Amelie
05:00 am
Lille, França – 1881
10/04/1881
Amelie despertou um pouco mais cedo do que estava acostumada, os acontecimentos do dia anterior ainda mexiam com sua mente. Queria acreditar estar errada sobre os fatos que mencionara a suas amigas, mas, não havia outra forma de explicar o que viviam.
Por algum motivo a Instituição se encontrava envolta de uma aura sombria, e estando em um território desconhecido, precisavam estar preparadas para qualquer coisa a partir daquele momento. Contudo, como combateriam o invisível? Algo espreitava na escuridão, esperando o momento certo para cravar os dentes nelas, e as mais fragilizadas estavam sendo caçadas primeiro.
Levando seus olhos até Louise, Amelie a observou dormindo tranquilamente. Era a primeira vez que a via descansar depois da invasão mental que tinha sofrido, e respirava aliviada por isso. Embora fosse difícil admitir, sabia que ela não estava preparada. Não gostava de estar certa, mas sua intuição nunca falhava.
A forma com que ela paralisou diante o comportamento da garota na tarde anterior, revelava que não poderia mais sair do lado de Louise. Graças a Sophie nada de ruim tinha lhe acontecido, mas por causa de falta de compreensão da situação de sua mestra, uma amiga havia se ferido. Conseguiu acalmá-la sobre isso, mas não conseguiria tirar de seu coração o sentimento que fora ensinada a ter desde que nascera.
Acreditar que tudo que acontecia de ruim era por sua culpa, iria corroer sua mente e deixa-la ainda mais fragilizada.
Louise carregava um senso de salvadora que, infelizmente, Amelie sabia que a qualquer momento seria frustrado. Nem todos podiam ser salvos, por mais esforços que fizessem. E ela tinha se tornado sua única prioridade.
Se tirasse seu foco dela como tinha feito no dia anterior, Louise poderia se ferir, ou pior, poderia ter sua vida ceifada. A fragilidade de quem nunca tinha aprendido a se defender, a tornava um alvo fácil.
Servir não era o único aprendizado que Amelie tinha recebido de sua família. Por mais jovem que fosse, ela conhecia diferentes formas de se tirar uma vida, se isso fosse necessário. Aprendera sobre os mais diferentes tipos de veneno, a forma mais sutil e irrastreável para se livrar de alguém inconveniente. Para sua própria segurança, ela mesma ingeria certa quantidade por dia, para que se um dia atentassem contra sua vida, seu organismo conseguisse resistir.
A única realidade cruel que Louise tinha acesso, vinha de sua própria mãe, que a tratava como uma mera marionete. Conforme seus caprichos, a guiava cada vez mais fundo no abismo, onde seus sonhos eram dizimados. De forma submissa, a jovem senhorita nunca sequer se imaginou se rebelando contra sua mãe. Afinal, na mente de Louise, sua mãe tinha razão, e ela não possuía qualquer possibilidade de viver naquele mundo sem ela.
Amelie queria mostrar a ela que essa “verdade” em que acreditava, nada mais era que manipulação, mas Louise estava absorta demais para que pudesse sair com apenas poucas palavras. Até que ela estivesse pronta, a protegeria com sua própria vida.
Respirando fundo, desviou o olhar para a janela e assistiu os pingos da água da chuva escorrerem sobre o vidro. A chuva parecia que não daria trégua naquele dia, e elas estariam presas dentro das dependências do antigo hotel. Aquele dia seria longo.
Se espreguiçando, Amelie desencostou da cabeceira de sua cama e estava prestes a se levantar quando ouviu um grito agudo vir do corredor. Paralisando, ela franziu a testa e olhou em direção a porta. Alguns segundos se passaram, e mais um grito foi ouvido. Dessa vez, foi tão alto que acordou Louise e algumas das outras garotas.
— O que foi isso? – Louise a questionou, sentando na cama enquanto coçava os olhos.
Levantando de sua cama, Amelie foi até a porta e colocou o ouvido na mesma. Ouviu sons de passos, alguém corria pelo corredor, os sapatos emitiam um som oco na madeira, devido ao carpete que cobria o chão.
— Algo não está certo. – Mencionou, se afastando da porta. Louise a encarou apreensiva, e para confortá-la, Amelie sentou junto a ela em sua cama.
Não queria especular, nem correr o risco de assustar ainda mais sua mestra. Então, se manteve em silêncio. Sentindo a estranha aura pesada, todas permaneceram em silêncio. Alguns minutos se passaram até ouvirem movimento no corredor novamente. Dessa vez, Amelie conseguiu identificar um total de quatro pessoas.
Os passos eram apressados, algo exigia não somente a atenção delas, mas também urgência.
As falas no corredor se intensificaram, e apreensivas dentro do quarto, todas olhavam fixamente para a porta. Ouvindo que os outros quartos estavam sendo abertos pelas monitoras, todas se levantaram e se aglomeraram juntas no centro do quarto.
Assim que a porta do dormitório em que estavam foi aberta, a expressão assustada da monitora engoliu a todas. Entrando a passos largos no cômodo, ela conferiu a todas, assim como as camas. Em seguida, deu a ordem de seguirem outra monitora e se dirigissem ao salão principal.
Louise se agarrou no braço direito de Amelie, e sem contestar, todas obedeceram a ordem recebida. Amelie sentia as mãos de sua mestra tremerem, e mantendo uma calma que não condizia com a situação, ela levou sua mão esquerda até a de Louise e a encarou.
Passando segurança a ela por meio de seu olhar, a guiou para o corredor.
Desviando o olhar para o fim do corredor, percebeu que em um dos quartos em específico havia uma grande movimentação. A coordenadora Delphine conversava com duas monitoras no corredor, próximo a porta do dormitório, enquanto outras duas monitoras cobriam algo que estava no chão do dormitório com um lençol.
Uma das partes do que elas cobriam não escapou do olhar aguçado de Amelie, um braço, onde se apresentava um profundo corte. Para evitar que Louise também visse, ela a puxou na direção da fila de garotas no corredor. Porém, fracassou em sua tentativa.
Olhando para a mesma direção que olhava antes, sentiu as pernas de Louise amolecerem. Segurando-a com mais força, Amelie a abraçou pela cintura.
— A... Amelie... – Ela sussurrou, a voz se perdendo no desespero. Os olhos já marejados, fitavam o corpo no chão do dormitório.
— Senhorita, precisamos ir. — Pediu, fazendo com ela lhe olhasse. Virando-a para frente, ajudou Louise a se manter de pé para caminhar.
As coisas tinham escalado absurdamente durante aquela noite, e a intuição de Amelie gritou, fazendo um arrepio frio subir por sua espinha. Algo terrível tinha se libertado, e ela duvidava que fossem capazes de pará-lo.
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Atualizado até capítulo 47
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