Teresa tinha oito anos quando seus pais se divorciaram, naquela época, pouco antes da separação, eles viviam em um apartamento, na Rua Vinicius de Moraes, em Ipanema. Teresa passava a manhã na escola Pedro Freitas, a duas ruas dali. À tarde, ela brincava com as suas bonecas Barbies ou ficava sentada no sofá, foleando as revistas de moda que Samanta guardava em uma caixa de papelão, no depósito; as coleções de verão e inverno eram sempre fascinantes, com vestidos, calças, blusas e roupas íntimas de algumas marcas famosas da época, seu sonho (se é que alguém se pode se referir assim a um desejo tão furioso e inocente) na época, era ter idade suficiente para poder usar um sutiã, haviam modelos que a faziam ficar de queixo caído, perfeitamente presos ao busto de alguma modelo magrinha. Talvez fosse por conta da idade, mas Teresa costumava achar que todas as modelos das revistas eram a mesma pessoa com diferentes cortes de cabelo. Às vezes, ela ia até a sua mãe, mostrando um sutiã de renda ou uma lingerie que chamou sua atenção.
— Mamãe, compra esse aqui pra mim? — ela erguia a revista para sua mãe, mostrando a peça responsável pelo seu desejo furioso de ser logo uma adulta. Samanta, sua mãe, sorria, achando aquilo fofo.
— Quando você ficar mocinha, eu compro — respondia-a.
— Vai demorar pra eu ficar mocinha? — ela perguntava, e sua mãe ria com gosto, o riso dela era suave e melodioso.
— Vai demorar um pouquinho ainda, tenha paciência — Samanta dizia em resposta. Teresa ficava um pouco inconformada por um momento, mas, como qualquer criança, ela acabava esquecendo daquilo rapidinho.
Quando passava pelas páginas onde estavam aqueles caras de sunga, e seus pais estavam por perto, Teresa largava a revista de lado, fingindo estar enojada, só para vê-los dando risada; ela gostava quando eles riam genuinamente daquela forma, mas odiava o riso exagerado de seu pai quando assistia Os trapalhões na televisão, as gargalhadas dele eram afiadas e altas, e ela sempre detestou barulhos altos.
— Teresa, me faz um favor, continue assim até os trinta anos — seu pai dizia, e ela concordava com a cabeça, mesmo sem entender bem o que ele queria dizer.
De tardezinha, Teresa saía para brincar com as crianças da vizinhança, conhecia Pedro, a Júlia e o Ricardo, eles eram como um grupinho que sempre atraía a atenção dos demais, e suas brincadeiras sempre acabavam agregando um monte de crianças desconhecidas de outras ruas, até que o pega-pega, esconde-esconde ou taco (ou qualquer outra brincadeira com um nome idiota) se transformasse em uma balbúrdia, e algum vizinho, incomodado pelo barulho, viesse reclamar e acabar com a diversão. À noite, depois do jantar, ela apenas ficava em casa, assistindo novelas com seus pais, aquele era o momento em que eles ficavam mais próximos, e podiam torcer e vibrar juntos. Quando a novela acabava, ela ia dormir e seu pai ficava assistindo ao futebol, ou algum filme noturno. Teresa sempre ia dormir às nove e meia e sempre acordava às sete. Apesar de praticamente todos os dias serem iguais, ela ainda não tinha uma noção muito definida de rotina; são os adultos que falam em rotina, as crianças vão, simplesmente, inocentemente, vivendo.
Foi em uma noite de domingo que a sua vidinha desmoronou, Samanta Cavalcante era uma mulher relativamente religiosa, uma católica não praticante; ela bebia, falava palavrões e com certeza descumpria alguns dos dez mandamentos, mas ela ia às missas de domingo na maioria das vezes, arrastando Teresa com ela; óbvio que isso não se aplicava ao Adenes, que nunca pisou um pé na igreja. Elas iam à missa, ele ia para o bar da esquina, beber com seus amigos e esquecer que tinha uma família. Mais tarde, quando chegavam em casa, seus pais brigavam, e Teresa ficava quietinha em sua cama, escutando os sons de gritos furiosos e de coisas caindo, às vezes, um copo ou prato se quebrava, se passavam alguns minutos de silêncio, e ela pegava no sono. No dia seguinte, eles não se falavam pela manhã inteira, às vezes, por boa parte da tarde também, mas acabavam se resolvendo antes de cair a noite, era isso, vida que segue; mas nesse domingo, no ano de 1981, os sons de briga cessaram abruptamente depois de um estalo alto, como o som de um tapa. Na escuridão de seu quarto, debaixo dos edredons, Teresa imaginava o que poderia ter acontecido, mas não tinha coragem para sair e ir ver pessoalmente; seus pais se transformavam em verdadeiros monstros nas noites de domingo, não era uma boa ideia ir falar com eles até o amanhecer, mas ela nem precisou fazer isso, sua mãe abriu a porta do quarto em um estalo, e foi até ela, Teresa ficou quietinha ali, fingindo estar dormindo, enquanto Samanta puxava os edredons e se deitava ao seu lado, abraçando-a na escuridão aconchegante. Se Teresa soubesse o que tinha acontecido naquela noite, se ela pudesse ao menos imaginar, teria se virado e a abraçado de volta, mas ela não sabia, não fazia ideia do que estava se passando.
Apenas no dia seguinte, quando viu o olho roxo, e o corte no lábio inferior de sua mãe, que Teresa veio a entender o que tinha ocorrido, Adenes, aquele mesmo que se sentava com ela todos os dias para assistir televisão, o mesmo que a beijava na testa todos as noites de segunda a sábado, antes de coloca-la para dormir, exatamente aquele homem, tinha batido no rosto de sua mãe, tinha usado aquele mesmo punho em sua mãe, o punho que, com veemência, jurou que o usuária apenas para defende-las. Samanta a puxou pelas axilas e a colocou numa cadeira, se agachando à sua frente e fitando-a com o olho que ainda estava aberto.
— Filha, você já tá grandinha pra entender esse tipo de coisa, então eu não vou fazer rodeios; eu vou me separar do seu pai — ela disse, com palavras tão pesadas e soturnas que machucavam seus ouvidos, estava segurando as lágrimas.
— Por que? — Teresa perguntou com a voz chorosa — Foi ele que te bateu? Ele que deixou seu olho roxo?
— Bateu — ela respondeu secamente, sem fazer questão de aliviar as coisas — Seu pai é um idiota, Teresa.
Teresa sentiu seus olhos se encherem de lágrimas, antes de começar a chorar, primeiro com gemidos baixos, depois, escandalosamente.
— Ah, Teresa, quem apanhou não foi você, não, dá pra parar com isso?! — Samanta a repreendeu, ficando de pé.
— M-m-mas e eu vou f-ficar onde? — ela perguntou entre soluços, enquanto as lágrimas escorriam dos seus olhos, lavando o seu rosto, a ideia de pensar em um mundo onde seus pais não estavam juntos era aterradora, algo tão profundo e desconhecido como o inferno, algo que lhe causava um pavor indescritível, mas também lhe trazia angústia. Aquela era uma mistura de sentimentos muito complexa para uma garota da idade dela, e Teresa sabia que aquilo a tinha marcado para sempre de alguma forma; filhos de pais divorciados, nunca são iguais aos filhos de pais que ainda estão juntos, o rompimento do elo mais forte que ela conhecia em sua infância, também foi o rompimento de alguma coisa dentro de seu coração.
— Você vai ficar comigo, eu não vou entregar uma filha pra ele bater, não, você vem comigo — Samanta disse repetidamente, soluçando para conter o choro, e Teresa viu, por um momento, um brilho de lágrimas em seus olhos.
— M-mas e o papai? P-pra onde ele vai? — ela perguntou, aos prantos, o ranho em seu nariz já formava uma bolhinha.
— Seu pai é um... — Samanta começou, com um misto de fúria e tristeza, mas ela olhou bem para o rostinho de Teresa, e toda a raiva pareceu se esvair de seu aspecto — Seu pai é um adulto, filha, ele vai se virar, tá bom? — ela se abaixou novamente e tomou Teresa pelos ombros, abraçando-a e fazendo carinho em suas costas.
— E-eu ainda vou ver o papai? — ela perguntou
— Eu não sei, amor, eu não sei — sua mãe respondeu com ternura. Teresa chorou no ombro de Samanta, Samanta chorou no ombro de Teresa.
Samanta não era uma péssima mãe, mas não era das melhores; ela esteve ausente em muitos momentos que Teresa precisou dela, esteve ocupada em muitos momentos difíceis de sua adolescência, e seu primeiro cigarro foi fumado na frente dela, o primeiro de muitos, até ela ver uma matéria, na televisão, que falava sobre os malefícios do cigarro, e decidir largar por conta própria; os dentes amarelos e desgastados retiravam completamente o charme do fumo, e tinha o câncer também. Teresa sabia que mães deveriam corrigir suas filhas, mas só foi descobrir isso quando já estava mais velha, porque Samanta nunca a impediu de fazer o que ela queria, nunca brigou com ela por nenhum outro motivo que não fosse incomoda-la quando assistia televisão ou quando levava um novo namorado para casa, sim, ela não era uma boa mãe, mas, primeiro: ela não merecia apanhar, ninguém merecia; segundo: ela não era insensível ao ponto de ignorar o seu sofrimento, e terceiro: ela não era uma interesseira, tudo que ela tirou de Adenes na separação, foi aceito de bom grado por ele, em uma tentativa falha de reconquista-la.
— Às vezes eu fico sem entender, Gustavo, eu fico sem entender, se você sabe que sua família é assim, por que você me chama pra essas idiotices? — Teresa o questionou asperamente, quando eles já estavam no carro, cruzando a Avenida Atlântica. Como já era de se esperar em um domingo, às sete e meia da noite, o local estava mais movimentado que o comum.
— Tá, minha vó é meio chatinha mesmo, mas você também não foi nada legal lá — ele respondeu, ainda tentando parecer calmo — Você achou o quê? Que ela não ia ouvir você sussurrando que ela era chata bem na frente dela? Pelo amor de Deus, né?
— Eu não achei coisa nenhuma! — Teresa disse — Eu nem sabia que aquela velha tava atrás de mim naquela hora.
— Você nem ligou! — Gustavo disse — Esse é seu problema, você não liga pra nada!
— Espera aí, agora a culpa é minha? É isso que você tá dizendo? — Teresa perguntou, forçando Gustavo a olha-la
— A culpa foi de vocês duas, vocês duas dificultaram a coisa! — ele respondeu, voltando a atenção para a estrada o mais rápido possível — Ela já tava enchendo o saco com essa coisa de viagem dês de que chegou aqui, aí você vai lá e faz aquela cara de tatu pra ela...
— Ah, a viagem pra Paris, quer saber? Esquece essa viagem, se for pra eu ficar ouvindo esse tipo de coisa daquela velha, eu prefiro nem ir — ela disse.
— Ham? Ah, não, deixa de besteira, Tê! — Gustavo disse, começando a perder a paciência, ele fingia ser frio e calmo, mas a verdade é que Gustavo sempre foi uma bomba prestes a explodir, o calor subia, suas sobrancelhas ralas baixavam sobre os olhos, e o que vinha em seguida, só Deus sabia, mas ela sentia que estava prestes a descobrir.
— Tô falando sério, eu não vou pra Paris com você — ela disse, firme em sua decisão.
— A gente já tava quase comprando as passagens, vai desistir assim, encima da hora? — ele perguntou, com a voz elevada, e as sobrancelhas perigosamente baixas sobre os olhos.
— Vou — Teresa respondeu.
— Ah, quer saber? Tá, tá certo — ele disse, um pouco mais agudo do que o comum. Eles ficaram em silêncio, como normalmente acontecia quando ela ganhava uma discussão. Gustavo sempre precisava de um tempo até aceitar a ideia de que ficou sem argumentos, mas, mesmo derrotado, ele sempre tinha que fazer um esforço redobrado para fazer ela ficar de boa com ele, se não fizesse, aquele poderia ser, perfeitamente, o final de sua relação, e ela se importava? Não.
Subitamente, o carro aumentou a velocidade, a Avenida à frente finalmente parecia mais vazia, os carros que ocupavam a via simplesmente haviam saído para as ruas e desaparecido como fantasmas, deixando o caminho livre para que ele pudesse correr, mas Gustavo estava exagerando nessa noite, ele nunca corria dessa forma, nunca passava de setenta quilômetros por hora nem mesmo em via expressa, e o indicador, no painel do carro, já marcava noventa quilômetros por hora, subindo assustadoramente para os cem.
— Diminui a velocidade — ela disse, não omitindo o medo em sua voz. O mundo, visto pela janela, estava começando a se transformar em um borrão cor de vômito.
— Hum? — ele murmurou, fingindo que não estava escutando.
— Gustavo, eu não tô brincando, diminui a velocidade, agora!
— Eu tô com pressa — ele respondeu sombriamente. O carro chegou em cento e dez por hora
— A gente vai é morrer se você dirigir desse jeito, Gustavo, a estrada tá muito movimentada, abaixa essa velocidade agora! — ela disse, notando sua própria voz chorosa, mas Gustavo não lhe deu ouvidos, a versão irritada (e até então desconhecida) dele era completamente maluca.
Teresa conhecia o som da morte, já tinha ouvido uma vez em sua infância. Foi em uma noite de segunda-feira, no velório de sua avó materna, que tinha o mesmo nome que ela, Maria Teresa, embora todos a chamassem de dona Maria. Ela era uma velhinha bem debilitada, devido aos tornozelos inchados pela diabete e obesidade, ela andava sempre com uma bengala de ferro com o comprimento ajustável, na verdade, quando pensava no assunto, Teresa nunca viu a sua avó tirar os pés do chão, ela sempre os arrastava para caminhar. Dona Maria se arrastou por uns trinta anos, lutando contra as suas inúmeras marcas de operação e doenças crônicas, e sua morte, aos oitenta, em 1983, foi uma espécie de alívio para ela. Seu funeral foi dois dias depois da morte; Dona Maria usava um vestido negro, cheio de joias, o que fazia seus seios enormes parecerem dois montes de diamantes, suas mãos estavam posicionadas entre eles, e ela tinha algodões enfiados nas narinas. Mais cedo, sua mãe havia explicado para ela que os algodões eram para impedir que o mal cheiro saísse do cadáver, o que a fez imaginar como isso ocorria, quer dizer, um defunto ainda poderia expirar uma nuvem de fedor de suas narinas? A ideia era fascinante e assustadora. Sua ficha só caiu realmente quando ela a viu com seus próprios olhos, sua avó estava pálida, mais inchada do que o comum, paralisada pela morte. Enquanto o padre se colocava à frente do caixão e fazia a reza do pai nosso, coisas obscuras chegaram na sala, vindas das profundezas do abismo, instaladas nos cantos das paredes onde poderiam parasitar, mas apenas Teresa foi capaz de senti-los, apenas ela foi capaz de ouvir a sua sinfonia macabra. Era um som terrível, como o de dez violinos em uma sala enorme, como se cada um deles arranhasse em uma nota diferente, graves, agudos, e outras coisas que ela sequer saberia distinguir, cada um em sua desafinação particular, todos unidos, causando o ruído mais perturbador e profano que os ouvidos humanos poderiam escutar, isso se eles pudessem, talvez ela fosse a única pessoa capaz de ouvi-los, porque ninguém ao seu redor parecia se importar com o som, ninguém parecia ouvir, mas a sinfonia da morte prosseguia, baixinha, vindo de todos os lados, se tornando mais alta e mais perturbadora. A respiração de Teresa se tornou mais pesada, seu coração foi acelerando, um suor frio escorria pela sua pele, como se a própria morte passasse o dedo frio e podre pela sua nuca, dizendo, com uma voz rouca e gorgolejante, que ela seria a próxima, dizendo que a morte chega para todos, e que essa melodia desarranjada é tudo que lhes resta no final das contas.
— V-Você tá ouvindo isso? — ela perguntou, olhando para a sua mãe com os olhos arregalados; um arrepio se fez em toda a sua pele.
— Isso o quê? — Samanta perguntou.
— Esse som ... — quando terminou de falar, o dedo da morte desceu pela sua coluna, arranhando e profanando com a sua sanidade, trazendo o pavor direto para o seu coração; Teresa abriu a boca, ficando em silêncio por um instante, então, caiu no choro.
— Oh, meu amor, vem cá — sua mãe a abraçou, colocando a cabeça dela para descansar em seu peito e tentando fazer com que ela se sentisse melhor. Teresa chorava, as pessoas tentavam consola-la, todas bondosas, mas enganadas pela aparência, achando que se tratava de uma mera tristeza pela perda de sua avó, mas o que ela estava sentindo, de verdade, não era tristeza, era algo bem pior, pavor, um pavor indescritível por aquela sinfonia crescente que apenas ela conseguia escutar, como se sua alma estivesse em um outro plano, aquela coisa tinha levado a sua avó para um lugar muito mais distante do que qualquer um poderia imaginar, era para lá que todos eles iriam, não existia esperança no mundo, todos estavam destinados ao caos indescritível dos desarranjos da morte.
Teresa reconheceria aquela aberração sonora em qualquer lugar, ela soube do perigo no momento em que aquela sinfonia tocou, vinda dos cantos mais obscuros de sua mente, como se dezenas de esqueletos tocassem seus violinos feitos dos ossos daqueles que se juntaram a eles, como se o dedo da morte tocasse novamente em sua nuca, e ela sussurrasse em seu ouvido, com sua voz fria e grotesca: "ei, Teresa, achou que ficaria longe de mim por muito tempo?" Seguida de uma gargalhada que parecia acompanhada por diversos gemidos de dor e gritos de desespero.
— Gustavo, por favor — ela pediu pela quarta vez, com sua voz chorosa e os olhos cheios de lágrimas, com o pavor trazido de volta pelas suas lembranças macabras; mas ele não lhe deu atenção, ele era um grande idiota.
Quando estavam chegando na rua República do Peru, um Uno surgiu subitamente em seu campo de visão, freando e cantando pneus no asfalto, se a lataria era cinza ou negra, ela nem chegou a ver. Por um instante, o som do freio foi ensurdecedor, depois teve o baque, que estourou em seus ouvidos como um disparo de bazuca; vidro se quebrando, o grito estridente de Gustavo, o calor do fogo, escuridão. A melodia da morte nunca esteve tão desarranjada como nesse momento. Teresa conhecia bem o som da morte, era aquele som.
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Atualizado até capítulo 23
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