Lille, França – 1881
07/04/1881
Sophie levantara da cama um pouco antes do horário do desjejum. Exatamente como um sonho, onde partes ficavam confusas, muitas perguntas surgiam em sua mente. Algo lhe dizia que o que tinha vivido na noite anterior, era tão real quanto o sono que sentia naquele momento. Havia perdido o resto da noite rolando na cama, se questionando sobre o ocorrido, e planejando o que faria no dia seguinte. Dessa forma, sequer conseguiu pregar o olho.
Tentava recobrar se a menina estava usando algum tipo de adereço, se em suas roupas possuíam fitas, ou mesmo como estava seu cabelo. Solto? Preso? Era enrolado? Liso? Como se tivesse tido uma perda de memória, sua mente estava em branco. Os únicos detalhes que conseguia recordar vinham justamente do brinquedo que a menina carregava. A boneca.
Mais atenta que nos dias anteriores, Sophie estava reparando em cada gesto que suas colegas faziam. Como andavam, como falavam, como seguravam certos objetos... Isso se seguiu durante todo o seu dia, e como suas ações chamavam a atenção, as monitoras a olhavam curiosas. Os gestos que antes pareciam apenas uma forma mecânica de etiqueta, agora eram alinhados, ou se esforçavam para ser. Apesar de causar um certo desconforto e repúdio nas meninas mais concentradas, as monitoras viam as atitudes de Sophie como um abraço ao verdadeiro significado de uma dama da sociedade Vitoriana.
Ganhando a atenção das monitoras, Sophie começou a receber dicas e orientações mais detalhadas. Isso começou a gerar desconforto em algumas meninas, que antes sendo exemplos de bons modos, agora eram ofuscadas. A notícia chegou aos ouvidos da Coordenadora Delphine, que passou a acompanhar os passos de Sophie mais de perto naquele dia. Ela estava desconfiada, o que era de se esperar, dado o histórico de Sophie apresentado por sua própria mãe em um relatório detalhado.
As meninas a encaravam com expressões estoicas, e no fundo Sophie sabia que estes olhares eram maldosos. Afinal, sua mãe possuía o mesmo olhar quando a encarava com seus grandes olhos verdes. Um olhar fixo, que não demonstrava nenhum tipo de emoção. Julgamentos camuflados de desinteresse.
Seu plano de encontrar a garota estava enfraquecendo graças a estes contratempos. Pelo meio da tarde, Sophie tinha recuado, e voltado a seu costumeiro comportamento quieto e distante. Era como se sua energia tivesse escoado de seu corpo.
Ponderando depois do almoço, caminhando pelos corredores da instituição, Sophie chegou a um grande arco que mostrava parte do Jardim. Encarando fixamente o caminho que levava até o lago, ela ajustou o uniforme e olhou em volta, procurando pelas monitoras.
Estando um pouco mais afastada das demais meninas, Sophie, em um último esforço para tentar saber mais do que aconteceu na noite anterior, decidiu entrar no jardim e ir até o lago. Seu plano era permanecer fora da visão atenta das monitoras, para que pudesse talvez encontrar algo que a menina tivesse deixado para trás em sua aventura noturna.
Assim que ela adentrou no local, pensou que o cuidado excessivo com o jardim era um exagero. O lugar era calmo, tendo estranhamente até ausência de pássaros. Sophie viu isso como um sinal positivo, e passou a caminhar com menos cuidado. Porém, algo dentro dela a deixava desconfortável, e atenta a qualquer movimento ou barulho, abraçou seu corpo com os próprios braços.
Seu plano tinha funcionado, ao menos com as monitoras. Fora do seu alcance de visão, uma menina se escondia atrás de uma pilastra e observava todos os seus movimentos: Louise Delyon, descendente direta de uma família bem prestigiada da França.
Com muitas expectativas em volta de sua vida, apesar da idade, Louise carregava o nome inteiro de gerações em suas costas. Suas ações sempre foram vistas com um certo egoísmo, já que as outras meninas percebiam que ela poderia ter tudo que desejasse. O outro lado desta história, envolvia a pequena Louise, sempre concordando com tudo o que os pais diziam, muitas vezes esquecendo suas próprias vontades, simplesmente para ser o modelo perfeito que sua mãe desejava que ela fosse para a sociedade.
Sophie havia chamado a atenção de Louise e tinha se tornado a fonte de seu ódio, já que os olhares não estavam mais sobre ela, como de costume. Pensando que havia sido passada para trás, por alguém que nem sequer merecia estar naquele lugar. Louise observava Sophie pelas costas. Uma aluna com um bom desempenho, mas quebrando regras da escola. Essa era uma ótima oportunidade para mostrar a todas que Sophie não passava de uma fraude, uma rebelde falsa e sem escrúpulos.
Os movimentos de Sophie mostravam uma menina cautelosa, afinal os casos de advertência geralmente envolviam punições mais severas, já que a escola era reconhecida por suas regras. Louise permanecia imóvel, escondida atrás de uma pilastra, pensando no que poderia usar, que fosse grave o suficiente para incrimina-la.
Quando Sophie por fim chegou ao lago, percebeu que existia algo a beira do lago: Uma boneca de porcelana. Ao ergue-la diante de seus olhos, notou que o brinquedo possuía duas faces. Curiosa, puxou uma corda que existia nas costas da boneca, e então ouviu uma frase sair abafada de dentro da boneca.
— Oi, eu sou Bia. Está com você!
Apesar de ser um pouco assustador, Sophie achou engraçado, já que o brinquedo era diferente dos convencionais. Esperando descobrir a quem pertencia a boneca, e por fim encontrar a menina misteriosa, Sophie observou os detalhes da roupa da boneca. Ela tinha um vestido branco, o tecido do vestido era refinado, adornado com arabescos em dourado. Os cabelos pareciam ser reais, de tão brilhosos que eram, e a fita branca em seda que o adornava, dava um toque de requinte.
Era um brinquedo único, que poucas pessoas teriam condições de comprar.
Apenas alguns segundos se passaram enquanto Sophie avaliava a boneca, e embora olhasse tudo com atenção demasiada, sabia que se demorasse mais, iria perder o inicio das aulas e estaria em sérios problemas. Então, decidindo levar a boneca consigo e entregar para alguma monitora, começou a retornar para a escola.
Quando já estava na metade do caminho, se deparou com uma das meninas, e assustada, paralisou. Olhando Sophie dos pés a cabeça, Louise estendeu a mão direita e bradou:
— Essa boneca é minha, devolva!
Sophie, surpresa de ter encontrado a garota do lago, perguntou:
— Como você saiu ontem a noite?
— Do que está falando? Ninguém tem permissão para sair do dormitório a noite.
Respondeu ríspida.
— Além de uma ladra, desobedece as ordens da coordenadora! Eu sabia que você era suja!
— Eu não saio do meu dormitório a noite! – Se defendeu. — Apenas vi uma garota ontem no lago, e achei que fosse você. Sua boneca estava no mesmo lugar onde vi a menina. Foi você quem gravou um nome para a boneca?
Questionou Sophie, acreditando que a menina mentia para não ser colocada em apuros.
— Do que está falando?
— Do nome dela, foi você quem deu, né?
Puxando a corda das costas da boneca, a voz abafada saiu mais uma vez.
— Está com você!
Sophie ficou confusa. Ela claramente tinha ouvido a boneca dizer o próprio nome da primeira vez. Louise, determinada a colocar Sophie em apuros, aumentou o tom de voz:
-NÃO IMPORTA! Está com minha boneca, e ainda é suspeita de desobedecer às ordens! Vou entregar você para as monitoras!
Sem reação, Sophie apenas a olhava. Furiosa, Louise arrancou o brinquedo das mãos de Sophie e saiu a passos largos e pesados em direção as classes. Um grande sorriso de satisfação estampava seu rosto. Ela vencera, tinha encontrado uma acusação perfeita. Com toda certeza Sophie receberia uma punição severa, ou até mesmo seria expulsa. Sem ela a vida de Louise podia finalmente voltar ao normal.
Assim que chegou diante de uma monitora, Louise bradou:
-Monitora!... Sophie fugiu do dormitório e roubou um brinquedo!
Olhando na direção de Louise, a monitora reconheceu de imediato a boneca que ela tinha nas mãos. Indo até Louise, a monitora a puxou pelo braço e a arrastou para o corredor, seguindo em direção a sala da coordenadora.
— Mas... A Sophie...
Louise tentou contestar, mas foi interrompida.
— CALADA! Terá muito o que explicar, senhorita.
Enquanto era arrastada pelos corredores, ela via os olhares assustados de algumas meninas, enquanto outras tentavam esconder sorrisos de satisfação. Estava encrencada, e não fazia ideia de como ou quando seu plano tinha se virado contra ela.
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Atualizado até capítulo 47
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