Fui despertada por um péssimo aroma que invadiu minhas narinas.
Onde diabos estou? Minha cabeça dói e eu sinto o meu queixo tremer.
O frio congelante domina o meu corpo. Estou em uma espécie de cela
do século passado.
Meu Deus! Estou presa em uma cela!
Deméter Massino me colocou em uma cela suja, fedendo a morfo e a
esgoto. Posso dizer que ela é quase inteiramente escura. A única luz vem de
uma lâmpada há quase cem metros de distância. O espaço não é amplo, é
pequeno e apertado. Há também palhas no chão espalhadas por todo o
recinto. Quase vomito quando vejo um rato morto em decomposição
próximo aos meus pés. Por isso o cheiro horrível.
Tento ficar em pé, mas falho covardemente. Minha cabeça está girando.
Também percebo que estou usando uma calça e uma blusa de moletom.
Contudo, mesmo usando roupas aquecidas, estou congelando. Este local é
muito frio.
Quem trocou minhas roupas? Deméter Massino pediu que alguém me
trocasse, para me colocar em uma cela logo em seguida?
Este lugar é como uma espécie de masmorra daquelas de filmes e séries
sobre tempos antigos. Acredito que eu esteja em uma, já que, na Itália,
existem muitos castelos medievais, e até onde sei, a família Massino possui
duas grandes propriedades assim. Sei disso porque sempre pesquisei sobre a
vida de Deméter para saber se ele estava por perto e se já havia se casado.
Tudo seria diferente se ele já estivesse casado. Talvez, assim, ele não
pensaria na vingança e no sentimento de querer me matar. Se ele amasse
uma mulher verdadeiramente, não teria tempo para pensar em se vingar de
uma ex-noiva do passado, que fugiu há anos.
Ao menos consigo me sentar depois de muito esforço. Minha cabeça
gira, como na vez em que andei na roda gigante e fiquei tonta. Porém, desta
vez, parece que a roda gigante despencou e me derrubou no chão. Meu corpo
está todo quebrado.
Já devo estar na Itália, na Sicília, ou em algum outro lugar neste país
rico, comandado por pessoas cruéis. Lágrimas inundam minha face quando
me recordo da minha mãe. Oro para que ela esteja com vida e para que
ninguém a tenha machucado ainda. Ela não merece sofrer nas mãos dessas
pessoas.
Neste momento, já estou conformada com o meu destino. Sei que irei
morrer. Mas se eu pudesse, de alguma forma, salvar a minha mãe, faria
qualquer coisa para que isso se realizasse.
Suspiro. Meu peito sobe e desce lentamente. Uma dor rasga meu
interior. Não vou suportar ficar acordada por muito tempo com este cheiro
horrível. Mais à frente há um prato velho e sujo com um pão e um copo de
alumínio também sujo. O famoso pão que o Diabo amassou. Encontro-me
em um estado péssimo, em condições precárias. Um crime contra a saúde.
Há tantas bactérias e germes nesta sala, que perdi o apetite.
Depois que desmaiei no avião, lembro-me vagamente de ter sido levada
para uma cama confortável e macia. O olhar negro parado em minha direção
era de um ser terrivelmente assustador, no entanto belo como um deus grego.
Aquela cama, certamente, devia ser no avião, pois agora estou em uma cela
imunda.
Não sei dizer que horas são ou se é noite ou dia, apenas sinto minha
barriga roncar. Eu estou faminta e minha garganta necessita de água. Preciso
me hidratar, mas não consigo fazer isso com este cheiro podre do rato em
decomposição.
Deméter me encontrou, raptou-me, trouxe-me à força para este lugar e
irá me matar. Só estou tranquila em relação à Tália. Apesar de não saber se
ela está realmente bem, acreditei quando ele disse ter libertado ela. Mamãe
me falou que a palavra de um mafioso é confiável e que eles honram o que
prometem.
Todas as vezes que penso na minha mãe, sinto um aperto em meu peito.
A dor que sinto é capaz de dilacerar minha alma.
Minha vida era tão incrível. Eu trabalhava fazendo o que amo,
dedicava-me à minha mãe, tinha um noivo quase perfeito — até descobrir
que ele não valia nada —, tinha amigos leais e, acima de tudo, tranquilidade.
Eu não tinha milhões em minha conta e não recebi a minha herança por
direito, pois fugimos da Itália, mas ao menos era feliz. Eu tinha uma
felicidade e uma tranquilidade que o dinheiro não é capaz de comprar.
Ouço um barulho semelhante ao de um camundongo. Seria outro deles
por aqui? Encolho-me no canto, abaixo a cabeça sobre os meus joelhos
dobrados e me permito chorar baixinho. Preciso respirar ar fresco. Sinto que,
a qualquer momento, terei um ataque de pânico. Odeio lugares escuros, com
pouca luz.
Meu espírito livre reprime toda e qualquer forma de opressão. E o que
mais existe na máfia é opressão contra as mulheres, assim como homens
cruéis que não valorizam o sexo feminino e que nos enxergam apenas como
reprodutoras.
Apesar do meu destino trágico que estou enfrentando, ainda assim,
prefiro a morte a ser mulher de mafioso. Eu jamais me submeteria a ser
submissa de um homem que só me enxergaria como uma reprodutora.
Asco é a palavra que define tudo que sinto em relação ao Deméter.
Aquele anjo da noite pode possuir a beleza dos deuses gregos, mas seu
Coração é do Diabo. Ele é o próprio anjo mau na Terra, terrível e implacável.
Ceifador.
Será que ele vai pendurar a minha cabeça em algum lugar? Dizem que
é isso que ele faz com suas vítimas, como sinal de vitória sobre os inimigos.
Comigo ele pode fazer tudo que desejar, mas com minha mãe não. Eu
não suportaria vê-la morrer ou ser entregue à família do meu pai, como ele
disse antes.
Grito, apavorada, quando vejo um camundongo atacar o meu pé.
Tomada pelo susto, levanto-me e me protejo bem longe do animal pequeno,
porém muito perigoso e prejudicial à saúde humana. Consigo ele traz muitas
doenças.
— Saia daqui, seu animal pegajoso. — Jogo as palhas na direção do
pequeno roedor, que se assusta e vai embora para longe da minha visão.
Fecho os olhos, sentindo arrepios. O pequeno camundongo me causou
nojo, enjoo e repulsa. Todos os meus pelos estão eriçados. Não sou uma
garota fresca, apenas precavida contra animais perigosos. Como se não
bastasse o aroma podre, capaz de revirar o meu estômago, preciso tomar
cuidado com camundongos.
Tenho a leve impressão de que escutei um som semelhante ao de um
morcego. Que não tenha nenhum aqui.
Suplico aos céus para que esta minha aflição termine logo. Se Deméter
deseja me matar, que faça isso o mais rápido possível. O que ele pretende?
Quer me matar de fome e de sede? Porque se essa é sua intenção, não levará muito tempo para isso acontecer, pois nada me fará comer essa comida que o
roedor tocou nem beber a água que, possivelmente, ele tocou também e eu
não vi.
Em algum momento, adormeci novamente devido à fraqueza que
percorria o meu corpo. Despertei, dessa vez, ao ser puxada com força para
fora da cela.
Estou atordoada e assustada ao encarar rostos que não conheço.
Soldados da máfia. Eles estão armados e protegidos com coletes. Preciso me
segurar em um deles para não cair no chão.
— A puttana está fraca — um deles comenta, zombando.
— A ex-noiva do chefe é muito bonita — o outro diz de maneira
pervertida. — Espero que ele nos deixe brincar com ela antes de matá-la.
O abalo dessa situação não me leva ao desespero. Consigo controlar
minhas emoções para não gritar, pois me desesperar não resolveria nada.
Estou à mercê das ordens do chefe, sob a mira de dois soldados que estão
pensando em abusar de mim antes da minha morte.
Meu estômago embrulha mais uma vez. Se eu não fosse virgem, diria
que estou grávida.
— A puttana é uma mulher muito linda mesmo. Espero ser o primeiro
a tocar nessa pele macia.
— Quem terá a honra será eu.
Não é pelo físico, muito menos pela falta de beleza nos homens, mas
recrimino o fato de eles pensarem que podem me tocar sem o meu
consentimento. Sei que abusos acontecem a todo momento na máfia e em outras situações, no entanto recrimino isso de qualquer forma, seja contra
homens ou contra mulheres.
— Vão pro inferno, seus merdas! — falo no idioma deles, o qual
domino fluentemente. — Miseráveis!
— Olha só. A ex-noivinha do chefe é linguaruda. Quem ela pensa que
é, para falar assim com a gente? Só não acerto um murro nessa face linda e
delicada porque o senhor deseja vê-la inteira antes de matá-la.
Quem é esse senhor? Ele está se referindo ao Deméter? Estão me
levando para o meu ex-noivo?
— Ela pensa que é a senhora da máfia — o homem zomba. — Sentirá o
peso da minha mão quando a trazermos de volta para a cela, e também
sentirá a pressão do meu pau quando ele estiver rasgando você, docinho.
— Vermes! — Não faz diferença eu me comportar ou me conter, irei
morrer de qualquer maneira.
Eles me levam para uma sala mais distante da cela. Esta sala é mais
moderna, e eu passei por um enorme corredor até chegar aqui.
Diferentemente da cela onde eu estava, neste lugar há uma enorme mesa
redonda de madeira rústica, com um total de 12 cadeiras. É como se eu
estivesse em O rei Arthur e a távola redonda. Mas diferente do conto, isso é
a vida real com um final infeliz.
Então, é aqui que eles julgam os traidores?
Há um homem sentado ao centro da mesa a me olhar intensamente,
com curiosidade e, também, um certo impacto, ao me ver depois de anos. Eu
me lembro desse rosto. Eu o vi uma vez, e foi terrível.
Fabrizio Massino, avô paterno de Deméter. Ele passou a máfia para o
comando do seu filho há alguns anos, porém ele faleceu de câncer, e agora o
seu neto é o grande líder. O senhor Fabrizio também passou por um
tratamento tenso, mas obteve a cura, ao contrário de Mateo, que faleceu.
Acredito que isso tenha sido muito doloroso para ele e para Deméter. Mas,
mesmo assim, eles não sabem o que é ter o coração puro e bondoso.
— Essa é a famosa senhorita Beatrice Bianchi.
Bianchi era o sobrenome do meu pai, o qual passei a deixar de usar
quando fugimos. Eu usava Esposito, que veio da minha mãe. Era mais
seguro usar o sobrenome dela do que o do meu pai. No entanto, isso não
evitou que eles me encontrassem. Uma infelicidade do destino, porque o
Don Massino foi procurar justamente o hospital em que eu trabalhava, e para
a minha completa falta de sorte, era eu quem estava atendendo naquele
fatídico dia tenebroso.
O senhor Fabrizio é um velho com seus 80 anos, que gosta de fumar
charuto e beber conhaque. Um velho que era assustador para uma criança de
8 anos. Em nosso único encontro, ele disse coisas perturbadoras para uma
menina de 8 anos ouvir. Pensei que não fosse vê-lo nunca mais.
Infelicidade a minha. Aqui está ele, olhando-me como se eu fosse um
ser insignificante.
— Confesso, ragazza, que é muito bonita. Carrega consigo o olhar do
seu pai, os olhos dele. Saudoso homem. Que Dio (Deus) o tenha consigo. —
A família Massino respeita muito o meu pai, a memória dele. — A filha dele
deveria ser a senhora da minha casa, a mulher mais respeitada e admirada da
Sicília, a esposa perfeita para o meu neto. Com esse belo corpo e essas
curvas, você faria um ótimo serviço para o meu neto, seria uma excelente
parideira.
Ótimo serviço? Ele quis dizer que eu seria uma ótima parideira? Não
poderia ser mais indelicado que isso. No entanto, eu não esperava outro
posicionamento vindo dele.
— Esqueceu o nosso idioma, ragazza?
Respiro fundo. De nada adiantaria eu ser afrontosa neste momento.
— Não, senhor, falo italiano fluentemente.
— A bela filha de Ezio Bianchi. É tão bela como a sua mãe. Já tive o
prazer de estar com ela mais cedo. Os anos foram generosos com ela.
Mamãe! Ela está aqui. Meu coração palpita. Estou preocupada e
nervosa.
— Senhor Fabrizio, a minha mãe está aqui? Por favor, me deixe vê-la
— imploro por meio de uma súplica.
— Oh, querida, pensa mesmo que está em condições de pedir alguma
coisa? O seu valor para nós agora é o mesmo que o de um cão imundo. Não
é nada para mim, para o meu neto e para esta máfia. Nem mesmo todo o
prestígio do seu pai a salvará do seu destino, que é a morte.
— Eu aceito o meu destino, senhor. Sei que não tenho como fugir ou
evitá-lo, porém não posso evitar de sofrer pensando no que farão com a
minha mãe. — Minha voz saiu falha quando me entreguei ao choro. — Por
favor, dê logo um fim à minha agonia. Não permita que seus soldados me
violem. Por favor, me mate aqui e agora.
— Meu neto fará as honras, mas, neste instante, ele está resolvendo
assuntos pendentes. Por isso voltará para a cela até segunda ordem. Que
ninguém ouse tocar na moça, ou se verá com Deméter — ele alerta,
impaciente.
— Senhor Fabrizio, quando o senhor foi ao meu aniversário de 8 anos,
me disse uma coisa que eu jamais esqueci.
Ele ergue uma sobrancelha, curioso e intrigado.
— O que eu lhe disse, mocinha?
— O senhor me disse que quando eu completasse 18 anos, poderia
pedir o que desejasse. Fez uma promessa.
Foi a única coisa gentil que ele já me disse, após me traumatizar,
dizendo que eu me casaria com o seu neto. Uma menina de 8 anos ouvindo
que vai se casar é assustador.
— Uma promessa?
— Sim, senhor.
— Fabrizio Massino sempre cumpre uma promessa.
— Se está mesmo dizendo a verdade, eu tenho um pedido a lhe fazer.
— Minha visão fica turva novamente. — Poupe a vida da minha mãe. Não a
mate, eu imploro.
Um Massino sempre cumpre suas promessas. Ele deve cumprir a sua.
— Acontece, jovem, que eu não posso cumprir a minha promessa. A
senhorita fugiu, e, com isso, perdeu todos os seus direitos.
— Sim, eu posso ter perdido tudo. Não me importo, senhor. Mas, por
favor, poupe a vida da minha mãe. Um Massino sempre deve honrar com
uma promessa. Quando me prometeu isso, não me impôs condições, apenas
me disse que cumpriria o que eu pedisse quando completasse 18 anos. Hoje
tenho 23 e exijo que cumpra a sua promessa, a menos que seja um covarde.
Sou dominada pela fraqueza mais uma vez. Não posso ver sua
expressão, porque minha visão está escura.
— Levem-na para a cela agora. Essa ragazza ofendeu a minha famiglia
(família). Eu poderia matá-la agora mesmo. Levem-na antes que eu mude de
ideia e acabe roubando esse prazer da vida do meu neto.
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Atualizado até capítulo 36
Comments
Cida Mendes
Vixe ela só faz merda, mesmo precisando da misericórdia de um mafioso ainda assim faz um pedido e ofende a pessoa que conceder sei pedido bicha burra
2025-01-08
1
Maria Mikarla
🥲🥲😶😭
2024-02-27
1
Maria Joana Cunha Costa
porque tantas maldade 😹😹
pô ela era só uma criança raça ruim credo 😡
2024-01-31
1