A sinfonia da perna de pau

Teresa não pensou que teria que retornar à Brasilegs tão cedo, a não ser que ela ganhasse peso o suficiente para que tivesse que fazer uma nova remessa de exames e medidas, e conseguir uma prótese mais resistente para aguentar o seu corpo; mas não foi para isso que ela foi chamada. Quando seu nome foi chamado pela a assistente, ela engoliu em seco, levantando-se e indo para o corredor, passando pela mesma enfermeira fofoqueira do outro dia (agora, a mulher mascava silenciosamente um chiclete). Samanta foi logo atrás dela, não tão preocupada com o seu equilíbrio quanto antes. No dia vinte e sete de março, exatos cinquenta dias desde que ela conseguiu realizar um Grand Batterment com perfeição na barra fixa, Teresa recebeu uma carta da Brasilegs, convidando-a para uma pequena entrevista, eles não foram muito específicos, mas foram tão insistentes que (dado o seu estado) ela decidiu lhes dar o ar da graça. Teresa entrou na sala, vendo Julho Cezar sentado atrás do pequeno gabinete; eles lhes deu bom dia e elas responderam, se sentando nas duas cadeiras de madeira branca que ele havia posicionado à frente do gabinete. Teresa não pode deixar de notar o olhar e o sorriso de espertalhão dele, no momento em que a viu se equilibrar com perfeição em sua prótese e se sentar na cadeira sem precisar de ajuda.

— Então, Teresa, como vai você? — ele perguntou com um sorriso pretencioso no rosto.

— Vou bem — ela disse serenamente. Samanta apenas ficou em silêncio, entendendo que, dessa vez, ela podia falar sozinha.

— E aí, você foi pro Carnaval? — ele perguntou, apenas para diminuir a tensão, enquanto pegava uma planilha em sua gaveta.

— Não, eu nunca gostei muito daquela barulheira — ela disse. O carnaval daquele ano, tão barulhento como em todos os outros, trouxe alguns sucessos musicais que balançaram as ruas, entre eles, a música Doce Obsessão, da banda Cheiro de Amor. Seus amigos pegavam o avião para Salvador todos os anos, para pular carnaval com os baianos, ela era a única que ficava para trás, em parte, por sentir uma profunda aversão à todo aquele distúrbio sonoro.

— Certo — Julho Cezar disse — Então... Teresa, você poderia me dizer, de um a dez, qual o seu nível de satisfação com a sua prótese?

— Olha... Eu não sei ao certo — ela murmurou.

— Use um parâmetro, você acha que tá pra mais ou pra menos? — ele insistiu.

— Acho que... Sete — Teresa disse, depois de uma inspiração profunda.

— Por que? Você tem alguma crítica a respeito dela?

— A prótese é melhor do que eu pensava, eu consigo andar com ela, o ponto de equilíbrio é bom, e o pé antiderrapante ajuda muito; mas tem algumas coisas que não dá pra fazer com ela, como caminhar pra trás, por exemplo.

— Ah, sim, infelizmente, esse tipo de tecnologia ainda está fora de questão — ele disse calmamente, anotando alguma coisa em sua planilha — E as bordas de silicone, alguma vez elas te machucaram enquanto você fazia exercícios?

— Não — ela disse, e ele anotou novamente.

— Eu soube que você entrou no ballet, a prótese de ponta foi útil? Eu não entendo muito de ballet, então não sei como seria com uma prótese — ele disse, sorrindo de canto.

— Foi, ela foi útil — Teresa respondeu, sentindo o seu eu mergulhar novamente nas últimas lembranças, não tão otimistas assim — Eu já consigo dançar fora da barra, sabe?

— Hum, com certeza, o seu físico de bailarina tornou isso mais fácil, até na questão do equilíbrio, sabia? Tem gente que leva meses pra pegar o jeito, e você, em menos de dois meses, já caminha perfeitamente sozinha, e ainda dança.

— Bom, é, deve ser isso — ela disse, sorrindo.

— E como vai o ballet? — ele perguntou, e Teresa não soube se isso ainda fazia parte da entrevista, ou se Julho Cezar estava tentando conseguir sua simpatia de alguma forma. Nas aulas de ballet, tudo parecia bem, seu ritmo estava razoavelmente rápido, ela estava ganhando confiança em si mesma, ganhando uma visão mais otimista do futuro, isso, claro, até Fábio Albuquerque resolver dar as caras na academia, cerca de uma semana após o seu primeiro Grand Battement.

Teresa estava testando seus primeiros passos fora da barra, finalmente, após conseguir o equilíbrio necessário com a sua prótese de ponta. Os dias passavam mais rápido, os exercícios eram mais prazerosos, seu corpo reclamava com menos frequência. Teresa fazia um tipo diferente de pliés, nomeados por Luíza como pliés de ponta; ela também fazia sautés de ponta e Pas de chat de ponta. Apesar de ter algumas das regras alteradas ao seu favor, Teresa não ficava para trás das outras alunas; ela foi a primeira de sua turma a realizar um allongé com a ponta do pé, um movimento onde apoiava a ponta de seu pé esquerdo nos chãos, erguendo a perna direita para trás e subindo até que seu corpo estivesse completamente esticado. A cada dia que passava, os boatos corriam, e mais alunas fugiam de suas respectivas aulas para assisti-la treinando, por isso, quando conseguia um novo movimento, quando conseguia se equilibrar em uma nova postura, ela desfrutava ao máximo daqueles olhares de  admiração; quem é a inútil agora? Teresa perguntava à fadinha pessimista do fundo de sua mente, mas ela já não respondia nada. Em um desses dias, onde caiu nos comentários de todas as alunas, Teresa viu Emanuele de novo; a garota que teve os dentes arrancados com um dos seus golpes certeiros, na academia Flaviano Duquez. Emanuele era de uma turma mais avançada, ela treinava no terceiro andar, com as garotas grandes (era assim que as novatas se referiam a elas), mas acabou sendo atraída para a sala do segundo andar, pelos boatos que corriam a respeito da bailarina de prótese.

— Teresa, você lembra de mim? — ela sorriu com seus dentes falsos, abordando Teresa logo após o seu treinamento, e tocando-a calorosamente no ombro, como se fossem velhas amigas ou algo assim. Emanuele havia se transformado em uma criatura ainda mais patética com o passar dos anos. Os olhos dela irradiavam uma bondade falsa e tosca, as maçãs de seu rosto eram exageradamente evidentes, e seus cabelos tinham uma cor clara, como se mergulhados em água oxigenada.

— Eu? Ah, eu lembro — ela disse, um pouco acanhada, imaginando, por um momento, que Emanuele iria querer se vingar pelo soco, bem ali, na frente de todos. Sua postura invasiva era terrível, quase como uma declaração de guerra.

— Então, eu vi os seus movimentos, e meu Deus, como você consegue fazer aquilo com uma prótese? É incrível, sério!— ela exclamou.

— É mais fácil do que parece — Teresa disse com falsa modéstia.

— Menina, quando você levantou aquela prótese, eu pensei que você ia cair de cara no chão, sabe? Quebrar os dentes — Emanuele disse em uma falsa descontração; um calafrio passou pelo corpo de Teresa, ela sabia bem o que aquilo queria dizer, sabia bem do tipo de ameaça sutil que estava recebendo, e por um momento, ambas estiveram em silêncio, enquanto a densidade do ar parecia querer aumentar até que causasse dor em seus pulmões.

— Não, isso não vai acontecer — Teresa disse finalmente, tão tensa, que sentiu a sua voz vibrando.

— Sim, eu sei, menina — Emanuele disse, e riu de maneira descontraída — Eu só disse que eu pensei que ia acontecer, relaxa.

— Teresa — Luíza chegou ali, junto a mais duas instrutoras, salvando-a daquela situação — Vem cá.

— Certo — ela disse, e as acompanhou sem pestanejar. Teresa não olhou para trás, mas sabia que o olhar tenebroso de Emanuele estava sobre sua nuca, ela podia sentir.

— Você conhece o Fábio Albuquerque? — Luíza a perguntou assim que Teresa as alcançou.

— O coreografo — uma outra professora emendou, com uma empolgação notória na voz.

— Eu acho que já ouvi o nome em algum lugar, mas não tenho certeza — ela disse, Albuquerque era bem incomum, ela com certeza se lembraria de alguém com esse nome.

— Ele é um dos poucos coreógrafos de ballet que são relevantes do Brasil, ele já trabalhou em um especial pra tevê — Luíza disse.

— Ah, sério? E o que tem ele? — Teresa perguntou.

— A academia conseguiu a ajuda dele pra fazer o nosso novo evento cultural da tulipas, dessa vez, a gente vai ter bem mais tempo de tela no Jornal  — a professora empolgada respondeu na frente de Luíza.

— É — Luíza disse com indiferença — E ele quer conhecer você.

— E... Por que? — Teresa se espantou por um momento, não era todo dia que pessoas famosas queriam conhece-la, mas ela se deu conta que a sua perna amputada era, muito provavelmente, a culpada por essa mudança.

— Parece que ele quer que você dance no próximo evento cultural — Luíza disse.

— Ele quer, com certeza! — a outra professora disse, atropelando-a novamente; quem diabos é essa mulher? Teresa pensou.

— Não fique muito esperançosa, o evento é no início de abril, não sei se você vai tá pronta pra isso — Luíza disse. O início de março estava a umas três semanas de distância, o que de fato era um tempo bem curto, mas não seria problema se ela tivesse um papel pouco relevante na apresentação, um ou dois passos, não devia ser nada tão complicado.

— Talvez eu possa participar — ela disse, sentindo-se como uma criança doente, que recebe tudo nas mãos por não ter a capacidade de conquistar sozinha. O conceito de ter uma deficiência era esse, as pessoas sempre iriam se esforçar para destacá-la, ela não era Teresa, a aluna de ballet, ela era a garota de Prótese que dançava ballet.

Teresa conheceu Fábio Albuquerque umas duas horas mais tarde. Samanta tinha chegado de carro mais cedo, e ficado por ali, aguardando pela chegada do homem; quando ele chegou, já passavam das oito da noite, a escola estava praticamente vazia, as únicas pessoas ali eram Teresa, Samanta, Luíza, Juliana (a coordenadora baixinha), todas sentadas nos banquinhos da sala de recepção, e a turma avançada, que fazia hora extra no salão de dança logo ao lado. Teresa podia ouvir a sinfonia do lago dos cisnes, atravessando parcamente as paredes de concreto, e pensou em dar uma espiada nas alunas, mas apenas a ideia de ver Emanuele dançando, já lhe trouxe um embrulho ao estômago. Fábio era um homem alto, devia ter mais de 1,80, seus olhos eram negros e levavam pesadas bolsas, causadas pela idade, sua pele era de um tom bronzeado surrado, e os cabelos eram longos, presos num rabo de cavalo que revelava orgulhosamente a sua sutil calvície. Ele usava calça e jaqueta jeans, com um colarinho que revelava os pelos grisalhos do peito e o cordão dourado que tinha envolto no pescoço.

— Ah, oi, meus amores — ele disse amigavelmente, com uma voz bem mais aguda e suave do que se espera de um homem do seu porte.

— Oi, Fábio — Juliana se levantou e foi até ele, abraçando-o, como se fossem velhos amigos (talvez fossem).

— Oi — Luíza disse, se levantando e dando a mão para ajuda-la, Teresa normalmente recusaria, mas como era Luíza quem o estava fazendo, ela aceitou.

— Desculpem o atraso, viu? meu voo atrasou hoje cedo — Fábio disse, dando dois tapinhas bem suaves nas costas de Juliana e soltando-a, antes de olhar para Teresa e abrir um imenso sorriso.

— Oi — Teresa acenou, um pouco sem graça.

— Ah, meu Deus, você é tão fofinha — ele disse, se aproximando dela e abraçando subitamente.

— Ah, abraço? Claro — ela murmurou em um riso contido, retribuindo ao abraço de Fábio, de forma um pouco desengonçada.

— Tudo bem com você, fofa? — ele perguntou.

— É, na medida do possível — Teresa respondeu. Fábio desfez o abraço, mantendo uma mão em seu ombro e olhando fixamente em seus olhos. Ele espremeu os olhos, analisando-a com a precisão de um cirurgião, de um artista, então, sorriu.

— Você tem exatamente o perfil que eu tava procurando — ele disse, com a voz bem mais grave e séria do que antes.

— Eu tenho? — ela perguntou — Você tá falando da minha perna?

— É, eu também tô falando da perna, eu admito, você me pegou — ele disse, voltando à voz aguda — Mas seu rosto, querida, seu olhar, tudo isso me trás uma sensação de dor, você deve estar passando por muita dor, eu imagino, por isso você é tão perfeita pra minha apresentação — ele disse, e Teresa não soube dizer se aquilo era um elogio ou uma ofensa, não sabia como responder.

— Espera, isso aí foi meio grosseiro — Samanta disse, caminhando na direção de Fábio.

— Você tá procurando alguém triste? — Luíza emendou.

— Calma, calma, vocês não tão entendendo a essência da coisa, pessoal — ele disse em sua defesa — O que eu quero dizer é que a Teresa tem esse olhar estampado no rosto, o olhar de alguém que já viu o inferno, o olhar de alguém sensível...

— Olha, eu entendi o que você quis dizer, não precisa se explicar — Teresa disse, mas ele prosseguiu:

— A ideia dessa apresentação é a tristeza. O melhor da tristeza é que ela se esvai diante da esperança, sabiam? Esse é o momento mais bonito de tudo, o momento em que a angústia se transforma em felicidade, que a morte se transforma em vida, sempre é esse o momento mais bonito da coisa toda, na verdade, eu acho que todo artista deveria procurar por isso — Fábio disse, tão imerso, tão sonhador, que até parecia estar discursando para uma plateia, mas sua abordagem era um pouco distinta do que se via no ballet clássico. O lago dos cisnes era incrível, sublime, mas a felicidade era que se transformava em tristeza, e a vida se transformava em morte; no final do último ato, o príncipe Siegfried e a Odette se atiravam juntos no fundo do lago, depois que toda a sua alegria se foi, na tola esperança de ficarem juntos na vida após a morte, não havia nada da suposta alegria, a qual Fábio se referia.

— Bom, mas não é bem isso que eu tenho visto no ballet — Teresa disse.

— Como assim? — ele perguntou, em um murmúrio, como se estivesse incomodado com a interrupção.

— O ballet sempre representa melancolia, até nas sinfonias dele, eu nunca vi um...

— Ainda — ele a interrompeu — Você não viu a felicidade ainda.

— Tá, e o que você quer que eu faça exatamente? — ela perguntou, arqueando uma sobrancelha.

— Eu quero que você faça o papel principal — Fábio disse sem pestanejar, e Teresa sentiu o coração golpear as costelas em um doloroso momento de surpresa.

— Como é? — ela perguntou, arqueando agora as duas sobrancelhas em total descrença.

— Eu quero uma fila de bailarinas, se movendo com a precisão vista no ballet clássico, a música vai ser clássica, as roupas vão ser clássicas, enfim, tudo clássico, mas elas são coadjuvantes... — Fábio fez uma pausa, se aproximando de Teresa, e apertando seu ombro — Aí você entra em cena, meu amor, e surpreende o mundo com o seu estilo moderno, abrangente, livre... A ideia de liberdade nasce pra você, à partir do momento em que você depende dela, você entende? — ele disse com a voz grave de antes.

— P-papel principal? — Teresa perguntou novamente; essa foi, definitivamente, a última palavra que ela conseguiu entender.

— Sim, o papel principal — Fábio repetiu — A sinfonia da perna de pau — ele emendou, fazendo uma pausa — Esse nome é ofensivo pra você? Se for, eu posso mudar — ele disse.

— Não, não é ofensivo — Teresa disse, dando um passo para trás — Mas eu não sei se consigo fazer isso, não.

— É claro que consegue, você tem todo o potencial dentro de você, Teresa — Fábio disse. Aos poucos, o seu jeito insistente (e invasivo) começava a parecer sufocante.

— Mas não adianta ter potencial e não ter tempo pra treinar — Samanta disse em sua defesa, e ela respirou aliviada.

— Ela vai ter tempo suficiente pra isso, a apresentação é só em Abril — Fábio insistiu.

— Ainda é pouco tempo — Teresa disse.

— Dê um tempo pra elas pensarem — Luíza disse, calando a discussão antes que se tornasse fervorosa — Tá todo mundo cansado hoje — ela emendou calmamente, mantendo a firmeza autoritária de sempre.

— É, é uma boa ideia — Teresa confirmou desesperadamente.

— Vocês querem um tempo pra pensar? Teresa, amor, muitas meninas matariam pra ter uma oportunidade dessas, sabia? — ele perguntou, um pouco ofendido.

— Eu sei disso — ela respondeu asperamente — Mas eu ainda não me decidi, desculpa.

— Bom... Tá bom, tudo bem, mas ó, eu preciso da resposta até amanhã, as coisas tão meio corridas por aqui e não posso enrolar — Fábio deu de ombros, lhe dando espaço para respirar e indo em direção da entrada do salão — Amores, boa noite pra vocês, durmam bem, e pensem direitinho na proposta, viu? — ele disse antes de entrar na sala de dança para cumprimentar as destemidas alunas que estavam ensaiando despretensiosamente até esse horário.

— Teresa, essa é uma grande oportunidade pra você — Juliana disse, assim que o silêncio tomou conta da sala, até mesmo a sinfonia, na sala de dança, acabou se calando depois da entrada de Fábio.

— Ela já sabe disso, Juliana, deixa ela pensar no assunto — Luíza a interrompeu rispidamente.

— Tá, tá bom, boa noite então — Juliana disse, visivelmente irritada com a repreensão.

Teresa voltou para casa com sua mãe, e não pôde deixar de reparar nas decorações carnavalescas em algumas das lojas por onde passaram, com plumas e adornos coloridos. A loja americana de roupas havia vestido um par de manequins com fantasias de carnaval. Toda a cidade estava naquela animação que vinha antes da festança, em duas semanas, tudo ali iria ferver. Ela teve uma conversa com Samanta, pouco antes de ir para o seu quarto e iniciar a sessão final de exercícios de seu dia, ouvir música na rádio e ir dormir. Samanta tocou-a no ombro, não afim de checar a firmeza de sua musculatura, como Luíza fazia, apenas um gesto carinhoso, mas que ela já estava desacostumada a receber, por isso, contraiu instintivamente os músculos do braço.

— Teresa — Samanta disse calmamente.

— O que foi? — ela perguntou, olhando sobre o ombro e relaxando o braço.

— Você quer participar dessa apresentação? — Samanta perguntou.

— Eu não sei — ela disse, depois de um tempo em silêncio — Eu queria participar, mas não sei se eu vou aprender os movimentos a tempo, sabe?

— Talvez os movimentos não sejam tão difíceis — Samanta disse.

— Eu duvido um pouco disso, dava pra ver, só pelos olhos do Fábio, ele é maluco, não se importa comigo — Teresa disse, sorrindo nervosamente — Eu só fui pra lá porque queria aprender ballet, e aceitar isso vai ser muita responsabilidade pra mim.

— É, com certeza — Samanta disse, soltando o seu ombro — E a Luíza, ela tem te tratado bem? Eu vi que ela é meio chatinha.

— Ela é muito chata — Teresa a corrigiu, e elas riram juntas, preenchendo a sala com suas vozes — Mas ela é uma boa professora, a melhor que eu já tive.

— Você só teve umas três — Samanta disse, enquanto ainda sorria.

— Eu não tô falando só de ballet — Teresa disse — Eu tive um montão de professoras na escola — ela concluiu, e Samanta assentiu, contraindo os lábios em forma de compreensão.

— Então que bom que vocês duas fizeram as pazes — Samanta disse.

— Aham — ela respondeu. Samanta a fitou por um momento, um momento tão longo que chegou a incomodar, com seus olhos cheios de luz e orgulho, por fim, ela falou:

— Eu acho que você podia tentar.

— Eu? Tentar? — Teresa perguntou, um pouco incrédula.

— É, Tê, para pra pensar, se você conseguir, você vai ter um futuro brilhante pela frente, como uma bailarina, imagina.

— Ah, não, não, isso não vai acontecer pra mim, fala sério, tem muitas bailarinas por aí que são... Inteiras — ela disse, mesmo que, a essas alturas,  já não soubesse bem o que "inteiro" queria dizer.

— Você é inteira, Teresa — Samanta disse em tom de repreensão — A falta de uma perna não muda quem você é, e você é uma bailarina.

— Eu não sei se uma coisa tão boa iria acontecer assim, sem mais nem menos — ela disse, arfando — Eu não sei... Não comigo.

— Deixa de besteira, menina, a vida só começou pra você! — Samanta disse. Aquela foi a primeira vez que Teresa viu aquelas chamas nos olhos dela, como uma mãe pássaro que resolve atirar o seu filhote do ninho, sabendo que ele é bom o bastante para abrir voo pela primeira vez, confiando nele, em sua capacidade.

— Você acha que eu consigo, mãe? Acha mesmo? — Teresa perguntou, sentindo seus olhos arderem como se quisessem chorar. Samanta tomou fôlego, envolvendo-a em um abraço quente e aconchegante.

— Eu acho que você consegue qualquer coisa se você se dedicar — sua mãe sussurrou ternamente em seu ouvido. Teresa retribuiu o abraço, aconchegando-se no ombro dela, sentindo seu calor. Ela tinha muitas perguntas palpitando no fundo de sua mente, muitas perguntas, nenhuma resposta, mas decidiu começar a procurar a partir desse momento.

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