O resto do jantar foi soturno e silencioso, tudo que se ouvia era o tilintar pertinente dos talheres contra a louça, e os risos dos garotos, assistindo à televisão na sala. De vez em quando, alguém pedia para passar o sal ou o ketchup. Todos olhavam, achando que esse alguém começaria a contar alguma história interessante, mas o véu do silêncio voltava rapidamente a cair sobre eles. O comentário de Samanta, sobre ballet, acabou tocando em uma área de seu sentimental que ela nem se lembrava que existia, Teresa não largou o ballet por ter abusado a dança, ela largou o ballet porque era a melhor aluna de sua classe, os outros queriam que ela se apresentasse, e ela ficou com medo... Sua segunda pergunta para a noite era: será que ainda havia algo de útil que ela poderia fazer em sua vida? Embora soubesse que a sua família era formada por um bando de cabeções, Teresa sentia como se a culpa fosse sua nessa noite, era dela que vinha essa aura de silêncio, de medo, tristeza, e contaminava todos eles como uma espécie de praga. Ela não queria viver, não tinha mais nada que pudesse fazer em vida; mas ela temia a morte, sim, temia-a mais do que odiava a vida.
Quando todos terminaram de comer, eram por volta de dez horas da noite, a televisão mostrava uma retrospectiva do ano de 1992 no canal 1. Todos foram deixando os pratos meio vazios de lado e se dirigindo para a sala, enquanto Samanta e Thomas ajudavam Teresa e se levantar.
— Pra onde você quer ir, prima? — ele perguntou, erguendo seus braços e encaixando as muletas sob ambos.
— Eu quero tentar andar sozinha — ela respondeu friamente — Posso?
— P-pode, pode, sim, senhora — ele respondeu rapidamente, um pouco envergonhado.
— Obrigada — Teresa respondeu, manobrando as suas pernas de metal para se afastar da mesa. O fantasma de sua perna direta tentava insistentemente tocar o chão, tentava existir, mas isso era algo impossível, Teresa estaria eternamente dependente de muletas e próteses, então, o mínimo que podiam fazer era deixa-la aprender a se mover sozinha com aquelas coisas.
— E pra onde você vai? — Samanta a perguntou, bancando a mamãe coruja, com as asas abertas ao seu redor.
— Qualquer lugar longe de vocês — ela disse, movendo agressivamente as muletas para afasta-la. Pela primeira vez, Teresa ficou apoiada sobre a perna esquerda, e aquilo lhe deu uma breve e prazerosa sensação de autocontrole.
— T-tá bom, se você precisar de alguma coisa...
— Eu chamo você, claro — ela disse, apenas para se ver livre, atravessando na frente de Samanta e indo em direção ao seu quarto. Enquanto dava seus passos tronchos, Teresa pôde perceber a tensão que ficou entre Thomas e sua mãe, e o resto da família.
Ela se trancou no seu quarto pela segunda vez, convencida que descer para aquele jantar tinha sido um erro, sair de seu quarto tinha sido um erro, ela não sairia mais, nunca mais. Ela ficou por ali alguns minutos, até decidir fazer alguma coisa, e óbvio que sua escolha foi se autoflagelar um pouco mais. Teresa pegou um velho álbum de fotografias que ela tinha largado na última gaveta da cômoda. A capa estava empoeirada, e exibia a imagem de uma pomba branca, com uma espécie de fita fotográfica passando por entre as asas, e os dizeres Couto Editora no canto inferior esquerdo. Na primeira página, haviam três fotos de Teresa quando era bebê, em uma delas, ela estava nua, em uma banheira, com os olhos arregalados e um sorriso banguela no rosto; duas mãos a seguravam, iluminadas pelo flash incandescente da câmera. Em outra foto, Adenes e Samanta estavam juntos, em uma mesa de bar vermelha, quase completamente carcomida pela ferrugem, a imagem era de 1971, dois anos antes de ela nascer, era notável o quanto a sua mãe era mais bonita em sua juventude, seu sorriso era mais brilhante, sem as linhas de expressão que a marcavam atualmente, como cicatrizes. Em outra imagem, tirada em 1985, Teresa estava na academia de dança de Paulo Portas, e usava um vestido branco, na posição de attitude, onde erguia sua perna direita atrás do corpo, bem como ambos os braços, se assemelhando a uma flor de lótus. A imagem lhe causou uma angústia indescritível, o que a fez passar rapidamente para a próxima página, fingindo que nem viu aquilo. A maioria das fotos do álbum, retratavam a sua infância, entre 1974 e 1985, a época em que o seu mundo era simples e calmo. Não muitas paginas depois, Teresa se deparou com uma imagem mais nova, que havia sido colocada ali por acaso; estava solta, pois não havia uma moldura disponível para ela, e a angústia que Teresa procurava nas fotos antigas e parcas, que ela já havia visto mais de mil vezes, acabou encontrando naquela imagem não tão velha, não tão parca, que estava lá apenas por estar. Na foto, Teresa e Gustavo estavam de mãos dadas, na praia de Copacabana; ela usava um maiô, e ele, um calção de banho, os dois sorriam alegremente para a câmera. Apenas agora, depois que tudo tinha ficado para trás, ela percebeu o quanto o sorriso dele era infinitamente mais vívido que o seu, o quanto os olhos dele eram mais brilhantes e cheios de uma paixão ardente, uma paixão que se apagou no dia em que aquele carro se colocou em seu caminho, uma paixão que se apagou por sua culpa. Agora, pela terceira vez, ela questionava a si mesma: qual seria a reação dele, se a visse dessa forma? Ele ainda a acharia bonita, mesmo com a terrível cicatriz? mesmo que ela não tivesse uma perna? Teresa nunca saberia, porque Gustavo estava morto.
— Era isso que você queria, sua idiota? — ela disse para si mesma, enquanto as lágrimas escorriam, borrando a maquiagem e pingando com um aspecto enegrecido sobre a imagem. Teresa tinha tantas dúvidas, tantos medos, e não tê-lo ali para abraça-la, como costumava fazer em momentos difíceis, era terrível; pior ainda, era saber que a culpa disso era sua, foi ela quem matou Gustavo, foi ela. Teresa perdeu a hora, chorando mais uma vez em seu isolamento. Ela se lembrou de todos os bons momentos que teve ao lado dele, e de todas as vezes que o tratou mal, que o deixou chateado. Ela queria voltar atrás, queria desfazer tudo, desde o início, mas o tempo só andava para a frente, nunca para trás. Nesse momento, Gustavo estava enterrado no cemitério de São João Batista, no bairro de Botafogo, estava sete palmos abaixo do solo, sozinho, abandonado.
— Teresa? — Samanta abriu subitamente a porta, colocando a cabeça para dentro do quarto. Teresa largou a fotografia em um sobressalto, erguendo as mãos para enxugar as suas lágrimas.
— Oi — ela disse, fungando e esfregando os olhos com as palmas das mãos — Você devia bater primeiro, sabia?
— Oh, meu anjo — Samanta disse, entrando no quarto, com a sutileza de um véu, e sentando-se ao seu lado.
— Eu acabei de dizer que queria ficar sozinha, será que você pode respeitar isso? — Teresa questionou, tentando recuperar o aspecto natural de sua fala, mas não tendo muito sucesso.
— Eu sei, mas já tem umas duas horas que você se trancou aqui, eu quis ver como você tava — sua mãe disse, fazendo seu coração se contrair no peito por um breve instante.
— Duas horas? — Teresa perguntou, olhando o seu relógio de pulso. Para ela, haviam se passado pouco mais de vinte minutos, mas o relógio marcava Onze e cinquenta e sete, o ano novo estava chegando.
— Pois é, já é quase noventa e três — Samanta disse em um tom amável, o mesmo tom que usava para consola-la quando ela machucava o joelho, ou quando terminava um relacionamento.
— Uhum, mas eu não vou sair, não — ela respondeu, com um resquício de choro na voz — Pode ir comemorar com eles.
— Não — Samanta disse — Eles que se resolvam lá, eu vou ficar com você.
— Mãe, não precisa.
— Precisa, sim — Samanta disse, passando o braço por cima do seu ombro, e puxando-a para um abraço lateral — Eu te amo, tá?
— Eu também... — ela disse em um sussurro, mas não retribuiu o abraço.
Havia algo sobre sons altos que ainda perturbava Teresa, algo como uma farpa, fincada no fundo de suas memórias. Ela não gostava de fogos de artifício, as luzes não eram o problema, elas eram maravilhosas, era lindo vê-los explodir em cores no céu noturno, salpicando brevemente a negritude do infinito, e até certo ponto, ela sabia que gostava disso, porque uma das suas lembranças mais bonitas, estava atrelada à visão de um céu de ano novo, lotado de estrelas explosivas, elas eram vermelhas, verdes, azuis, amarelas, brancas e rosa, elas enfeitavam o céu, e a barulheira, apesar de incômoda, reverberava como tambores em seu peito. O medo de fogos artifício, veio conforme ela foi ficando mais velha, e sua audição foi ficando mais sensível, um garfo arranhando no prato, uma pessoa mastigando de forma estranha, os miados dos gatos amantes na madrugada, tudo era um incômodo para os seus ouvidos, e Teresa sentiu, mais uma vez, a sua apreensão se transformar em desespero, no momento em que os seus parentes terminaram a contagem lá embaixo, e Teresa também podia ouvir as vozes dos vizinhos, que comemoravam em suas próprias casas: cinco, quatro, três, dois... O relógio marcou meia noite, as explosões soaram lá fora, e ela se sentiu como um soldado dos cobras fumantes na segunda guerra mundial, as explosões pareciam vir direto de dentro do seu crânio, em sons secos e profundos, tão profundos quanto o inferno, reverberando em seu corpo como se ela fosse o tambor levando porradas no peito. O desespero foi inevitável, Teresa levou as mãos aos ouvidos, tentando protege-los, e gritou, gritou com toda a força dos seus pulmões, enquanto lágrimas de dor e medo escorriam dos seus olhos.
— Tê, calma, Tê, eu tô aqui, a mamãe tá aqui com você — Samanta a puxou, apertando o abraço e dando seu peito para que Teresa apoiasse a cabeça.
— Faz isso parar, mãe, faz isso parar! — ela gritava contra o peito de Samanta, enquanto puxava o pé para cima da cama, se encolhendo nos braços de sua mãe como um cachorrinho. Os sons altos e pertinentes prosseguiam, vindo de todas as direções, fazendo com que a sua imaginação frágil e fértil criasse todos os tipos de bestas e demônios dos infernos, com rugidos tamborilantes que podiam destruir uma pessoa de dentro para fora. As explosões eram incessantes e impiedosas, e nunca lhe causaram tanto desespero como nesse momento. Quando os sons explosivos foram, aos poucos, se calando, Thomas invadiu o quarto, chutando a porta e entrando em um sopapo.
— Feliz ano novo!! — ele gritou, antes de perceber a situação e murchar completamente.
Teresa estava muito pior do que ela poderia imaginar, sua mente, sua alma, seu coração; todos estavam traumatizados;
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Atualizado até capítulo 23
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