Incisiva

Uma outra situação que retornou às lembranças de Teresa, foi da vez que ela foi expulsa da academia de dança Flaviano Duquez, em 1983. Sua mãe já estava divorciada há um ano, sua avó, morta há três meses, e já faziam cinco meses que Teresa não via o Adenes (a essas alturas, ela desistiu de se referir a ele como pai, e Samanta apoiou a sua decisão). Um ano antes disso, logo depois do divórcio, Samanta e Adenes fizeram um trato, ela não envolveria a polícia no caso, em troca, ele deveria deixar a guarda de Teresa com ela, sem insistir, e pagaria um valor um pouco mais alto do que constava nas leis voltadas para pensão. Apesar das insistências dele em reatar o casamento, sua mãe se manteve firme com a decisão, Adenes acabou assinando os papeis de divórcio e aceitando o trato que ela propôs, dês de que pudesse ficar com Teresa de tempos em tempos. A própria Samanta explicou a situação para ela, se ajoelhando à sua frente e tocando em seus ombros, como geralmente fazia:

— Teresa, me escuta, se o seu pai bater em seu rosto ou fizer qualquer coisa esquisita, você fala pra mim, tá bom? Não importa o que ele diga pra você.

— Tá bom, eu falo — ela assentiu, já fazendo uma ideia do que Samanta queria dizer. Às vezes, você passa anos e anos com uma pessoa, só para descobrir que nunca a conheceu de verdade.

Seu desejo pelo ballet se manifestou pouco depois que ela e sua mãe haviam se afastado de Adenes, Teresa viu uma apresentação em um show de talentos na televisão, onde um grupo de bailarinas apresentavam o ballet dramático o lago dos cisnes, que, em seu desenrolar, contava a história de um príncipe chamado Siegfried, que se apaixonava por uma mulher cisne, essa mulher era, na verdade, a princesa Odette, que estava sob o poder de um terrível feiticeiro, e só poderia se libertar se um rapaz virgem lhe jurasse amor eterno, mas se ele a traísse, ela estaria condenada para sempre. Teresa não tirou os olhos da televisão nem por um segundo, maravilhada com todo aquele jogo de movimentos e lindos arranjos sonoros. As bailarinas, que representavam os cisnes, se moviam como bonecas pelo palco, girando e movendo os vestidos tutus, e interpretando poeticamente a história que se desenrolava. Ao fim do quarto e último ato, depois que foram derrotados pelas astucias do feiticeiro Rothbart, o príncipe Siegfried e a princesa Odette acabavam se atirando no lago formado com as lágrimas dos cisnes, onde poderiam ficar juntos pela eternidade na vida após a morte. Depois disso, ela decidiu que seria uma bailarina também.

— Mãe, eu posso dançar ballet? — ela perguntou, encantada, enquanto subiam os créditos da apresentação.

— Você quer ser bailarina, Tê? — Samanta perguntou, com um sorriso empolgado surgindo no rosto — Eu vou ver umas academias de dança daqui da região.

Aquele dia, em 1983, também foi a primeira vez que Teresa sentiu o gosto amargo da difamação, a mesma difamação que levou Luíza a chama-la de interesseira. A academia de dança Flaviano Duquez, era considerada uma das melhores no bairro de Ipanema, localizada na rua Visconde de Pirajá, entre dois edifícios, chamava atenção pela arquitetura que misturava rusticidade e modernidade em um belo contraste, tendo paredes de tijolos lisos sem revestimento, grandes vidraças à frente, e cortinas brancas como flocos de neve, o piso era feito de madeira, como um tatame de judô, e haviam barras nas paredes, onde as bailarinas podiam se apoiar para treinar os movimentos. Teresa estava em uma das primeiras aulas, por enquanto, fazendo os alongamentos iniciais. Sua professora era uma mulher chamada Cassiane, ela tinha a pele clara como porcelana e, assim como todas as bailarinas, usava os cabelos em um coque rosca, ela tinha uma fina trança envolta do coque, que o segurava como um pompom. Todas as garotas estavam organizadas pelo piso, sentadas em posição borboleta, deixando os braços na primeira posição do ballet, que se caracterizava por unir as mãos e arquear os cotovelos, assim, elas realizavam um alongamento que consistia em descer o corpo (sem dobrar a coluna e sem tirar os joelhos do chão) até que seu peito tocasse os pés; elas faziam três seções de dez repetições, e passavam para a próxima, onde deveriam ficar de pé, ainda com os braços em primeira posição, e descer o quadril até que suas mãos tocassem os pés; mas Teresa nem chegou nessa parte, enquanto ela fazia seus alongamentos, ainda sentada, ouviu acidentalmente a conversa de duas garotas ao seu lado, e notou quando seu nome fora mencionado: 

— Maria Teresa?

— É, fala baixo.

Teresa tentou ignorar, seguindo a contagem de Cassiane, três, quatro, cinco, seis, mas a sua curiosidade na conversa delas foi um pouco maior do que o interesse nos alongamentos. Teresa afastou a voz de Cassiane, e se concentrou na conversa das garotas ao lado, elas não faziam ideia que a audição dela era tão sensível e atenciosa, o que lhe permitiu captar o que falavam quase com perfeição, apesar de estarem sussurrando:

— A mãe dela terminou com o marido, não foi? Eu fiquei sabendo, mas já tem bem um ano — a garota mais próxima disse.

— A mãe dela é interesseira, ela casou com um homem e separou dele só pra ficar tirando dinheiro do coitado — a outra respondeu. É possível que ela estivesse apenas repetindo algo que ouviu em sua casa, mas aquela biscatezinha não iria falar daquela forma da sua mãe, e sair dali com da mesma forma que entrou. Uma vez que Teresa se enchia de fúria, pedir para ela se acalmar, era como pedir para uma panela de pressão, cheia de gás, não explodir, ela estava cheia de fúria, iria explodir sim, senhor. Teresa descruzou suas pernas e se colocou de pé, enquanto a contagem chegava aos oito, atraindo a atenção de todas no salão.

— Tudo bem com você, Teresa? — Cassiane perguntou, caminhando em sua direção, mas ela foi mais rápido ainda na direção da garota ao lado.

— O que você falou de minha mãe? — Teresa perguntou asperamente, enquanto a menina se colocava de pé, sabendo que tinha se metido em uma roubada.

— O que? Você tava ouvindo minha conversa? — a menina perguntou, arqueando as sobrancelhas de uma forma provocativa irritante.

— Você chamou a minha mãe de interesseira, pensa que eu não ouvi? — ela perguntou, se aproximando perigosamente da menina (que ela veio a descobrir, um tempo depois, que se chamava Emanuele Souza, e era a sobrinha da dona da academia).

— Olha, se acalme, eu não vou aguentar chilique de ninguém, não! — a garota disse, com um ar de superioridade irritante, mas Teresa já estava de saco cheio. Ela pulou encima da garota, enquanto as outras gritavam e se levantavam. Inicialmente, Teresa pretendia apenas acertar uns tapas na cara dela, mas mudou de ideia no meio do percurso, cerrando o punho e, assim que a teve em suas mãos, atingindo-a com um soco bem no meio da boca. A menina caiu para trás, pondo as duas mãos sobre a boca e gritando de dor, daqueles gritos agudos e estridentes que causam mais raiva do que compaixão. Teresa foi para cima dela, querendo bate-la um pouco mais, e uma gritaria se iniciou no salão, mas ela foi impedida pela senhora Cassiane, que segurou-a pelos quadris e a puxou de cima da biscatezinha. A boca da menina sangrava excessivamente, e o que ela fez com os dentes incisivos (se cuspiu ou engoliu), não era mais da conta de Teresa, que simplesmente foi arrastada pela senhora Cassiane para fora dali e repreendida pela sua atitude. Pelo resto da aula, Teresa ficou no cantinho do salão, sentada de pernas cruzadas, impedida de participar do treinamento com as outras, a biscate mirim foi levada ao hospital, com uma porteira enorme deixada onde deveriam ser os seus dentes incisivos.

— Esse tipo de atitude é inaceitável, entendeu? Inaceitável — Cassiane disse para ela.

— Ela xingou a minha mãe!

— Não importa, Teresa, não importa, você vai ficar aí agora, até a sua mãe chegar!

Quando Samanta chegou à academia, ela já estava quase vazia, um silêncio sereno e melancólico tomava conta do ambiente, fazendo o movimento de mais cedo se parecer com uma memória triste e distante. Cassiane a chamou para conversar em sua sala particular, e Teresa ficou em um banquinho do lado de fora, apenas observando a luz amanteigada do pôr do sol, preenchendo o centro do salão de dança, enquanto as suas laterais, nos pontos mais profundos, ganhavam, aos poucos, seus tons mais escuros, como uma prévia da noite que estava chegando. De início, tudo que Teresa podia ouvir era o som incessante dos carros, do lado de fora, com suas buzinas e pneus agudos, o cântico dos passarinhos, que faziam ninhos nas árvores que enchiam as calçadas da rua, e a sua própria respiração ofegante, aos poucos, ela começava a se arrepender do que tinha feito mais cedo, não por achar que aquela biscate mirim não merecia isso, mas simplesmente por saber que sua atitude traria sérias consequências para ela. Quando começou a ouvir a voz de sua mãe, passando através da madeira da porta, Teresa soube que ela estava se exaltando, gritando com a senhora Cassiane. Um momento depois, Samanta saiu da sala, batendo a porta atrás de si.

— Vamo embora, Teresa, antes que eu dê na cara dessa professora! — ela disse, caminhando para a saída sem nem mesmo olhar para trás. Teresa a seguiu sem questionar, elas entraram no carro, e seguiram para casa.

— Teresa, por que você foi brigar na aula? Me diz — Samanta perguntou de forma rígida, ainda dentro do carro, enquanto parava por conta de um sinal fechado.

— Ela chamou você de interesseira — Teresa respondeu — Disse que você só casou com o Adenes pra arrancar dinheiro dele.

— Ela disse isso?! — Samanta a olhou com espanto.

— Disse.

— Que piranhazinha — Samanta disse com um misto de surpresa e raiva — Ela ouviu isso da mãe, eu tenho certeza, aquela família dos Souzas não vale nada.

— Eu defendi você, viu? — Teresa disse, tentando amenizar a sua culpa no cartório.

— Não, nem vem com essa, você foi expulsa da academia, sabia disso? — Samanta perguntou — A menina que você bateu é sobrinha da dona, ela perdeu dois dentes, Teresa, dois dentes! Foi pra isso que você me pediu pra estudar ballet?

— Não — ela negou, baixando a cabeça.

— E você acha certo o que você fez?

— Não — ela repetiu, um pouco mais baixo.

— Teresa, olha, eu sei que você quer me defender... — Samanta disse, fazendo uma pausa para olhar o sinal, e voltou a dirigir quando viu que estava aberto — Mas não precisa ficar brigando na rua, não, eu sou uma adulta, não preciso de uma criança me defendendo, só quem perde com isso aí é você, ouviu? Só você.

— Ouvi — Teresa murmurou, cruzando os braços de maneira resignada.

— Pois é, e agora? Você foi expulsa da academia, vai fazer o quê? — sua mãe perguntou, mesmo sabendo que Teresa não fazia ideia de como proceder; ela apenas deu de ombros, sentindo as lágrimas de frustração se formando em seus olhos, querendo escorrer, mas também querendo ficar por ali, embaçando a sua visão. O sol já estava a se pôr no horizonte, e os tons de azul escuro se espalhavam pelo céu, enquanto algumas estrelas surgiam.

Teresa acabou mudando para a academia de dança de Paulo Portas, na rua Xavier da Silveira, em Copacabana; também foi nessa época que elas se mudaram para o bairro de Copacabana, onde tinham mais acesso, tanto ao trabalho de Samanta (nessa época, ela ainda trabalhava), quanto à nova academia de dança. Teresa dançou ballet por uns sete ou oito anos, embora nunca tenha chegado a se apresentar em um palco.

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