Sophie
Lille, França – 1881
10/04/1881
O dia foi mais longo do que esperavam, e como Sophie havia deduzido, não saíram do térreo do hotel para nada. O almoço foi servido nas mesas da cozinha, e pela tarde todas foram enviadas para o teatro. Algumas das monitoras se juntaram para arrumar o salão do teatro e espalharam diversos colchões sobre o solo amadeirado, poucos pertences foram autorizados, além dos essenciais que estavam relacionado a higiene.
Sem conseguir dormir, Sophie encarava o teto do teatro pensativa. Devido a necessidade de entreter Louise, não havia se aprofundado no que Amelie tinham lhe dito mais cedo. No entanto, de forma natural tinha entendido de quem se tratava, uma vez que a procurou entre as muitas meninas e não a encontrou. Sua mente não queria acreditar. Por mais assustada que a garota estivesse no dia anterior, não parecia estar ao ponto de tirar a própria vida.
Se aquela “coisa” estava disposta a tirar vidas para se satisfazer, não podia ser a filha da Coordenadora, como Amelie havia deduzido. Uma criança não seria capaz de tal coisa, seria? A verdade era que se negava a acreditar.
Sophie suspirou e se mexeu no colchão. Tinha certeza que não dormiria naquela noite, por mais que tivesse tomado quase cinco bules de chá durante o dia.
— Sophie, por acaso em seu colchão existem formigas? – Ela arregalou os olhos ao ouvir o sussurro de Amelie. Se virando para sua direita, virou de barriga para baixo e se apoiou com os ante braços no colchão.
— Perdão Lie, te acordei? – Perguntou, igualmente sussurrando. Abrindo os olhos, Amelie virou o rosto para ela e sorriu.
— Não estava dormindo, não se preocupe, senhorita.
— Isso é um alívio. – Afirmou. – Minha mente não consegue parar... – Continuou. Amelie se virou para o lado em que Sophie estava, tinha os olhos castanhos grudados nos dela, apesar da pouca luz emitida pelas janelas.
— Sinto-me da mesma forma.
— Acredito que agora, as coisas fiquem mais complicadas. Estou preocupada com Ise, ela parecia tão afetada...
— De fato. – Amelie respondeu pensativa. – Alias, gostaria de agradecê-la por conseguir tirar o foco dela dessa situação.
— Não precisa me agradecer, a verdade é que também queria pensar em outra coisa naquele momento. Esse dia inteiro foi aterrorizante. Quanto tempo acha que vamos dormir no teatro?
— Creio que até os pais da garota chegarem, e levarem consigo seu corpo.
— Ainda não consigo acreditar... Ela parecia assustada, mas não me parecia disposta a tirar a própria vida. – Sophie desviou o olhar para suas próprias mãos. Amelie a encarou em silêncio por alguns segundos.
— No desespero, deixamos de ser nós mesmas, senhorita.
— Ainda assim... Eu lutaria por minha vida. – Deixou escapar. Surpresa com suas próprias palavras, voltou a olhar para Amelie, recebendo dela um sorriso acolhedor.
Ouvindo um som vindo da porta dupla do teatro, Sophie se deitou e fechou os olhos.
— Fico aliviada que elas não tenham presenciado aquela cena terrível, veja como dormem tranquilas. – Uma monitora comentou em tom baixo.
— Nem mesmo consigo fechar os olhos, a imagem não sai de minha mente. – Mencionou outra.
— Pobre garota. A coordenadora Delphine se recusa a pensar que as aulas estão sendo muito para elas, mas como pensar o contrário? Olhe o que a aquela pobre menina fez a si mesma?
— Não me admira aquela criança ter tido um fim trágico, ouvi dizer que ela conseguia ser ainda pior com ela.
Criança? Elas estavam falando da filha da coordenadora?
— É um absurdo!
— Os pais da senhorita Stasiak chegam amanhã, imagine o choque que terão com a notícia.
— Senhor, como alguém pode ser tão cruel? Colocar a culpa na mente da garota, quando “ela” parece mais um general de guerra?
— Prepare-se, pois, a instituição receberá muitos ataques após isso.
— Acha que ela pode vir a fechar? – a monitora questionou a outra, seu tom apresentava apreensão.
— Tudo dependerá do resultado da perícia. Ainda assim, creio que o mais provável seja a saída de Delphine.
— Justiça seja feita, pois preciso deste emprego para manter minha família.
— É certo como o dia que também seremos interrogadas.
— Deus, isso tudo parece um pesadelo!
Sophie ouvia a tudo estupefata. Como a Coordenadora podia culpar a vítima daquela maneira? Essa atitude dela só pioraria as coisas dali em diante.
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Atualizado até capítulo 47
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