— Por quê? — Ele perguntou, curioso.
— Jesus! — Eu gritei quando fechei a geladeira e o encontrei parado bem atrás dela. Quase derrubei a jarra de água no chão, mas mesmo assim fez uma poça com o que caiu. — Quer parar de fazer isso?
Eu o repreendi e coloquei a jarra em cima do balcão para pegar o pano e secar a bagunça. Christophe se manteve parado de braços cruzados ao lado da geladeira como se aguardasse minha resposta de uma pergunta que eu não sabia exatamente. Ao menos ele estava vestido dessa vez. Mesmo que sua camisa polo estivesse esmagando seus braços e as calças fossem de um formato estranho.
— Quer saber o que? — questionei e ele suspirou.
— Por que se guardou? — ele me perguntou.
— Eu não me guardei. Só conheci um monte de idiotas que não me convenceram a dar para eles.
— Compreensível. — ele falou, mas parecia que minha resposta não o tinha deixado satisfeito.
— Achou que eu estava esperando meu príncipe encantado? — eu o questionei. — E que eu ia cair de amores nos seus braços depois de saber das lendas malucas que me rodeiam?
— Por quê em toda a vida você tem que ser assim quando eu a reencontro? — ele retrucou.
— Como assim?
— Você sempre é tão desconfiada e teimosa. Não importa quantas vezes eu tente te explicar, você nunca acredita em mim. Sempre precisa acontecer algo ruim para você cair em si — ele disse, frustrado.
— Você acreditaria? — minha pergunta fez ele se calar.
Christophe pensou naquilo e provavelmente tentou se colocar no meu lugar.
— Acho que não. — ele admitiu, com honestidade. — Eu sei que é difícil acreditar em tudo o que eu te disse. Sei que parece loucura, mas te juro que é a verdade.
Suspirei, observei seu rosto jovial e percebi que ele estava com uma expressão mais dócil. Ele parecia sincero, mas também desesperado e eu não sabia o que pensar. Algo em mim queria acreditar nele, mas também tinha medo.
— Acho que vou comprar umas alfaces, você come salada? — perguntei tentando quebrar o gelo da situação, mas logo me dei conta do que estava fazendo. — Não acredito que estou alimentando o cachorro. Vai ser difícil te abandonar na estrada depois.
Virei-me para pegar minha carteira e Christophe me tocou na cintura. Suas mãos apertaram meu corpo contra o dele com força e isso me fez gemer.
— Eu avisei para não me chamar assim. — Ele me beijou o pescoço arrancando meu ar e antes que me mordesse eu protestei.
— Desculpa, desculpa. Não faço mais. — falei, soltando-me. Meu coração voltou a palpitar tão desesperado quanto um animal indefeso.
— Acho bom; e não, eu não como mato. — ele disse, irritado.
— E eu não como carne vermelha, somos almas gêmeas mesmo. — A ironia foi evidente na minha fala e isso o fez rosnar para mim. Mas antes que ele se aproximasse eu agarrei a porta e a abri saindo rapidamente do apartamento.
Peguei algumas verduras e legumes no Hortifruti do mercado. Passei pelo corredor de congelados e vi algumas carnes dispostas ali. Faziam anos que eu não comia aquilo, desde que me mudei para São Paulo. Nunca fui chegada a comer carne vermelha e vivendo sozinha, não era obrigada a ter em casa, mas minha visita comia, então precisava levar algo para ele.
Não sei por quê eu estava pensando nele.
Enquanto eu me martirizava pela situação, ouvi um estrondo alto e a janela de vidro do mercado que dava para o jardim do prédio se espatifou em mil pedaços como se algo tivesse sido jogado contra ela.
Um rosnado alto me fez colocar a mão nos ouvidos e encolher meu corpo. Ainda assim, foi possível ouvir o rapaz do caixa xingar e quando olhei em sua direção uma força invisível o jogou longe fazendo-me gritar.
Patas bateram na minha direção tão rápido que eu mal consegui pensar. Havia algo ali que estava pronto para me atacar, mas meus olhos não encontravam nada.
Porém, a coisa não me acertou, pois o enorme lobo branco bateu seu corpo contra a criatura invisível que lançou uma estante de alimentos no chão.
Os olhos azuis da criatura branca se prenderam em mim por um instante e uma vontade de correr dali me fez obedecer ao meu corpo. Sem saber para onde ir, apenas deixei que minhas pernas me guiassem para longe daquele confronto.
Corri sem olhar para trás, esperando que o lobo branco me protegesse do ataque do inimigo invisível. Ouvi mais rosnados, grunhidos e estalos de vidro quebrado. Senti o vento frio bater no meu rosto e o cheiro de sangue no ar. Não sabia o que estava acontecendo, mas tinha certeza de que estava em perigo.
Cheguei à saída do mercado e procurei pelas escadas que davam para os apartamentos. Não seria tola de ir de elevador para acabar presa em uma caixa com um animal sem rosto. Consegui subir cinco degraus, mas fui surpreendida por uma força que me empurrou para o lado.
Caí no chão, machucando o joelho e o cotovelo. Levantei a cabeça e não encontrei nada, apenas o vazio no corredor e o som do rosnado. Era o inimigo invisível, que tinha me seguido até ali.
Tentei me levantar, mas ele foi mais rápido, sua pata estava sobre meu peito, inclinando-me para que meu corpo se deitasse e a baba caiu em meu rosto. Por sorte o lobo branco surgiu e o puxou de mim, mais uma vez seus olhos encontraram os meus fazendo uma eletricidade percorrer todo meu corpo.
— Christophe — eu sussurrei e senti a vontade de fugir crescer novamente em meu corpo.
O lobo branco correu em direção a algo que batia as patas para nós enquanto eu saía dali. Ainda ouvi uma das criaturas gemendo e a vontade de saber se era o lobo branco me fez parar no meio do corredor, mas se fosse a criatura invisível, ele iria me pegar e isso me motivou a deixá-los lutando por seja lá o que fosse.
Quando cheguei à portaria do prédio, havia uma multidão de pessoas e diversos burburinhos dizendo que um grupo de vândalos estava destruindo o lugar. Procurei Christophe em meio às pessoas, mas não o encontrei. Isso me fez olhar novamente para a entrando e cheguei a conclusão que ele realmente deveria ser aquele lobo branco.
Seu Pedro tentava acalmar a multidão, mas eu só conseguia olhar para a entrada do hall e não entendia nada do que ele falava.
Me esgueirei entre as pessoas, buscando um esconderijo sem tirar os olhos do meu objetivo, e então ele apareceu. Saiu pelas portas principais, mancando com uma perna ensopada de sangue. Seu corpo era coberto por uma toalha que ele deve ter pego na seção cama mesa e banho do mercado, pois ainda estava com o preço e o ímã da loja.
— Agora acredita em mim? — ele disse e seu corpo caiu sobre o meu.
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Atualizado até capítulo 92
Comments
Cleidiane Oliveira
e como ele disse , só acredita depois que uma coisa ruim acontece.
2025-03-23
0
Rosaria TagoYokota
que cena ilaria ele de toalha peladao
2025-03-06
0
Cinthia Merces
kkkkkkkk
2025-02-02
0