Capítulo II — Uma estrela sem nome

Lille, França - 1881

06/04/1881

Os pais de Sophie sempre foram muito rígidos com a sua educação. Sendo um casal nobre na sociedade aristocrática, Lohan e Elaine Beaufay precisavam ser exemplos de bons modos. Sophie estava sempre bem vestida, nunca repetia uma vestimenta. Os seus longos e luxuosos vestidos que, praticamente a cobriam, tinham tantos babados que a menina era ofuscada pelas camadas dos tecidos. Uma verdadeira pena, dada a beleza jovial.

Dona de uma pele clara, Sophie tinha grandes olhos verdes, com os quais explorava o mundo com curiosidade em demasia. Um cabelo liso dourado tão brilhante que, pareciam longos fios de ouro. As bochechas rechonchudas eram rosadas, e deixavam a mostra a ótima alimentação que possuía. Algo que nem todos tinham o prazer de apreciar.

Desde cedo fora ensinada a ser uma boa esposa. Possuindo habilidades em costura, e bordados, assim como pintura, canto e culinária. Ela era o orgulho de Elaine, que a levava as festas de chá apenas para discorrer por horas com as suas amigas sobre o quão prendada era sua pequena donzela. Contudo, nada disso chamava a verdadeira atenção de Sophie. O que ela amava de coração, a sua mãe a podara até tirar a última fagulha de esperança.

O encanto pelas estrelas.

Sophie adorava a astronomia e os mistérios envolvendo os corpos celestes. Espalhava aos quatro cantos que, um dia, descobriria uma estrela por si mesma. Contudo, o que era encantador aos seus quatro anos, deixou de ter graça quando completou dez anos. Aterrorizada com a ideia de ter uma filha estranha, e que não compartilhava das regras sociais, Elaine tratou de sufocar o seu sonho com a realidade árdua da mulher vitoriana, noivando Sophie com um rapaz sete anos mais velho que ela.

A partir desse momento, as noites em que fugia dos seus aposentos para o jardim da mansão, para então observar as estrelas com telescópio que ganhará de presente de aniversário do seu pai, se tornaram raras. E gradualmente, até mesmo o brilho no seu olhar ao mirar as estrelas foi se apagando.

A sua preparação para a vida de casada era desgastante, e Elaine acreditando que Sophie fazia pouco caso dos ensinamentos, conseguiu convencer Lohan de que a sua filha precisava ser disciplinada mais rigidamente. O pai, sempre ocupado, percebendo que já não podia alimentar os sonhos infantis de sua pequena, não se opôs a sugestão da esposa. Afinal, uma mulher saberia melhor o que era bom para outra mulher, certo?

Dessa forma, Sophie foi enviada para a Instituição de Ensino para garotas na cidade de Lille, na França.

Pouco se sabia como ocorria o ensino no lugar, a verdade era que Elaine pouco se importava. Escolhera a escola apenas porque soube que a coordenadora Delphine era um exemplo de como uma verdadeira dama nobre deveria ser. Essa era a única preocupação que povoava a sua mente, os modos de Sophie e o que eles trariam como consequência para o status da família Beaufay.

Diferente das demais Instituições, onde no fim do dia as meninas retornavam para o aconchego dos seus lares, em Lille elas moravam na escola até se formarem Tinham o direito de passar apenas os finais de anos com os pais ou parentes, caso tivessem autorização para sair, e retornavam as aulas no começo do ano seguinte.

Se existia um pesadelo capaz de se tornar realidade para Sophie, aquela escola era a personificação dele. A Instituição utilizava a estrutura de um grande hotel, abastado do centro comercial da cidade. Constituído por diversos aposentos, todos eram bem equipados e preparados para receber as futuras nobres damas da sociedade.

O banho era coletivo, sempre supervionado e liderado pelas monitoras, assim como as demais atividades realizadas no lugar. Nada passava despercebido pelos olhos das monitoras, que como águias no topo das árvores, conferiam cada uma das meninas, chamando a atenção delas sempre que notavam um pedaço do uniforme amassado ou desalinhado.

As aulas começavam as nove da manhã, logo após o desjejum, e terminavam as cinco da tarde, tendo apenas duas horas de descanso pela meio da tarde. Esse tempo era usado para o chá da tarde, onde as exigências em relação aos modos e etiquetas não eram esquecidos.

Ao fim do dia, as meninas eram escoltadas até seus dormitórios, e só saiam deles no dia seguinte, quando as monitoras abriam as portas e as liberavam para mais um dia de disciplina.

E volto por uma espessa neblina, o lugar continha um extenso jardim, mas as orientações eram ficar bem longe dele, principalmente se não estivessem acompanhadas das monitoras. Com o clima frio e chuvoso da ilha de Lille, era difícil terem um momento ao ar livre.

Setenta meninas eram separadas por cada sala. Nelas, estudavam por uma hora cada conteúdo, sendo o mais longo o relacionado aos modos e etiqueta. Além de costura e desenho, estudavam também música, literatura, línguas, história, geografia e gestão do lar. Muitas vezes não sobrava tempo para as aulas de história e geografia, e elas eram facilmente ignoradas pelas professoras, dada a pouca exigência em sociedade para as mulheres em entendê-las.

Porém, Sophie fazia questão de pegar os livros que continham esses conhecimentos na grande biblioteca. Passava muitas das suas noites lendo, pois, sabia que aquela seria sua única oportunidade em ter contato com aqueles assuntos. A sua mãe ficaria aterrorizada se soubesse, e isso fazia Sophie sorrir e vibrar de satisfação.

Em uma dessas muitas noites, ao dar uma pausa para esticar o corpo e espreguiçar, olhou pela janela que ficava ao lado do seu beliche e notou algo estranho a beira do lago no jardim.

Àquela hora nenhuma menina era autorizada a estar fora dos dormitórios, e seria impossível sair deles sem as chaves. Entretanto, a sua visão não lhe enganava, via nitidamente uma garotinha a beira do lago.

Intrigada, deixou o livro de lado e passou a observar a suposta menina com mais atenção. Se questionou se o que via era real, dada a neblina densa que cobria o lugar. Os vultos que avistava, se pareciam com um longo vestido branco, e deixavam a sua visão num completo borrão. Tentando distinguir o que via de fato, esfregou os olhos, e tornou a olhar pelo vidro da janela. Assim que abriu os olhos, percebeu que a menina estava parada.

Um vento forte dissipou um pouco da neblina em volta dela, e Sophie pôde por fim ver com mais clareza. Era de fato uma garotinha, e de alguma forma ela também conseguia ver Sophie.

Em seus braços, carregava um singelo brinquedo, mas Sophie não conseguia distingui-lo. De um jeito estranho, era como se fosse uma cópia da garota.

O que foram apenas segundos, pareceram minutos para Sophie. Ambas, ela e a menina permaneceram imóveis, trocando um olhar fixo. Um convite silencioso, uma conexão estranha, mas confidente.

Da mesma maneira que a névoa dissipou-se, tornou a cobrir o lugar. Com os olhos já ardendo, Sophie se negava a fechá-los. Temia perder algo.

Assim, com os olhos marejados, assistiu à menina desaparecer junto da névoa, sem nenhum aviso ou despedida.

Como a própria brisa que a cercava, desapareceu no ar, a imagem dela se desfazendo como fumaça.

Sophie se questionou sobre quem era aquela menina, se realmente existia ou era fruto de sua imaginação cansada de tantas leituras noturnas. O fato era que, seu coração acelerava dentro de seu peito, e seu corpo suava, mesmo diante do frio. Enfrentava um turbilhão de emoções.

Nos poucos momentos em que conseguia escapar do mundo estrito e governado pelas leis da etiqueta, era somente nesses momentos que se sentia viva! E naquele momento, a curiosidade sobre algo novo tomava seu corpo, descarregando uma euforia indescritível. Uma curiosidade que se equiparava a realização de um sonho, tinha encontrado por fim a faísca que lhe fora roubada para desbravar o vasto mundo desconhecido diante de seus olhos.

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Comments

Shinichi Kudo

Shinichi Kudo

Não aguento mais esperar, continua!🥺

2023-11-12

1

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Capítulos
1 Lille, França - 06 de janeiro de 1881
2 Capítulo II — Uma estrela sem nome
3 Capítulo III - Em busca da estrela
4 Capítulo IV – Mente nublada
5 Capítulo V – A figura misteriosa
6 Capítulo VI – Fora de si
7 Capítulo VII – Perdendo a sanidade?
8 Capítulo VIII – Medo do desconhecido
9 Capítulo IX – Não julgue um livro pela capa
10 Capítulo X – A força na união
11 Capítulo XI – Efeito dominó
12 Capítulo XII – Desgraça eminente
13 Capítulo XIII – O mau desperta
14 Capítulo XIV – A culpa corrói
15 Capítulo XV – A dor na vida, e mesmo depois dela
16 Capítulo XVI – Mente quebrada
17 Abertura do capítulo XVII – O pesadelo se torna realidade
18 Capítulo XVII – Mal invisível
19 Capítulo XIX – O que me falta, você completa
20 Capítulo XX – Coração cruel
21 Capítulo XXI – Hipocrisia
22 Capítulo XXII – Encurraladas
23 Capítulo XXIII – Buscando a força interior
24 Capítulo XXIV – Quero ser útil!
25 Capítulo XXV – Estaca Zero
26 Capítulo XXVI – A Chave de Ouro
27 Capítulo XXVII – O covil da bruxa
28 Capítulo XXVIII – A figura encapuzada
29 Capítulo XXIX – Entidade maligna
30 Capítulo XXX – Indisciplinada
31 Capítulo XXXI – Perda Irreparável
32 Capítulo XXXII – Descendente de bruxas
33 Capítulo XXXIII – O pesadelo da vida real de Sophie
34 Capítulo XXXIV – Dimensão Invisível
35 Capítulo XXXV – Abismo
36 Capítulo XXXVI – Sem volta
37 Capítulo XXXVII – Indo a caça
38 Capítulo XXXVIII – O porão
39 Capítulo XXXIX – Aquele que se agarra
40 Capítulo XL – Não perderei outra amiga!
41 Capítulo XLI – Contra o tempo
42 Capítulo XLII – Perdidas
43 Capítulo XLIII – Não é justo!
44 Capítulo XLIV – A única que conseguiria traduzir
45 Capítulo XLV – Irmãs de alma
46 Capítulo XLVI – Prontas para seguir
47 Epílogo
Capítulos

Atualizado até capítulo 47

1
Lille, França - 06 de janeiro de 1881
2
Capítulo II — Uma estrela sem nome
3
Capítulo III - Em busca da estrela
4
Capítulo IV – Mente nublada
5
Capítulo V – A figura misteriosa
6
Capítulo VI – Fora de si
7
Capítulo VII – Perdendo a sanidade?
8
Capítulo VIII – Medo do desconhecido
9
Capítulo IX – Não julgue um livro pela capa
10
Capítulo X – A força na união
11
Capítulo XI – Efeito dominó
12
Capítulo XII – Desgraça eminente
13
Capítulo XIII – O mau desperta
14
Capítulo XIV – A culpa corrói
15
Capítulo XV – A dor na vida, e mesmo depois dela
16
Capítulo XVI – Mente quebrada
17
Abertura do capítulo XVII – O pesadelo se torna realidade
18
Capítulo XVII – Mal invisível
19
Capítulo XIX – O que me falta, você completa
20
Capítulo XX – Coração cruel
21
Capítulo XXI – Hipocrisia
22
Capítulo XXII – Encurraladas
23
Capítulo XXIII – Buscando a força interior
24
Capítulo XXIV – Quero ser útil!
25
Capítulo XXV – Estaca Zero
26
Capítulo XXVI – A Chave de Ouro
27
Capítulo XXVII – O covil da bruxa
28
Capítulo XXVIII – A figura encapuzada
29
Capítulo XXIX – Entidade maligna
30
Capítulo XXX – Indisciplinada
31
Capítulo XXXI – Perda Irreparável
32
Capítulo XXXII – Descendente de bruxas
33
Capítulo XXXIII – O pesadelo da vida real de Sophie
34
Capítulo XXXIV – Dimensão Invisível
35
Capítulo XXXV – Abismo
36
Capítulo XXXVI – Sem volta
37
Capítulo XXXVII – Indo a caça
38
Capítulo XXXVIII – O porão
39
Capítulo XXXIX – Aquele que se agarra
40
Capítulo XL – Não perderei outra amiga!
41
Capítulo XLI – Contra o tempo
42
Capítulo XLII – Perdidas
43
Capítulo XLIII – Não é justo!
44
Capítulo XLIV – A única que conseguiria traduzir
45
Capítulo XLV – Irmãs de alma
46
Capítulo XLVI – Prontas para seguir
47
Epílogo

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