontro com essa Luíza foi só um empecilho, ela já deve tá ficando gagá, nem sabe mais o que fala — Samanta argumentou, mas Teresa sabia que isso não era verdade, aquela mulher, apesar de amargurada, ainda era mais lúcida que a sua mãe, embora ela nunca fosse dizer isso em voz alta.
— Não — ela disse.
— Foi, só um impeci...
— Não, mãe, não foi só um empecilho! — Teresa gritou, batendo no capô do carro com o peito da mão.
— E o que você acha que foi? — Samanta perguntou, elevando a voz quase à mesma altura que a dela.
— Ela só disse a verdade, foi só isso... — enquanto falava, lágrimas brotavam novamente dos seus olhos, escorrendo pelo seu rosto e pingando na blusa — Eu não sirvo pra dançar, eu nunca servi, e você sabe disso, você já sabia antes de eu perder a perna — ela disse, aos poucos, notando como a sua voz se tornava trêmula e pastosa.
— Tê, não faz isso, não — Samanta se aproximou dela, mas ela recuou.
— Eu não sirvo pra isso, não servia nem quando tinha minhas duas pernas, e agora é que eu não sirvo mesmo — ela disse, sentindo que sua voz poderia se quebrar em um milhão de pedaços a qualquer momento.
— Você serve sim.
— Não.
— Você serve!
— Não!!
— Teresa! — Samanta ergueu a voz, e Teresa pensou ter ouvido ela fraquejar, como se também estivesse prestes a chorar — Olha a prótese de bailarina linda que eu consegui pra você, minha filha, olha a forma como ela se parece com o seu pezinho, e me diz se você acha que isso não é pra você — enquanto falava, as lágrimas também marcavam o rosto de Samanta. Se alguém passasse na rua naquele momento, pensaria que elas eram duas malucas, chorando como crianças em frente de casa.
— A prótese — Teresa disse, abrindo a bolsa, procurando uma última esperança enterrada naquela peça de couro de marca, mas a visão da sua prótese de ponta só lhe causou repúdio, nojo, como se aquilo fosse apenas uma falsificação barata de seu corpo, assim como a prótese habitual de plástico e ferro que ela utilizava; tudo errado, tudo nojento. Teresa engoliu a bile que veio subindo em sua garganta, pegou a prótese de ponta e (de forma desajeitada) arremessou-a para longe, vendo-a cair em uma calçada lá no final da rua, onde provavelmente seria esmagada pelo próximo carro a estacionar, ou seria encontrada por alguma criança com gostos peculiares, que a levaria para casa, não lhe importava mais.
— Teresa!! — Samanta gritou em repreensão, correndo para pega-la.
— Mãe! Não — ela disse segurando desesperadamente no braço de Samanta, como se aquela prótese estivesse cheia de dinamites.
— Teresa, essa prótese foi cara! — Samanta disse, quase arrastando-a rua a baixo.
— Tá, mas fica aqui, eu não quero mais ver essa coisa, eu não quero! — ela gritou, abraçando Samanta subitamente, parte porque queria impedi-la, parte porque realmente precisava de um abraço.
— Meu Deus, Teresa — Samanta murmurou, retribuindo ao seu abraço, a essas alturas, elas choravam uma no ombro da outra — Meu amor, você não quer nem tentar?
— Não — ela disse, e Samanta não tentou mais argumentar, parte disso sendo porque ela sabia que não adiantava, sabia que isso só iria começar uma outra discussão, e Teresa ficava grata por ela entender, embora estivesse longe de se sentir satisfeita com alguma coisa.
— Tá tudo bem — Samanta disse, dando tapinhas nas suas costas — A mamãe tá aqui com você — ela emendou, e Teresa era grata por isso também, embora não conseguisse expressar essa gratidão em palavras.
Teresa não jantou naquela noite, ela se trancou no quarto, ligou o rádio, colocando na estação X, e ficou ouvindo o que tinham para aquela noite, as músicas de Chitãozinho e Xororó, Roberto Carlos, Michael Jackson estavam em alta, repetindo com certa frequência, mas o que roubou a sua atenção naquela noite, foi uma música conhecida de Michael Sullivan e Massadas: dê uma chance ao coração, que dizia, logo antes do refrão, que a vida é mais que uma ilusão, e ela se perguntou o quão profundo o autor estava pensando na dureza da vida quando chegou a esse trecho, porque Teresa nunca desejou tanto que tudo aquilo não passasse de uma ilusão, ainda que a ideia de não existir nada além de essa suposta ilusão, fosse quase tão terrível quanto vive-la. Ninguém foi buscar a prótese de ponta, mas ela retornou em sonhos para assombrar Teresa. No pesadelo que teve aquela noite, Gustavo aparecia diante dela, com o rosto tão carcomido pela putrefação, que era possível ver alguns pedaços do seu crânio. Ele segurava a sua prótese de ponta na mão direita, estendendo em sua direção, como se quisesse prolongar o seu sofrimento, como se quisesse vê-la pagar, em vida, pela vida que tirou.
No dia seguinte, ela acordou por uma pequena inquietação, que veio de dentro do seu ser, fazendo-a levantar em um sobressalto. A manhã estava calma, os passarinhos cantarolavam lá fora, e, se ela se concentrasse, poderia ouvir os risos exasperados das crianças na rua. Uma vez que estava sentada na cama, Teresa recolheu a prótese, que sempre passava a noite ao seu lado, sofreu por quase dois minutos até encaixa-la em seu coto, e ficou de pé. Ela olhou no despertador, e ainda eram sete da manhã, seu estômago revirava com uma sensação de que algo estava incompleto, de que algo precisava se encaixar. Samanta não estava em casa, então, quando o som da campainha ecoou por toda a sala, Teresa se apressou para atender, ajeitando os cabelos no caminho até a porta, e apenas quando já estava abrindo-a, ela se lembrou que sua cicatriz estava amostra, o que a fez desejar, mais do que tudo, que fosse um carteiro ou entregador do outro lado, alguém que ela certamente nunca mais veria em sua vida. Seus olhos quase saltaram das órbitas quando abriu a porta e viu Luíza em sua varanda, encarando-a com aqueles olhos sérios e cheios de mistério. Luíza acenou com a cabeça.
— Bom dia, Teresa.
— O que quer? — Teresa perguntou de forma áspera.
— Eu ... Preciso falar com você — ela disse.
— Você já falou tudo que tinha pra falar — Teresa respondeu secamente, fazendo menção de fechar a porta, mas foi barrada pela mão ágil de Luíza. Ela sentiu uma vontade imensa de esmaga-la naquele momento.
— Eu vim pedir desculpas — Luíza disse — A culpa não foi sua, eu fui idiota ontem.
— Ontem? — Teresa perguntou, Luíza vinha sendo uma idiota desde o momento em que elas se conheceram.
— Eu agi pela emoção, filha, eu não odeio você, eu só não sei lidar com tudo que está acontecendo comigo, com minha família...
— E... O que tá acontecendo com a sua família? — Teresa perguntou com relutância, realmente curiosa, já fazia um tempo que não ouvia falar do clã dos Fonseca, mas sabia, pelo apego familiar que eles sempre demonstravam, que estariam sofrendo muito com a morte de Gustavo.
— Ah, tudo uma bagunça, a minha filha não interage mais com ninguém, só fica trancada naquele quarto, chorando, e meu genro colocou a culpa toda em mim; esse é o preço que se paga por ter a língua grande — Luíza disse em um quê de conformidade.
— A culpa não foi sua...
— E nem sua — Luíza disse, surpreendendo-a — A culpa não foi de ninguém, aquilo que eu disse foi puro rancor, foi só um exagero...
— Sério? — Teresa perguntou, por um momento, se apoiando completamente nessas palavras, porque a sua prótese já não tinha forças para segurar o seu corpo.
— Sério... Eu... Comecei a dar aula de ballet naquela academia porque eu queria me sentir melhor, sair um pouco daquele ambiente, sabe? — Luíza disse, mordendo o lábio inferior, enquanto lágrimas surgiam em seus olhos, uma coisa que Teresa achava impossível de acontecer. Luíza se forçou a continuar, mesmo com um possível choro a caminho — Mas aí, quando eu vi você por lá, eu não soube como agir, e só disse o que veio à cabeça.
— Tá tudo bem — Teresa disse — Já passou...
— Eu falei com as meninas, sabe? As da minha turma, elas me respeitam muito, e eu não queria passar a imagem errada pra elas, eu não sou uma... Pessoa ruim — Luíza disse, e suas lágrimas se desprenderam finalmente, escorrendo pelo seu rosto moreno.
— Tá legal, tá legal, você tá desculpada — Teresa disse, e embora tenha soado abusada, ela realmente disse com sinceridade. Luíza assentiu, engoliu o choro, e abriu a bolsa, enfiando a mão lá dentro.
— Eu... Acho que isso aqui é seu — ela tirou, de dentro da bolsa, a bendita prótese de ponta, estendendo-a para Teresa — Tava ali na rua de baixo, eu acho que você deixou cair — ela disse. Ao olhar para a sua prótese de ponta, Teresa percebeu que já não sentia mais nojo dela, era como se o destino tivesse feito com que aquilo retornasse para suas mãos, e ao olhar para Luíza, ela percebeu que também não sentia mais rancor por ela, como se tudo que ocorreu no dia anterior, fosse nada mais que um sonho ruim, as letras da música Canta a canção retornavam novamente à sua cabeça: a vida é mais que uma ilusão, dê uma chance ao coração.
— Eu... Nem sei o que dizer — Teresa murmurou, vencida pela convergência das situações.
— Não precisa dizer nada, não, só não desista dos seus sonhos ainda.
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Atualizado até capítulo 23
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