— Feliz aniversário, meu amor.
Beijo os seus lábios com sabor de rum. Misericórdia! Eu acho esse o
pior aroma de todos. Contenho minha careta de nojo e forço um sorriso largo
no rosto, contente por esta data comemorativa. Hoje é o seu aniversário.
Ricardo está completando 29 anos e está prestes a se tornar um empresário
de grande sucesso.
A nossa empresa crescerá, teremos um casamento lindo, sólido e
duradouro e seremos muito felizes. Todos os meus medos e receios
acabarão.
Segundo os sites de notícias, Deméter Massino veio ficar apenas quatro
dias no Brasil. E amanhã já completa quatro dias. Ou seja, ele irá embora
amanhã. Abro um sorriso largo, contente com essa ideia. Mamãe também se
tranquilizou depois que lhe mostrei as notícias. Nós duas temos certeza de
que ele não me reconheceu. Eu não lhe contei do nosso encontro de hoje
mais cedo, pois saber disso seria muito pavoroso para ela e, no final das
contas, ela se preocuparia sem tanta necessidade.
Fechamos uma parte da boate apenas para a nossa turma. É uma boate
de luxo localizada no centro do Rio de Janeiro, em uma área nobre. Todos
colaboraram financeiramente para que esse evento acontecesse e fosse tão
divertido. É uma espécie de camarote no térreo. Só não é como os que
podemos ver no primeiro andar, que são mais luxuosos e iluminados. Porém,
há outro completamente escuro, que fica localizado no centro, no andar de
cima. Tenho a impressão de que há alguém me observando daquela
escuridão.
Pode ser coisa da minha cabeça, paranoia. Acredito que seja somente
por causa de todo o alvoroço que está sendo o aniversário do meu noivo
aqui.
Também estou triste porque ele vai viajar nesse sábado, e eu não irei.
Sinto-me excluída da sua família.
— Presentes! — Tália grita alto e lhe entrega o presente dela.
Ricardo o abre. É um par de tênis de uma marca famosa. Ele adorou.
— Oi, Ricardo, querido, este é o meu. — Marie, que está usando um
minivestido, abraça o meu noivo pela milésima vez na noite. A todo
momento, ela encontra uma desculpa para o abraçar.
Não estou morrendo de ciúme, pois eles são amigos desde a faculdade
e nunca ficaram, porém acho ela muito exibida. Sua roupa está minúscula e
o batom vermelho em seus lábios está exagerado. O beijo que ela deu na
bochecha de Ricardo foi quase no canto da boca, já perto dos seus lábios.
Ordinária!
Minha mão está coçando para eu acertar a sua cara dissimulada e deixar
nela a marca dos meus cinco dedos.
— Espero que goste, querido.
Um relógio da Rolex. Esse, sem sombra de dúvidas, foi o presente mais
caro que ele recebeu hoje. Meu perfume importado perde feio para esse
relógio.
— Você é maravilhosa, querida.
Maravilhosa e querida? Dois elogios na mesma frase? Nem me recordo
da última vez que ele me chamou assim. Já faz tanto tempo.
Está mais do que na hora de conversarmos sério. Após o seu
aniversário, pretendo chamá-lo para dormir lá em casa. Assim, poderemos
conversar melhor, já que não trabalho amanhã, será a minha folga.
— Meu presente agora, amor.
— Claro, o seu. — Ele mostra entusiasmo ao abrir o embrulho e dá um
sorriso contente de quem gostou. Isso aquece o meu coração. — Eu gostei
muito. Obrigado.
Eu lhe dou mais um beijo e ele me toma para uma dança mais lenta e
romântica. Os nossos corpos estão colados e eu encosto a cabeça em seu
ombro.
Ele sussurra ao meu ouvido:
— Nessa noite, quero te fazer minha, como o meu presente perfeito de
aniversário, gatinha.
Também quero me entregar. Se a nossa conversa for como o esperado,
até poderei pensar nessa ideia.
Posso sentir sua ereção tocar em minha barriga. Eu já o vi nu algumas
vezes, e ele também já me viu, mesmo sem nunca termos nos tocado.
Tomamos alguns banhos juntos e trocamos beijos quentes. Meu noivo é o
homem mais paciente do mundo. Não é qualquer um que espera tanto tempo
assim para ter sexo. Ao menos ele respeita a minha decisão.
— Posso pensar com carinho a respeito.
Um sorriso safado brota em seu rosto e suas mãos apalpam o meu
bumbum. Gosto de sentir o calor dos seus beijos e suas mãos grandes, que
me dizem que eu pertenço a ele.
— Entre todos os presentes do mundo, só consigo pensar em você se
entregando em meus braços. É tudo o que eu mais desejo nesta vida. Você é
o meu melhor presente, amor.
Ele me chamou de amor. Fazia alguns dias que não se referia a mim
dessa maneira.
Sorrio como uma boba. Ele sabe que sou apaixonada por ele, por isso é
tão convencido assim.
— Você pode me ter, querido. — Pisco.
A minha sensação de estar sendo observada aumenta cada vez mais,
principalmente no momento em que fico olhando para o único camarote em
que todas as luzes estão apagadas. Parece que não há ninguém lá, mas eu
penso estar vendo um par de olhos negros me observando a todo instante.
Talvez seja o cansaço me consumindo.
— Eu vou ao banheiro. Já volto — Ricardo avisa.
— Tudo bem.
— Estou louco para dormir com você hoje, princesa, te fazer minha
mulher e a ouvir gemer loucamente ao meu ouvido. Você é única, mulher da
minha vida
Sua declaração aquece o meu coração. É tão bom ouvir de seus lábios
que eu sou a mulher da sua vida.
Também estou com vontade de ir ao banheiro, mas ainda aguento mais
uma dança com a minha cunhada. Pulamos como crianças sem controle e
cantamos alto uma música antiga de Bon Jovi remixada.
— É muito bom ter você como minha cunhada. Eu te amo muito —
Tália me diz, animada. — É uma pena você não poder ir à viagem com a
gente.
— Realmente, é uma pena mesmo. — Pensei alto demais.
— Ricardo falou que você quer descansar nesse fim de semana. Mesmo
que vá ser um bate-volta, eu entendo. Eu também não sei se vou, porque só
penso em dormir até tarde. — Gargalha.
Meu noivo sempre está inventando desculpas sobre mim para a sua
família. Primeiro para a inauguração da nossa loja, e agora para essa viagem
nesse sábado. Querendo ou não, essas coisas me magoam profundamente.
Sento-me próxima ao balcão e peço um drink fraquinho para o barman.
Ele o prepara em questão de poucos minutos. Eu lhe agradeço e ingiro tudo
de uma vez, sem pensar duas vezes. Eu estava precisando ter um pouco de
adrenalina e sair da minha rotina de certinha e santinha de todos os dias.
Há momentos na sua vida em que se você estiver refletindo tudo que já
passou, em uma boate escura, escutando uma música alta, depois de ter
tomado dois drinks, sua única vontade é de chorar.
Às vezes é como se Ricardo tivesse vergonha de mim e do meu corpo.
Nunca vamos à praia, e na oportunidade que teríamos de ir juntos,
coincidindo com um dia em que não irei trabalhar, ele, simplesmente, disse
que minha sogra quer fazer uma viagem somente em família, com os filhos
dela. Eu pensei que fazia parte da família, mas vejo que as coisas não são
bem assim.
A frustração toma conta do meu ser. Às vezes o amor pode doer um
pouquinho.
— Moça, o seu noivo está passando mal — um garçom me avisa. —
Venha comigo. Te levarei até ele.
Eu sabia que ingerir tanta bebida e dançar como um louco faria Ricardo
passar mal ou até mesmo vomitar. Bebidas fortes não lhe caem bem. Na
maioria das vezes, ele bebe, pois é teimoso demais.
Sem pensar duas vezes, preocupada, sigo o homem. Ele me leva para
um corredor pouco iluminado, para uma ala que parece ser de quartos. Tália
me disse que aqui há quartos para quem quiser aproveitar a noite de outra
maneira. Interessante para uma boate, uma inovação.
Observo como é sensual esta parte. As luzes vermelhas passam o ar de
que tudo aqui é sexy.
Paramos em frente a uma porta de madeira vermelha.
— Ele está aqui, senhorita.
— Obrigada.
O homem assente.
Mais uma festa que terminará em vômito e comigo o levando para casa,
pois ele não irá conseguir dirigir.
Abro a porta e paraliso. Meus olhos não acreditam no que veem. Meu
noivo está pelado na cama com duas mulheres. É mesmo o Ricardo. Eu
poderia conhecê-lo até mesmo no escuro.
A iluminação aqui é mais clara e a cena é impactante. Uma moça está
de quatro, enquanto ele mete na enorme raba dela. Nem camisinha usa. A
cadela geme como uma puta.
Lágrimas inundam a minha face. Como ele pode fazer isso?
A outra mulher está em pé, beijando a boca dele, completamente nua
também. As mãos dele apalpam os seios grandes e durinhos dela.
Eles não podem me ver. Estão muito excitados com o clima para notar
a presença de alguém. Ele beija a moça ardentemente enquanto mete na
outra mulher.
Então, é assim que Ricardo diz estar louco por mim? É assim que ele
me respeita? No dia do seu aniversário, quando me disse que eu sou o seu
melhor presente, ele está trepando com duas mulheres, desrespeitando o meu
amor e magoando os meus sentimentos.
Como dói.
Estou vendo como sou a mulher da sua vida. Eu não sou nada para ele.
Nunca fui importante.
Ricardo destrói o nosso amor ao se relacionar dessa maneira tão suja
com essas duas mulheres. Ele só não pisa em meu coração, esmagando-o,como também destrói o nosso amor. A aliança em seu dedo não tem nenhum
significado, e a minha também não. Por isso ele sempre estava tão diferente
e tão distante. Ele já não me ama mais. Será que algum dia amou?
Quem ama, não trai...
Não mente ou engana...
Não se afasta, não é grosseiro...
Muito menos para de ser carinhoso.
Agora eu entendo por que ele estava cada vez mais afastado de mim e
por que colocou senha no seu celular. Tudo isso porque me traía. Essa não
foi a primeira vez, e eu tenho certeza de que não seria a última.
Meu coração está sendo dilacerado com essa cena. Isso dói e me
machuca. Há um rasgo também na minha barriga, que chega até a doer. Eu
fecho os olhos e as lágrimas embaçam minha visão. Preciso sair daqui. Já
não aguento mais vê-lo gemer loucamente, apaixonado, com essas duas
mulheres. Ele mancha o nosso amor como se não significasse nada. E
acredito que já não signifique nada mesmo, há algum tempo, para ele.
Por isso Ricardo não me levaria à viagem, pois iria aproveitar a
situação para me trair. Pergunto-me se ele levou alguma amante à
inauguração da loja.
Como eu fui tola e inocente. Nunca percebi nada. Todas as vezes que o
seu celular tocava, ele atendia rapidamente e se afastava. Era alguma mulher,
tenho certeza. Agora tenho. Ele inventava que eram assuntos de trabalho,
mas eu sei que não eram.
Corro depressa, chorando, para fora da boate. Não voltei para onde
estão as meninas. Quem me garante que ele já não me traiu com suas amigas
de faculdade também? No estacionamento, busco por um táxi que possa me levar para casa. Esqueci minha bolsa com o meu celular lá dentro, com
Tália.
Eu fui traída e enganada por todo esse tempo. Não acredito que essa
tenha sido a primeira vez que ele me traiu. Sinto-me humilhada e só consigo
chorar. A cobertura do estacionamento impede que a chuva que cai lá fora
me molhe. Levo a mão ao meu coração, que está tão pequeno, apertado e
doendo muito.
Ricardo foi o meu único namorado e íamos nos casar em poucos meses.
Eu me entregaria de corpo e alma para ele e seríamos um só. Sempre fui fiel,
leal e sua companheira, mas vejo que ele nunca valorizou isso, as minhas
qualidades, pelo contrário, estava sempre incomodado com o meu peso,
como se eu fosse uma alienígena por não ser magrinha como suas
amiguinhas saradas, suas amantes.
Meu choro sai mais alto que o esperado. Neste momento, eu só quero o
colo da minha mãe e a ouvir dizer que ela tinha razão quando falava que
Ricardo não era uma pessoa íntegra e que não era o homem ideal para mim.
— Vá a merda, Ricardo! — Livro-me da aliança em meu dedo e a jogo
o mais longe possível.
Não quero mais nada que venha dele, nem mesmo essa aliança de ouro.
Senti um alívio ao tirá-la do meu dedo, porém meu coração ainda dói.
Preciso da minha mãe agora, do seu colo de mãe.
O vento traz consigo um ar forte e um perfume amadeirado que queima
as minhas narinas. De onde vem?
Viro-me para trás, pensando em voltar para pegar minhas coisas. É
melhor eu chamar um Uber, com toda essa chuva. Não é bom eu ir a pé até
um ponto de ônibus.
É quando dou de cara com a figura imponente diante de mim.
Deméter Massino.
Engulo em seco. O homem está parado, usando um sobretudo preto por
cima do terno também preto. Suas mãos estão enfiadas nos bolsos da calça.
Ele é como um anjo da noite: belo e assustador.
Há quanto tempo ele está aqui?
Mais uma vez, ele está me vendo chorando.
— Senhorita Esposito, venha comigo. Eu te levarei para outro lugar. —
Ele foi galanteador no jeito de falar.
— Muito obrigada, senhor, mas já estou voltando para junto das minhas
amigas. — Tento escapar dele, porém sua mão grande toca em meu
antebraço, segurando-me com força.
— Não me faça usar a força, senhorita. Venha comigo.
Seu carro está com a porta aberta logo atrás de mim. Não tenho
escolha. Ou eu entro lá agora mesmo ou levantarei suspeitas de que tenho
medo dele e de que meu coração está prestes a parar devido ao temor que
estou sentindo neste momento.
Para onde ele vai me levar? Não tenho para onde correr.
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Atualizado até capítulo 36
Comments
Marileide Alencar
Como essa garota é inocente, cega e lenta
2024-12-24
0
Germana Gomes
rapaz ela deveria ter quebrado o pau com esse canalha aff
2024-11-18
0
Maria Helena Macedo e Silva
pelo visto o Demeter já sabe quem é ela, para não deixar ela pegar seus pertences com as colegas e ainda dizer que ela escolhe ir ou não a força...
2024-03-08
2