Luíza entrou no ballet aos quatorze anos de idade, em 1942. Sua carreira se iniciou com um projeto cultural que surgiu ali, no colégio Iraci Vieira, do interior de Guaratiba, mas, com a ajuda do governo, rapidamente se expandiu para um programa de dança em tempo integral, que abrigava aprendizes de dentro e de fora do colégio. Se as pessoas perguntassem para Luíza, qual o motivo de ela ser solitária em sua adolescência, ela provavelmente responderia, sem muita cerimônia, que era pelo fato de ela ser preta, as outras garotas eram brancas, e, como seu velho pai já havia lhe dito, em um dos seus últimos dias: pretos e brancos não se misturam, eles tem raiva da gente. As palavras dele se mostraram uma realidade até mesmo no dia de sua morte, quando o câncer o consumiu até os ossos, as únicas pessoas que apareceram no seu velório, foram os negros que moravam nas ruas próximas, nenhum branco se deu ao trabalho de aparecer para velar o corpo dele. Olhando para o rosto magro de seu pai, com dois algodões enfiados nas narinas, as quais se viam carcomidas pelas feridas, com as mãos grandes e o estômago inchado, enquanto a Dona Assunção cantava Ave Maria à capela, com aquela voz grave e retumbante, Luíza sentiu uma das piores sensações de sua vida, como se aquele fosse o som que se ouve quando alguém morre, o som horripilante que vem para anunciar o fim de tudo, e por muito tempo, ela não suportou ouvir a canção Ave Maria, ainda que tenha sido uma católica praticante durante toda a sua vida. A pequena casinha estava cheia naquela manhã nublada, seu José, dona Assunção, Marcos, Carlos Magno, e mais umas pessoas que ela não conhecia, toda a vizinhança negra estava por lá, para velar o corpo destruído de seu pai. Em seu sofrimento, Luíza comparou o rosto surrado daquele cadáver com o rosto forte e sorridente que ele costumava ter quando vivo e saudável, perdido nos cantos mais obscuros de sua memória. Seu pai, Emanuel Fonseca Dos Santos, tinha o dobro do tamanho de um homem comum, seus ombros eram tão largos, que, às vezes, Luíza tinha a impressão que não passariam pelas pequenas portas de sua casa (ela era feita de barro, e poderia desabar sob qualquer tipo de abalo), mas ele sempre passava, quase como se elas tivessem exatamente a sua medida. Emanuel era um homem clássico, seu dia começava e terminava no mesmo horário que o das galinhas; ele passava o dia inteiro pescando, e voltava para casa com um forte odor de peixe, beijava sua esposa na boca e sua filha na testa, e tomava um banho reforçado até que o mal cheiro saísse de seu corpo, depois, jantava com elas, e contava umas histórias duvidosas sobre os peixes enormes que ele supostamente tinha pescado. Emanuel era um grande contador de histórias, ele falava de peixes do tamanho de homens, de crocodilos marinhos que arrastaram seu barco (ainda que não existissem crocodilos na região), ou mesmo sobre já ter visto luzes estranhas se movendo nas profundezas, como fantasmas do oceano, essa história, em particular, causava arrepios de medo e fascínio em Luíza, todas as vezes que ele contava. Havia ainda uma história que Emanuel chegou a contar umas duas vezes (em ocasiões diferentes) durante o jantar.
— Quantos anos cê tem mesmo, hein, Luíza? — Emanuel perguntou, comendo uma colherada da sopa de bacalhau. Seu rosto era fascinante e quase fantasmagórico sob a frágil luz da lâmpada.
— Nove — ela respondeu, achando um absurdo que seu próprio pai não soubesse de sua idade.
— Nove, né? Então isso foi uns oito anos antes de você nascer, eu era rapaz ainda — ele disse — Eu tava pescando lá embaixo, perto da pedra da tartaruga, cê sabe onde fica, né?
— Sei — ela disse.
— Pois é, eu tava lá perto, esperando um peixe morder a isca desde que o sol nasceu, até ficar de tardezinha, e nada, nadinha — ele disse, bebendo um gole de água — Aí, Luíza, eu não sei se foi um tubarão, ou algum peixe grande, não sei, mas alguma coisa esbarrou no fundo do barquinho, e eu capotei pro outro lado.
— Caiu dentro d'água? — Luíza perguntou, com um fascínio evidente em sua voz.
— Afundei na hora — ele disse enquanto assentia — E nesse dia eu dei um azar daqueles, porque as ondas lá na região tavam subindo de uma altura que eu nunca vi, e eu tomei uns três caldos, perdi a canoa e comecei a me afogar, eu nadava, nadava, e toda hora tomava um caldo e afundava de novo. Mas aí, Luíza, na hora que eu tava quase desistindo, assim, no meio daquelas bolhas que tavam se formando, eu vi quando uma coisa chegou por baixo de mim — ele disse, sinalizando o tamanho da coisa com as mãos, era mais ou menos do tamanho de seu próprio corpo, o que significa que era enorme. Rosa, sua mãe, semicerrou os olhos até que fossem duas riscas negras, pondo uma expressão incrédula no rosto e negando com a cabeça.
— Toma vergonha, Emanuel — ela disse.
— Eu tô falando sério — ele retrucou, com a voz um pouco mais aguda do que o comum — Era uma tartaruga, Luíza, ela chegou por baixo de mim, eu segurei no casco dela, e ela nadou comigo até a praia, sabe a praia do perigoso? Aquela que é meio deserta?
— Sim — Luíza disse.
— Então — Emanuel concluiu — Aí, enquanto eu tossia lá na praia, vomitando a água que eu engoli, eu não sei se ela voltou pro mar ou se voltou pro além, mas ela sumiu de vista, e eu nunca mais vi aquela danada.
— Aí, você tá me dizendo que a tartaruga veio só te salvar, e foi embora? Cê não sabe nem mentir, Emanuel — Rosa insistiu, ainda negando com a cabeça. As histórias de seu pai sempre terminavam com sua mãe zombando dele, totalmente incrédula, mas Luíza acreditava, acreditava em todas elas, até mesmo nas mais absurdas e mirabolantes, e embora tenha negado isso para si mesma em vários momentos, ela continuou acreditando nas histórias dele durante toda a sua vida.
Mas a vida de seu pai nunca foi tão fácil quanto ele fazia parecer com todos aquele sorrisos, mesmo antes do câncer começar a come-lo vivo, os brancos já vinham fazendo isso no decorrer dos anos. Certa vez, eles o ameaçaram quando viram que ele estava prosperando na pesca, perto da pedra da tartaruga, sua pedra abençoada. Emanuel ignorou as ameaças, e, quando chegou ao porto na manhã seguinte, viu que eles tinham feito um rombo no fundo de seu barco; vendo o buraco com mais precisão, ele concluiu que aquilo foi obra de um rifle winchester antigo. Outra vez, eles foram a uma missa na Igreja São Pedro, e o padre (um homem do Rio Grande do Sul) passou horas falando sobre como os negros eram os descendentes pecaminosos de Caim, o primeiro homicida da bíblia, e que a cor negra foi atribuída a ele como a tal marca que é citada em Genesis, que supostamente seria um sinal para que as pessoas não o matassem, e deixassem que ele cumprisse a sua penitência em paz. Os negros eram os descendentes dele, e a penitência estava sendo paga dia após dia, foi isso que ela concluiu por conta própria. Quando chegaram em casa, já eram umas nove e meia da noite, Rosa a puxou num canto, e disse, tocando-a nos ombros:
— Luíza, isso que o padre disse hoje, só pra você saber, você não tem que ficar com medo, a gente não vai pro inferno por causa disso, não, viu?
— Tá bom — Luíza disse.
— Quando Jesus veio pra Terra, ele trouxe o perdão pra todo mundo, não deixe ninguém dizer que você vale menos só por causa da sua cor, tá bom? — Rosa disse, com uma triste piedade em seu rosto, há muito tempo surrado pelo sofrimento.
— Tá — Luíza disse, fitando-a com seus olhos grandes e confusos.
Emanuel apenas riu do que o padre disse, enquanto removia seu casaco velho e o prendia no gancho da parede.
— Esse homem tem merda na cabeça — ele disse, entre risos — Isso que ele disse nem tá na bíblia, pra começo de conversa.
— É, também tem isso — Rosa disse, rindo com ele, com um ar de alivio.
— Me diga, como que Caim ser preto vai impedir as pessoas de matar ele? E todos os pretos que já morreram nas mãos dos brancos?
— Bom, não sei — Rosa disse em um suspiro — Eu só sei que ele sendo ou não, isso não importa mais hoje em dia.
— É — ele murmurou — Não tem mais nada a ver.
Rosa não parecia muito menos abalada do que a própria Luíza no velório de Emanuel. Enquanto ouvia o cântico de Ave Maria à capela, ela parecia desmoronar por dentro, mas não chorava, ela já tinha chorado todas as suas lágrimas, seus olhos eram buracos vazios e sem vida. Talvez o motivo de Luíza ter escondido tanto os desprezos que sofria no programa de ballet da escola, era para não vê-la sofrendo ainda mais, ao saber que sua filha era tão perseguida quanto o falecido marido, mas aquele era um assunto que não necessitava ser falado, não era como se ela precisasse contar para Rosa, não era como se ela já não soubesse, elas apenas não mencionavam isso, porque já tinham problemas demais. Seus jantares, sem a presença vibrante de Emanuel, ganharam um tom melancólico e solitário, havia um buraco de angústia na cadeira onde ele se sentava, no canto da mesa, a cadeira do chefe, como ele costumava dizer, apenas para irritar Rosa, já que era ela quem dava as ordens ali. Às vezes, na parca e doentia luz da noite, Luíza via, pelo canto do olho, os ombros dele, ocupando a borda da mesa, mas não era a versão forte e saudável de seu pai, essa versão foi, por um bom tempo, apagada de suas memórias, o que Luíza via, espiando-a pelo canto de seu olho, era o Emanuel magro e carcomido, de estômago inchado, a versão de pouco antes de sua morte; mas quando, em um sobressalto, ela volvia o olhar para encontra-lo, ele desaparecia como fumaça, sem deixar rastros. Rosa perguntava-a o que era, e ela mentia, dizendo que pensava ter visto um gato ou um rato passar por ali.
De todas as histórias que seu pai lhe contou, a mais importante de todas foi, sem dúvidas, a da tartaruga, porque, ocasionalmente, ela veio conhecer uma tartaruga pessoalmente. Luíza estudava ballet durante a manhã, sendo esse o seu momento favorito do dia, as aulas começavam às sete da manhã, e duravam até o meio dia, se ela desse sorte, poderia treinar sem ser amolada por Fernanda e o resto de sua turma, as branquelas da região. Seu desempenho não era dos melhores naquela época, ela foi a última a começar no curso, chegando depois das primeiras semanas de aula, e acabou não pegando alguns dos movimentos básicos iniciais. Luíza constantemente errava os passos que as outras já estavam dominando com maestria, ela caía com muito mais frequência e, claro, ela era a garota negra, isso, por si só, ja a colocava em uma categoria completamente diferente das outras. Luíza podia se lembrar, tão claro quanto as águas, de uma vez, quando ela tentou realizar um Pilé, e seus pés não foram capazes de abrir o suficiente para as laterais, todas as outras fizeram isso com perfeição, mas ela travou, e seus pés, inclinados em uma posição patética, lembravam a ponta da calda de uma sereia; todas as alunas riram dela, e a professora revirou os olhos, repreendendo-a. Nesse mesmo dia, mais tarde, Luíza pegou a rota da praia do perigoso pela primeira vez. Seu pai costumava leva-la lá quando ela era bem jovem, mas eles nunca desciam das formações rochosas para a areia, era muito perigoso, segundo ele. A rota beirava um morro, ela era cercada de uma vegetação rala e espinhenta, que lhe permitia, não somente a vista do céu por entre as brechas das folhas, mas também do mar, no qual o morro estava parcialmente afundado, os pássaros cantavam aqui e ali, uns próximos, outros muito distantes; a brisa balançava as folhas, gerando um som aquoso e aconchegante que acalmava seus demônios. Quando chegou no fim da linha, Luíza pôde ver, pela primeira vez dês de a morte de seu pai, a praia do perigoso. O local estava vazio, o mar se estendia ao longe, beijando o horizonte, que se via repleto de nuvens amareladas, semelhantes àquelas vistas em pinturas de catedrais; as águas cristalinas golpeavam a areia de cor salmão, deixando marcas de espuma branca, com bolhinhas lilases e verdes que brilhavam na luz do sol. A pedra da tartaruga também era visível (e acessível) dali, com seu casco gigantesco, coberto por vegetações de todos os tipos que cresciam ali no Rio de Janeiro, sua cabeça, ao alto, se assemelhava tanto à de uma tartaruga real, que Luíza se perguntou se aquela maravilha poderia ser realmente uma tartaruga gigante, adormecida entre as rochas, apenas aguardando o dia em que poderia voltar para o abraço gélido do oceano, o dia em que poderia sumir na escuridão. Enquanto caminhava na praia, pensando no estrondo que seria causado pela enorme besta, caso viesse acordar um dia, os olhos de Luíza foram golpeados por uma nova visão que havia passado despercebida até então, como o fantasma que surgia no canto de seu olho, mas não estava lá realmente até que alguém notasse a sua presença. A criatura se arrastou por entre as ondas que golpeavam a costa, deixando um rastro de sangue que, hora era trazido, hora era levado pelas águas. Luíza correu até ela, na expectativa de vê-la sumir assim como o fantasma de seu pai, mas quando se aproximou, a tartaruga marinha ainda estava lá, cansada demais para fugir ou lutar com ela, apenas deixando que as águas lavassem o seu casco rachado e sangrento, enquanto respirava com dificuldade, emitindo um som sufocante, como de uma bomba de pressão defeituosa. Luíza a observou por um tempo, pensando em que grande coincidência era, encontrar uma tartaruga bem ali, embaixo da pedra da tartaruga, mas logo, o fundo de sua mente se ascendeu com a lembrança da história que seu pai contava, sobre a tartaruga heroína, que o salvou de ser afogar, e o levou até aquela mesma praia, oito ou nove anos antes de ela nascer. Luíza respirou fundo, com dificuldade, enquanto erguia suas mãos trêmulas e tirava a medida do casco da tartaruga, e se surpreendeu ao confirmar que (provavelmente) batia com o tamanho que o seu pai sempre mostrava quando contava essa história, aliás, também não haviam muitas tartarugas naquela região, então, Luíza imediatamente (e por conta própria) concluiu que essa tartaruga era a mesma que salvou a vida de seu pai; fazia todo o sentido em sua cabeça de menina, ela estava ali de volta, depois de toda uma geração, para cobrar o favor a ela, para pedir ajuda.
— Meu Deus... — ela sussurrou para si mesma, no momento em que, como em uma súplica, a criatura pareceu olhar diretamente para ela, movendo as nadadeiras e tentando sair do meio das ondas. Luíza se agachou e tentou puxa-la, mas a tartaruga era pesada demais para ela, mesmo toda a sua força era inútil, e seus braços finos apenas estalaram em protesto, enquanto ela empurrava aquele casco duro e quebradiço.
— Espera um pouco, eu já volto, eu volto já, já — ela disse, enquanto corria para longe, precisava encontrar um tronco ou algo parecido, para remover a tartaruga do meio das ondas.
Luíza correu pelas formações rochosas, de volta para a trilha fechada do morro, e passou pelo menos uns vinte minutos a procura de alguma coisa que servisse de prancha, mas não encontrou nada de útil, a vegetação ou era era fina demais, ou muito difícil de arrancar do chão, ou era cheia de espinhos. Quando ouviu um som alto e atordoante da água chicoteando a costa, ela voltou correndo, preocupada, imaginando que aquele golpe poderia ter sido forte o suficiente para parti-la ao meio de uma vez por todas. A tartaruga tinha uma rachadura grave em seu casco, provavelmente, obra de um tubarão ou qualquer outro monstro com força o suficiente para causar aquele estrago. Luíza acabou sorrindo quando viu a sua tartaruga no meio da praia, longe do perigo sufocante das ondas, e ficou imaginando de onde é que ela tinha tirado forças para se arrastar até ali. Ela se aproximou e sentou-se ao lado do animal, enquanto tentava pensar em alguma forma de ajuda-la; falar para a sua mãe seria inútil, ela apenas balançaria a cabeça negativamente, e diria algo como: Você tá ficando doida com a história de seu pai, isso sim. Se soubesse, naquela época, que as tartarugas fêmeas conseguiam ficar mais de cinquenta dias sem comer (e se ela soubesse que aquela tartaruga era fêmea), Luíza provavelmente não teria ficado tão preocupada com a alimentação dela, a qual ela veio a nomear, nos dias que se seguiram, de Ariel, já que funcionava bem independente de ela ser macho ou fêmea. No primeiro dia, Ariel (que ainda não tinha recebido esse nome) apenas caiu no sono, e por um momento, Luíza pensou que ela estivesse morta, mas quando cutucou-a, hesitante, ela abriu seus olhos serenos, fitando-a novamente, com aquela intensidade quase hipnotizante, como se tentasse falar alguma coisa para ela, como se quisesse lhe pedir um favor, mas não soubesse como. Luíza resolveu deixar que ela dormisse em paz...
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Atualizado até capítulo 23
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