Vejo-me distraída, bebendo o meu chá gelado de camomila para
acalmar os nervos e me ajudar a manter a serenidade no meu trabalho. É
quando percebo uma certa movimentação vindo em minha direção. São
quatro homens vestidos de ternos pretos e gravatas, usando óculos escuros.
São seguranças!
Será que são seguranças dele? Do meu ex-noivo mafioso?
Engulo em seco. E agora? O que eu faço? Será que eles vieram atrás de
mim? Mamãe estava certa em todo esse tempo? Preciso correr e me
esconder, pois estou sozinha neste vasto corredor. São quase duas da tarde.
Não posso entrar em pânico. Nem todo segurança trabalha para ele. E,
nesse caso, o que ele teria vindo fazer neste hospital novamente, se está tudo
bem com os exames?
Os homens estão vindo em minha direção e o pânico me domina. Eu
puxo o ar para os meus pulmões e ele vem com uma certa dificuldade.
Se Deméter estiver aqui, o que farei? É melhor eu me esconder no
banheiro que fica no final do corredor.
Mantenha a calma, Trice.
Este hospital atende famosos, muitas celebridades, empresários e
políticos, que sempre estão acompanhados por seus seguranças. Não
significa que aquele homem esteja aqui.
Apressada, eu me viro, pronta para ir embora. Mas é impossível,
porque me esbarrei no homem imponente de terno, também preto, e gravata
azul, derrubando parte do meu chá na sua camisa branca, que estava exposta
devido ao blazer não estar abotoado.
Arregalo os olhos, apavorada com a situação. Por sorte, o chá era
gelado. Contudo, ele caiu justamente sobre o homem mais tenebroso de todo
o planeta Terra.
O meu ex-noivo, de quem minha mãe e eu fugimos quando eu tinha 9
anos.
Ele está no hospital, diante de mim, encarando-me com seus olhos
negros aterrorizantes. Sua postura ereta me assusta e me intimida. Ele é tão
alto, forte e másculo. A barba rala desenhada por um profissional excelente
reluz muito mais sua masculinidade, e suas mãos estão dentro dos bolsos da
calça.
Apesar de eu ter derramado chá nele, há uma certa serenidade em seu
olhar. O que eu não sei se deve me tranquilizar ou me acalmar. Mamãe diz
que todos os chefes de máfia são endiabrados e não se deixam levar por suas
emoções, ou seja, nunca se sabe o que eles realmente estão pensando ou
sentindo. Eles soam frios e calculistas. É tudo que devo saber.
— Perdão. Eu derramei todo o meu chá em você e manchei a sua
camisa cara. — Quando fico nervosa, não sei o que falo. Meus olhos estão
marejados. — Me desculpa. Eu posso limpar. — Passo o meu antebraço
nele, tentando secar o chá ao menos na manga do meu uniforme azul. Agora
manchei minha roupa e a dele mais ainda.
Diante do seu silêncio, não contenho minhas lágrimas. Estou apavorada
porque sei que há quatro homens grandes e fortes atrás de mim. Este minuto
pode ser o último da minha vida.
Por que eu confiei tanto que ele não iria voltar? Que ele não me
reconheceria?
Calma, Trice.
Ele não disse uma palavra ainda, e isso me deixa mais nervosa. Minhas
lágrimas quentes molham o meu rosto, fazendo-me parecer uma
desequilibrada perto dele. Tenho certeza de que ele está me julgando com o
seu olhar. Estou cabisbaixa, em uma tentativa inútil de não mostrar o meu
choro.
— Me desculpa — peço mais uma vez, baixinho.
Eu suspiro e o ar sai com mais dificuldade. Quando eu poderia
imaginar que um mafioso italiano viria ao Brasil? Que tipo de assunto ele
veio resolver? Por que ele tinha que levar um tiro e ser atendido justamente
no meu dia de trabalho? Tantos dias para o meu ex-noivo mafioso levar um
tiro e vir ao melhor hospital do Rio de Janeiro, e ele escolheu vir justo no
meu plantão. Sou a pessoa mais sem sorte do mundo inteiro.
Atrevo-me a olhar em seus olhos com receio, temendo alguma agressão
violenta de sua parte, porém me deparo com um homem que, aparentemente,
está sereno e sem me julgar, como eu acreditava que estaria. Minha mãe tem
razão: eles sabem como conter as emoções.
— Si sente bene, signorina? (Está se sentindo bem, senhorita?)
Pelo que posso perceber, ele se recorda de mim. Nós nos vimos ontem,
e ele se lembra de que eu sei falar um pouco de italiano. Eu mesmo lhe disse
isso. Claro que não iria falar que sou fluente.
— Sì, sto bene. Licenza (Sim, estou bem. Licença).
Fico receosa por ter respondido em italiano, mas foi melhor do que o
irritar.
— Curioso, signorina Esposito (Curioso, senhorita Esposito). — Ele
leu o meu sobrenome no meu crachá. O primeiro nome está apagado.
Inclusive, eu já deveria ter providenciado outro crachá. Acabarei levando
uma reclamação. — Questa è la seconda volta che ci vediamo, e in entrambi
i casi hai piangi. Intrigante (Esta é a segunda vez que nos encontramos, e
em ambos os casos você chorou. Intrigante).
— Lavorare in un ospedale, signore, è piuttosto d'impatto. Ogni giorno
ho a che fare con situazioni terribili per la mente umana (Trabalhar em um
hospital, senhor, é bastante impactante. Todos os dias lido com situações
terríveis para a mente humana).
Isso é verdade. Sempre vivencio situações muito tristes. Todas as vezes
que um paciente perde a vida neste hospital, todos da equipe médica ficamos
tristes por dias. Mas é claro que eu não diria a ele que estou assim por sua
causa. Eu levantaria suspeitas se não tivesse uma boa justificativa.
— Forse ho scelto la professione sbagliata (Talvez eu tenha escolhido
a profissão errada). — Eu menti, pois amo a minha profissão. — Scusa. È
meglio che non parli più italiano, sono pessima con la lingua (Desculpe. É
melhor eu não falar mais em italiano, sou péssima com a língua).
— Ti capisco perfettamente. Direi addirittura che parli fluentemente,
anche senza accento (Eu a compreendo perfeitamente. Diria até que você fala fluentemente, mesmo sem sotaque).
Engulo em seco e finjo que não o compreendi. Espero que ele esteja
convencido disso.
— Desculpe. É melhor eu me retirar. Licença.
Estou prestes a sair, quando sua voz imponente diz:
— Sempre com bastante pressa, senhorita. Para a sua sorte, sou fluente
no seu idioma. — Ele falou como se eu fosse errada por não o ter
“compreendido” bem.
— Se quiser, posso chamar o médico para atendê-lo.
— Não lhe pedi nada, senhorita. Não precisa correr todas as vezes que
me vir. Sou inofensivo. — Um sorriso debochado brota em seus lábios, em
seu rosto maduro incrivelmente bonito.
— Eu sei disso, senhor.
— Está errada. Não deveria confiar tanto assim em uma pessoa que
acabou de conhecer.
— Eu sei disso. — Não consigo desviar os meus olhos dos seus. Eles
são como um ímã que me atrai. — Posso perguntar, então, por que veio ao
hospital, já que não deseja que eu chame um médico para atendê-lo? —
Consegui pronunciar uma frase sem gaguejar. Preciso manter o meu
profissionalismo acima de qualquer coisa, mesmo que meu medo seja maior.
— Não precisa chamar um médico, porque já fui atendido. O único
motivo para que eu tenha retornado foi ter amanhecido com fortes dores no
braço.
— Pensei que não sentisse dor. — Droga! Por que falei isso? — O
senhor que disse isso ontem. — Não sei onde enfiar o rosto neste momento.
— Então... Eu já estou indo. Desculpe mesmo pelo chá.
Ele assente e, enfim, posso sair de perto dele. Caminho quase correndo.
Ao menos ele não me reconheceu. Ainda bem que o homem não se lembra
de mim e não sabe que eu fui sua noiva.
Espero que ele não volte mais ao hospital. Quantos dias mais pretende
permanecer no Brasil? Já está mais do que na hora de voltar para casa.
A internet agora é meu único meio para descobrir o que ele veio fazer
no Rio de Janeiro. Começo a pesquisar. Há algumas notícias, nos principais
sites do país, comunicando a vinda do senhor Massino ao Rio de Janeiro
para a grande inauguração da sua rede de carros importados no Brasil.
Suspiro aliviada. Ele não veio por minha causa.
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Atualizado até capítulo 36
Comments
Cida Mendes
Ela é muito sonsa, porque não enfrenta,o noivo quando ele humilha ela, já com o mafioso ela tem coragem é até ignorante com o cara que nem conhece
2025-01-08
0
Josefa Fonseca
nossa mais se este noivo roubar ela e pirque ela e mt burra aff
2024-09-14
0
Mel Mel
nossa esse noivo dela está traindo ela com a ex ou com outra mulher e ele ainda vai roubar ela
2024-07-03
1