Beatrice

Peguei somente o básico, o necessário, como uma muda de roupas,

duas calcinhas e remédio para dor de cabeça. Meus documentos e meus

cartões estão na minha bolsa, na boate. Sempre levo minha identidade e o

CPF comigo para qualquer lugar que vou. Estou sem meus documentos e

sem dinheiro, precisando escapar o mais depressa possível.

Explico à Tália que preciso pegar a minha bolsa, mas que não posso

voltar à boate, porque minha mãe tem que ir ao hospital. Peço que ela não

fale nada ao Ricardo e não conto da traição. Como ele não me viu sair da

boate depois do flagra, não virá atrás de mim agora. Eu lhe digo que não

quero estragar a festa dele e lhe peço para falar que eu voltarei em breve, se

ele perguntar por mim. O que não acontecerá. Nunca mais quero olhar para

aquele desgraçado que partiu meu coração em mil pedaços. Eu seria capaz

de matá-lo, tamanho é o meu ódio.

Não costumo ser vingativa, mas desta vez só consigo pensar na minha

dor e em como eu gostaria de vê-lo se rastejar e sofrer do mesmo modo que

estou sofrendo.

— Filha, sua amiga entregará mesmo os seus documentos no hospital?

Tem certeza de que dará tempo?

Tália mandará a minha bolsa por um amigo que se dispôs a sair mais

cedo da festa e passará no hospital, em um gesto de gentileza, para me

entregar. Claro que ele também fará isso pensando em ganhar pontos com a

minha melhor amiga. Os dois formariam um lindo casal.

Dói saber que estou indo embora sem nem ao menos me despedir dela.

Esse sacrifício será feito pela minha segurança e da minha mãe. Não posso

colocar em risco a vida da mulher que eu mais amo neste mundo, a mulher

que sempre fez de tudo para me proteger.

Quando cheguei aqui, liguei para ela do telefone fixo e lhe implorei

para que largasse o trabalho e voltasse para casa o mais depressa possível.

Ela chegou 20 minutos depois e pegou uma muda de roupas também e

documentos.

Estamos prontas para ir ao hospital pegar os meus documentos. Lá será

mais seguro e não levantaremos suspeitas, caso eu esteja sendo observada.

— Vai dar tudo certo. Vamos conseguir escapar. Já fizemos isso uma

vez — lembro-lhe, em uma tentativa de me convencer de que dessa vez

também dará certo.

— Como percebeu que ele sabe quem é você?

Não lhe falei que quase transei com o meu ex-noivo mafioso, Don da

máfia, nem que pensei em me entregar para ele no banco de trás de um

carro, no meio de uma avenida principal. Envergonha-me lembrar que quase

cometi esse grande erro.

— Apenas senti. Quando ele me encarou com aquele olhar intimidador,

parecia um predador prestes a dar o bote. Um bote com muita cautela.

— Beatrice, filha, eu não entendo por que entrou em um carro com ele.

Você está pálida e abalada. O que aconteceu, meu amor?

Também não lhe falei do Ricardo. Ainda não é o momento, devemos

nos preocupar apenas em fugir.

O celular da minha mãe toca, assustando-nos. O número é

desconhecido. Aparecem os oito números, mas esse contato não está na sua

agenda. Temerosa, fico em silêncio e apenas gesticulo para que ela não

atenda. Poderia ser Deméter?

Não satisfeita com a primeira ligação, a pessoa insiste e liga

novamente. Ao mesmo tempo, o interfone do prédio toca. Sabemos que só

pode ser o porteiro.

Atendo.

— Alô?

— É o Augusto, Beatrice. — É o porteiro. Respiro aliviada. — Menina,

um rapaz aqui, que se identificou como Alberto, trouxe sua bolsa com

documentos. Ele deseja subir.

Ele veio até a minha casa. Droga! Combinei que seria no hospital.

— Pegue a bolsa com ele e traga para mim, por favor, Augusto.

— Sugeri assim por causa do horário, mas ele diz que precisa

conversar com você. É sobre a Tália. Aconteceu alguma coisa com ela e ele

está preocupado.

Droga! Justo agora? Não posso ignorar o fato de que minha melhor

amiga precisa de ajuda. Aposto que ela bebeu e está dançando sobre uma

mesa, querendo tirar as roupas, ou está chorando e se recusa a ir embora.

Mas ela estava tão bem quando falei com ela pelo celular da minha mãe.

Contudo, por mensagem de texto, não dá para ver a reação da pessoa do

outro lado da tela.

Se é sobre a Tália, autorizo a subida dele. Espero que ele seja rápido.

— Pode deixar ele subir.

— Tudo bem, menina.

Ele me chama assim carinhosamente. O senhor de cabelos grisalhos é

muito gentil e prestativo. O nosso prédio possui um dos melhores porteiros.

— Quem você permitiu que subisse?

— Um amigo de Tália. Espero que seja rápida a nossa conversa, porque

precisamos ir embora. Ele veio me trazer a bolsa até aqui, eu não poderia ser

grossa.

— Quer que eu o atenda e diga que você está se trocando?

— Serei breve. Parece que minha melhor amiga não está bem.

Em poucos minutos, alguém bate na porta. Minha cabeça está prestes a

explodir. Foram muitos aperreios para uma única noite.

Eu tirei minha saia e vesti uma calça. Também mudei a blusa para uma

com mangas. Depois que choveu, o clima amenizou e a noite lá fora está

fria, principalmente para fazermos uma viagem de ônibus ou, talvez, até

mesmo de avião. Prendi meus cabelos e removi toda a maquiagem às

pressas, que tinha as marcas da minha dor. Eu não queria que minha mãe

visse.

Consegui pagar a passagem de ônibus com 10 reais que encontrei no

bolso da minha saia. Foi uma benção eu ter colocado aquela nota naquele

bolso, um milagre.

— Já estou indo. Só um segundo. — Caminho, apressada, até a porta.

Abro-a no mesmo instante em que digo: — Muito obrigada por ter trazido a

minha bolsa. Eu... — Paraliso.

Em um primeiro momento, não consigo me mover diante da imagem

que meus olhos veem. Estou paralisada inteiramente. Meu cérebro capta a

mensagem devagar e o meu corpo enfraquece. Não consigo mexer um

músculo, por mais que eu deseje gritar, e também não consigo sequer piscar.

O olhar dominante está estampado em seu rosto sem nenhuma

expressão reveladora. Eu diria que ele mantém sua postura ereta e uma

seriedade ao mesmo tempo em que demonstra uma tranquilidade nítida.

Como é possível revelar esses dois sentimentos completamente opostos?

Deméter Massino.

Imponente, poderoso e perigoso, em carne e osso, na minha casa.

Meu estômago embrulha desta vez. Ele veio atrás de mim. Veio me

buscar para a minha morte.

— Andare da qualche parte, piccola traditrice? (Indo a algum lugar,

pequena traidora?) — A neutralidade em seu olhar me espanta.

Ele me encontrou.

Pelo meu silêncio, minha voz parece ter desaparecido. Minhas cordas

vocais se recusam a me obedecer. Nem posso avisar à minha mãe para se

trancar em um quarto e ligar para a polícia. Ela foi até a cozinha pegar um

copo de água, enquanto eu estou sozinha com Deméter.

Pensei que estávamos apenas nós dois, mas logo percebo que há dois

seguranças atrás dele, mais afastados, protegendo-o.

Ele me chamou de pequena traidora, confirmando o que eu já sabia: ele

já descobriu sobre mim. Talvez sempre soube, e agora veio me buscar para a

minha morte.

— Pensando em fugir, ragazza?

Reúno forças que não sabia que existiam. Sinto minha pressão oscilar,

fazendo o meu corpo tremer como em uma febre de 40 graus. Meu coração

erra as batidas. Ele saltará pela minha boca a qualquer momento.

— O que faz aqui? Vá embora...

— Isso não é uma maneira receptiva e educada de tratar o seu noivo de

verdade, piccola.

Levo minhas mãos ao meu peito. Sinto-me sufocada agora. Seu olhar

poderia me fazer desmaiar neste instante, se não fosse minha insistência em

me manter de pé, mesmo sentindo minhas pernas fraquejarem.

— Você não vai me levar daqui. Eu sou capaz de fazer um escândalo.

Agora mesmo vou chamar a polícia. Vá embora.

Tentei fechar a porta na sua cara, empurrando-a com a força máxima

que tenho. Mas isso não é muito útil. Utilizando apenas um braço forte e

malhado, ele consegue abri-la por completo, empurrando-me para trás.

Afasto-me dele o máximo que posso. Ele ainda não entrou na minha

casa, mas entrará logo.

— Mamãe, chame a polícia agora! — grito, apavorada.

Pego um vaso de vidro que enfeitava a mesa de centro modesta. Com

este objeto em mãos, posso jogá-lo contra ele e o machucar de alguma

forma.

Ele me olha, admirado com o meu atrevimento.

— Saia da minha casa agora, ou eu quebro este vaso na sua cabeça,

infeliz.

— Minha noivinha é muito estressada — goza com um sorriso

impertinente. — Sabe o que acontece com quem me desafia?

— Não, eu não sei, e não desejo saber. Vá embora. Na Itália, o senhor

pode ser o dono do mundo e das pessoas, mas aqui, na minha casa, não é

ninguém para mim. Saiba que não tem nenhum poder sobre mim, muito

menos sobre minha mãe. Não vou permitir que você a mate. Não vou. — Eu

gritei tão alto, que ele me achou atrevida.

Neste momento, minha mãe sai da cozinha segurando uma faca em

mãos. É um mecanismo de defesa. Se bem que eles estão armados.

Quando Deméter Massino entra na minha casa, como se tivesse sido

convidado, seus seguranças também entram e fecham a porta. Eles apontam

as armas em nossa direção.

Não temo a minha morte, temo a morte da minha mãe e o sofrimento

que eles podem causar.

— Desgraçados! — Arremesso o vaso na direção de Massino, que não

move um músculo. Não por medo, mas, decerto, porque acreditou que o

vaso não o acertaria.

Mesmo não o acertando, o objeto quebrou, fazendo um barulho que

deve ter chamado a atenção dos vizinhos. Espero que eles chamem a polícia.

Uma ânsia de vômito toma conta de mim mais uma vez. Sinto náuseas

agora ao receber seu olhar duro e severo.

Como eu pude ficar excitada, uma hora atrás, com esse mesmo olhar?

— Vejo que terei muito o que lhe ensinar, menina atrevida e rebelde.

Teve a ousadia de se rebelar contra o seu noivo depois de ter fugido,

traidora?

Minha mãe toma a frente, impedindo que eu fique ao alcance dele. Ela

me faz ficar parada atrás dela, protegendo-me com o seu corpo, e aponta a

faca para Deméter, que não sente medo. Ele exala uma maldita confiança

que me faz odiá-lo muito mais.

— Não ouse tocar na minha filha, seu filho da puttana (puta).

— Mulher, respeite a memória da minha mãe — ruge, furioso. — Você

sentenciou sua morte e de sua filha ao fugir do meu país levando a minha

prometida. Devo matá-la aqui e agora mesmo.

Arregalo os olhos, assustada. Tomo a frente de novo, ficando entre ele e

mamãe. Encaro Massino, que puxou a arma na intenção de apontá-la para a

cabeça dela. Agora ela está mirada sobre a minha. As lágrimas borram

minha visão. Eu não suportaria ver minha mãe morrendo.

— Por favor, não faça isso. Eu suplico — imploro.

— Afaste-se, Trice. Essa questão é entre mim e esse homem. Não se

meta, filha. — Minha mãe tenta me empurrar para trás, no entanto não

permito.

— Não suportarei vê-la morrer, mamãe. — Soluço e volto a olhar para

Deméter. — Mate-me agora. Me deixe morrer primeiro, por favor. Eu

imploro. Fico de joelhos se quiser.

A crueldade e a frieza no seu olhar são terríveis.

— De você, garota impertinente, eu só quero as súplicas. Porém, nada

que faça me impedirá de matar a sua mãe.

Furiosa, jogo-me na sua direção, socando o seu peitoral. Esmurro-o

com toda a força que consegue me dominar. Apesar de isso não estar

parecendo abalá-lo, consigo fazê-lo derrubar sua arma no chão. Ele precisou

soltá-la para me imobilizar em seus braços. Um abraço forçado. É assim que

ele me prende.

Grito, furiosa:

— Me solta, seu bandido!

— Caladinha, boneca, ou matarei sua mãe bem aqui, na sua frente.

Você não quer isso, correto?

Balanço a cabeça negativamente e contenho meus gritos. Meu corpo

está colado ao seu. Mesmo eu sendo gordinha, o seu corpo esmaga o meu

como se eu não fosse nada diante dele, como se eu fosse um mísero inseto a

ser pisado.

— Escute com atenção. Vamos sair do prédio comportados. Não fará

escândalo, não gritará e não pedirá ajuda. Sou Deméter Massino, portanto

possuo muitos aliados até mesmo na polícia corrupta do seu país. Posso

acabar com você e com sua mãe em questão de segundos e sair impune. Mas

não farei isso neste país. As duas voltarão para a Itália comigo e sofrerão a

punição pelo crime de traição que cometeram. Nesse caso, já devem saber

qual é a sentença.

Morreremos. Ele irá nos matar na Itália.

— A sua amiga está presa em um galpão, como pode ver. — Um

segurança me mostra a imagem de Tália desmaiada, amarrada em uma

cadeira, com um ferimento na testa. Eles a prenderam. — Caso faça

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Comments

Cida Mendes

Cida Mendes

Bem feito ela se acha a tal,por ter enganado o mafioso, e com o ex noivo nunca teve voz ativa bobona

2025-01-08

0

Maria Mikarla

Maria Mikarla

mais que situação 😶

2024-02-27

1

Maria Aparecida Monteiro Firmino Cida

Maria Aparecida Monteiro Firmino Cida

acho que o ex é bandido tá metido em algo cabeludo

2023-12-07

6

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