O vestido branco longo é digno de uma princesa. Sinto-me como uma
princesa fora dos contos de fadas. Através do espelho, posso observar cada
detalhe da minha roupa. Confesso que estou muito nervosa e que minhas
mãos suam. A renda delicada do vestido já deve estar toda molhada desse
suor. Por mais que Alfredo tenha me dito inúmeras vezes para não secar as
mãos no tecido, eu insisto em acabar fazendo isso, muitas vezes sem
perceber.
Respiro fundo mais uma vez. O peso em meu peito só aumenta a cada
segundo que passa, deixando-me desesperada. Essa é a única palavra que me
define diante deste momento.
Em poucas horas me tornarei a esposa do ceifador de almas mais
temido da Sicília. Eu me tornarei a mulher de Deméter Massino. Serei sua
mulher perante a igreja, e também na cama, pois ele já deixou bem claro que
serei sua em todos os sentidos.
“Só haverá uma cama.” Foi o que ele disse, afligindo-me ainda mais.
Alfredo é o líder da equipe que cuidou de mim desde o penteado, que
foi um babyliss que deu mais volume e brilho aos meus cabelos, até a
maquiagem, que foi feita pela sua funcionária muito competente. Ela é leve e
natural. Quase não se percebe o batom rosa usado em meus lábios, que
remete quase que ao tom natural deles. É perfeito.
Consigo enxergar como estou bonita, mesmo sendo uma mulher
insegura. Posso ver quão grandioso foi o trabalho deles. Conseguiram
devolver um pouco de brilho ao meu rosto com o poder da maquiagem.
Contudo, mesmo estando deslumbrante para o casamento, não estou nada feliz. Não há a satisfação e o entusiasmo de uma noiva apaixonada em mim.
Durante muito tempo sonhei com o dia em que me casaria com o amor
da minha vida. Pensei que essa pessoa fosse Ricardo, porém a desilusão veio
e hoje sei que ele nunca foi o meu grande amor. Só que Deméter também
não é e nunca será. Não vejo como um casamento sem amor poderá dar
certo.
Seu único intuito é que eu lhe dê muitos filhos, e de preferência
homens. Se ele tem tanta vontade de ter um herdeiro, por que não se casou
antes? Já poderia ser pai de três crianças a esta altura do campeonato. Com
certeza a mulher que ele tivesse desposado estaria satisfeita por ser a senhora
da máfia. O que não é o meu caso. Terei respeito e todos à minha disposição,
mas não serei feliz.
Emociono-me ao pensar em mamãe. Mesmo com esse casamento sendo
contra a minha vontade, eu a imaginava comigo em um dia como esse.
Sempre sonhei que ela estivesse ao meu lado.
— Não chore, senhorita, pelo amor de Dio. — A maneira engraçada
como Alfredo falou e, ao mesmo tempo, fez gesto foi capaz de me fazer rir,
mesmo que essa não seja a minha vontade. — Ainda bem que Alfredo está
aqui. Assim, poderei deixá-la maravilhosa durante toda a cerimônia, e no pós
também. — Passa-me mais um pouco de bruma para ajudar a manter a
maquiagem mais fixa na minha pele.
Os produtos de alta qualidade não mancham quando eu choro. São
muito resistentes à água.
— Nunca vi uma noiva mais tristonha que essa. — Alfredo regula,
mais uma vez, o véu sobre minha cabeça. — Alguém viu a coroa que eu
escolhi para ela?
As meninas que trabalham com ele, ao todo, são cinco. Ninguém sabe dizer onde está a coroa.
— Incompetentes! — Ele não falou duramente, foi mais uma
advertência engraçada. — Tenho que fazer tudo sozinha, como sempre.
O único motivo pelo qual ele está aqui é porque não gosta de mulheres.
É mais fácil ele se apaixonar pelo noivo do que pela noiva.
— Encontrei — uma das moças fala e ele sorri.
— Seu noivo vai cair de joelhos por você quando te vir tão linda,
maravilhosa e, ao mesmo tempo, tão delicada como uma pétala. — Ele
segura em minhas mãos e arregala os olhos ao perceber que estou nervosa.
— Queridinha, não fique tão nervosa assim, ou poderá desmaiar.
— Se ao menos minha mãe estivesse aqui comigo, eu estaria mais
calma.
Alfredo fica pálido como um fantasma, repentinamente, ao olhar em
direção à porta. Não compreendo por que ele ficou assim, até que olho para
o espelho mais uma vez e vejo a imagem de Deméter Massino parado como
uma estátua olhando para nós. Para mim. Sinto todo o seu olhar faiscar sobre
minhas costas.
Continuo no mesmo lugar, parada, apenas o olhando pelo espelho.
Alfredo caminha na direção do meu noivo, preocupado e expressivo.
— Meu senhor, o noivo não pode ver a noiva antes do casamento. Por
Dio! Isso dá azar, além de estragar toda a surpresa do altar.
Deméter não se ocupa em olhar para Alfredo, muito menos lhe dá
alguma relevância, apenas ergue a mão, fazendo com que o homem se cale
imediatamente. O poder que ele exerce sobre as pessoas é terrível. Ele as
controla como marionetes porque todo mundo que sabe quem ele realmente
é, teme-o. É igual quando o Diabo vê a cruz sagrada.
— Saiam todos. Agora.
Imediatamente, todos que estavam comigo, saem. A moça que sai por
último fecha a porta.
Cá estamos nós dois, há poucas horas do nosso casamento, a sós em
meu quarto.
Não me incomodo nem um pouco com o fato de ele estar me vendo
vestida de noiva. Isso é apenas uma superstição que ficou para trás nos dias
de hoje. Poucas pessoas ainda acreditam nela.
Já Deméter parece ignorar tudo que vai contra os seus desejos. Vejo
que ele se aproxima lentamente de mim, elegante. Sua postura ereta está
incrivelmente forte e os seus cabelos estão alinhados em um novo corte mais
moderno, que o deixou com o semblante mais jovem, mas não menos sério,
apesar de eu poder sentir uma certa leveza quase inexistente. A aura negra
em volta dos seus olhos é a mesma, entretanto há outra coisa escondida por
trás desse olhar demoníaco. É como se o ceifador tivesse um pouco de alma
dentro de si.
Meu noivo para atrás de mim com cuidado para não pisar em meu véu.
Nós dois nos vemos ao fitar o espelho grande e largo sobre a parede.
— Você está deslumbrante, bambola (boneca). — Seus lábios se
comprimem de uma maneira tão sexy. — Perfeita.
Mantenho o meu olhar cabisbaixo por breves segundos, tentando
recuperar o fôlego. Esse homem me olha com tanta fixação, que chega a me
fazer perder o raciocínio. O deslumbre em seu olhar é insano. Parece que ele
está diante da mulher mais bonita do mundo. O que faz com que meu
coração dispare de maneira ligeira. Posso sentir uma leve pontada quase me
incomodar.
— Obrigada. — Volto a encarar seu olhar através do espelho. — Pensei
que só nos veríamos no altar — introduzo outro assunto para tentar aliviar a tensão.
Meus ombros estão tensos, isso é notável, pela sua presença e, também,
desde antes de ele entrar neste quarto. Confesso que me surpreende ele ter
vindo me ver antes do casamento.
— Eu trouxe um presente para a minha bela noiva.
Só agora vejo a caixa em suas mãos. Viro-me, curiosa, tentando
adivinhar mentalmente o que pode haver dentro dela.
— Um presente para mim? De casamento?
— Sim, um presente.
— Eu não tenho nada para lhe dar — falo inocentemente.
Realmente não tenho. E não poderia comprar. Como, se fico presa neste
quarto?
— Não se preocupe. O meu maior presente, você já estará me dando
nessa noite ao se tornar minha esposa.
Não posso evitar o meu sorriso modesto, que associo ao nervosismo.
Costumo ter reações estranhas e fora do comum se estou quase perdendo o
controle sobre minhas emoções.
— Foi de minha mãe — ele diz assim que abre a caixa de veludo preta,
revelando a linda coroa de diamantes dentro dela. — Ela usou no dia em que
se casou com o meu pai.
É digna de uma princesa.
— É tão bonita, e também deve ser muito pesada. — Essa é a minha
única preocupação caso ele queira que eu a use em nosso casamento. O que,
provavelmente, ele deseja. — Você quer que eu a use?
Ele assente, deposita a caixa sobre a penteadeira, retira com cuidado o
objeto de dentro dela, volta a se aproximar de mim e, com delicadeza,encaixa a coroa em minha cabeça, tomando todos os cuidados para não
desfazer o meu penteado e não me machucar. Como eu imaginei, ela é
pesada, e por ser de família, tem um valor sentimental para Deméter, por
mais que ele não demonstre nenhuma emoção.
— Nenhuma princesa possui uma beleza tão perfeita como a sua,
ragazza.
Seus elogios sempre são tão diretos, que eu não sei o que dizer.
— Essa coroa é linda. Acredito que sua mãe tenha ficado muito bonita
a usando em seu casamento.
Deméter concorda ao acenar com a cabeça. Ele está tão bonito usando
esse terno azul-escuro, quase no tom preto. Ele é um homem lindo. Desta
vez o colarinho está fechado e há uma gravata em volta dele, no entanto ela
não está tão alinhada como deveria.
A atração forte entre nós faz com que nossos olhares se mantenham por
muito tempo um no outro. Quase não pisco os olhos, e em nenhum momento
o vejo piscar.
— Posso arrumar a sua gravata?
— Sim, pode.
Ele é tão duro ao falar, mas talvez essa seja a sua maneira de se
expressar, não é porque ele sempre está com raiva.
Tento fazer o meu melhor. Tocar na gravata dele é uma sensação
estranha para mim, pois acabo tocando em alguma parte do seu pescoço,
ombro e peito em algum momento ao tentar deixá-la do jeitinho que ela deve
ficar. A todo instante, seus olhos me observam, queimando o meu rosto.
Como é possível que ele me ache tão bela, como diz?
— Agora sim está certinha — digo.
— Minha bela noiva tem um dom — ele afirma ao se olhar no espelho
rapidamente. Tenho a impressão de que seus olhos não querem se desviar
dos meus.
— Trabalhei em uma loja que alugava vestidos e ternos e já fiz muitos
nós como esse. Eu tinha 16 anos e esse foi o meu primeiro emprego.
— Eu sei disso. Sei tudo sobre você.
— Eu não me surpreenderia se você tiver investigado sobre minha vida
longe da máfia. — Acabei sendo grossa.
Não é nada animador saber que ele pode ter uma pasta com tudo sobre
mim; até com os horários em que vou ao banheiro.
— Será minha esposa em uma hora. Claro que eu desvendaria todos os
seus mistérios. Quero saber exatamente tudo sobre você, il mio fiore (minha
flor).
— Injusto, pois eu não sei nada sobre você.
— Poderá saber o que quiser. Basta me perguntar, e eu responderei.
Mas sem perguntas agora, ou vamos nos atrasar para o casamento.
Suspiro, cansada, quando suas mãos tocam nas minhas e podem sentir
todo o gelo vindo delas.
Meu noivo parece preocupado. Foi a primeira reação que ele deixou
transparecer. O senhor do gelo tem reações? Sentimentos?
— Não precisa ficar nervosa, principessa (princesa). — Suavemente,
ele beija cada uma das minhas mãos, absorvendo, com volúpia, o aroma
natural delas. — Cuidarei de você de agora em diante e zelarei por sua
segurança e conforto. Nada lhe faltará. Pode ter o que desejar. Em troca só
peço sua lealdade.
Deméter busca fundo em meu olhar desta vez. Arrepio-me com seu
olhar profundo e penetrante. Ele quer minha lealdade, e eu só quero a sua morte. Isso é muito controverso. Não deveríamos nos casar, somos
incompatíveis.
— Tenho mais um presente para você, principessa.
Meu coração se aquece por ele ter me chamado de princesa.
— Outro presente?
— Sim. Algo que minha noiva vai adorar, até mais que a coroa.
— A coroa era de sua mãe. Posso devolver quando a cerimônia acabar.
— É sua agora, não quero que devolva. Receberá outras joias também
que foram de minha mãe e que pertencem à família por gerações. Tudo será
seu. — Sua mão toca em meu queixo com delicadeza. — Tudo que eu quero
de você, minha boneca, é sua lealdade. Mas não pense que pretendo comprar
isso. Tentarei ganhar muitas coisas de você; não somente sua lealdade, como
também o seu coração. Esperarei até que ele esteja pronto para ser meu.
— Nunca terá o meu coração — ranjo os dentes ao falar, decidida a
nunca o entregar a ele.
— Serei paciente. Farei qualquer coisa para ter a mulher mais linda
deste mundo completamente apaixonada por mim, e quando isso acontecer,
terei o seu coração.
— Cuidado para não cair do cavalo — zombo. — O que o faz pensar
que terá o meu coração? E por que espera que ele seja seu algum dia? —
Não o deixo falar. — Você poderia ter a mulher que desejasse como sua
esposa, mas insiste em ter a única que não o deseja como marido. Você é o
meu martírio, a minha mais profunda dor. Como posso lhe dar o meu
coração, se você o quebra a cada instante que passa?
— Recolherei os cacos e os juntarei até que ele se regenere.
— Por que insiste em mim? — suplico por uma resposta.
— Você é perfeita.
Ele não se cansa de falar isso? Não precisa ser cínico dessa maneira.
— Não sei se você percebeu, mas eu sou gorda — praticamente grito.
A reprovação em seu olhar me assusta.
— Pare de falar assim de si mesma — repreende-me. — Você é perfeita
— insiste novamente.
Não estou achando isso engraçado, pelo contrário, estou farta de ouvilo falar tantas mentiras.
— Perfeita aos olhos de quem?
— Aos meus olhos.
Deméter une os nossos lábios em um selinho. Posso ver seus olhos
fechados. Fico tão paralisada, que nem sequer consigo fechar os meus. Suas
mãos estão em meu rosto e o selinho une nossas bocas.
Foi rápido e quente. O calor dos seus lábios sobre os meus chegou a ser
espantoso e gostoso. Por que eu não senti asco?
Atordoada, tento me recompor.
Ele me deu um selinho e o meu coração disparou. Como isso é
possível?
— Você é perfeita, e eu nunca vou permitir que discorde disso — ele
fala, firme. — Eu a proíbo de falar dessa maneira de si mesma.
— Eu o proíbo de mentir para mim. Não sou tola.
— Quem disse que estou mentindo? Por que não posso desejá-la
ardentemente como desejo?
— Porque é mentira! — grito.
— Não é mentira. Eu poderia lhe mostrar agora mesmo que não é
mentira. Só Dio sabe como preciso me controlar todas as vezes que a vejo.
Meu pau fica duro como uma rocha e eu só penso em ouvir o doce som dos
seus gemidos, porque eu quero ser o único dono deles. Eu poderia jogá-la
nessa cama, fazer amor com você a noite inteira, até o dia amanhecer, e
beijar cada centímetro da sua pele rosada, deixando a minha marca nela.
Você não entende o quanto é apetitosa e o quanto eu a desejo, principessa.
Eu a quero só para mim, insanamente, como um louco.
Deméter me deixou sem voz, sem reação e paralisada. Como ele pode
me desejar tanto assim? É verdade cada palavra que ele disse?
— Preciso ir, boneca. Tranquila. Eu estarei no altar, segurando a sua
mão a todo momento. Seremos apenas nós dois. — Ele disse isso com uma
verdade tão surpreendente, que me fez acreditar em cada palavra. — Mas
não me esqueci do seu presente.
Ele aperta um botão no controle do rádio que pegou do bolso da calça.
A porta se abre e meu olhar vai de encontro a ela, que revela a imagem da
minha mãe.
Viva!
Elegante como uma rainha, trajada com um belo vestido rosa de festa.
Ela também usa joias e está sorrindo para mim.
Não é uma miragem, é a minha mãe.
— Mamãe?
— Minha vida.
Caminhamos até chegarmos a um abraço caloroso, apertado e cheio de
saudade.
— Mamãe, como eu senti sua falta. A senhora está viva.
— Estou bem, meu amor. Tranquila. Eu estou aqui com você e nunca mais vamos nos separar.
Nada mais me importa neste momento. Eu tenho a minha mãe ao meu
lado. Será mais fácil passar por qualquer atribulação tendo ela, o seu carinho
e o seu amor comigo.
Esse, sem dúvida, é o melhor presente de casamento do mundo.
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Atualizado até capítulo 36
Comments
Edeilnisol Varela
gostei do presente dele a mãe dela
2024-07-26
2
Edeilnisol Varela
mulher se joga nos braços do teu mafioso kkkk
2024-07-26
0
Maria Mikarla
autora você gosta de fazer os outros chora🥲👏😶
2024-02-27
1