Beatrice

Grito alto interiormente uma vez, duas vezes, três vezes. Apesar de

estar imóvel e muda, estou gritando cada vez mais alto em minha mente.

O que acabei de escutar daqueles lábios carnudos me deixou em um

estado de transe, completamente estarrecida e fora de mim. Estou intrigada

e, ao mesmo tempo, em alerta.

Deméter Massino perdeu o juízo.

Em um primeiro instante, veio o estado de paralisia. Eu não sabia o que

pensar direito. Isso durou poucos segundos, mas com uma intensidade tão

grande, que cheguei a ficar estarrecida como nunca havia ficado antes, nem

mesmo quando eu precisava atender alguém no hospital em um estado

difícil. Literalmente, travei.

Deméter, vendo que estou sem reação, prossegue com o que estava me

dizendo.

— Piccola, vedo che la mia affermazione ti ha sorpresa (Pequena, vejo

que meu comunicado a deixou surpresa).

Engulo em seco. Minha garganta está seca, como se eu estivesse tendo

uma crise de garganta que há muito tempo não sentia. Meu coração disparou

em um primeiro instante, pois fui tomada pelo choque e por um pouco de

adrenalina. Toda a minha corrente sanguínea se agitou e eu senti, naquele

momento, que meu mundo havia desabado.

Casar-me com o Don Massino jamais se passou pela minha cabeça. Eu

fugi dele, e para a máfia isso é considerado uma afronta, uma traição

gravíssima. Como ele pode ter mudado de ideia tão rapidamente? Há dois

dias ele me disse friamente que mataria a minha mãe e eu, porém agora falou

que vamos nos casar no sábado e que eu serei sua esposa.

— Você será minha, como sempre deveria ter sido — mais uma vez ele

ressalta, possesso de ódio. Seus olhos escuros estão cada vez mais negros.

Isso me quebra por dentro. Por mais que eu estufe o peito para mostrar

que não me abalei, lá no fundo, eu temo. Pela minha mãe, não por mim. Mas

eu sei que para que ela tenha alguma chance de viver, preciso lutar. Isso só

vai depender de mim e dos meus esforços, que, para essa gente, não valem

de nada. Não tenho valor algum para eles.

Não consigo, de fato, compreender o motivo pelo qual Massino quer se

casar comigo em vez de me matar e me punir como sempre quis.

— Jamais serei sua mulher. — Estou exasperada, cansada e, acima de

tudo, assustada.

Não posso ser a mulher de um mafioso da Sicília, um homem rude,

com o coração seco, e cruel, que pratica tudo que vai contra os meus

princípios. Eu o repudio.

— “Jamais” é uma palavra muito forte, baby. — O infeliz enfia as

mãos nos bolsos da calça de uma maneira lenta e tão sexy, que é impossível

não sentir um leve impacto com a cena.

A barba rala e bem desenhada é a principal característica do seu rosto,

assim como as sobrancelhas perfeitas. Parecem ser tão naturais. Nem mesmo

as minhas são tão bonitas como as dele.

Seus olhos marcantes me analisam, e isso me incomoda muito.

— Você não deveria dizer isso, il mio uccellino (meu passarinho).

— Não sou seu passarinho. — Isso é tão doentio, que me causa

náuseas.

Posso ver um sorriso curto brotar em sua face. Mesmo que seja quase

inexistente, é um sorriso. Isso não quer dizer nada, apenas que ele se diverte

com o meu desespero e a minha falta de empolgação para o casamento. Por

mais que eu lute, sei que não terei como fugir. A sua última palavra é a que

vale, e se ele decidiu assim, eu não tenho escolhas.

— Beatrice. Ou devo te chamar de Trice?

— Nenhum dos dois. Para o senhor é “senhorita Esposito”. Não lhe dou

intimidade para se dirigir a mim pelo meu primeiro nome.

— Tudo bem, bella signorina (bela senhorita). Por enquanto, eu a

chamo como você quiser, porém, depois que nos casarmos, será a minha

mulher. — A ênfase na palavra “mulher” me deixou muito incomodada. —

E como será a minha mulher, deverei chamá-la de “querida”. O que pensa

em relação a isso?

É nítido que ele sente prazer em me torturar com suas palavras. O

patife sabe que me incomoda apenas com o som da sua respiração.

O pior é que não posso fazer nada para o enfrentar cara a cara. Estou

em desvantagem. Provavelmente, há uma arma na sua cintura. Arma que eu

poderia usar para tirar a sua vida. Mas se eu fizesse isso, o que seria de

mamãe?

— Penso que você não pode estar falando sério. Deméter, eu sou uma

traidora. Não pode me tomar como sua esposa. Isso é errado. Ninguém irá

apoiar a sua decisão. O Conselho não vai aceitar. — Sem pensar, aproximo￾me dele, ficando muito perto do seu corpo. O ar se torna pesado.

Meus olhos estão arregalados, em alerta. Só percebo que estou

praticamente colada em seu corpo másculo e grande quando posso sentir o

calor da sua respiração quente tocar em minha face.

Já é tarde demais. Fui tomada pelo impulso e pelo nervosismo quando

me expressei tão profundamente, tentando entrar na sua cabeça para que ele desistisse dessa ideia de casamento. Na verdade, ele já sabe que o Conselho

não irá aceitar. Não sei muito das leis e regras da máfia, mas sei que sou uma

traidora e que ele não poderá me desposar, como deseja. Talvez as leis

ancestrais sejam a minha salvação nesse aspecto.

Prefiro a morte a ter que dividir o mesmo leito com Deméter.

Dou um passo para trás, tentando fugir do seu contato, mas é

inevitável, já que ele dá dois passos à frente, deixando-nos praticamente

colados um no outro. A nossa distância é quase inexistente.

— Você me chama pelo nome, cara (querida), e eu não posso usufruir

do mesmo direito? — Seu olhar é tão penetrante, que é capaz de enxergar

através da minha alma.

Sinto que estou perdendo as minhas forças. Minhas pernas estão fracas.

Ele suga todas as minhas energias. É incrível o que o seu olhar frio e intenso

pode fazer comigo.

— O Conselho não vai aceitar. O seu avô já sabe da sua decisão... —

Seu dedo indicador grande e pesado força sobre os meus lábios. No mesmo

instante, eu me calo.

Meu sangue ferve a mil graus celsius. Isso é sufocante.

— Você será a minha esposa, já está decidido. Ninguém irá me impedir

de ter a minha noivinha fugitiva e de colocar um anel em seu dedo anelar.

Nem mesmo o Conselho, o meu avô, muito menos o papa. Você será a

minha mulher. — Conforme ele falava, seus olhos me devoravam. Ele faz eu

me sentir como um pedaço de carne suculento que ele devora como se fosse

um animal faminto. — E lhe digo mais, piccola: só haverá uma cama, bebê.

“Só haverá uma cama”. Essas palavras foram as mais temerosas até o

momento, até mais do que “você morrerá”.

Como posso não temer a morte, mas temer me tornar sua esposa? O

Don Massino é perigoso, cruel e perverso. Um homem doente.

— Pendure a minha cabeça, como faz com os seus inimigos, ou me

enforque, mas não me tome como sua esposa — suplico.

— Irei realizar o seu desejo, piccola. Enforcarei você diversas vezes.

— Em um movimento rápido, ele me joga na cama. O seu peso cai sobre o

meu corpo.

Tomei um susto. Ele me imobilizou, mesmo sem segurar as minhas

mãos. Em minha defesa, levei-as à altura do meu peito para impedir o

impacto do seu corpo sobre o meu, mas não foi o suficiente.

Faltam-me forças para empurrar o seu corpo pesado, então acabo

cedendo. Estou fraca. Minha fraqueza lhe dá espaço para apertar o meu

pescoço com suas duas mãos pesadas. E como se isso não fosse o suficiente,

há anéis de prata em seus dedos. Conto três em seu dedo anelar esquerdo e

dois no indicador de cada mão.

Ele me sufoca sem piedade. Fecho os olhos. A careta é inevitável por

conta da dor e do medo. Pensei que não temia a morte, até sentir que ela virá

agora. Tento respirar, porém não consigo. Aceito o meu destino. Eu pedi por

isso.

Não me atrevo a olhar nos olhos do meu algoz.

Por segundos angustiantes, pensei que fosse morrer, até sentir o ar abrir

passagem e notar que Deméter não está apertando o meu pescoço com a

força que minha mente imaginou. Eu senti falta de ar porque queria morrer,

não porque ele estava impedindo que o ar entrasse em meus pulmões.

Abro os olhos. Em sua aura negra há tudo, menos o desejo de me

matar.

— Você não quer morrer, baby, então não me force a precisar matá-la.

Não é isso que você deseja. Não é isso que o seu corpo quer — sua voz

grossa desperta em mim uma vontade imensa de chorar, mas não farei isso

para ele assistir de camarote. — Quando eu disse que enforcaria você, deixei

que se entregasse ao medo e ao desejo súbito de não viver. Mas não era isso que você realmente queria. — Suas mãos ainda estão em meu pescoço, só

que isso não é mais tão assustador, pois ele não usa força e não as pressiona.

Tudo foi fruto da minha imaginação. — Acredite, bebê: não usei nem a

metade da minha força. Você não suportaria sentir minha ira. Já matei muitos

inimigos com estas mãos fortes, mas não será por mim que você irá morrer,

porque se tornará a minha esposa — ressalta mais uma vez.

— Prefiro morrer a ter que dividir o mesmo leito com você. Te repudio

com todo o meu ser. Sinto asco quando me toca.

O olhar dele, além de pervertido, carrega um certo sarcasmo. O que é a

minha ruína. Odeio tanto isso, que chego a sufocar de verdade agora. Não é

imaginação minha desta vez, é o que realmente sinto em relação a ele.

— Então, quem estava disposta a me dar a boceta virgem no banco de

trás do meu carro, quando ainda pensava que eu não sabia quem era ela? E

pior, se encontrava noiva de outro homem.

Deméter não está me condenando, pelo contrário, é como se meu

pecado o deixasse com mais desejo. Seu ego, que já era grande, tornou-se

ainda maior, uma completa vastidão.

Como pude sentir desejo por ele? Eu teria tido uma noite de sexo com

um desconhecido — que eu já sabia quem era — e me colocaria em risco ao

cair em seus braços fortes, tornando-me sua, mesmo que fosse só uma vez.

— Diga-me, querida: se não sente nada por mim, por que sente arrepios

todas as vezes que minha barba roça em seu ouvido? — Ele mordisca o

lóbulo da minha orelha e eu reviro os olhos. Praguejo a mim mesma

interiormente. — Sua pele fica tão bonita arrepiada, piccola.

— Por favor... — Minha respiração sai pesada e falha.

Por mais que eu o odeie, não posso negar que tenho sensações

estranhas quando ele me toca dessa maneira. Talvez seja o seu olhar de molhar calcinhas, a rouquidão da sua voz ou sua beleza rústica. Mas como,

se ele é tão grosseiro, um homem das cavernas, um ogro?

— Nós vamos nos casar, bebê. Não é errado eu tomar o que é meu. —

Sua boca quente passeia lentamente pelo meu pescoço, deixando um ar

quente na região. Muito delirante. O seu queixo também, devagar, entra em

contato com a minha pele.

Por um instante, penso que vou gozar somente com esse contato.

Minha intimidade lateja. Tenho certeza de que estou molhada e pronta para

uma relação sexual. Posso sentir a pressão que seu membro faz, mesmo por

dentro da calça e coberto pela cueca. É como se ele estivesse querendo sair a

todo custo e entrar em mim. Deméter nem precisa forçá-lo muito para que eu

sinta toda essa pressão.

— Deméter... — Seu nome escapou dos meus lábios mais como uma

súplica do que uma repressão.

— Você quer que eu beije seus lábios, Beatrice? — O calor da sua boca

está sobre a minha.

Mordo o lábio, contendo parte do meu desejo. O seu sorriso cínico já

não me irrita.

Tão viril, forte, sexy e tentador.

Preciso resistir. Não posso me entregar.

Se eu quero ser beijada por ele? Minha razão diz que não, porém é o

meu corpo que manda neste momento sobre a minha razão, sobressaindo-se

em minhas emoções. Um jogo perigoso.

— Responda, Beatrice.

Fecho os olhos para ver se parece mais fácil dizer “não”.

— Não me beije. Eu odeio você.

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Comments

Cida Mendes

Cida Mendes

Ela é chata,tem desejos por ele também e fica de Fricote

2025-01-08

0

Noemia Santos

Noemia Santos

adoro esse tipo de guerra,,, estou entrando em êxtase..😍😍😍😍😍😛😛😛

2023-12-06

10

Marta Monteiro

Marta Monteiro

guerra dos sexos 🫣🫣

2023-12-06

0

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