A estadia de Teresa, no hospital de Santa Bárbara, durou por pouco mais de um mês. O acidente de carro ocorreu em meados de novembro, ela ficou internada até o finalzinho de dezembro, saindo no dia 31, pouco antes do ano novo (passar o natal enfurnada naquele lugar já foi mais que suficiente para ela). Enquanto estava internada, ela só recebeu a visita de duas pessoas que conhecia, sendo Natália uma delas, e o seu primo Thomas, que era quase como um irmão mais velho. Ela ainda podia se lembrar, enquanto se colocava de pé, do olhar penoso que viu no rosto dele, quando se sentou ao seu lado na cama, segurando sua mão entre as dele.
— Oi, prima — ele disse, tão soturno que até parecia estar em um velório, suas sobrancelhas se uniam por uma fina linha de pelos irregulares, isso era ainda mais evidente quando ele estava sério.
— Oi — Teresa respondeu fracamente.
— Tudo bem com você? — Thomas perguntou, colocando toda a piedade que conseguia em sua voz rouca.
— O que você acha? — ela perguntou, fusilando-o com o olhar, sem fazer muita questão de parecer suave.
Mais cedo, Teresa tinha se colocado à frente do espelho do banheiro, pela primeira vez, sem a gaze que cobria sua bochecha, e visto o buraco profundo que os estilhaços haviam deixado em sua face. Da maçã do rosto até a lateral da bochecha, um corte revelava a brancura de sua carne, e acima disso, havia um rombo côncavo, tão feio e nojento que a fez querer vomitar de novo. Teresa desabou mais uma vez, passara a manhã inteira chorando sob os cobertores, enquanto Samanta tentava consola-la com algumas cantigas que costumava cantar para fazê-la dormir quando era criança. O resultado, foi a completa falta de disposição pelo resto do dia (as lágrimas foram suficientes para desidrata-la). Teresa cobriu novamente o seu ferimento e fingiu que ele nem existia, preferia acreditar nisso, que aquela imagem no espelho era apenas um fruto de sua mente perturbada.
— Logo, logo você sai daí, e a gente vai comer um churrasco no ano novo — Thomas disse, sorrindo levemente.
— Aham, mas eu não sei se eu tô muito disposta a isso, não — ela disse, deslizando o indicador sobre a gaze em seu rosto.
— Você vai ficar, relaxa — ele disse, com um tom otimista e encorajador. Thomas era assim desde a infância, na época em que eles eram como fantasminhas em casa, que passavam pelo local, deixando um rastro de bagunça, mas nunca sendo vistos ou pegos pelas autoridades. Naquela época, ele era um menino magro de cabeça raspada, e eles se viam uma vez por ano, por isso, Teresa mal percebeu como os últimos anos tinham o transformado em um homem. Ele era alto, um pouco gordinho, e a sua barba estava quase completamente fechada agora, mas ainda tinha os mesmos olhos sapecas.
Thomas estava certo, sua recuperação foi rápida após a amputação, e ela saiu do hospital uma semana depois da visita dele. Teresa foi levada pela enfermeira, em uma cadeira de rodas, até o estacionamento do hospital, e até o Honda Civic de sua mãe, que a ajudou a ficar de pé e entrar. Enquanto mantinha o coto da perna suspenso, se enfiando dentro do carro, Teresa não pode deixar de notar os olhares penosos das pessoas que a cercavam, algumas pessoas entravam no hospital, outras que saíam, e sentir uma profunda amargura por isso. Esse era o tipo de expressão penosa que ela estava condenada a receber pelo resto de sua vida, só o ato de olhar aquele pedaço que faltava dela, só o ato de olhar aquela pele se fechando em torno do buraco, já a deixava enjoada, deprimida, era como encarar um abismo sem fim. Samanta parou em frente a uma pastelaria, na rua Paula Freitas, comprando dois pastéis de frango, normalmente, ela só comia besteiras nos fins de semana, mas, apesar de estarem em plena quarta feira, era quase ano novo, dane-se a dieta, ela dizia. Teresa não quis comer nada, estava com o estômago embrulhado. Ela teve péssimos dias no hospital, e saber que sua casa estaria cheia de parentes para recebe-la e para celebrar essa maldita virada de ano, a fazia sentir que, talvez, devesse ter ficado por lá mesmo. Não era como se ela tivesse grandes expectativas para 1993.
— Seu pai não vem te ver hoje, mas ele disse que talvez apareça nos próximos dias — Samanta comentou, quebrando o silêncio, e sua voz foi tão aguda que doeu nos ouvidos de Teresa.
— Aham — ela murmurou, olhando a janela. Surpreendentemente, estar em um carro de novo, foi menos assustador do que ela esperava que seria, talvez pelo fato de confiar bastante nas habilidades de direção de Samanta, que, para início de conversa, nunca dirigia a mais de oitenta quilômetros por hora. Gustavo também não tinha costume de acelerar, mas Teresa sentia que nunca o tinha conhecido realmente, talvez, aquele impulso suicida fosse algo que já estava enraizado em sua personalidade desde o começo, e assim que ele sumisse de seus pensamentos, assim que o seu rosto podre e carcomido sumisse de seus pesadelos, ele conseguiria o que tanto desejava, estaria morto para sempre.
Quando estacionaram em frente à sua casa, na rua República do peru, alguns parentes de Teresa saíram para recebe-la. Por hora, apenas a sua tia Suzana havia chegado, com seu marido, Carlos Eduardo, e os três filhos, Thomas, que era o mais velho, e os dois gêmeos mais novos, Thiago e Júlia. O primeiro se aproximar foi o primo Thomas, abrindo a porta do carro e dando a mão para ajuda-la a sair. Teresa aceitou de bom grado, embora tenha relutado em sair do carro. Olhar para a estrutura de sua casa era algo que lhe despertava uma sensação estranha de emersão; era como se Teresa tivesse saído do abraço gélido da morte, retornado para sua casa, para a sua vidinha em Copacabana, e aquela casa mostrava que o mundo ainda era como ela conhecia antes de toda essa experiência traumática, o que lhe causava uma sensação momentânea de alívio, mas nada seria o mesmo à partir de então, a morte estava com ela, e continuava aguardando pelo dia em que poderiam se abraçar novamente; sua vidinha em Copacabana era real, mas a danação eterna na inexistência também era. O primo Thomas foi exageradamente atencioso com Teresa, enquanto a ajudava a andar com as muletas, prevenindo-a de cada vão ou pequeno buraquinho que poderia existir na calçada surrada de cimento, que ficava entre a rua e a entrada de casa. Os primos mais novos estavam ao seu redor, fazendo perguntas inconvenientes e demonstrando aquela piedade exacerbada, que é normal de crianças, a sua tia a acompanhava de uma distância maior, falando alguma coisa sobre terem pegado uma péssima rota. O clã dos Cavalcantes era formado por três conjuntos habitacionais, aqueles que moravam no Rio, aqueles que moravam em São Paulo, e aqueles que moravam em Santa Catarina, normalmente, a família só se reunia nos fins de ano, quando deveriam celebrar o natal e o ano novo. Quando por fim, já estavam a poucos passos do degrau inicial da porta, Thomas parou o seu avanço com um puxão brusco para trás, querendo fazer graça.
— Cuidado, tem uma listra — ele disse, referindo-se a uma rachadura na calçada.
— Eu tô vendo a merda da listra — ela respondeu entre dentes, e Thomas riu, ajudando-a a passar por cima.
— Por que não trouxe ela pelo outro lado? — sua tia Suzana perguntou ao Thomas, enquanto se aproximava. Suzana era a única das três irmãs que já estava ficando com os cabelos grisalhos.
— Eu nem vi essa rachadura — Thomas se defendeu, enquanto Suzana chegava pelo lado direito e colocava uma mão em suas costas, e outra à frente do corpo, agora, com quatro mãos para ajuda-la, Teresa se sentia ainda mais confusa, cambaleando pela calçada com certa dificuldade.
— Vão derrubar ela — Thiago disse, com uma urgência tão exacerbada quanto sua piedade.
— Não vamo, não, menino, deixa de falar besteira — Suzana o repreendeu.
— Espera aí, vocês, espera um pouco — ela disse, tentando respirar, enquanto se movia bruscamente para se livrar de suas mãos. Ambos se afastaram, tropeçando nas crianças inconvenientes.
— Deixa ela tentar um pouco — Samanta disse para Suzana, chegando de trás dela com algumas sacolas de compras em mãos, sua voz parecia fraca e cansada.
— É, mãe, ninguém pediu sua ajuda — Thomas disse, um pouco desaforado.
— Eu vim porque você tava quase derrubando a menina — Suzana respondeu.
— Não, nada disso, eu tava brincando com ela — ele retrucou.
— Ah, chega, já deu! — Teresa gritou — Vocês vão é me deixar maluca com essa ladainha de vocês, que saco!
— Deixem ela, pelo amor de Deus — Samanta disse, tão farta quanto ela, e todos assentiram, resmungando e dando espaço para que Teresa pudesse caminhar com sua própria perna; mas quanto mais se movia com aquelas muletas, mais ela se sentia uma inválida.
— Tudo bem com você? — Samanta perguntou, chegando ao seu lado, assim que os parentes lhe deram um pouco de espaço, apesar disso, Thomas mantinha uma certa atenção nela, não tinha jeito, ele era muito superprotetor para simplesmente se afastar e deixar isso em suas mãos.
— Tudo — Teresa mentiu em resposta, mantendo os olhos no caminho e seguindo em frente, passo a passo. Não estava bem, não estava nada bem, tudo aquilo era péssimo.
Teresa deu um jeito de se trancar no seu quarto, e ficar por ali até o final da tarde. A sensação ao vê-lo era pior ainda, tudo continuava exatamente como ela deixou quando saiu para jantar com a família de Gustavo. Piso de cerâmica marrom, teto forrado de gesso e paredes brancas. Havia uma pequena cômoda com seu kit de maquiagem, um espelho de corpo inteiro, onde ela tinha colado um adesivo de coração em uma das bordas. Havia uma janela de vidro logo acima de sua cama, com cortinas azuis que, quando fechadas, projetavam sua cor através da luz do sol, dando um aspecto azulado às paredes e móveis. A cama de Teresa era grande e macia, e abraçou o seu sofrimento, como já tinha feito em tantas outras situações, e ali ela ficou, apenas observando o azul a se apossar de seu quarto, como se estivesse submersa no oceano, sem respirar, mas verdadeiramente livre, onde poderia nadar para onde quisesse. Entre seus devaneios, Teresa acabou dormindo, mergulhando na escuridão calma e aconchegante do inconsciente. Dessa vez, não houve mais pesadelos, embora tenha sentido a sua perna fantasma, no momento em que acordou, ouvindo um riso alto de criança e os sons de passos pesados no corredor, os pestinhas já estavam todos reunidos.
A última parte que restava da família, era a tia Carmen, que era a mais nova das três irmãs. José Mário, seu marido, administrava uma concessionária em Santa Catarina. Eles tinham dois filhos de oito e nove anos, Arthur e Davi, que sempre armavam um barraco quando se uniam com Thiago e Júlia. O que acordou Teresa, foi a gritaria de alegria deles no momento em que se encontraram, seguida da correria pelos corredores estreitos da casa, onde qualquer som ecoava pelas paredes (Teresa e Thomas eram bem mais silenciosos em sua infância). Depois de tomar um banho, com ajuda de sua mãe, se vestir, também com a ajuda dela, e se maquiar levemente, Teresa desceu para jantar com a família. Eram umas oito horas da noite, e em pouco menos de quatro horas, eles estariam em 1993.
— É, deve ser difícil aguentar esse pessoal da gringa — Samanta comentou, depois de ouvir sobre como Carmen e Mário foram maltratados por um Francês xenófobo, enquanto davam uma bronca em Davi em um ônibus lotado.
— Ah, não, os franceses são muito gente fina — Carmen disse, com sua voz propositalmente aguda — Sempre tem um ou dois que são idiotas mesmo, gente idiota existe em todo lugar.
— Uhum — Samanta respondeu a contragosto.
Esse foi o trecho da conversa que ela pegou no momento em que chegou à cozinha com o primo Thomas. Podia ver que adultos e crianças estavam em mesas separadas, enquanto sua mãe, suas tias e os maridos delas jantavam na sala de refeições, os quatro fedelhos comiam em uma mesinha de plástico, de frente para a televisão. Já faziam dois anos dês de a última vez que ela teve um ano novo em família. Em todas as outras ocasiões, ela saía para festas um pouco mais badaladas logo após o jantar, e só retornava às duas ou três da manhã, mas agora, Teresa estava inválida demais para isso, ela estava inválida demais para qualquer coisa.
— E você, princesinha, como vai? — Carmen disse, tocando Teresa nas bochechas no momento em que ela se sentou à mesa, com Thomas em sua cola, lhe dando apoio para que essa tarefa fosse possível. O apelido de princesinha era utilizado por ela quando Teresa tinha menos de dez anos, ver a sua tia trata-la como criança, foi algo que lhe deu uma boa prévia do que viria pela frente. Todos olhavam para ela com expressões penosas, e o silêncio reinava quando ela estava presente. A essas alturas, algumas questões começavam a surgir em sua cabeça.
— Eu tô bem — ela disse, sem muita animação, se desvencilhando dos dedos delgados e frios de Carmen, enquanto Thomas se sentava ao seu lado. Teresa costumava gostar muito de sua tia Carmen, porque, das três irmãs Cavalcantes, ela era a mais sorridente, a mais bem sucedida e, com certeza, a mais bonita; mas Teresa não estava com ânimo para sorrisos e nem para a beleza, não o suficiente para negar o óbvio para si mesma; Carmen era uma mala.
— Olha, Tê, eu ouvi dizer que as próteses de perna de hoje em dia, já são quase como pernas de verdade, é rapidinho pra você pegar o jeito com elas e voltar a andar sozinha — Carmen disse de forma branda, com uma péssima imitação de empatia.
— Uhum — José Mário murmurou em concordância, largando os talheres sobre o prato — As próteses de hoje em dia tem articulações bem flexíveis, eu conheci um homem que tinha uma prótese de perna e caminhava sem nem precisar de uma bengala — ele disse.
— É, hoje em dia a ciência já tá muito avançada — Suzana disse.
Teresa ouviu o riso alto e agudo de Thiago, vindo da mesa das crianças, o que lhe causou ainda mais dor nos nervos.
— Os médicos já falaram isso, dá pra gente mudar de assunto? — ela disse, sem fazer a menor questão de fingir que estava de bom humor. Ela pegou um prato para se servir. Mas Carmen fez questão de tomar dela.
— Deixa que eu coloco pra você, amor — ela disse, tentando achar um jeito de mudar o rumo da conversa — Então, você já sabe se vai fazer alguma faculdade?
— Não sei — Teresa disse — Eu não pensei em nada ainda, tá bom? — ela emendou, elevando um pouco o tom.
— Tá, tá bom, desculpa — Carmen disse, enquanto abria as panelas e ia distribuindo porções de comida em seu prato, como se ela precisasse dessa ajuda, talvez Carmen achasse, de alguma forma, que ela perdeu os braços também. Essa foi a primeira das questões que surgiu em sua mente, eles realmente iriam começar a tratá-la como uma invalida? Se iriam, era melhor fazerem isso direito, jogando-a em uma cadeira de rodas e lhe dando comida direto na boca.
— Eu podia fazer isso sozinha, tia — ela disse, mas Carmen ignorou, colocando um pouco de purê de batata com parmesão sobre a carne, arroz, feijão preto, um pouco de salada e peixe cozido, e serviu o prato para ela.
— Purê encima da carne? Isso devia ser um crime inafiançável — Thomas disse ao seu lado; Teresa sorriu.
— Nada demais, você que é um fresco — Carmen comentou, imitando a voz dele de um jeito ridículo.
— Você ainda tava fazendo aula de ballet? — Eduardo abriu a boca para falar pela primeira vez, e já silenciou a mesa inteira. Todos volveram os olhares para ele, em um misto de espanto e raiva.
— Amor! — Suzana o repreendeu, e ele se deu conta que tinha tocado, sem a menor noção, em um assunto complicado.
— Q-quer dizer... — Eduardo tossiu, fingindo estar engasgado com o vinho — Você ainda gosta de assistir aquelas apresentações de ballet?
— Esquece, pai, você é péssimo nisso — Thomas disse, quebrando a tensão como só ele conseguia fazer.
— Ela parou há uns dois anos, uma coisa não tem nada a ver com a outra — Carmen disse em sua defesa, enquanto Teresa tentava não dar ouvidos às idiotices deles.
— E se ela quiser fazer ballet, pode fazer com a prótese! — Samanta disse, erguendo a voz acima de todos e calando o burburinho.
— Pode? — Carmen perguntou, atônita, no silêncio que se seguiu.
— Posso? — Teresa perguntou logo em seguida. Samanta arregalou os olhos, como quem sabe que acabou de se meter em uma fria, óbvio que tinha falado aquilo da boca para fora, não existiam bailarinas com próteses, ao menos, nenhuma que ela conhecesse.
— Olha... Talvez possa — José Mario disse, mas não colocou a menor confiança em seu tom de voz.
— P-pode, pode sim — Samanta disse, mas logo (assim como Eduardo) fingiu engasgar com o vinho, tossindo forçadamente para ganhar tempo. Teresa balançou a cabeça negativamente, esse era um momento perfeito para ela se levantar e deixar aquela mesa para trás, mas ela não podia sair, se fosse fazer isso, precisaria de ajuda, ela estava presa ali com eles, tendo que aguenta-los falando todas aquelas besteiras.
— Não, eu não posso — Teresa disse, quando todos os olhares mudaram de Samanta para ela, foi impossível não sentir raiva de todos aqueles idiotas — E vocês sabem que eu não posso, então dá pra vocês calarem a boca e me deixarem comer em paz?!
— Se... A prima falou, então tá falado — Thomas disse, em uma fracassada tentativa de reduzir a tensão.
— E você, cala a boca também — Suzana disse, afetada por todo o estresse. Thomas arqueou as sobrancelhas, assentindo e fazendo um sinal de zíper na boca.
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Atualizado até capítulo 23
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