Deméter Massino, o ceifador, o homem que mais abomino em toda a
Terra, colocará um anel em meu dedo, como disse, e fará isso nessa noite, na
presença de todo o Conselho, em um grande evento que acontecerá no
castelo.
Até o dia de hoje, contei cinco dias... Cinco dias presa neste quarto,
vendo a luz do dia através da varanda vasta que ele me proporciona. Mas
isso somente a partir do terceiro dia.
Quando a empregada entra aqui, trazendo o meu café da manhã com
muitas frutas, cereais, pães e bebidas quentes, diz que trará a minha roupa
para eu testar e ver como ela ficará em meu corpo; para eu saber se está tudo
certo com as minhas medidas.
Não que eu me importe com isso, mas e se não servir? Como eles
sabem as minhas medidas corretamente?
Os dias trancada neste quarto têm sido agonizantes e como uma
eternidade.
Por mais que eu tente convencer as empregadas a me falar a respeito da
minha mãe, nenhuma delas me diz nada concreto. Elas são leais e fiéis como
cães ao chefe. Por um lado, eu as compreendo, porque seriam as vidas delas
que estariam em risco caso elas abrissem as bocas e me revelassem o que
mais desejo saber nesta vida.
Minhas olheiras estão fundas. Consequência das noites mal dormidas,
por mais que eu esteja cercada de luxo e conforto, como nunca estive antes
em toda a minha vida. As meninas que estão à minha disposição me tratam
como uma verdadeira dama. Elas são atenciosas e sempre buscam atender a
todas as minhas exigências. É como se uma simples vontade minha de comer
pão com geleia devesse ser atendida imediatamente. Segundo elas, devo ser
bem tratada. São ordens do chefe.
Quando penso que haverá um anel de compromisso em meu dedo
anelar hoje e que daqui a dois dias será o casamento, todo o meu corpo
estremece.
Eu serei sua esposa. Só haverá uma cama.
Juro por Dio que prefiro morrer a ter que me entregar de corpo e alma
ao Deméter.
Convivi com meu ex-noivo por mais de dois anos e nunca transamos.
Sexo sempre foi um tabu para mim, pela questão de precisar envolver muito
sentimento, como amor e paixão. E tendo passado esses dias longe de
Ricardo, consigo perceber que nunca o amei. Não era amor. Talvez tenha
chegado perto disso no começo, porém não se tornou amor devido às suas
atitudes. Mesmo assim, eu me via dependente emocionalmente daquele
homem que nunca amei.
Nunca o amei. Fui dependente de um amor tóxico. Como fui tola.
— Senhorita, aqui está o vestido.
Greta segura o vestido em suas mãos. Sua cor é um vermelho forte que
remete ao sangue. Faço a prova pensando na moça, para que ela não se
prejudique. O vestido fica até a altura dos calcanhares.
Não gostei da cor. Ela não deve remeter a algo feliz para mim, e sim a
algo triste, como se eu estivesse indo a um velório, não a um evento alegre.
— A senhorita está linda — ela diz com um sorriso.
— Eu não vou usar essa cor. Na verdade, tenho uma exigência. Quero
um vestido da cor preta e com um corte v nos seios. Caso contrário, farei
birra e não irei comparecer a esse noivado.
— Preto? Tem certeza?
— Consegue providenciar para mim?
— Sim. Peço apenas algumas horas. Talvez, em duas horas, eu traga
outro. Deseja mais alguma coisa?
Na verdade, desejo. Se irei ao meu noivado, eu mesma quero fazer a
minha maquiagem e mudar o corte dos meus cabelos. Durante toda a minha
vida, escutei algumas pessoas dizerem que, pelo meu tipo de rosto ser
redondo, eu não cairia bem com um corte mais curto. No entanto, estou
cansada do que as pessoas me dizem e me impõem. Se vou viver uma vida
amarga ao lado de um Don da máfia, farei aquilo que sempre quis fazer e
nunca tive coragem.
Peço à cabeleireira, que Greta trouxe, para cortar os meus cabelos em
um long bob. As suas pontas já batem em meus ombros. Foi o mais curto
que já me permiti.
Terei um visual novo. Conforme a mulher faz o corte, mais decidida a
arruinar esse noivado, eu fico. O Conselho é a minha última esperança. Se eu
mostrar a eles que não sou digna de me casar com Massino, estarei livre do
casamento e, consequentemente, morrerei. O que será bem melhor do que
viver uma vida inteira ao lado daquele homem.
— Está lindíssima como uma bela dama da máfia, senhorita — a
mulher me elogia. Não sei se é por pena ou se ela é obrigada a ser gentil
comigo.
— Obrigada.
Greta retorna com o vestido que pedi. Ele é preto, do mesmo tamanho
que o outro e com o corte v nos seios, deixando-me com um decote
generoso. No entanto, não é extravagante. E não era como eu pretendia
parecer. O melhor de tudo é o corte v na perna, perfeito para eu arrasar.
Eu o chamo de vestido da vingança, como o de Lady Di. Porém, no
caso dela, ela conseguiu se livrar do casamento. Já eu não sei se terei a mesma sorte de me livrar de um homem perigoso como Massino.
De alguma maneira, posso sentir que ele me deseja como um homem
que deseja uma mulher ardentemente. Deméter me olha e não vê uma
mulher gorda. Ele se mostra tão deslumbrado por mim, que é como se
enxergasse uma deusa. Não acredito que o único motivo pelo qual ele queira
esse casamento seja por eu ser sua prometida ou pelo sexo.
Deméter pode ter todas as mulheres que desejar, as mais belas modelos
ou filhas de chefes poderosos, mas, por algum motivo, quer se casar comigo,
mesmo depois da desfeita que fiz, do erro gravíssimo que cometi: fugir do
meu destino. Segundo eles, esse foi um erro. Mas o que para eles é
considerado um erro, para a minha mãe era a minha salvação.
Dizem que não se pode fugir do destino. Isso é verdade. Passei anos me
escondendo do Don Massino, e agora estou presa em suas mãos. Meu
destino pertence a ele.
Estou com os cabelos soltos e levemente ondulados. O corte em
camadas acrescentou um volume a eles que valorizou muito o meu
semblante. E o vestido preto caiu como uma luva em meu corpo, marcando
minha cintura e quadril largo, deixando-me com curvas favoráveis. Pela
primeira vez na vida, sinto-me bonita e poderosa, pelo fato de estar usando
uma roupa que me valorizou de uma maneira que eu nunca imaginei antes.
Não costumo ficar tão bem quando uso vestidos. Normalmente, sintome como um peixe fora d’água. Só que desta vez não.
Para finalizar a maquiagem, passo um batom nude, no entanto o look
pede um batom vermelho.
Estou pronta. Já está quase na hora de alguém vir me buscar.
Pude ver hoje, mais cedo, algumas movimentações pelo jardim da casa.
Tudo estava sendo preparado para o noivado. Porém, ao olhar agora a pouco,
não vi nada no jardim. O que indica que o noivado será em algum salão de
festas dentro do castelo.
— Está na hora, senhorita. Me acompanhe, por favor.
Assinto.
Caminhar sobre saltos altos finos não é a minha praia, estou mais
acostumada com tênis por causa do trabalho. Contudo, sei andar
perfeitamente com eles e diria que fico muito elegante assim.
Esta é a primeira vez que estou deixando o quarto depois do anúncio do
casamento. Caminho primeiro por um longo corredor que dá acesso a outro
corredor, virando à esquerda. Ando mais alguns metros e chego à escada.
Desço cada degrau com lentidão. Não tenho muita pressa para o meu pior
pesadelo. Tornar-me noiva de Deméter será o meu maior castigo.
Por que ele me quer?
Por que não escolheu outra noiva ao longo desses anos, para me deixar
em paz de uma vez por todas?
Homens obsessivos e impulsivos. Já ouvi falar deles, mas nunca tinha
lidado frente a frente com um. Deméter é obsessivo. Quanto a isso, não me
resta nenhuma dúvida.
— Aonde está me levando, Greta? — pergunto ao perceber que
passamos pela sala. Depois ela me leva para um cômodo cujo a porta é preta.
— Esse é o escritório do senhor Massino. — Abre a porta.
Meu coração disparou, pois pensei que ele estivesse presente na sala.
Mas, para a minha surpresa, não está. Sem compreender muito, vejo a
mulher pegar um livro na prateleira próxima à janela de vidro. Ela puxa uma
alavanca.
Minhas pupilas dilatadas mostram que estou surpresa com o que vejo.
É uma passagem secreta por trás daquela parede, como nos filmes. O local é
bem iluminado. Entretanto, parece com aquelas cenas de filmes de terror.
Temo entrar naquele buraco, mas não tenho muitas opções.
Greta caminha em minha frente, e eu a sigo. Estou reconhecendo este
lugar. Depois que passamos pelos corredores estreitos e o local ganha mais
amplitude, posso perceber que é aqui que fica a masmorra, indo na direção
contrária. Travo no mesmo instante ao me lembrar destes corredores
sombrios onde tantas barbaridades aconteceram. Sinto calafrios por todo o
meu corpo. Quero ir embora.
Quero sair deste lugar. Não consigo ficar tranquila estando aqui. A todo
momento, penso somente no pior. Será que ele pretende me prender
novamente? E o casamento? Tudo é uma farsa?
— Greta, por favor, me tira daqui. Eu não quero ficar neste local por
mais nenhum instante. — Minha respiração está pesada e eu estou quase
sentindo falta de ar.
— Vamos continuar, senhorita.
— Estamos indo para a masmorra. Eu não vou — pestanejo, assustada.
— Não, senhorita. A masmorra fica do outro lado. Fique tranquila, não
a estou levando para lá.
— O que estou fazendo aqui? Não existe casamento, certo? Tudo é uma
mentira? Deméter está me levando para a minha morte? Você deveria me falar alguma coisa, Greta. Eu imploro. — O eco transformou minha súplica
quase que em gritos desesperados.
A mulher arregala os olhos e curva a cabeça como uma reverência, mas
não é para a mim. Pelo aroma amadeirado que acabo inalando, posso sentir
sua presença forte e imponente atrás de nós. Meu coração para por alguns
segundos.
Greta se retira, deixando-nos a sós. Posso sentir o seu olhar queimar
sobre o meu corpo, pelas minhas costas e cabelos. Sei que não posso evitá-lo
por mais tempo, por isso me viro vagarosamente. Meu olhar está indo de
encontro ao seu, e quando isso finalmente acontece, sinto algo como um
choque impactante. Uma corrente elétrica está entre nós dois, através de
nossos olhares.
O olhar dele é penetrante e poderoso. Como Deméter está bonito. Oh,
céus! Dio mio! (Meu Deus!) O smoking preto em seu corpo forte e
musculoso o deixou como um verdadeiro príncipe bad (mau). Eu sei que ele
é mau e que não há bondade em seu coração. O colarinho em sua camisa não
tem gravata e os botões estão abertos.
O volume no meio de suas pernas é algo difícil de não se ver, é muito
notável. Ele está acostumado a sair assim? Como se estivesse, a todo
momento, de pau duro? Ou isso só acontece quando ele me vê?
— Bella donna — pronuncia vagarosamente. — Beatrice, minha futura
esposa, como você está perfeita.
Seu olhar queima sobre o meu corpo. O cretino conseguiu me deixar
sem jeito. Minhas bochechas estão queimando e, provavelmente, estão
vermelhas, mas espero que ele não tenha percebido ou que pense que é por
causa do blush.
— Obrigada — respondo, envergonhada.
Ele diminui a distância entre nós dois, deixando-me sufocada e um
pouco assustada. Mesmo assim, estufo o peito para o enfrentar dignamente,
sem parecer uma covarde.
— Gosto que minha mulher esteja sempre linda. Você ficou ainda mais
deslumbrante, querida. — Não foi uma provocação, foi mesmo um elogio
singelo.
Seus olhos famintos estão me devorando e sua mão toca em meus
cabelos, buscando por mais fios. Não sei se seu olhar é de aprovação ou de
descontentamento.
— Gostou, querido, do meu novo corte de cabelo? — provoco-o.
Deméter me analisa atenciosamente, como se eu fosse uma boneca
delicada ou como se eu fosse de vidro.
— Você gostou? — devolve a pergunta a mim.
— Acho que sim. — Dou de ombros.
— Se você se sente bem assim, eu aprovo. Não é um corte de cabelo
que mudará a sua essência. Você é tão bela como a aurora, como o
amanhecer do dia. — Beija a minha mão, causando-me um friozinho na
barriga. — Perfeita como a luz dos meus olhos. — Essa não era bem a
resposta que eu imaginava. — Como pôde pensar que o casamento não é
algo sério?
— Eu pensei que estivesse sendo levada para a masmorra...
— Eu nunca a coloquei lá e nunca a levaria de volta para lá.
— Como não? Eu estive lá.
— Eu já disse, a ordem não foi minha. Eu não mandaria a minha noiva
para a masmorra mesmo que ela merecesse algo pior, como é o caso. Porque,
baby, por mais que eu odeie isso, não sei castigar você, como deveria ser
feito.
Engulo em seco. Deméter crava o seu olhar nos meus como uma águia
faminta. Além de roubar o meu ar, ele faz com que o meu coração acelere
tão depressa, que eu me sinto refém dele.
— Me vê apenas como um monstro, boneca. Até gosto disso. Minha
esposa também me deverá respeito e lealdade, e você fará isso sem contestar.
Não pense em dizer nenhuma palavra ao Conselho, apenas diga “sim”. Será
a minha esposa, e quando isso acontecer, terei piedade de você. Escutarei a
sua súplica e poderá ter a sua mãe ao seu lado. Não a lastimarei, baby. —
Meu coração se enche de esperança. Eu poderei ver a minha mãe. — Caso
contrário... Não me faça falar. Não quero parecer mais cruel, querida.
Apenas me diga se compreendeu.
Por mamãe, balanço a cabeça, concordando. Eu não posso chateá-lo
nessa noite, senão nunca mais verei minha mãe.
— Entendi.
— Ótimo, querida. — Sua mão segura o meu queixo com delicadeza.
— Não vejo a hora de você se tornar a minha esposa e ser minha mulher. —
Sinto asco. — Agora, vamos. Nosso noivado a espera. Será o começo da
nossa longa vida juntos.
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Atualizado até capítulo 36
Comments
Cida Mendes
Uma mulher velha dessa, fazendo birra de criança que não ganhou o que quis, ainda diz remoer que alugo aconteça com a mãe dela e vai fazer merda pra irritar o noivo deveria ter agido como adulta com o ex bobona diz preferir a morte mais quando está em perigo ⚡ fica com medo
2025-01-08
1
Danieccs
sei bem o asco que vc senti Beatriz😂😂
2024-04-20
1
Paula Santana
tô Amando a história, e até agora ele não foi mal com ela
2024-02-14
1