Beatrice

O silêncio predomina no apartamento modesto onde moramos na zona

oeste. Minha mãe terminava de preparar o nosso jantar quando lhe contei

tudo. Ela quase desmaiou, ficou mais pálida que o normal e seus olhos

verdes ficaram apertados e marejados. Eu lhe preparei um copo de água com

açúcar.

— E se ele já souber de nós, querida?

— Como eu disse, mamãe, ele não me reconheceu. Eu tinha 9 anos

quando fomos embora, e o meu noivo não iria se lembrar tanto de mim

assim. Quando eu tinha 9 anos, ele já tinha 23. A senhora acha que ele não

memorizou o rosto de outras mulheres em vez do rostinho de uma criança?

— Me escute, Trice. Vamos embora. Vamos deixar tudo para trás.

Esqueça tudo, querida. Nós precisamos ir embora agora mesmo.

O nervosismo tomou conta dela. Minha mãe já foi uma senhora da

máfia, uma das mulheres mais importantes da Cosa Nostra. Ela sabe do que

eles são capazes.

— Filhinha, eu já vi pessoas serem mortas por muito menos, apenas por

fazerem expressões faciais que não agradaram aos senhores da elite. Imagina

o que fariam contra nós duas, que fugimos. Seu pai tinha um dos cargos mais

importantes na hierarquia, então eles se sentiram ofendidos com a nossa

fuga. Rompemos um acordo importante. A nossa punição será a morte,

amore della mia vita (amor da minha vida).

Mamãe pode estar até certa, pois é uma possibilidade eles já saberem

de tudo, mas não acredito muito que seja verdade. Se eles soubessem quem

eu sou, já teriam vindo atrás de mim. Teriam me esperado sair do trabalho e

me colocado dentro de um carro para me levarem a um lugar onde me

matariam. Neste exato momento, eu já não estaria mais viva.

— Ele não me reconheceu, mamãe — asseguro mais uma vez.

— Não pode ter certeza, meu anjo. Eu sei quem eles são e sei

exatamente do que são capazes. Eles jamais poupariam uma vida. Somos

consideradas “traidoras”. Você não consegue me entender, meu amor.

— Quer dizer que uma mãe levar sua filha inocente para crescer longe

de toda aquela vida ilegal é considerado errado aos olhos deles?

— Temos que ir embora — reforça novamente, levando sua mão ao

peito.

Ela reclamou que está doendo essa região. Acredito que seja por causa

do medo que a cerca neste instante. Voltar para aquela vida, da qual ela fugiu

por todos esses anos, assusta-a, principalmente por saber que seríamos

mortas.

— Não podemos ir embora, mamãe. Eu não posso ir. E o meu noivo?

Por mais que nós não estejamos indo tão bem, iremos nos casar em

quatro meses. Tudo já está sendo preparado. Será uma cerimônia simples

para os amigos mais íntimos e nossos familiares. No meu caso, apenas a

minha mãe. Ela é minha única família.

— Ricardo fica para trás. Meu amor, você precisa pensar bem sobre

esse casamento. Que tipo de noivo não leva a noiva à inauguração da sua

loja? O que ele fez com você não se faz com uma mulher que se diz amar. —

Ela tem razão. Ainda estou magoada por isso. Ele também não me enviou

nenhuma mensagem. — Aquele homem sempre está aqui e até dorme nesta

casa, mas não faz por onde para te priorizar. Penso que ele só deseja ter sexo

com você.

— Mamãe, não é isso. Ele sempre dorme aqui, mas no colchão,

enquanto eu durmo na minha cama. Nunca fizemos sexo.

Ela me olha, preocupada. Eu já havia lhe dito que nunca transamos,

mas ela queria saber se eu não menti.

— Oh, minha querida, eu estou tão preocupada. Com Deméter na

cidade, ele pode vir atrás de nós duas. Atrás de você, meu bem.

Respiro fundo. Por mais nervosa que eu esteja, não acredito que ele

possa vir atrás de mim, senão já teria vindo. Estou confiante de que aquela

foi a última vez que nos vimos, que não nos veremos mais.

Percebo que o meu noivo está parado próximo à porta. Ele está nos

observando com atenção e está surpreso por ver que minha mãe está

chorando. Logo demonstra preocupação quando percebe que o vimos.

— Senhora, está bem? Precisa ir ao médico?

Mamãe não gosta dele, e isso não é novidade para mim. No entanto, ela

sempre o tratou muito bem.

— Estou bem, apenas tive uma queda de pressão. Ela já está

normalizando.

— Devo voltar em outra hora?

— Não. Fique para jantar, meu bem — peço.

Quero conversar com ele. Faz muitos dias que não temos um diálogo

normal como namorados apaixonados.

— Tudo bem, irei ficar. — Ele sorri, animado com a ideia do jantar. Sei

que ele adora a comida da mamãe. — Quem é esse tal de Deméter? É

parente de vocês? Desculpem a pergunta, é que ouvi as duas falando que ele

pode vir atrás de vocês.

Putz! Agora preciso inventar uma história convincente.

— Deméter é parente do meu pai. Se lembra da minha família que

viveu na Itália? Mamãe disse que papai não gostava dele, por isso não

queremos nenhum tipo de contato com ele. Agora eu vou servir a mesa. —

Dou um selinho nele e vou para a cozinha com minha mãe arrumar tudo.

Ricardo vai tomar banho. Estou louca para perguntar como foi o seu

primeiro dia na loja. Quero saber exatamente tudo.

Durante o jantar, ele se mostra muito interessado nas mensagens que

recebe em seu celular. Minha mãe não ficou para comer conosco, foi se

deitar com a desculpa de que estava com dor de cabeça. Eu sei que era outra

coisa, mas o meu noivo não.

— Amor, deixa esse celular de lado.

— São assuntos de trabalho, meu amor. Desculpe. — Ele já me disse

isso, mas odeio comer com alguém que não me dá atenção. — A comida está

deliciosa, mas eu vou precisar sair. Tenho que resolver alguns assuntos da

loja.

— O quê? De noite? Amor, são oito e meia.

— Um caminhão com entregas que iria chegar somente amanhã, está a

cinco quilômetros da minha loja. Acabei de ser avisado. Preciso ir, amor. —

Ele beija a minha bochecha, apressado, e consegue perceber que estou triste.

— Não se preocupe. Amanhã ainda está de pé a nossa ida a balada para

comemorarmos o meu aniversário. Minha irmã está ansiosa para isso.

Aposto que vocês duas estão planejando alguma coisa.

Sim, estamos. Nossos amigos estarão lá, inclusive alguns da faculdade

que há tempos não víamos. As amigas dele também estarão. Não tenho

ciúme, apenas não simpatizo com elas, que são metidas e esnobes.

— Beijo. Se cuida. Te amo.

Ele sai sem dizer uma palavra. Ultimamente, dizer que o amo tem me

deixado desanimada. Não sei explicar. Talvez possa ser os medos e

incertezas do casamento e toda a pressão dos últimos meses. Eu gosto dele,

por isso aceitei o seu pedido. Tenho certeza de que ele vai mudar e que voltará a ser o mesmo cara divertido de antes, que me levava para jantares

românticos e me trazia flores. Aquele homem adormecido despertará.

Esperei ouvir um “eu te amo” de volta, só que ele estava apressado

demais para isso. A loja o consome muito e todos os preparativos antes de

abri-la o deixou assim, distante de mim. Mas a nossa loja se sairá muito

bem. Mesmo que ele sempre diga “minha loja”, somos praticamente sócios.

Peguei muitos empréstimos para o ajudar. Empréstimos que ainda pago.

Passo no quarto de mamãe. Ela dorme depois de ter tomado o calmante.

Foi melhor assim. Desse jeito, ela não ficará mais nervosa, pensando

somente no pior.

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Comments

Germana Gomes

Germana Gomes

e burra ou se faz de otária como que ela e sócia em um negócio e não pode vai na inauguração

2024-11-18

0

Josefa Fonseca

Josefa Fonseca

noa tarde mulher filha de mafiosa tão besta afff cara não quer nada com ela fica ensistindo numa coisa que ta na cara eke não ha quer deve js ter outra na vida dele

2024-09-14

0

Edeilnisol Varela

Edeilnisol Varela

esse Ricardo se aproveitando dela, ela toda tola pra ele aff

2024-07-25

0

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