— Tão bela quanto o seu pai era, minha querida sobrinha. Você tem os
olhos dele — a voz do homem ao meu lado me faz voltar à tona, à minha
realidade.
Estou parada em frente à igreja ancestral de pedras, que foi construída
há cerca de mil anos. É um templo sagrado para a religião.
Deve ser um momento especial para uma mulher o casamento com o
homem correto.
Meu mundo para quando ouço o som da marcha nupcial enquanto
caminho ao lado do meu tio, Agostino Bianchi, um homem que se parece
fisicamente com o meu pai, mas que é totalmente diferente dele
interiormente. Posso sentir algo tenebroso em seu olhar. O que o meu pai
não tinha.
Ando em direção ao altar como se caminha no corredor da morte. É
doloroso e agonizante. Ao menos sei que tem alguém que amo intensamente
sorrindo para mim. É a minha mãe no altar, no seu lugar de honra, ao lado do
avô de Deméter. Posso perceber que ela e meu tio trocam olhares estranhos.
O dela é receoso, como o de um passarinho assustado, já o dele é... Bem,
posso dizer que não é nada bom. Ha um certo ódio de sua parte? Talvez por
minha mãe ter me levado. Ou há mais coisas por trás?
São tantos mistérios em volta da minha família, que não sei o que
pensar neste momento. Posso estar vendo coisas onde não existe, devido ao
fato do lobo mau estar me esperando no altar. É como se, a qualquer
momento, ele fosse pular em minha direção e me devorar, rasgar-me ao
meio, como todas as pessoas que aqui estão presentes desejam que aconteça.
— Seu pai teria muito orgulho de ver a figlia (filha) dele se casando
com o homem mais poderoso da Sicília — meu tio se pronuncia mais uma
vez. Já estamos muito próximos ao altar.
Não o olho, mantenho meu olhar fixo no altar. É como se fosse um
refúgio observar as imagens dos santos presentes. A última coisa que quero é
uma aproximação com o meu tio. Sei que ele e minha avó devem desejar a
morte da minha mãe. Não ficarei ao lado daqueles que querem a sua morte.
De fato, meu pai me colocou nesse enlace, nesse acordo de casamento,
quando eu ainda não havia nem nascido. Eu deveria culpá-lo? Sim. Pois
mesmo fazendo o que achava correto, ele não estava certo. Ninguém hoje em
dia se casa sem amor. Pelo que vejo, sou uma exceção.
— Massino, entrego a ti minha sobrinha. Promete cuidar desse tesouro
todos os dias da sua vida? Até o fim? — Meu tio me entrega como um
prêmio para o meu noivo no altar.
Deméter desceu os degraus para juntar a minha mão à sua. Com receio,
seguro a sua mão quente como o fogo. Instantes atrás estávamos
conversando no quarto, quando ele me presenteou com a coroa da sua mãe e
me deu o melhor presente de casamento de todos. Poder abraçar a minha
mãe foi o melhor presente de todo o mundo.
O olhar de falcão na minha direção, em forma de admiração, queima a
minha alma. Quando ele me disse que me deseja ardentemente e que poderia
provar isso a mim naquele mesmo instante, eu não soube o que pensar ou o
que dizer. E o vendo agora parado diante de mim, esperando-me para o
casamento, sinto como se ele estivesse roubando o meu fôlego, mesmo que
por acidente. Ele me levou a um estado de tranquilidade quando minha mão
tocou na sua. Com sua outra mão, por cima das nossas já unidas, ele acaricia
a minha pele, levando embora parte da minha ansiedade e temores. O que é
tranquilizado também quando seus lábios beijam a camada mais macia da
minha mão.
Fecho os olhos brevemente. Por um instante, é como se estivéssemos
apenas nós dois presentes na igreja. É como se o mundo fosse apenas nosso.
— La mia bella sposa (Minha linda noiva).
Respiro com dificuldade. O olhar negro em minha direção me faz
perder todo o nervosismo.
Subimos os quatro degraus até ficarmos mais próximos ao padre, que
dá início à cerimônia. A todo momento, a mão de Deméter está unida à
minha. Não é comum isso nesses casamentos, no entanto o meu noivo não
quer soltar a minha mão por motivo algum. O que ele me disse no quarto foi
uma promessa. Eu não tinha entendido dessa maneira, mas agora vejo que
realmente foi.
— Senhorita? — desperto com a voz do padre, que está a me olhar. A
minha mão não está mais unida a de Deméter. — Irei repetir. Creio que
devido à emoção, não tenha me escutado com clareza.
Não o escutei? O padre já me perguntou se eu aceito me casar com
Deméter? Eu estava distraída demais, ocupada com meus pensamentos, para
prestar atenção no reverendo.
— Beatrice Esposito Bianchi, aceita Deméter Massino como o seu
legítimo esposo? Promete amá-lo e respeitá-lo por todos os dias de sua vida,
em quaisquer circunstâncias ou atribulações?
Meu peito sobe e desce. Uma resistência de minha parte não seria
tolerada perante esse imodesto número de convidados presentes na igreja. O
caminho até o altar me mostrou muitos rostos desconhecidos, assim como
foi no noivado. Eu buscava depositar minha atenção na linda decoração e na
igreja feita de pedras, conservada até os dias de hoje, em vez de me atentar
às pessoas que não me veem como um acordo vantajoso.
— Aceito.
O olhar do meu noivo era frio e não expressava nenhum tipo de
preocupação a uma possível resistência minha. Ele é tão confiante, que chega a me irritar. Tenho certeza de que iremos discutir muito por tudo e por
qualquer coisa. Já o odeio antes de ser o meu marido, e o odiarei muito mais
depois que a aliança estiver em meu dedo selando a nossa união.
— Eu vos declaro marido e mulher. Casados. — O padre faz o sinal da
cruz.
A aliança é colocada no meu dedo, deslizada de uma maneira que o
queima. Na minha vez, eu sou rápida, pois não quero prolongar este
momento.
— O que Deus uniu, o homem jamais poderá destruir. — Jamais poderá
destruir ou desfazer. Engulo em seco. — O noivo pode beijar a noiva.
Eu recuo um passo para trás e Deméter dá dois passos ao meu encontro,
ficando muito próximo a mim. Ele me beijará perante todos, e eu não
poderei empurrá-lo como desejo. Fecho os olhos, esperando pelo toque dos
seus lábios macios nos meus. Surpreendo-me quando sua boca beija a minha
testa.
O tanto que eu acho um beijo na testa respeitoso não está escrito.
Deméter me surpreendeu com esse gesto. Ele é uma caixa de surpresas,
nunca sei o que realmente vai acontecer.
— Solo mia (Só minha), bebê — ele pronuncia duramente ao segurar
minha mão, desta vez mostrando a todos que lhe pertenço.
Assim será a minha vida de agora em diante. A senhora da máfia.
Saímos da igreja. As alças do meu vestido descem um pouco,
revelando mais os meus ombros, e o olhar de Deméter vai em direção ao
pedaço de pele que ficou à mostra. Seus olhos negros é de quem gosta do
que vê e, ao mesmo tempo, desaprova a força do vento, que também remexe
o meu véu, elevando-o ao ar.
As nuvens no céu são de chuva. Esta não é uma noite com muitas
estrelas. Até o céu sabe do meu suplício.
Tenho dificuldade para descer os degraus lado a lado com o meu, agora
então, marido. Será tão difícil me acostumar com a ideia de que ele é o meu
marido.
Por um instante, penso que vou derrubar o meu buquê no chão. Solto a
mão de Deméter para o segurar melhor. Estou apreensiva mais uma vez.
Estamos indo para o carro parado em frente à igreja. Será o nosso primeiro
momento sozinhos como marido e mulher. Se ele exigir seus direitos
conjugais dentro daquele carro, o que farei?
Meus cabelos também estão sendo balançados pelo vento.
O azul-marinho do terno de Deméter é forte.
Mesmo com a noite escura, posso observar que ele tem um certo brilho.
Seus olhos vêm de encontro aos meus e seus pés estão no degrau abaixo do
meu. Ele, simplesmente, parou de caminhar e estendeu a mão novamente na
minha direção. Eu seguro o buquê na outra mão. As rosas são perfumadas e
muito bonitas.
Meus dedos tocam nos seus com suavidade. Deméter para a fim de me
observar deste ângulo, quando não há mais ninguém atrás de mim. O espaço
é somente meu e dele. É como um choque térmico quando os nossos olhares
se encontram. Ele me olha como quem diz “minha mulher”, intensamente e
de corpo e alma. Preciso me afastar dele, mas o calor que une nossas mãos
me impede de ir para longe. É como se um ímã me puxasse para perto dele.
No momento em que uma chuva de arroz cai sobre nós, parecendo neve
em uma noite escura e gelada, tomo um susto. Inicialmente, posso ver que
ele não é fã de chuva de arroz, assim como eu, apesar de isso ser romântico e
bonito, uma tradição a ser seguida.
A porta do carro é aberta pelo motorista e eu busco, com o olhar, a
minha mãe. Eu não a encontro e a porta é fechada. O meu marido dá a volta
e entra no veículo pelo outro lado. O Porsche Panamera dá largada, levandonos para o local onde será a festa. Quando saímos da igreja, ouvi as pessoas
comentarem, entusiasmadas, sobre o evento.
Há uma proteção de vidro preto entre nós e o motorista, que está no
banco da frente e não pode ver quem vem atrás.
Olho pela janela, tentando procurar a minha mãe, mas não a vejo.
Começo a me preocupar.
— Tranquila, minha querida. A sua mãe nos esperará na nossa festa.
Como Massino consegue ler os meus pensamentos, eu não faço a
menor ideia, apenas alimento o pensamento de que ele é um vampiro que lê
mentes. Está explicado por que ele odeia a luz do dia e sempre veste preto.
— Conversei pouco com o meu tio. — Ele foi caloroso, apesar dos
anos sem mantermos contato. — Temo que ele possa...
— Sua mãe está segura, fique tranquila. Aproveite a festa do nosso
matrimônio, anjo.
— Como posso ficar tranquila? Deméter, está me levando para uma
festa com pessoas que não conheço, e também me forçou ao casamento.
Você não me entende mesmo.
— Estarei o tempo todo ao seu lado, baby. E não se preocupe,
ficaremos o menor tempo possível naquele lugar. Sabe que desejo ficar a sós
com você o quanto antes. — O seu olhar malicioso me enche de pavor.
Ficaremos sozinhos. Suspiro, nervosa.
Estou de volta ao lar que será meu de agora em diante, onde está
ocorrendo a festa de casamento. Desta vez é em um vasto salão, em um dos
cômodos do castelo, e não em uma passagem secreta.
Somos aplaudidos por todos assim que chegamos ao local. Procuro,
incansavelmente, pela minha mãe. Vejo-a próxima à mesa do bolo.
Confesso que a decoração está deslumbrante. Está exatamente como eu
a deixaria se tivesse escolhido tudo. O impressionante é que até a cor do
tapete, eles colocaram igual eu sempre quis. É um vinho tipo sangue, em
uma coloração mais forte. E os lustres de cristais são como os de um
desenho que fiz uma vez. Também ouvi dizer que o sabor do bolo é de
ganache com Ninho. Tento entender como.
A mesa dos noivos fica no centro do salão, onde todos podem nos
olhar. Sento-me com a ajuda do meu marido, que segura a barra do meu
vestido. Há cavalheirismo nele, mesmo que ele não demonstre tanto.
— Gostando da festa, esposa?
Meus ouvidos estão curtindo a música suave que toca. Sinto-me em um
romance de época por estar escutando as minhas canções favoritas
transformadas em solos de época. O som do violino é lindo. Sei tocar o
instrumento, mas não tive condições de manter um. Gosto do som suave que
ele produz.
Tudo está como em um sonho.
— Me explica como. — Posso ver um pouco de brilho em seu olhar. —
Como está tudo igual sempre sonhei?
— Eu contei com a ajuda da sua mãe para escolher tudo. Como minha
sogra, ela ficou encarregada de providenciar a festa dos sonhos da minha
esposa.
Eu deveria ter imaginado. A minha mãe é minha única confidente, a
única que poderia saber de tudo isso. Realmente, ela caprichou. Eu sorrio em
sua direção e ela retribui. A nossa conexão é ótima. É como se ela estivesse
me dizendo que está aqui, ao meu lado, e que posso segurar na sua mão. Ela
está me confortando de alguma maneira.
— Meu querido neto. — O avô de Deméter, Fabrizio, aproxima-se de
nós. Ele vem acompanhado do meu tio, Agostino. — Que lindo casal que
formam. — O velho se mostra satisfeito com o nosso casamento pela
primeira vez.
O olhar do meu tio pode parecer doce, mas eu sei algumas coisas sobre
ele que me desagradam. Ele queria a cabeça da minha mãe a prêmio. Não
poderei me esquecer disso.
— Felicidades aos noivos — ele nos felicita. — Minha linda sobrinha,
está deslumbrante e muito bela. Querida, sua avó deseja falar com você.
Assinto sem dizer uma palavra. É como se ele precisasse da minha
autorização para que ela viesse. Deméter não diz nada, pois a decisão é
minha. Não posso me negar a falar com uma senhora idosa, que precisa de
ajuda para caminhar. Suponho que a mulher que a traz seja a sua nora,
esposa do meu tio.
Minha mãe nos observa de longe. Ela está preocupada comigo.
Estou confiante para os encarar. O pouco que me lembro da minha avó
é que ela nunca foi uma mulher carinhosa.
— Sua avó, Beatrice — meu tio anuncia.
Certamente, meu pai herdou o sorriso dela. São parecidos, apesar do
dela ser gélido. Não me importo. Devo respeitá-la por ser a mãe do meu
querido pai.
— Parabéns aos noivos — ela diz educadamente. — Você cresceu, Bea.
— Era assim que ela me chamava. — Linda como o seu pai.
— Como a minha mãe também — exalto a beleza da minha mãe.
— Pensei que tivéssemos um acordo, Fabrizio — ela fala com rancor.
— A traidora ficaria comigo.
— Este não é o momento, Adalia. Estamos em uma festa de casamento
— Fabrizio é curto. — O assunto mais importante agora será a consumação
desse casamento, meu neto.
— A traidora seria entregue à minha família. Esse foi o combinado —
ela insiste.
É como se Fabrizio tivesse dado uma ordem para o meu marido me
levar para o quarto e tirar minha virgindade o mais rápido possível. Porém,
não posso deixar de falar sobre o que ouvi. Minha avó veio até mim cobrar
ao Fabrizio a minha mãe? Como um objeto?
— Senhora Bianchi e senhor Massino, eu estou aqui presente e não
admito que ousem fazer mal à minha mãe. Sei bem o que todos vocês
querem, mas eu não vou permitir. — Coloco-me de pé. Todos os olhares
estão voltados para mim. — Ninguém vai tocar na minha mãe. Ninguém! —
praticamente grito, muito assustada.
Eu faria qualquer coisa para a proteger.
— Fique calma, minha sobrinha...
— Calma? Com todos vocês querendo machucar a minha mãe? Acho
que não, titio. — Ridicularizei a palavra “titio”.
Fabrizio desaprova o meu comportamento ao me fuzilar com o seu
olhar arrogante.
— Controle a sua esposa, Deméter. Ela não respeita ninguém. Coloquea em seu lugar, meu neto. Não permita que ela fale assim conosco. Isso eu
não irei tolerar.
Não posso ver a expressão do meu marido, porém sinto que ele ficou
em pé.
— Ninguém vai mandar em mim. Podem ter me obrigado a casar, mas
jamais serei submissa de um homem, senhor Fabrizio. Se isso o desagrada,
pode me matar aqui mesmo, se quiser.
— Insolente essa ragazza. Deméter, não me faça perder a paciência
com ela. Não em um dia como este.
Meu marido não se pronuncia, e isso me irrita. Mesmo que seja para
me fazer parecer uma mulher dominada, mas que diga alguma coisa.
— Vão para o inferno todos vocês! — Seguro a barra do meu vestido e
caminho, apressada, em direção à mamãe. Ela me recebe carinhosamente
com um abraço protetor.
— Calma, meu amor. Não os ouça. Não deixe que eles a afetem com
palavras. Seu marido não está nada satisfeito com o que lhe disseram. Posso
perceber que ele está repreendendo os demais.
Não acredito nisso. Ela não mente, mas pode estar entendendo tudo
errado.
Odeio todas aquelas pessoas.
Fabrizio e meu marido saíram para conversar em particular. Essa
demora já está me deixando chateada. Ele disse que ficaria ao meu lado, mas
já faz mais de meia hora que sumiu.
— Senhora, o seu marido a espera no escritório — uma garçonete me
avisa.
Agora o sermão vem. Disso tenho certeza.
Estou à mesa dos noivos. Minha mãe está ao meu lado.
Vejo que Fabrizio acabou de retornar. Sinto receio de sair e deixar
mamãe sozinha, com a família do meu pai nos fuzilando, mesmo que de
longe. Isso incomoda a mim, e a ela também.
— Vou ficar bem, querida. Vá de uma vez. Não deixe o seu marido
esperando muito, não o irrite — ela suplica, temendo que ele possa me
machucar.
Assinto, seguro a barra do vestido longo e vou o mais depressa possível
até o escritório. Meu peito sobe e desce. Escuto risadas. Dois soldados me
acompanharam até o corredor, para a minha segurança, ou eles temiam que
eu pudesse fugir. Eu fugiria se tivesse uma possibilidade de não ser
encontrada.
— Oh, querido! — a mulher geme alto. — Quer mesmo que eu não ria?
Você se casou com uma mulher gorda e de seios fartos, como você gosta, só
que tudo é gordura, baby. Está mesmo disposto a trocar tudo isso por uma
gorda feia e sem graça?
A porta está entreaberta. Eu não posso ver onde está o meu marido,
consigo ver apenas uma loira peituda que vi na igreja usando um vestido
vermelho longo. Seus seios estão à mostra. Ela é linda, atraente, magra e seu
corpo é cheio de curvas.
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Atualizado até capítulo 36
Comments
Cida Mendes
Essa mulher é muito chata, até parece que o futuro marido maltrata ela eu hein cheia de Fricote corredor de morte se ele fosse ruim com ela e a mãe dela aff tô tomando ranso dela já
2025-01-08
1
Maria Helena Macedo e Silva
age na maciata Bea entra no escritório e assista, não haja com impulsividade...
2024-03-08
0
Maria Aparecida Monteiro Firmino Cida
ela não sabe o que quer/Slight/
2023-12-07
7