Em sua breve partida, Teresa não viu nenhuma das coisas que, segundo as escrituras, um moribundo deveria ver, tudo que havia era silêncio e escuridão. Mesmo a melodia da morte se calou, diante da face escura e nebulosa do abismo. Teresa só foi se dar conta que ainda estava entre os vivos, quando seus olhos se abriram e as trevas se dissiparam, a principio, só conseguia ver um borrão cinzento, salpicado por cores parcas e claras, que se moviam para todos os lados, causando dor em suas orbes oculares; ela não era capaz de sentir seu corpo, nem de pensar com clareza, mas imaginou que estava entrando em um hospital, provavelmente, em uma maca. Não demorou muito para que suas pálpebras pesassem novamente, ela fechou os olhos e dormiu. Quando abriu os olhos pela segunda vez, apesar de ainda não enxergar ou pensar direito, ela já era capaz de ouvir algumas vozes, parcas e distantes, como se fossem os anjos do céu, e um bip frágil e terno, vindo de alguma máquina. Teresa era capaz de sentir seus lábios ressecados e a sua pele sobre os ossos, como um peso morto e gelatinoso. Os vultos brancos continuavam se movendo para lá e para cá em seu campo de visão embaçado, ela tentava acompanha-los com o olhar, mas suas pupilas se recusavam a mover-se. O primeiro pensamento lúcido que ela teve foi sobre o Gustavo, por um momento, Teresa se perguntou se ele estava bem, ela tentou perguntar para algum daqueles vultos que a cercavam, mas não conseguiu mover sua língua, sequer podia senti-la, e tudo se apagou novamente, como se alguém tivesse apertado o interruptor dentro de seu crânio. Quando acordou novamente, Teresa não sabia quanto tempo tinha se passado. Ela se viu em um leito hospitalar, em um quarto pequeno, com azulejos nas paredes e uma pequena janela que permitia a entrada da luz do sol. Havia um cobertor branco sobre seu corpo, cobrindo dos seios para baixo, mas seus braços estavam de fora, e uma agulha perfurava na articulação de seu cotovelo, em uma aplicação endovenosa de soro. Ela também podia sentir alguma coisa grudada contra sua bochecha esquerda, imaginando que se tratava de algum tipo de gaze com esparadrapo. Sua cabeça pesava uma tonelada, suas pálpebras pareciam lixas, arranhando seus olhos toda vez que ela piscava, ela queria chorar, mas estava desnorteada demais, até mesmo para isso. Teresa procurou o tato por um instante, recebendo uma suave resposta em retorno, podia sentir os dedos das suas mãos se movendo contra o cobertor da cama, e os dedos dos pés se curvando em uma tola tentativa de encontrar algo solido, mas isso era tudo, ela não tinha forças nem para mover o antebraço, e teve que lutar para não cair novamente no sono. Então, em sua enevoada linha de pensamento, a imagem de Gustavo, dirigindo com as sobrancelhas baixas e a expressão sombria, voltou de forma súbita, fazendo-a erguer o corpo em um solavanco.
— Gustavo! — ela disse, atraindo a atenção de sua mãe, que estava silenciosamente deitada em uma cadeira reclinável bem ao seu lado (e ela não a havia notado até então).
— Teresa? — Samanta a chamou, tocando-a no ombro — Tá tudo bem, meu anjo, você vai ficar bem — ela se aproximou de Teresa, querendo abraça-la, mas um tanto relutante em fazer isso.
— O que aconteceu? O que aconteceu, mãe? — Teresa perguntou, sentindo seus olhos umedecerem — Cadê o Gustavo? Onde ele tá? Tá tudo bem com ele?! — ela prosseguiu com as perguntas, ouvindo sua própria voz chorosa.
— Teresa, deita, você tem que descansar — sua mãe a respondeu com ternura, com os olhos marejados, fingindo nem ter ouvido a sua pergunta.
— Ele morreu, né? O Gustavo morreu no acidente, ele tá morto — ela murmurava de maneira chorosa, enquanto as lágrimas começavam a escorrer dos seus olhos.
— Tá tudo bem, a mamãe tá aqui com você — Samanta se aproximou, envolvendo-a com os braços de maneira tão fraca e relutante que quase nem tocou em seu corpo. Apesar da má posição, Teresa a abraçou de volta, chorando no ombro dela.
— Ele dirigiu muito rápido, a gente tava brigando, e ... — Teresa começou a falar, mas não conseguiu ir longe, os soluços se misturavam com sua voz, distorcendo suas palavras.
— Tudo bem, não pensa nisso agora, tá bom? Você tem que descansar — Samanta disse, tentando inutilmente acalma-la.
— Não, mãe, me diz, me diz se ele morreu, por favor, me diz... — ela pediu, movendo as pernas pela cama, foi quando ela percebeu que sua coxa direita se movia com mais leveza do que antes (apesar de sentir uma dor alucinante na região de sua perna), quase como se deslizasse pelo colchão. Teresa parou por um instante, tentando entender o que estava acontecendo, enquanto seu coração palpitava fortemente, e sua respiração perdia o compasso. Ela não estava mais chorando, sua dúvida, alimentada pelo pavor, era grande demais para isso.
— Teresa?
— Tira esse lençol de cima de mim — Teresa disse em um sussurro.
— Filha, é melhor voc...
— Tira, mãe! — ela elevou a voz, e sentiu-a quase falhar na garganta. Samanta suspirou com pesar
— Olha, filha, você vai ter que ser forte, eu amo você, ouviu? Eu tô com você pra o que der e vier — Samanta disse com pesar, descendo vagarosamente os lençóis brancos que cobriam seu corpo. Teresa baixou a cabeça, seguindo a mão dela com o olhar, um pouco hesitante, muito apavorada, enquanto sua mãe removia os lençóis, revelando seu corpo como estava após o acidente... A primeira coisa que abriu caminho em seus pensamentos, no momento em que ela visualizou o seu corpo, foi sobre uma condição chamada de síndrome do membro fantasma, que ela viu em uma matéria na televisão, uns três anos atrás. Alguns pacientes de hospitais e veteranos de guerra, mesmo após perderem braços ou pernas em acidentes, continuavam sentindo o membro amputado como se ele ainda estivesse ali, ele doía como se existisse, doía como o inferno, mas não era real. Haviam até mesmo alguns relatos de pessoas que, em momentos de distração, tentaram segurar objetos com os fantasmas de seus braços. Teresa sentia que tinha duas pernas, quando movia os dedos dos pés, sentia-os tanto no pé esquerdo como no direito, mas sua perna direita foi completamente apagada da existência no momento em que teve o vislumbre de seu corpo. Um pavor indescritível subiu pela sua garganta, as lágrimas pararam completamente de escorrer dos seus olhos, que agora se viam arregalados, o queixo de Teresa caiu, ela queria gritar, mas não emitia som algum.
— Ah, meu Deus, você não devia ter dado essa notícia pra ela dessa forma — ela ouviu a voz de alguém, que tinha acabado de entrar no quarto.
— Desculpa, eu fiquei nervosa, eu não sabia o que fazer! — Samanta se desculpou. Um homem de jaleco surgiu em seu campo de visão, tomando a frente de Samanta e se abaixando à frente dela, que ainda estava completamente perdida, tentando entender o que tinha acontecido, ou onde infernos a sua perna tinha ido parar.
— Teresa, escuta, fica calma, tudo bem? Você vai receber uma prótese de perna moderna e vai caminhar normalmente como todo mundo — ele disse de forma branda, tentando acalma-la, mas ela não queria uma prótese de perna, ela queria a sua perna verdadeira. Vão pegar ela de volta, costurem ela em mim, eu quero a minha perna... Assim que a ficha caiu, Teresa engoliu em seco, era como se um bloco de gelo tivesse se formado dentro de seu estômago, e o frio circulasse pelas suas veias, ela desejou profundamente que aquilo fosse apenas um delírio, um sonho, que abrisse seus olhos e estivesse novamente no carro de Gustavo, acordando de um longo cochilo, ele olharia para ela e faria um comentário bobo e doce, algo como: acorda, bela adormecida; mas isso não iria acontecer, Teresa estava completamente acordada, talvez, completamente lúcida.
— Teresa, olha pra mim — o médico disse, com as mãos ossudas em seus ombros. Teresa focou nele, saindo de seus pensamentos obscuros, procurando uma âncora para se apoiar na realidade sem enlouquecer completamente, mas simplesmente não sabendo lidar com o fato de ter perdido um pedaço de seu próprio corpo.
— Eu... E-eu... — finalmente, as lágrimas irromperam novamente através dos seus olhos, escorrendo calorosamente pelo seu rosto e pingando no colarinho da sua bata hospitalar. Teresa chorou, fungou e soluçou, deixou toda a sua frustação, todo o seu medo, saírem através das lágrimas, como costumava fazer quando era uma garotinha. Samanta se aproximou novamente, deitando a cabeça sobre o seu ombro e chorando com ela.
Mais tarde, quando Teresa estava mais calma, conversou com a sua mãe sobre o acidente. Segundo Samanta, eles atingiram um Fiat Uno quando este saía da rua República do Peru. Gustavo, que tinha atravessado um sinal fechado, não teve tempo de frear antes de atingir a lateral do carro. Ele não estava com o cinto de segurança, e foi arremessado pelo vidro do carro. Teresa teve o rosto perfurado por alguns cacos de plástico estilhaçado, e seu pé direito, assim como a canela, foram esmagados quando a lataria do carro cedeu ao impacto. Haviam mais duas pessoas que tinham morrido no acidente, as pessoas que estavam no Uno, um homem de quarenta anos, que teve a sua cabeça esmagada pela lataria, e sua filha de doze anos, que foi perfurada no intestino e chegou a hospital junto de Teresa, mas acabou não sobrevivendo. Samanta evitou falar muito sobre Gustavo, sobre como ele morreu (além do fato de ele ter voado para fora do carro), e Teresa achou isso uma boa ideia, ela não precisava saber dos detalhes, tudo que importava era que ele estava morto, que ele também tinha caído naquele abismo macabro e desconhecido, e lá ele ficaria para sempre... Para sempre...
Não era exagero dizer que os próximos dias foram os piores da sua vida. Teresa passava os dias inteiros deitada em seu leito hospitalar, tendo apenas a sua mãe, as enfermeiras e os médicos como companhia, e ela só falava algo de relevante com a sua mãe. Teresa precisava de ajuda para fazer qualquer atividade humana básica que não fosse respirar e piscar os olhos, e mesmo essas se mostravam difíceis às vezes. Os médicos disseram que ela ficaria com cicatrizes, inclusive no rosto, que tinha sofrido um dano severo pelos fragmentos de plástico que o atingiram. Ela não deixava de pensar, exceto quando dormia, no tipo de feiura que esse ferimento deixaria em seu rosto. No segundo dia de sua estadia, quando uma enfermeira foi trocar os curativos de sua bochecha, ela viu a mistura de sangue e pomada cicatrizante, formando uma crosta cor de cobre na gaze, e quase vomitou; foi nesse momento que ela teve certeza, a coisa era feia. Como se não bastasse, também haviam hematomas verdes, lilases e amarelos por todo o seu corpo, remanescentes do impacto recebido, além de uma dor incessante que queimava os seus ossos.
Às vezes, quando Teresa dormia em má posição, ela tinha pesadelos com Gustavo; ele chamava por ela, com a face completamente desfigurada e uma voz gutural e animalesca, Teresa, Teresa, Teresa, dizendo seu nome repetidamente. Ela acordava suando frio, e por um momento, podia sentir o fantasma de sua perna direita se contrair sob os cobertores, temendo que o fantasma de Gustavo viesse para puxa-la. Ela fechava os olhos com força, paralisada pelo medo, e pedia perdão a ele, perdão por tê-lo distraído, por ter deixado ele irritado ao ponto de fazê-lo dirigir de forma tão imprudente, ela implorava pelo seu perdão: A culpa foi minha, desculpa, mas me deixa em paz, por favor, por favor. Quando o sol voltava a raiar, ela percebia que tudo não tinha passado de um pesadelo, se achando ridícula por ter tentado falar com um morto, por ter achado, mesmo que por um segundo, que alguém morto estaria escutando-a. Teresa foi tentando olhar para o coto que havia ficado no lugar de sua perna decepada no decorrer dos dias; na primeira vez, quando viu a forma como a sua pele enrugava, na tentativa de se fechar em torno do buraco deixado, ela vomitou o iogurte do seu café da manhã sobre os lençóis. Em sua segunda tentativa, dois dias depois, ela viu que sua pele já tinha feito progresso, começando a selar o ferimento com suas camadas engelhadas e frágeis, como se determinasse que jamais iria existir um joelho e um pé ali novamente; ela cobriu o coto e caiu no choro. Na terceira vez, um dia depois, ela finalmente foi capaz de olhar aquilo com clareza, e subitamente se lembrou das aulas de Ballet, obscurecidas pelas memórias dos últimos acontecimentos. Seu coto, que se fechava cada vez mais, jamais tocaria os chãos, jamais ficaria nas pontas dos pés, jamais dançaria novamente, como tanto fez no decorrer de sua adolescência.
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Atualizado até capítulo 23
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