Sobrevoamos o céu de algum lugar agora. Estou sentada em uma
poltrona única e confortável, localizada ao lado de uma janela. O avião
particular de Deméter exala conforto e luxo. É muito espaçoso.
Não posso ver a minha mãe e não sei onde ela está, em qual parte está.
Sobre os meus olhos, há uma venda. Eu arriscaria dizer que estou há mais de
oito horas dentro deste avião, prendendo a vontade de fazer xixi. No começo
do voo, eles me deixaram ficar sem a venda, mas logo depois uma mulher,
que trabalha como aeromoça, mandou-me colocá-la.
Todos aqui trabalham para a máfia siciliana, ou seja, estou cercada de
pessoas que seriam capazes de dar as suas vidas por essa organização
perigosa. Ninguém me ajudaria. Só me resta chorar. Essa é a única coisa que
eles me permitem fazer. Choramingo baixinho, sentindo um aperto enorme
no peito.
A traição que sofri já não significa nada comparada com a dor do
desespero de saber que a vida da minha mãe e da minha melhor amiga
correm perigo. Se eu pudesse, mataria Deméter sem pensar duas vezes e
esmagaria a sua cabeça até não restar mais nada dela.
A venda em meus olhos está fria e molhada devido às minhas lágrimas.
Há rios de cachoeiras em meus olhos. Chorei tanto e por tantas horas, que
toda essa região está dolorida. Sinto sede e fome. Não comi nada, apenas
bebi aqueles dois drinks fortes que queimaram minha alma.
Não sou covarde. Minha falta de ação não significa covardia, e sim
cautela. Mas não sei por quanto tempo mais conseguirei me manter quieta.
Minha vontade é de sair procurando pela minha mãe e ir ao seu encontro.
O Don Massino vai matá-la. Eu não posso permitir que ele a mate. Por
ela, eu daria a minha vida, mas neste instante minha vida não vale muito
para eles.
Estou voltando à Itália, à minha terra natal, depois de anos longe,
sabendo que esse retorno é um caminho para a morte. Recuso-me a aceitar o
que está vindo, esse destino cruel comandado por homens. Um homem não
pode decidir se eu viverei ou morrerei. Mesmo que ele seja o dono do
mundo, não é o dono da minha vida, muito menos da vida da minha mãe.
— Deméter Massino! — grito, em uma tentativa de chamar a sua
atenção.
Foi inútil, ninguém respondeu. É como se ninguém estivesse por perto.
— Deméter Massino! — grito uma segunda vez. Depois uma terceira,
quarta, quinta... dez vezes, no total.
Minha garganta ressecou duas vezes mais e eu a sinto arranhar. Se
ninguém me responde, também não me sinto na obrigação de lhes obedecer
usando esta venda. Estou sobrevoando o céu de algum país. Não vou
adivinhar onde estou somente olhando para as águas do mar, e ele mesmo
falou que eu vou para a Sicília, então não há por que eu usar essa droga por
tanto tempo.
Furiosa, livro-me da venda, arremessando-a para trás. Para a minha
surpresa, vejo que Deméter está sentado na poltrona de couro posicionada de
frente para mim. Ele está segurando um tablet em mãos e parece muito
ocupado, concentrado em suas obrigações.
Filho da mãe! Eu gritei por minutos, até minha garganta doer, e em
todo esse tempo ele estava sentado bem na minha frente. Estufo o peito,
irritada, ao puxar o ar com mais força para os pulmões.
Seu olhar duro recai sobre mim. Ao menos esse monstro não me
amarrou.
Infelizes! Vermes!
— Beba um pouco de água, ragazza. — Se ele se preocupasse mesmo,
teria me dado água antes.
Pego a garrafa de água do frigobar ao lado da minha poltrona. Sinto
tanta sede, que bebo os 500 ml como se fosse apenas um gole. Eu beberia
outra garrafinha se seu olhar gélido não estivesse me fuzilando agora.
— Preciso ir ao banheiro, ou farei xixi aqui mesmo.
— Por que não pediu antes para ir?
— Sério? Será que é porque eu estava vendada e não sabia que havia
alguém próximo a mim, para que eu pudesse falar? Eu quase perdi a voz
gritando por você, e nem sequer me respondeu, mesmo estando aí.
Percebo que seu maior prazer será me torturar. Sou uma traidora
capturada.
— Eu estava testando até onde iria a sua capacidade de me obedecer;
quanto tempo aguentaria ficar com aquela venda sobre os seus olhos.
— Você é terrível. Não sabe quão torturante é não enxergar nada. —
Quase tive um ataque de pânico durante o período em que não enxergava.
Minha respiração se tornou pesada. A satisfação em seu olhar é
tenebrosa.
— Você foi orientada a permanecer onde está, quietinha. Devo
parabenizá-la por ter permanecido obediente por tantas horas.
Horas. Isso me lembra de que estou há horas sem ver a minha mãe.
Meu coração está angustiado. Dói tanto.
— Ragazza, se soubesse o que se passa na minha mente todas as vezes
que a vejo ficar encolhida como um passarinho assustado, não permaneceria
assim.
O que diabos ele pensa? Não é possível que sinta algum tipo de prazer
com o meu medo. Isso é muita psicopatia. Esse homem é um psicopata, sem
sombra de dúvidas. Ele se diverte com o medo das pessoas, com o meu
medo, por isso brincou comigo antes de me fazer sua prisioneira.
— O que o senhor pensa, não me interessa. Eu só não entendo uma
coisa: se sabia quem eu era, por que não me matou antes? Hoje mesmo ou
ontem? — Estou confusa em relação ao tempo. — Quando estive com o
senhor no seu carro, por que não me matou? Assim, pouparia o seu tempo.
Por que está me levando para a Itália? Pretende me enforcar em praça
pública?
— Não seria uma má ideia — desdenha. — Quando eu soube quem era
você, acredite, eu quis matá-la no mesmo instante, mas confesso que foi
delicioso me saciar com o seu medo e com o seu choro todas as vezes em
que nos encontramos. Era divertido saber que você estava apavorada com a
ideia torturante de que eu poderia matá-la naquele momento.
Deméter larga o tablet na poltrona ao lado, cruza as pernas e fecha as
mãos juntas sobre os joelhos. Além de tudo, ele é elegante e exala poder.
— Vim ao Brasil a negócios e, de quebra, estou levando minha noiva
fujona para casa.
Para casa?
— Por que não me mata aqui mesmo e joga o meu corpo no mar?
— É um belo corpo para ser devorado por tubarões. Tenho outros
planos para o seu belo corpo, bella donna (bela mulher).
Posso até imaginar que tipos de planos ele tem para mim.
— Eu aceito qualquer coisa, Don Massino. Pode me entregar para os
seus soldados, para eles fazerem o que quiserem comigo, e pode me torturar da maneira mais dolorosa possível. Eu aceito o meu destino. Mas, por favor,
não machuque a minha mãe. Deixe ela ir embora, eu imploro.
— Estive pensando a respeito da sua mãe. Creio que tenho uma
punição melhor que a morte para ela.
— Qual punição? — pergunto, amedrontada.
— Você sabe que o seu pai tem um irmão. — Ouvi falar sobre ele e me
lembro vagamente dele, de quando eu era criança. Ele era mais novo que o
meu pai. — Posso entregar sua mãe para ele. Acredite, bambina (criança),
sua família sempre quis matá-la.
Meu Deus! Sinto náuseas me invadirem.
Não posso mais controlar a vontade de fazer xixi, muito menos a
fraqueza que domina o meu corpo. É como se eu estivesse prestes a
desfalecer.
— Por que não chora um pouco mais? Assim, posso me divertir mais
com o seu desespero, bambina. — Sua risada diabólica me tortura.
É impossível não sentir o peso dessa situação. Se ele entregar minha
mãe para o meu tio e minha avó, que ainda está viva também, eles vão matála da pior maneira possível.
Caio de joelhos diante do homem imponente. Meu rosto está no chão
gélido do avião e minhas lágrimas borram a minha visão. Eu só consigo
pensar no destino doloroso da minha mãe.
— Senhor Massino, não faça isso. Eles vão matar a minha mãe da pior
maneira possível, e também vão querer me matar. Eu faço tudo que o senhor
me pedir e sofro qualquer tipo de humilhação, mas não faça isso, pelo amor
de Deus. O senhor, por acaso, não teve mãe? Como se sentiu quando ela
faleceu? Mesmo que tenha sido por causas naturais, tenho certeza de que foi
doloroso, porque ela era a sua mãe. Por favor, não me deixe morrer com esse peso, com essa angústia. Liberte a minha mãe. Eu imploro. — Meus cabelos
cobrem o meu rosto. Em algum momento, eles se soltaram do laço que os
prendia.
— Levante-se desse piso gelado, Beatrice. — Todas as vezes que ele
pronuncia o meu nome é tão gélido. Mas não me importo. — O que
pretende? Ficar doente? — ele ainda me adverte com autoridade.
— Eu prefiro ficar doente e morrer antes mesmo de chegarmos à Itália
a ter que ver minha mãe morrer antes de mim.
Está muito gelado mesmo o piso do avião, porém não me importo. Meu
coração dói muito mais do que todo esse gelo nas minhas mãos.
— Donna testarda (Mulher teimosa) — ele resmunga, feroz, como um
leão rugindo alto.
Sinto meu corpo ser puxado para cima por suas mãos fortes e
poderosas, que me levantam com facilidade. Meus olhos estão fechados e eu
me sinto muito fraca, tanto que preciso me agarrar ao seu pescoço para não
cair. O que me mantém acordada é o perfume amadeirado que exalo perto da
sua nuca.
Estou tremendo de frio. Acredito que seja uma febre emocional. Já vi
muitos pacientes ficarem assim ao atravessarem algum momento traumático.
Reúno forças de onde não existe.
Pior do que vir minha mãe ser morta por ele, será vê-la ser morta pela
família do meu pai. Eles a odeiam mais do que qualquer coisa, pois
perderam muito com a nossa fuga. Meu tio tomou um cargo importante na
máfia, mas não foi o esperado com o casamento, que seria o cargo que
pertencia ao meu pai.
— Se ficar doente, será pior. — O Don Massino me agarra forte. Sua
voz rouca causou pequenos choques elétricos no meu corpo.
— Já estou no meu pior. Você me encontrou, e eu sou sua prisioneira.
Isso não pode ficar pior, Massino.
— Acredite em mim quando digo que pode, sim, ficar pior.
— Pois me mate agora, por favor. — Agarro-me mais forte ao seu
corpo. Meu queixo treme e eu empurro minha cabeça contra o seu peitoral
forte, desejando me aquecer.
— Não, bella mia (minha bela). Reservo outros planos para você. Não
terei o prazer de matá-la da maneira que imagina. Essa pele macia... — Seus
dedos tocam em minha face. — Merece viver outros prazeres que somente
um homem de verdade pode proporcionar. Sabe de uma coisa, ragazza?
Nunca imaginei que minha noiva pudesse ser tão bonita, atraente, rebelde,
linguaruda e corajosa. Admiro sua audácia, bambina. Sua coragem é muito
grande para alguém tão piccola como você.
— Deméter, eu preciso ir ao banheiro, de verdade — suplico.
— Não pense que estou torturando você. Como prova disso, neste
momento, estou te segurando firme para que não desmaie e caia no chão.
Assim, machucaria esse rosto lindo e delicado que tem, bambina.
— Meu peito está doendo. Eu acho que vou morrer agora.
Uma dor aguda sufoca a minha alma, impedindo que eu respire.
— Não se preocupe, você não vai morrer em meus braços. Não dessa
maneira, baby. Venha comigo, te levarei ao banheiro.
Agora ele me segura em seus braços como se eu fosse um bebê que
precisa de cuidados. Meu peso, para ele, é como o de uma pena. Não o deixo
cansado.
O Don caminha comigo até a cabine do banheiro, que é larga para um
avião. Porém, como este avião pertence a ele, claro que haveria luxo e
conforto no banheiro. Ele me coloca sobre a pia, onde meu corpo pode ficar apoiado, e eu abro os olhos, atordoada. Vejo-o abrir o botão da minha calça e
descer o zíper.
Que vergonha.
— Para! Eu consigo fazer isso, mas não com você aqui dentro.
Há chamas naquele olhar de predador. Chamas nas quais eu já quis me
queimar. Esse será o meu maior remorso. Desejei me entregar a um mafioso
no banco de trás do seu carro. Esse teria sido o meu maior arrependimento.
— Irei me virar de costas. Somente isso. Não tente nenhuma gracinha,
ou só irá me chatear ainda mais. Seja rápida — ele diz de forma rude.
— Tudo bem, mas não olha.
Como prometido, ele se vira de costas. Posso me aliviar ao fazer xixi
no sanitário gélido. Meu corpo está febril, posso me sentir assim.
Estamos em um banheiro de um avião. Só consigo pensar na minha
mãe e na minha melhor amiga. Como ele a sequestrou?
— Don Massino, você libertou minha amiga, como o combinado? Eu
saí em silêncio pelo prédio e não fiz escândalos. Você me prometeu...
Prometeu libertá-la.
— Um Don sempre cumpre suas promessas. — Ele não prossegue com
o assunto, porém sinto um alívio em relação à Tália. — Terminou de usar o
banheiro? Irei me virar.
Fecho o zíper e o botão da calça no momento em que ele se vira para
mim.
— Eu já me sinto melhor, posso caminhar sozinha — profiro, irritada.
— Sozinha, você nunca mais irá a nenhum lugar, bella donna. Sempre
serei a sua sombra de agora em diante.
Minha sombra em que sentido? Depois que eu morrer, ele não poderá
me dominar, muito menos me perseguir.
— Venha comigo.
Tento dar um passo sozinha, no entanto sinto o meu corpo ir para a
frente, sem controle. Ele, estando atento, ampara-me em seus braços. Agora
estou frágil e debilitada, dependendo da ajuda do meu inimigo para
caminhar.
— Está ficando escuro. — Seguro firme em suas mãos, apertando-as.
— Não gosto da escuridão.
— Beatrice?
Sua voz fica cada vez mais longe, assim como minha visão, que se
apaga completamente. Não posso ouvir mais nada e me entrego ao desmaio
profundo.
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Atualizado até capítulo 36
Comments
Cida Mendes
Ele até que tá sendo,bom com ela,ele gosta dela e ela fica ouvindo a mãe dela que deveria ter visto muita coisa na máfia,mais nem todos os mafiosos são iguais
2025-01-08
0
Maria Aparecida Monteiro Firmino Cida
ela não queria o verdadeiro noivo,ela queria o homem gostoso, que despertou nela paixão, desejo e outras coisinhas más kkkkk
2023-12-07
8
Celia aparecida Dos Santos da Silva
ela não amava tanto o ex noivo como dizia pois sentiu desejo de se entregar pro verdadeiro noivo sem saber quem ele era de verdade
2023-12-07
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