Não desista dos seus sonhos ainda, foi o que Luíza disse para Teresa, pouco antes de ir embora; foi simples e intuitivo, mas tocou-a mais fundo do que qualquer coisa poderia faze-lo. As palavras de Luíza abriram a caixa de pandora que existia em seu interior, deixando que toda a dúvida, que ela vinha guardando, saísse de uma vez. Teresa se sentou na varanda, alguns minutos depois que Luíza se foi, inspirou, profundamente, o ar gelado da manhã, e ficou olhando a prótese de ponta em seu colo, pensando, com resiliência, em qual seria o seu verdadeiro sonho, o que ela realmente queria para a sua vida. Teresa nunca teve um sonho real, nunca pensou em uma causa pela qual lutar; ela, assim como a maioria das pessoas do seu meio social, apenas deslizava pela vida, ela negava a crueza da consciência, a fragilidade da realidade, sabia que tudo aquilo era finito e limitado, mas sempre imaginou que seria fácil para sempre, que a vida a ajudaria sem que ela tivesse que fazer um esforço real para isso, mas para o seu azar, o mar da vida se encerrava em uma queda de água gigantesca, essa queda não dava em lugar nenhum, e os mares já não eram mais favoráveis, eles a arrastaram até um ponto mais escuro, um ponto frio e tempestuoso do oceano, e as ondas se erguiam na altura das nuvens tempestuosas, e ameaçavam traga-la, leva-la para as profundezas do abismo, seu mundo virou de ponta cabeça, e ela tentava achar um novo firmamento para os seus pés. Teresa encarou a tempestade nesse momento, erguendo a prótese até a frente dos seus olhos, através dela, como se fosse uma peça de cristal, foi capaz de ver novamente o contorno do sol, surgindo, com sua luz amanteigada, por entre as nuvens de tempestade. Ela se lembrou do seu pesadelo, e pensou que, talvez, Gustavo não estivesse querendo fazê-la pagar pela sua morte, talvez ele a tivesse perdoado, e só quisesse que ela seguisse em frente, que desse um passo adiante, um passo de bailarina, com a ponta do pé, a ponta que ela segurava em suas mãos nesse exato momento. Quando Samanta chegou do mercado, trazendo duas sacolas (uma com frutas e legumes, e a outra com meia dúzia de pães), olhou-a com uma interrogação no rosto.
— Já acordou? — Samanta perguntou.
— Aham — Teresa respondeu, esboçando um pequeno sorriso, e mostrando o pé de ponta para ela.
— Ah, você foi pegar?
— Não fui eu, não.
— E quem foi? — Samanta perguntou, se aproximando, pegando a prótese de sua mão e analisando-a de ponta a calcanhar, para ver se não tinha sido danificada na queda.
— Você não iria acreditar se eu dissesse...
— Fala! — Samanta disse.
— Luíza, minha professora, ela pediu desculpas por ontem e disse que eu podia voltar pra lá — Teresa respondeu, apoiando a mão no chão e fazendo um esforço para ficar de pé, cambaleando para trás quase no final do ato e soltando um pequeno uivo em protesto. Samanta avançou e segurou em sua mão, dizendo um opa assustado, e ajudando-a a se equilibrar.
— Tudo bem com você? — Samanta perguntou, referindo-se à sua quase queda.
— Tá, tudo bem — Teresa disse, um pouco sem graça, apoiando as mãos na sacada da varanda.
— Então, ela disse isso, foi? — Samanta questionou, voltando ao assunto de Luíza.
— Não foi exatamente isso, mas ela disse que eu não devia desistir — Teresa disse em meia verdade, supondo que Luíza viu nela o sonho de dançar ballet, o que não era bem uma verdade, mas também não era mentira.
— E você... Vai voltar pra academia? — Samanta indagou, fitando-a com um brilho quase mágico nos olhos.
— Eu... Acho que sim — Teresa respondeu. Os movimentos suaves da vida, por vezes, tornavam-se violentos, por vezes, levavam as pessoas para lugares que elas nunca imaginariam estar.
Assim como no dia anterior, Samanta dirigiu até a academia de dança Tulipas, cerca de uma hora depois do almoço. No caminho, ela não resistiu ao charme de uma esfirra vendida em uma lanchonete, logo no semáforo da rua Xavier da Silveira, e acabou estacionando para comprar duas. Samanta sempre dirigia com um par de óculos escuros que faziam ela se parecer com uma mosca gigante, então, Teresa nunca sabia se ela estava olhando para a estrada, para a vitrine de alguma lanchonete, ou para o peito musculoso de algum cara no acostamento, percebendo apenas quando ela fazia algum comentário. A lanchonete desse dia, era tão arrumada como ela supunha que fosse um ninho de cobras, mas ela não disse nada em repreensão a Samanta, não dessa vez. Assim que estacionaram em frente da academia, ela respirou profundamente, tirando o cinto de segurança e abrindo a porta. Sua mãe tocou-a no ombro antes de ela sair.
— Teresa — disse ela — Eu vou ficar por aqui um tempinho, pro caso de alguma coisa dar errado hoje também.
— Não precisa — Teresa disse — Não vai acontecer nada hoje, ao menos, eu acho que não.
— Tem certeza, filha?
— Tenho, mãe, relaxa.
— Tá — Samanta respondeu, mas Teresa via a inquietação através de seus óculos escuros.
— Vai ficar tudo bem — ela respondeu, deslizando o indicador na bochecha, para conferir se tinha se lembrado de pôr os band-aids sobre a cicatriz.
— Você sabe que não precisa disso, né? — Samanta perguntou carinhosamente.
— Preciso sim — ela respondeu, e saiu do carro, para que não tivessem uma outra discussão. Apenas quando deu alguns passos em direção da academia, passando pelo banco que abrigou o seu sofrimento no dia anterior, que ela percebeu que Samanta não tinha saído do carro para ajuda-la, e sentiu uma simples (mas profunda) gratidão por isso. Ela estava entendendo que Teresa precisava dar os seus próprios passos, sozinha.
Quando Teresa chegou ao salão de dança, foi novamente bombardeada pelos olhares. Luíza veio imediatamente em sua direção, ela usava um collant azul escuro, que combinava de um jeito quase hipnotizante com a sua pele morena, e os cabelos presos em um coque. Luíza suspirou, pondo uma mão na cintura, seu olhar, nesse momento, não era raiva e nem tristeza, mas também não era alegria.
— Teresa — ela disse, fitando-a com tanta intensidade que quase podia perfura-la.
— Olha, você disse que eu podia voltar — ela começou, mas Luíza ergueu a mão em um pedido de silêncio; surpreendentemente, Teresa se calou.
— É, eu disse — Luíza confirmou com indiferença — Eu só queria saber uma coisinha sobre você, Teresa, só uma coisa.
— O que?
— Por que você quer voltar pro ballet? Ballet não é fácil pra ninguém, seria mentira se eu dissesse que é fácil, mas pra você... Pra você vai ser muito mais difícil do que pros outros, você vai sofrer pra aprender qualquer coisa, isso SE você aprender — Luíza disse, mantendo seu tom calmo e intuitivo — Eu sei que vocês de hoje em dia não tem consistência em nada que fazem, então eu quero saber de antemão, você vai se esforçar, vai seguir até o fim? Ou só vai fazer a gente perder tempo? — quando disse "a gente", Luíza apontou para ela e para si mesma.
— Eu... Vou tentar — Teresa disse, incapaz de dizer que iria, definitivamente, se esforçar de corpo e alma por isso.
— Então responda a minha primeira pergunta, eu disse, hoje de manhã, que você não devia abandonar os seus sonhos tão fácil, foi isso que eu disse — Luíza prosseguiu, começando a pressiona-la — Então me diga, Teresa, o ballet é o seu sonho? Você sonha em ser bailarina?
— Um sonho?
— Foi o que eu perguntei.
— Não é um sonho, mas é a única coisa que eu consigo enxergar nesse momento — ela disse em resposta — Eu preciso de um rumo, eu preciso de um caminho... E no momento, eu só consigo ver esse caminho, desculpa se não era isso que você queria ouvir — ela emendou, sentindo seus olhos novamente marejados. Quando ergueu o olhar, para fitar Luíza, ela esperava encontrar uma expressão decepcionada e rígida, mas não, Luíza sorria, com um olhar amável e compreensivo.
— Você quer um rumo pra sua vida, depois de ter perdido um pedaço dela, né? — ela perguntou, e pela primeira vez, Teresa a viu com aquela expressão, como uma idosa sábia e vivida.
— É... É exatamente isso — Teresa respondeu.
— Tudo bem — Luíza disse — Vamos continuar com barra fixa por enquanto — ela emendou, e Teresa sorriu.
— Certo.
Seu treinamento sério começou à partir dali, no dia 5 de fevereiro, na academia de dança Tulipas. Teresa estava um pouco confiante, um pouco hesitante, um pouco animada, um pouco triste, era difícil dizer o que ela sentia, além de uma tremenda vontade de sair daquela tempestade, uma vontade quase ardente de deixar aquela sarjeta e encontrar um lugar que a acolhesse. Teresa não suportava estar onde estava, não suportava ter o olhar de pena das pessoas, como se ela fosse mais fraca, como se ela fosse menos que as outras, por isso, se encaixou perfeitamente com sua mentora. Luíza não era apenas uma bailarina, ela respirava ballet. De início, toda aquela coisa de Battements tendus, Battements fondus, plíés, Passés, Souplés e cambrés parecia uma sopa de letrinhas mal misturada, a pronúncia aguçada de Luíza era quase como a de uma genuína francesa, completamente contraria ao costumeiro modo de pronúncia de Maria Pascoal, sua antiga professora, que falava as palavras exatamente da forma como eram escritas em português, o que matava toda a mágica da coisa, os movimentos eram sem vida e sem sal. Com Luíza, cada pequeno Souplé (que saía de sua boca como Suplê) tinha uma espécie de vida própria, ou aquilo era apenas a pura emoção do desafio, a dificuldade de se equilibrar em uma prótese quase completamente vertical, que tornava cada aula, cada pequeno ensinamento, em uma nova forma de se superar. Às vezes, um pensamento de que isso era impossível, vinha para assolar sua mente: cai na real, Teresa, você é uma cotoca, ballet é pra gente inteira, não, pra gente inteira e talentosa, e você não é nenhuma das duas agora, é só uma cotoca; mas ela mandava o pensamento ir passear tão rápido quanto surgia dos confins de sua mente; Teresa estava vendo progresso, estava avançando, e isso era o que importava por hora. Teve uma vez que ela caiu aos chãos, enquanto tentava realizar um Grand battement (ou Gron Bottemon, na forma como Luíza pronunciava), esse era o decimo e último exercício que ela realizava na barra, depois de aquecer e alongar no piso do salão. Nesse dia, Teresa estava mais confiante que o comum, tinha tido progresso em todos os quesitos. Ela segurou na barra e se ajustou para pôr os braços na segunda posição, e quando Luíza lhe deu o sinal, ela começou, esticando a perna esquerda para frente em uma espécie de chute, depois foi para o lado e para trás. Os dois primeiros movimentos foram perfeitos e sublimes, apesar de adaptados para funcionarem com a sua prótese, que foi a que ficou apoiada no chão; o maior problema foi quando jogou a perna para trás, seus braços, frágeis e cansados, perderam completamente a confiança, desfazendo a postura e tentando conseguir equilíbrio no ar, enquanto sua perna esquerda seguia desenfreada para trás, e sua prótese escorregava pelo chão. No fim, Teresa caiu de peito sobre o piso do salão, soltando um gritinho agudo que mais pareceu um uivo.
— Teresa! — Luíza se aproximou, junto a mais um grupo de alunas, que a ajudaram a se levantar.
— Tudo bem com você? — uma das meninas a perguntou.
— Nossa, isso foi péssimo — ela grunhiu com desgosto.
— Não, isso foi ótimo — Luíza disse — Seu único erro foi soltar a barra, por que você fez isso?
— Eu sei lá — Teresa respondeu, finalmente se pondo de pé e recuperando seu equilíbrio, enquanto se desfazia das outras — Na hora, eu achei que meu corpo não era flexível suficiente pra isso — ela emendou, sentindo suas pernas tremerem de cansaço.
— É claro que ele é flexível, Teresa, você não perde flexibilidade — Luíza disse, espalmando a própria testa.
— Eu sei disso! — ela disse, elevando a voz, mas bastou que Luíza erguesse o olhar, de encontro com o seu (com aquela expressão perigosa), e ela imediatamente baixou o tom — Eu sei... Mas eu fiquei com medo...
— Você vai precisar trabalhar essa coragem, a barra não é sua inimiga, Teresa, ela é sua principal aliada no momento — Luíza disse, se aproximando e tocando em seu ombro, então, apalpou-o de forma analítica — E esses músculos, trabalhe neles também, você tá toda molenga, por isso que não consegue se manter na postura correta — ela emendou.
Teresa não gostou muito da repreensão, ela nunca gostava, mas pegou a ideia, então ela só precisava trabalhar os seus músculos e a sua confiança, certo? Moleza. A começar por esse dia, ela passou a fazer flexões, agachamentos e abdominais em casa. Assim que chegava do ballet, Teresa vestia uma blusa regata e uma calça legging, estendia o carpete em um espaço aberto entre a porta de seu banheiro e a cômoda velha, e começava a treinar, somando todo o estresse da academia de dança com uma nova remessa de dor. A dor muscular era boa, ela a fazia se sentir viva, forte, fazia parecer que tudo era por um propósito maior. De início, Teresa só conseguia fazer uns sete ou oito agachamentos, tortos e sem equilíbrio, às vezes, a prótese parecia escorregar pelo chão, e ela quase caía com o traseiro sobre o carpete, mas com o passar dos dias, ela foi percebendo que isso também fazia parte de sua falta de confiança, no próprio corpo e na sua prótese. Conforme ganhava força e equilíbrio, ela foi vendo progresso, lento, mas ainda era um progresso, os exercícios físicos não somente a ajudavam a clarear sua mente e fortalecer os músculos, mas ajudavam no equilíbrio que ela tinha em sua prótese, e aquilo era tão bom, tão entorpecente, que Teresa até esquecia que havia um mundo ao seu redor; a dor era, por vezes, uma espécie de obsessão. Em alguns dos dias, Samanta bateu a porta de seu quarto, quando já passavam das nove da noite, ela já fazia sua terceira ou quarta sessão de agachamentos em uma poça do próprio suor.
— Teresa? — Samanta perguntou, no primeiro dia em que bateu a porta.
— Fala — ela disse em um ofego.
— Você não vai jantar hoje? — Samanta perguntou, abrindo a porta e colocando a cabeça para dentro do quarto.
— Ah, sim, o jantar, verdade! — Teresa respondeu, encarando o olhar de Samanta, que misturava surpresa e orgulho. Ela sorriu e fechou a porta, saindo dali.
— Toma um banho aí, eu vou esquentar o café.
— Tá certo — Teresa respondeu, olhando para baixo, para a poça luminescente de suor, e lembrando que precisava repor toda aquela energia.
Na segunda semana, ela começou a focar, também, no seu equilíbrio, tentando realizar alguns dos movimentos no piso de seu quarto. Teresa se apoiava na cômoda, rezando para que a antiguidade fosse forte o suficiente para aguentar o seu corpo, e erguia a perna esquerda em um passé, fazendo-a serpentear, depois, se apoiando na esquerda, fazia o mesmo com a prótese de ponta (ao menos, até onde era possível fazer), ela tentava alguns frappés e petits battements, repetia os movimentos umas dez ou quinze vezes e caía exausta em sua cama. Teresa ligava o rádio na estação X e ficava olhando o teto, vendo pequenos espirais de plasma (causados pela exaustão) surgindo nos cantos da sua visão. Com um tempo, ela já era capaz de fazer doze agachamentos e flexões, já conseguia caminhar, sair do carro e até correr alguns passos com a sua prótese de perna, e o mais importante, ela tinha força e confiança suficiente para dominar a barra fixa, a única dúvida que lhe restava, era se ela seria boa o bastante para fazer isso no meio do salão, a voz irritante, no fundo da sua cabeça, dizia que não, mas o olhar orgulhoso no rosto de Luíza, no momento em que ela finalmente realizou o Grand battement com perfeição, fazia-a crer que sim, ao menos um pouco. Era a terceira semana em que estava aprendendo; ela segurou na barra, pondo os braços na segunda posição, tomou um fôlego poderoso, revigorante, e começou: perna para a frente, perna para o lado e perna para trás; seus músculos foram fortes o suficiente para segura-la dessa vez, contraindo e movendo-se sob sua pele com potência e calor, Teresa sentiu medo, sentiu insegurança, e sentiu uma sensação inexplicável ao dominar suas emoções e fazer o que tinha que ser feito. Quando terminou, ela foi aplaudida por todas as outras alunas da turma, todas vibraram, felizes com o seu sucesso. Luíza foi até ela, tocou em seu ombro, apalpando-o novamente, e seus olhos se encheram de um terno orgulho materno, quando notou que eles já não estavam mais flácidos, ela sorriu.
— Parece que você andou treinando em casa.
— Aham, todo dia — Teresa respondeu.
— Tá bom, acho que eu subestimei você — Luíza disse, e pela primeira vez em muito tempo, ela estava sorrindo.
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Atualizado até capítulo 23
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