Beatrice

Estou sentada no banco de trás do seu carro SUV, da Jaguar, importado,

altamente luxuoso, confortável e com bancos de couro. Um vidro preto está

elevado entre nós e o motorista, que está dirigindo no banco da frente e não

pode nos ver, muito menos nos ouvir.

É muito assustador estar com ele em um espaço pequeno. Estou

tentando estalar os meus dedos pela milésima vez, já sem causar nenhum

efeito.

Não é como se ele tivesse me arrastado à força para o seu carro, mesmo

com aquele olhar nítido de seriedade que fez todo o meu corpo tremer. Entrei

aqui não somente pelo medo de que ele desconfiasse de alguma coisa, mas

também porque se eu saísse correndo como uma louca, ele poderia ir atrás de

mim e querer saber por que eu sinto tanto temor quando o vejo.

Estou arrasada. Meu coração se rompeu em mil pedaços com a cena da

traição. Aquelas duas mulheres com quem Ricardo estava transando eram

tão lindas e de corpos esbeltos. Não se pareciam em nada comigo. Suas

pernas não chegavam a ser tão grossas como as minhas e seus seios não

eram fartos e caídos como os meus. As barrigas delas eram chapadas e não

tinham nenhum pequeno acúmulo de gordura.

Sinto-me tão infeliz comigo mesma.

A culpa não é minha, muito menos do meu corpo, eu sei disso, porém

não consigo evitar de me sentir insegura depois daquela cena que está

traumatizando a minha mente. O filme se repete várias e várias vezes em

minha cabeça, fazendo-me chorar baixinho.

— Tome. — O Don da máfia me entrega o seu lenço de seda

perfumado, macio e limpo.

Aceito-o, pois necessito assoar o nariz. Para mim, isso é um ato normal.

Tudo é ciência. Devido ao meu trabalho, não encaro com nojo certas situações. Com sutileza, assoo o nariz. É tão cheiroso o seu lenço, e eu estou

tão carente, que a seda praticamente me abraça na região do nariz, fazendo￾me carinho.

Como doem todas essas sensações de abandono e traição. Isso rasga a

minha alma.

— Obrigada — respondo baixinho.

Não me atrevo a olhar em seus olhos.

Seu corpo másculo é forte e toma um certo espaço do banco. Estamos

tão perto um do outro, e isso me assusta. Por mais que eu tente esquecer que

ele é o meu ex-noivo, não consigo, principalmente quando estamos lado a

lado.

O que o Don da máfia estava fazendo na mesma boate que eu? Só mais

uma coincidência? Seria muita coincidência nos vermos duas vezes no

mesmo dia.

A dor da traição me consome e magoa. Tento esquecer, mas não

consigo sequer por mais de dois segundos. Estou dividida entre a traição e o

medo de estar ao lado de Massino.

— Lei piange sempre, signorina (Sempre está chorando, senhorita) —

lembra-me. — Posso perguntar qual é o motivo desta vez? — Não é como se

ele estivesse preocupado comigo, talvez seja curiosidade.

— Senhor Massino, para onde está me levando? — Encaro os dedos

das minhas mãos.

Minha saia jeans azul-marinho não está apertada, porém sinto um

incômodo no estômago, as minhas botas estão começando a me fazer calos,

pois eu pulei e dancei muito sobre os saltos, e a meia-calça aquece as minhas

pernas. O ar está ligado. Ele gosta do frio, eu diria, já que está muito gelado

aqui dentro. Meus braços estão gelados. Minha blusa é de alças finas e com um decote generoso que chama a sua atenção. Posso sentir o seu olhar

queimar sobre essa região.

— Ragazza, prima rispondi alla mia domanda (Moça, primeiro

responda à minha pergunta). — Ele se mostra impaciente.

— Prefiro não responder, é um assunto pessoal. — Minha voz saiu

falha, eu solucei. — Acredito que não é nada interessante.

— Engana-se. Me interessa bastante.

Fungo.

Quer saber? Eu preciso desabafar e colocar para fora tudo que estou

sentindo neste instante, mesmo que seja com um mafioso. Já que ele insiste,

irei falar.

Como dizer para o meu ex-noivo, que não se lembra de mim, que levei

chifre? É uma péssima ideia, só que nada me importa mais.

— Hoje era para ser um dia lindo e especial para mim e meu noivo, no

entanto eu... — Minha voz falha. Isso dói muito mais do que eu posso

suportar. — Fui traída da pior maneira possível e enganada. Estou me

sentindo a mulher mais infeliz do mundo, e também a mais insegura, sem

graça e nem um pouco bonita. Eu devo ser muito desengonçada. Devo ser

muito horrorosa e esquisita. Talvez seja porque estou acima do peso. — Não

contenho mais o choro alto. Choro como uma criança desconsolada.

Minha cabeça e meu corpo se inclinam para quase perto do banco da

frente. Mesmo com o cinto de segurança, consegui fazer isso. As lágrimas

quentes molham a minha face, queimando-me por dentro e por fora.

Hoje é o pior dia da minha vida.

Por causa de uma traição, estou me sentindo a mais feia, desajeitada e

indesejada entre as mulheres. Pela primeira vez, permito que as falas das

pessoas me abalem.

E se foi porque eu estou acima do peso? E se foi porque eu só prestava

atenção no trabalho, e não via mais nada à minha volta? Ricardo reclamava

dos meus plantões no hospital e que eu o deixava sozinho. Também, eu

estava engordando por sempre estar comendo bobagens.

Como nunca antes na minha vida, estou incomodada ao extremo com o

meu peso.

— Beatrice — Deméter me chama pelo meu nome pela primeira vez.

Sinto calafrios dominarem toda a minha espinha dorsal, pois ele

pronunciou o meu nome com um sotaque italiano.

Fito os seus olhos negros, que estão fixos nos meus.

— Como vocês falam aqui no Brasil? “Ele é um babaca”. Não é

possível que um homem em sã consciência traia uma mulher tão bonita

como você.

— Me acha bonita? — pergunto, carente. — Não precisa ser gentil

somente para me consolar, comovido com a minha dor. Eu sei que não sou

bonita e que não tenho um corpo sexy. Não precisa me iludir. Não tem nada

pior do que você perceber que só está sendo elogiada por um homem bonito

porque ele sente pena de você.

— Grazie per il complimento, ragazza (Obrigado pelo elogio, moça).

— Sem perceber, eu lhe disse que ele é bonito. — Se me conhecesse bem,

saberia que eu não sou um homem piedoso e que muito menos me comovo

com a dor dos outros. Não sou caridoso a ponto de sentir compaixão e

necessidade de elogiar uma mulher somente por vê-la depressiva e infeliz.

— Tem razão, eu não o conheço bem — respondo sem desviar meus

olhos dos seus.

Ele tem a face do pecado. Um sorriso, que eu diria ser cafajeste, brota

em seus lábios carnudos. Realmente, ele me acha bonita.

— É tão inocente, baby, que não consegue perceber que aquele babaca

não merecia uma mulher como você, bonita e sexy. Qualquer homem que a

tivesse, seria vitorioso e invejado pelos demais.

Engulo em seco, totalmente surpresa e impactada com o que acabei de

ouvir de sua boca sexy.

— È una donna attraente. Quegli occhi piccoli, che mi guardano con

paura, sono la strada per il destino di ogni uomo (É uma mulher atraente.

Esses olhos pequenos, que me olham com medo, são o caminho para a

perdição de qualquer homem).

— Signor Massino, il suo sguardo mi mette a disagio. Per favore, è

meglio che scenda qui, vicino a questa fermata dell’autobus (Senhor

Massino, seu olhar me deixa constrangida. Por favor, é melhor eu descer

aqui, perto desse ponto de ônibus).

— Eu a deixo constrangida de que maneira, baby? — sua voz rouca e

sensual causa arrepios involuntários na minha pele.

Como nunca aconteceu antes, ele me causou uma coisa boa em vez de

pânico e medo.

— Por favor, não me faça responder. — Encaro a janela ao meu lado.

Sua mão pesada toca em meu queixo com posse. É como se ele

estivesse me dizendo que eu pertenço a ele. E, de certa maneira, o meu corpo

aceita, com facilidade, o toque quente da sua mão na minha pele. Não é

sufocante, como imaginei que seria.

Para a minha surpresa, não tento escapar da sua proximidade, mesmo

que meu coração esteja errando as batidas neste instante.

O que ele irá fazer comigo? Tomar um beijo meu à força? Seu corpo

está mais próximo do meu, e eu estou sem fôlego, mas de um jeito bom.

Sinto um formigamento naquela região.

Seu olhar é, nitidamente, frio e sagaz como o de um tigre cercando a

sua presa.

— Neste momento, piccola donna (pequena mulher), o que está

sentindo? Paura? O sarebbe qualcos’altro? (Medo? Ou seria outra coisa?)

— fala pausadamente e sussurrando ao meu ouvido.

Fechei os olhos ao sentir o calor da sua voz ao meu ouvido.

Sua mão, agora, desce suavemente pelo meu pescoço. Não posso ver

sua expressão neste momento, mas sei que ele está contendo algumas

emoções, talvez a vontade sanguinária de me sufocar, como um fetiche

prazeroso.

Oh, céus!

Por mais que eu lute contra os meus pensamentos, que me traem desta

maneira horrível, não posso negar. Eu deveria estar sentindo minha pele

tremer de medo, pelo fato de Deméter estar me tocando, mas veja só, preciso

contorcer minhas pernas para não sentir o fogo ardente do desejo queimar o

meu corpo inteiramente. Ele somente me tocou usando as mãos, e eu já estou

me imaginando em seus braços. Minhas bochechas estão queimando.

Ele é um homem muito experiente, pelo que posso perceber. Seus

instintos de predador podem sentir quando uma mulher tem desejo por ele.

Deméter sabe como me tocar sem ser ousado, sem me causar pânico e,

acima de tudo, como me causar arrepios involuntários.

— O que sente, ragazza (moça)? Fale para mim com essa voz sensual.

Quero ouvir o que sente vindo desses lábios apetitosos.

Estou sentindo desejo pelo meu inimigo, pelo homem que me mataria

se soubesse quem eu sou. Como isso é possível? Sinto meu corpo estremecer

a cada toque caloroso seu.

Com as pontas dos dedos, ele desce até o colo dos meus seios,

massageando a região. Não posso conter o gemido baixinho.

— Hum...

Sua língua quente e sensual me provoca ainda mais.

— Esse seu gemido sensual, baby... Não faça mais esse som. A menos

que deseje que eu toque mais em você. — Sua voz me deixa ofegante. Meus

olhos ainda estão fechados. — Abra os olhos, piccola (pequena) — ordena.

— Quero que olhe para mim neste momento sem vergonha. Isso não é

permitido.

Como não obedecer ao seu tom rude e sexy? Sua ordem foi excitante.

Isso faz sentido?

— Cosa vuoi da me, signore? (O que quer de mim, senhor?)

Seu olhar impiedoso está carregado de luxúria e de um fogo ardente

que incendeia seus olhos negros.

— Cosa dovrei fare con te? (O que eu devo fazer com você?)

— O senhor vai me tomar? Possuir o meu corpo dentro deste carro em

andamento? — pergunto, tomada pela luxúria.

A indecência escancarada em seu olhar não o envergonha.

Quando foi que o clima esquentou tanto entre nós dois? Quando foi que

o meu medo desapareceu e deu lugar à depravação? Onde está a minha

dignidade agora? Eu seria mesmo capaz de fazer sexo com um Don dentro

do seu carro?

— Você quer que eu a tome em meus braços, bambolina (boneca)? Que

eu a possua agora? — Após sussurrar ao meu ouvido mais uma vez, desce

sua boca pelo meu pescoço. Não o beija, apenas dispersa o calor dos seus

lábios abertos nessa região.

Oh!

— Ah! — gemo baixinho.

— Angelo (anjo), o que eu faço com você? — Foi uma pergunta

retórica. — Devo lutar contra os meus demônios para não te possuir agora.

Não dessa maneira. — O que ele falou, não fez o menor sentido para mim.

— Responda-me: você já se entregou para o seu noivo?

Por que ele quer saber? Qual importância isso tem agora?

O tom da sua voz faz eu me sentir na obrigação de responder. Não sei

explicar, é como se eu precisasse acatar a sua ordem neste exato momento.

Seus olhos negros estão tomados pelo desejo, assim como os meus, e eles se

encontram. Deméter necessita ouvir uma resposta.

— Não, eu não me entreguei para ele

— E para nenhum outro homem, baby?

— Para ninguém.

— Você é virgem?

— Sou. — Estou envergonhada diante da sua masculinidade

imponente.

— E está disposta a me entregar sua virgindade neste banco de trás do

carro? Quer que eu a possua aqui?

O quê? Eu estaria mesmo disposta a me entregar ao meu inimigo nessas

circunstâncias, após uma traição dolorosa?

Estou com um enorme desejo que nunca senti antes nem mesmo pelo

meu noivo. Quando o clima esquentava, jamais senti que poderia gozar

apenas ouvindo a sua voz. Mas com Deméter Massino, sinto que posso gozar

apenas ouvindo sua voz rouca sussurrar ao meu ouvido.

Enlouqueci e perdi a noção do perigo. Eu me deixei levar por uma onda

de loucura, tomada por um final de romance trágico. Não posso me entregar

nos braços do primeiro que aparecer, simplesmente, porque levei um belo

par de chifres.

— Deméter, eu sou obrigada a permanecer neste veículo? — pergunto,

receosa, após ele afastar suas mãos de mim, diante do meu silêncio, que

durava até instantes atrás.

— O carro está parado, ragazza. Pode sair quando desejar.

Eu não tinha percebido que ele parou próximo ao ponto de ônibus que

indiquei. Ele não está me prendendo dentro do veículo. Eu posso mesmo

sair, e farei isso agora. Abro a porta do carro, que já tinha parado de se

mover, mas só agora notei.

Eu estava tão deslumbrada por suas palavras fortes e pela excitação do

momento, que estava prestes a cometer uma grande loucura.

— Eu... — Olho para fora, e depois para ele, que ainda me encara de

maneira intrigante.

— Está livre, senhorita, como um uccello (pássaro).

A metáfora com o passarinho me faz perceber que, por trás daquele

olhar negro, há tantas coisas que eu não notei antes. E desta vez não é

paranoia minha. Deméter Massino me chamou pelo meu nome: Beatrice. O

chefe da máfia sabe quem eu sou, por isso sempre está presente em todos os

lugares onde estou. Talvez, no começo, ele não sabia quem eu era, mas o

meu medo e minhas reações de pânico lhe despertaram interesse. Ele

também sabe que o sobrenome da minha mãe é Esposito.

Seria muita sorte minha se ele tivesse se esquecido disso, desse

assunto. Mas como mamãe sempre diz, eles nunca se esquecem de nada que

pode manchar a honra de um homem.

Sem demonstrar que estou apavorada, saio do carro esboçando um

sorriso sem graça. Obviamente, Deméter está jogando comigo, torturando￾me, antes de decidir acabar com a minha vida.

Sem celular e sem dinheiro, só me resta chegar em casa o mais

depressa possível e fugir, pois ele ainda não sabe que eu já percebi que ele

está jogando comigo. Eu corro perigo, e minha mãe também. Nessa noite

partiremos assim que eu chegar em casa.

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Comments

Maria Helena Macedo e Silva

Maria Helena Macedo e Silva

ela não escuta a mãe que fez e faz tudo por ela mas escuta e sofre com o que faz e fala quem a quer destruir iludir enganar ...

2024-03-08

1

Maria Alves

Maria Alves

Será que foi armação.

2023-12-18

5

Maria Aparecida Monteiro Firmino Cida

Maria Aparecida Monteiro Firmino Cida

acho que foi armação do mafioso ela dá o fragante no noivo

2023-12-07

1

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