Represa de lágrimas

À noite, depois que voltou para casa, Luíza quase não conseguiu dormir, se perguntando, a todo momento, se Ariel estaria bem, se ainda estaria lá quando ela voltasse no dia seguinte. Outro questionamento pertinente que tirou o seu sono, foi uma profunda dúvida a respeito da realidade em que vivia, poderia realmente uma tartaruga retornar para cobrar um favor de uma família? Se não fosse, o que eram aqueles olhos tão expressivos? De um jeito ou de outro, ela sentia que deveria retribuir o favor. No dia seguinte, logo após a aula de ballet, Luíza pegou uma maçã que estava dando sopa em sua casa, ela comeu metade na rota para a praia, e guardou a outra metade para Ariel, seu coração bombeava forte contra as costelas só de pensar na possibilidade de ela não estar mais na praia, ou pior, de ela estar morta; se isso acontecesse, Luíza estaria sozinha de novo, e isso a assustava mais do que qualquer outra coisa. Quando avistou a praia, no final da trilha, ela respirou aliviada, Ariel estava exatamente no lugar onde ela a deixou, respirando, e de olhos abertos. Ela trabalhava em algo diferente agora, juntando suas nadadeiras e puxando fracamente a terra, tentando fazer um buraco. Luíza correu até ela, lhe oferecendo a banda da maçã, mas Ariel a rejeitou, virando o pescoço para o outro lado; seus olhos ganharam uma nova expressão, um misto de fúria e súplica, enquanto ela se movia, tentando cavar em outra posição. Observando aquela atitude, Luíza pensou: Tá, você não quer a maçã, mas eu posso te ajudar a fazer um buraco, isso eu posso fazer. Ela se colocou de joelhos à frente de Ariel, e começou a cavar, enfiando as mãos na terra fofa e ajudando-a a abrir o buraco. Ariel não rejeitou sua ajuda, muito pelo contrário, ela deixou que Luíza fizesse quase todo o trabalho, e quando o buraco estava fundo o suficiente para o seu gosto, ela se virou com uma lentidão agonizante e dolorosa. Por um momento constrangedor, Luíza pensou que Ariel fosse tentar fazer cocô, mas quando viu uma coisa branca e redonda surgindo de um buraco, no fundo de sua calda, ela soube que Ariel era de fato uma fêmea, e que aquele era um dos seus ovos. A Ariel vai ser mamãe, sério? Foi isso que ela veio fazer aqui? Pensou Luíza, boquiaberta, enquanto observava, com uma expectativa quase prazerosa, a tentativa de Ariel de pôr o ovo no buraco; mas, depois de forçar por um bom tempo, ela desistiu, soltando um gruindo de insatisfação e dor, e sugando o ovo para dentro de novo. Luíza ficou sem entender, franzindo o cenho e batendo no chão.

— É só você fazer força, vai! — ela disse, mas Ariel não lhe deu ouvidos (se é que ela tinha ouvidos), apenas se aconchegando onde estava e ficando quietinha, com o rabo ainda virado para o buraco, mas sem forças para concluir a sua tarefa, sem forças (ou coragem) para enfrentar aquela dor alucinante que partia o seu corpo ao meio. Luíza entendia perfeitamente o sentimento, ela entendia melhor do que ninguém; a dor que cortava o seu corpo ao meio era quase tão terrível quanto a de Ariel.

Depois daquele dia, Luíza concluiu que deveria ajuda-la a se recuperar de seus danos, para que ela pudesse colocar os seus ovos, e para isso, ela iria precisar de comida. Todos os dias, após o ballet, ela roubava algum tipo de fruta diferente de sua casa, ou de algum dos vizinhos e tentava dar para Ariel, mas todas as suas oferendas eram veementemente rejeitadas pelo animal, que sempre virava a cara para o outro lado, se arrastava novamente para o buraco, e tentava colocar os ovos mais uma vez, e desistia mais uma vez. Ao mesmo tempo, Luíza passou a se dedicar mais ao ballet, uma chama se ascendeu em seu peito, um poder revigorante e quente, que ela só foi entender, muitos anos depois, que era simplesmente a sua vontade de viver, que, há um tempo, havia sido tirada dela, quando seu pai foi engolido pelo silêncio macabro da morte, que se espalhou pela sua casa, e mergulhou tudo em silêncio. O silêncio é um câncer, um câncer que se expande até tomar conta de tudo, pensou ela certa vez, no momento em que as melodias vinham do mar até ela, cheias de energia, cheias de vida, preenchendo o silêncio. Em dias quentes, quando os ventos não uivavam, Luíza ia até o mar, levando um balde velho que ela tinha encontrado na calçada de uma casa na rua Barros de Alarcão, enchia-o de água, e levava novamente até Ariel, despejando-a encima de seu casco, Ariel erguia a cabeça, fechando os olhos em alívio e agradecimento, enquanto o frescor escorria pelo seu corpo, e aquele olhar de gratidão, que ela via estampado nos olhos de sua tartaruga, dizia que tudo iria dar certo, tudo iria ficar bem para elas. Uma palavra não precisa ser dita para que seja uma palavra, às vezes, elas só precisam ser sentidas; Luíza acreditava nos sentimentos de Ariel, ela acreditava em suas palavras silenciosas.

Conforme os dias passavam, a rachadura no casco dela se parecia menos com um ferimento, e mais com uma cicatriz, a energia voltava, aos poucos, ao seu corpo, e a canção do mar ficava cada vez mais alta, vindo do horizonte, como milhares de instrumentos enérgicos, clássicos, modernos, e outros tipos que ela nem conhecia. Quando o som se tornou irresistível, ela começou a dançar. Primeiro, Luíza encontrou uma pedra que era lisa o suficiente para servir de piso, em meio às formações rochosas que cercavam a praia, ela levou suas sapatilhas de meia ponta, e começou a ensaiar em tempo integral. Pela manhã, ela fazia aula de ballet com as outras, ouvia algumas piadinhas com a cor de sua pele e tinha que encarar o olhar dos adultos, que era uma cruel piedade conformada, algo como: isso está errado, mas quem manda uma preta vir estudar por aqui? Ao meio dia, Luíza almoçava silenciosamente com a sua mãe, poupando alguma coisa de seu prato para dar à Ariel (mesmo sabendo que aquela ingrata iria simplesmente torcer a cara), Rosa já nem se importava mais se ela deixaria alguma coisa sem comer, se ela demorava fora de casa, ou sequer para onde ela estava indo todos os dias, a morte de Emanuel também acabou com a vida dela, e quase acabou com a de Luíza também, mas não, ela não deixaria que isso acontecesse,  aquela ainda não era a hora de ela ir para a cova. Durante o resto da tarde, Luíza viajava naquela melodia oceânica, ensaiando, sobre a sua pedra plana, os passos que aprendeu pela manhã, ela fazia Pilés, Batterments, Jetés, Frappés, ou qualquer outro movimento que as meninas brancas já dominavam com maestria. Às vezes, a canção era tão incrivelmente explosiva, que ela podia ver as ondas do oceano subindo, despencando e gerando correntes de barulho explosivo, correspondendo perfeitamente com o seu esplendor selvagem e cheio de vida. Quando terminava de ensaiar, por volta das quatro da tarde, ela estava encharcada de suor, a canção se acalmava, tornando-se baixa e serena, como se quisesse que ela descansasse. Luíza descia para a praia, e ficava um pouco com Ariel, que, de tão acostumava com a sua presença, apenas se aconchegava nela, ficando quietinha onde estava. Elas assistiam ao pôr do sol, juntas, no silêncio tranquilizante que chegava, sem surpresa, sem terror, apenas um calmo e preguiçoso silêncio...

— Você tem que colocar esses ovos, Ariel — ela disse, certa vez, em um sussurro gentil — Eu não sei se você ainda vai ter muito tempo — emendou, mesmo sabendo que Ariel não diria uma palavra sequer em resposta. O sol finalmente beijava o oceano, indicando que já era hora de ela voltar para casa.

É óbvio que seus esforços trouxeram resultados, como todo bom esforço. Alguns até poderiam dizer que ela era uma louca por dançar uma melodia que apenas ela era capaz de ouvir, por um tempo, ela quase concordaria com essa afirmação, mas essa melodia foi o ritmo de sua superação, o ritmo de seus pás, realizados com uma destreza adulta e profissional, sobre aquela rocha plana, em meio à formação rochosa que se projetava da praia do perigoso. Não demorou para que o mundo visse isso, não demorou para que Fernanda visse isso. O primeiro embate que teve com a garota branca, foi na vez em que ela conseguiu realizar uma sessão de Grand Battements, por conta própria, na barra. Perna para trás, perna para o lado e perna a frente, desce os braços para a primeira posição, descansa, repete. As aulas de ballet eram realizadas na Arena Carioca, uma pequena arena de apresentações culturais, que foi erguida na rua Parlon Siqueira, umas duas décadas antes de ela nascer, e ocasionalmente (bem depois de ela se mudar dali), viria a se tornar um dos palcos mais utilizados na região norte do Rio de Janeiro. O local era relativamente espaçoso, tinha um cheiro de madeira nova, e tinha barras e espelhos improvisados, presos às paredes do palco. A arena não era exatamente privada, então, às vezes, alguns bêbados desocupados entravam e ficavam nas cadeiras da plateia, para assistir o treinamento das jovens bailarinas, eles apontavam, riam de seus tombos, alguns perguntavam quem era a aluna negra, mas a professora Sara sempre as instruiu a ignora-los, feito isso, eles acabavam desistindo e voltando para o buraco de rato sujo de onde vieram. Salvo isso, a arena carioca era quase sempre vazia, e talvez, as alunas brancas sentissem privacidade e confronto em estar ali, Luíza não sentia, o único lugar que lhe proporcionava conforto, dês de a morte de seu pai, era a praia do perigoso, o antigo santuário dele, agora, seu santuário. Naquele dia em especial, quando concluiu a sua sofrida sessão de Grand Battements, a professora Sara a elogiou, com um sorriso de surpresa e orgulho no rosto, exaltando-a em frente de todas as outras alunas:

— Parabéns, Luíza — Sara disse — Aqui, meninas, é desse jeito que eu quero que vocês façam — ela disse, para que todas as alunas ouvissem, sua voz alta retumbou pelos cantos da arena, e por um momento, Luíza saboreou a sensação doce de estar acima das outras, de estar acima das garotas ricas, mas o seu enlevo não durou muito. 

Luíza sempre voltava para casa a pé, e não apenas porque meios de transporte eram coisa de pessoas ricas nos anos quarenta (eles eram, sim), mas porque a sua casa ficava a umas duas ruas da Arena Cultural Carioca. Ela era sempre a primeira aluna a sair do meio da algazarra no final das aulas, parte disso, porque tinha que ir para casa, almoçar às pressas, e correr para a sua trilha, no final da rua Parlon Siqueira. A melodia do mar a esperava, Ariel a esperava; mas nesse dia, ela trombou com Fernanda pela primeira vez, quando já chegava no ponto inicial de sua rota. Fernanda era uma garota grande, com ombros largos e cabelos ruivos, ela foi a primeira e última ruiva que Luíza conheceu na vida, e o que a fez criar uma ideia errônea que os brancos ruivos eram especialmente cruéis em comparação com os outros. No momento em que seus pés tocaram o piso da trilha, Fernanda surgiu de trás de um arbusto, segurando em seu cabelo e puxando-a para trás. Luíza gemeu de dor e surpresa, enquanto era arrastada pela mão forte de Fernanda.

— Ai, ai, me solta! — ela gritou, mas a Fernanda não lhe deu ouvidos, isso só a fez puxar ainda mais violentamente.

— Pra onde a pretinha tá indo, hein? — Fernanda perguntou, com sua voz grave, quase masculina.

— Não interessa! — ela gritou em reposta.

— Como é que é?! — Fernanda questionou, tão irritada quanto surpresa, puxando-a violentamente com a sua força de gorila, e a arrastando para trás, enquanto ela se debatia e gritava.

— Me larga, merda, o que você quer de mim?!! — Luíza perguntou desesperadamente, enquanto se debatia.

— Eu quero que você saia da aula de ballet, vá ficar com os pretos, vá, ali não é pra gente como você! — Fernanda respondeu, empurrando-a para o chão. Luíza caiu na terra dura, arranhando os joelhos e a palma das mãos.

— Eu fico onde eu quiser, você não manda em mim! — Luíza respondeu, agora, quase chorando, enquanto se arrastava para longe dela, mas Fernanda não desistiu, se aproximando, implacavelmente, e agarrando novamente seus cabelos.

— Ninguém gosta de você lá, sua esquisita, ninguém, todo mundo fala que você fede, sabia? Sabia que você fede? — Fernanda dizia, com um sorriso cruel e louco no rosto, enquanto puxava seus cabelos, sacudindo-a como uma boneca.

— Sai, me solta, me solta! – Luíza gritava, enquanto as lágrimas escorriam sem aviso de seus olhos. Fernanda era muito mais forte que ela, muito maior, a única coisa que ela podia fazer, era se debater, mas isso só servia para deixa-la ainda mais furiosa, ainda mais louca.

— Eu vou arrancar seus cabelos de bucha, sua vaca!! — Fernanda gritava de volta, ignorando as suas súplicas de desespero. Luíza apenas gritava e praguejava, enquanto tentava alcançar o rosto de Fernanda com suas mãos, na intenção de se vingar, de revidar todos os puxões de cabelo, mas só conseguiu agarrar na bochecha dela, cravando suas unhas, um pouco antes de alguém chegar para aparta-las. Do nada, Fernanda foi arrancada de cima dela, levando um pouco de sua pele nas unhas.

— Que zorra é essa aqui, hein? — José Bezerra (um barqueiro que morava ali perto) gritou, enquanto segurava Fernanda pela cintura, ela se debatia e gritava como um animal selvagem, tentando se soltar dele. Havia sangue em sua bochecha direita, mas Luíza sangrava bem mais do que ela, suas bochechas, seus joelhos, e até as palmas das mãos, tudo ardia, tudo despelado, como se ela tivesse sido passada em um ralador de carne gigante. Luíza não esperou para ver o final da história, ela cambaleou para trás, se levantou, um pouco desajeitada, e correu para dentro da trilha, em meio à vegetação selvagem. Enquanto se afastava, ela podia ouvir os gritos estridentes de Fernanda, mais altos e bestiais do que os de qualquer animal selvagem que ela tenha conhecido:

— Eu vou pegar você, Luíza, eu quero ver você aparecer na arena amanhã!! — Havia um ódio quase indescritível na voz dela, um ódio proveniente do que deveria ser uma rivalidade mortal, ou de uma loucura crônica. Mais a frente, ela veio descobrir que eram os dois, Fernanda era uma maluca, disso ninguém duvidaria, mas ela, acima de tudo, odiava Luíza.

Quando chegou na praia, menos de meia hora depois (a trilha lhe tirava uns quarenta minutos em caminhada normal, mas aquela não foi uma caminhada normal), Luíza não foi para a pedra plana, que ela carinhosamente começou a chamar de palco de pedra em sua mente. Ela procurou Ariel com uma rápida olhada, e viu-a à beira de um buraco que havia sido cavado no dia anterior, tentando colocar os ovos, que seguiam insistentemente entalados. Luíza aprendeu que não devia interrompe-la no momento da tentativa de desova do dia, se o fizesse, Ariel simplesmente desistia e se arrastava até um outro canto da praia, ficando de cara amarrada pelo resto do dia. Então, ela apenas foi até o mar, lavando seus ferimentos, a água salgada lhe causou um ardor alucinante, que trouxe um arrepio até a sua nuca, mas foi, de certa forma, muito libertador, ver o seu sangue caindo em meio às águas claras da costa, ela ergueu sua mão à frente do rosto, havia um pouco do sangue (e pele) de Fernanda em suas unhas, e ela percebeu, enquanto seu sangue sumia em meio às águas, não sabendo se sentia alívio ou tristeza, que os brancos também sangravam vermelho.

Mais tarde, cada uma se sentou à beira da praia, com suas derrotas expostas ao mar, que estava estranhamente silencioso naquela tarde; Ariel não conseguiu botar os ovos, Luíza tomou uma surra daquelas. Elas eram bem parecidas no fim das contas, duas criaturas rejeitadas e isoladas naquela praia, o único lugar que lhes trazia conforto e segurança, o único lugar que acolhia suas derrotas.

— Eu não sei se eu devia voltar pra lá — ela disse, por cima do som pertinente das águas, trazido pelos ventos — Eu vou apanhar de novo, Fernanda é forte demais, ela parece um gorila, sabia? — em resposta, Ariel apenas volveu o olhar em sua direção, e havia uma compreensão piedosa em seus olhos negros, uma compreensão que ia além de o simples afeto de um animal por um ser humano, era como se realmente houvesse algum tipo de conexão entre elas, uma aura que não podia ser vista, mas que as juntava e fazia com que entendessem perfeitamente os sentimentos uma da outra. Nessa época, fazia pouco menos de um ano que o seu pai havia morrido, ela não o viu em seus últimos momentos de vida, sua mãe não a permitiu, mas ambas foram afetadas em mesma escala, porque nem ela, nem Rosa, choraram dês de então, era como se suas lágrimas tivessem sido levadas como oferenda por Emanuel, como se tivessem sido arrancadas de seus olhos, sim, Luíza tinha olhos secos, ao menos, era o que ela pensava; mas olhar para os olhos úmidos de Ariel, olhar para aqueles olhos inocentes, tão profundos quanto o oceano, quebrou-se o cadeado que havia em seu coração, quebrou-se o muro que ela tinha construído dentro de si mesma. De início, eram apenas duas lágrimas solitárias, escorrendo de seus olhos e pingando do queixo, mas então, tudo veio átona, como uma represa velha, sua barreira se desfez por completo; Luíza chorou durante horas, por ela, por Ariel, pelo seu pai e pela sua mãe. Com a expressão chorosa e completamente distorcida, Luíza, hora mexia na terra, hora se levantava e ficava caminhando para lá e para cá, mexendo no cabelo, hora ela olhava para Ariel, vendo-a entre os intervalos de nitidez lúcida que as lágrimas lhe permitiam, mas o olhar da tartaruga continuava direcionado ao seu, cintilando. Palavras, por vezes, não precisam ser ditas, ela sabia disso, e as palavras que Ariel lhe transpassava, através daquele olhar, eram: Chore, menina, chore até que todo esse mal tenha sido lavado de seu corpo. Por fim, depois que a face sadia de seu pai, que havia sido substituída pelo rosto morto e carcomido pela doença, retornou aos seus pensamentos, ela caiu de joelhos, ignorando a dor de seus ferimentos, e pedindo perdão a todos os santos por ter se esquecido de quem ele era, que aquele homem fraco e debilitado, na cama, já havia sido um homem grande e forte, com braços como troncos de mogno, e um sorriso cheio de dentes, o homem que se sentava na cadeira do chefe, mas que nunca foi realmente o chefe, nem fazia questão de ser, o amor de sua família já era mais do que suficiente para fazê-lo feliz. Ele havia dito para ela, em um dos seus últimos dias de vida, naquele colchão velho e esburacado de seu quarto:

— Luíza... Quando eu morrer, a sua mãe vai ser a nova chefe, ouviu? Obedeça ela, e não dê muito trabalho, tá bom, Luíza?

— T-tá bom — ela havia respondido, com os olhos marejados e a voz chorosa.

— Não chora, não, papai vai esperar você lá no céu, tá bom? — ele disse, com um frágil sorriso no rosto. Isso foi uns cinco dias antes de sua morte, e seis dias antes da cantoria de Dona Assunção deixa-la com trauma da canção Ave Maria.

Luíza nunca conseguiu se imaginar reencontrando o seu pai na vida após a morte, por mais que tentasse, a ideia de que as pessoas morriam e iam para um lugar onde poderiam viver juntas pela eternidade, sempre lhe pareceu surreal e absurda demais, embora ela nunca tenha se atrevido a dizer isso para os seus pais. No entanto, quando ela estava ali, de joelhos em frente à Ariel, lembrando-se de todos os bons momentos que teve ao lado de seu pai, ela sentiu como se ele estivesse ali, com ela, pela primeira vez, com aquela mão grande e calorosa sobre o seu ombro.

— Obrigada — ela disse para Ariel, fungando e limpando o rosto — Obrigada por ficar comigo, e desculpa por eu não poder te ajudar, desculpa.

Entre lágrimas e arrependimentos, Luíza acabou perdendo o horário naquele dia, e quando fez carinho na cabeça de Ariel, como normalmente fazia antes de pegar o caminho de casa, já passavam das seis da noite. Aquela era uma noite clara, a lua não estava cheia, mas iluminava perfeitamente o caminho através das copas das árvores, o oceano estava negro, como se absorvesse completamente toda a luz prateada da lua; suas ondas pareciam mais agitadas do que o comum, chicoteando violentamente a costa do morro e uivando com os ventos, isso a fez se perguntar, como estariam aquelas águas quando chegasse a lua cheia?

Quando ela chegou em casa, Rosa lavava os pratos em uma bacia de água, esfregando-os com uma esponja amarela encardida. Luíza se aproximou e a abraçou por trás, sentindo que era o que devia ter feito há muito tempo. Rosa se virou na medida do possível, fazendo carinho em sua cabeça, mas o breu da casa, impediu-a de ver os arranhões de Luíza, ou ela simplesmente os ignorou.

— Você chegou tarde hoje, menina — Rosa disse.

— Desculpa, eu nem vi a hora passando — ela respondeu, um pouco sem graça.

— A janta tá dentro do pote, eu comprei um peixe hoje.

— Certo... Mãe, você conhece Fernanda? — ela perguntou, sentindo nojo, como se aquele nome, por si só, fosse sujo.

— A cabelo de fogo? — Rosa perguntou — Conheço, aquela ali é uma peste, igualzinha ao pai — ela emendou, com uma espécie de divertimento sádico.

— O pai dela? O que tem ele? — ela perguntou, e viu quando os olhos de sua mãe se contraíram, como se uma lembrança desagradável cortasse caminho para o foco dos seus pensamentos.

— O pai dela... — Rosa começou, fazendo uma pausa e soltando-a — O pai dela é pescador também, ele e o Emanuel já brigaram uma vez, por causa de um peixe que, segundo seu pai, os dois pescaram ao mesmo tempo — ela disse, sorrindo com um misto de nostalgia e amargura.

— O que? Como isso aconteceu? — Luíza perguntou, rindo levemente.

— Eu não faço ideia, ele só disse que os anzóis se enroscaram na água, e o peixe mordeu os dois, ele puxou, o Fernando puxou também, e deu no que deu — Rosa disse, ela era a última a acreditar nas histórias de Emanuel, e também não parecia acreditar muito nessa, mas Luíza acreditava.

— Eles não dividiram o peixe?

— Eles tavam pescando no ponto do Emanuel, sabe? Perto daquela pedra em formato de tartaruga — Rosa disse.

— Aham, entendi, o porto era dele — ela disse apenas.

— Mas o que foi? A cabelo de fogo tá mexendo com você? — Rosa perguntou, mas, de uma forma quase apavorante, Luíza sentiu, pelo tom de voz impassível, que sua resposta não importava tanto para sua mãe, ela estava perguntando por mera formalidade.

— Não — Luíza respondeu com a voz trêmula, se afastando dela o mais rápido possível — Boa noite...

— Não vai jantar?

— Não, eu tô sem fome — ela disse, correndo para o quarto. Ela já tinha conseguido a informação que queria, e já tinha conseguido a cura que precisava para o seu espírito, bem, ao menos, ela sabia onde encontraria essa cura, se sua mãe não queria, o problema era dela. Luíza demorou para esquecer da indiferença fria de Rosa, mas isso não a incomodou tanto quanto deveria, aos poucos, ela pegou-se venerando a figura de Ariel, quase como se fosse ela a sua mãe. Naquela noite, Luíza sonhou que estava em um jantar com seu pai, e ele estava bonito, forte e sorridente, como costumava ser antes de adoecer. Luíza, sabia que a maré sobe até cobrir a praia do perigoso algumas vezes? Ela o ouviu perguntar no sonho, enquanto mordia uma espinha de traíra, isso lhe trouxe um certo medo, uma vez que Ariel não poderia desovar em uma praia que estava condenada a sumir nas águas; Luíza queria protestar, mas aí, o sonho se desfez em uma esfera de escuridão.

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Comments

Raimunda Santos

Raimunda Santos

nossa que livro estranho. parece que tudo é lembranças. cadê a menina do orfanato? que história sem pé nem cabeça

2024-06-09

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