Louise
Lille, França – 1881
07/04/1881 – período da noite
Quando Louise chegou no refeitório para participar do jantar, percebeu muitos olhares, mas estava muito pensativa para sequer se importar.
Assim que sentou, suas colegas perguntaram o que havia acontecido para que ela tivesse sido levada daquela maneira. A verdade é que ela também não entendia, o que era para ter sido algo simples, acabou se tornou um problema grande para ela. Buscando não pensar no assunto, pois estava exausta, desconversou. Afirmou que eram assuntos de suma importância, que só os privilegiados tinham acesso. Percebeu que suas amigas não tinham engolido a desculpa, mas foi o suficiente para que não mais a questionassem.
De seu acento, observou Sophie. Enquanto ela acreditava que iria receber uma advertência ou penalidade, uma vez que Louise parecia muito importante devido a atenção que recebia das colegas, Louise temia sequer pensar em se aproximar de Sophie.
Ambas trocaram olhares rápidos, Sophie o manteve por mais tempo, mas Louise evitou seu olhar voltando-o para sua comida. Temia que mais alguma coisa acontecesse antes do dia acabar.
O jantar terminou sem maiores eventos, e todas estavam prontas para dormir. Louise lembrava das palavras de Sophie, sobre ela ter visto uma menina do lado de fora. Loucura! Alguma monitora teria percebido, elas não tinham acesso as chaves dos dormitórios e nem podem sair até o período da manhã. Muita coisa não fazia sentido nas palavras daquela garota, que parecia ter surgido apenas para tirar a paz de Louise. Contudo, uma coisa era certa. A boneca era muito importante para a instituição e para a coordenadora.
Cansada de tentar encontrar conexões sobre o que poderia estar acontecendo, Louise se ajeitou entre os cobertores e fechou os olhos. Tinha sido um dia difícil, uma noite de descanso a deixaria melhor pela manhã. O dormitório estava completamente quieto, Louise entrava em um estado de sono profundo, quando o cansaço finalmente a alcançou.
Breves momentos após adormecer, se encontrou em um sonho. Ela caminhava por uma trilha na floresta, tudo parecia bem, com um clima agradável. Porém, um trovão cortou os céus, uma ventania repentina anunciava algo que ela não soube pressentir. A tempestade era muito forte, escurecia a floresta e fazia o corpo de Louise se arrepiar por inteiro.
Decidindo voltar, ao se virar, Louise se deparou com uma figura estranha parada na trilha. A falta de luz devido ao tempo dificultava que ela pudesse ver as feições da tal figura, não conseguia dizer se era um menino ou uma menina, mas suas vestes sujas de lama sugeriam um vestido. Muito desgastado, a figura parecia molhada, mas a chuva ainda não havia começado. Os cabelos compridos estavam encharcados, e ela segurava algo em sua mão direita. Um objeto pequeno, que Louise só conseguiu identifica-lo devido a um raio que cortou o céu e iluminou o caminho a sua frente.
Se tratava de uma faca de frutas.
Um passo da figura, foi o que bastou para Louise recuar de imediato. Seu corpo inteiro se arrepiava, e ela já não sabia se era devido ao frio ou se era porque seu corpo gritava que ela estava em perigo. Tentou gritar por socorro, mas sua voz ficou presa dentro de sua garganta. A figura se lançou, correndo em sua direção, e aterrorizada Louise tentou correr. Lágrimas começaram a se formar em seus olhos, embaçando sua visão e a impedindo de enxergar.
Enquanto corria, era banhada pela chuva. O cheiro característico de terra molhada inundava seu nariz, fazendo-o estranhamente arder. Arriscou olhar por cima do ombro, e seu coração esqueceu de bater por um segundo. A figura continuava a correr, cada vez mais perto. Apontando a faca em sua direção.
O caminho parecia interminável, agora lamacento por conta da chuva, dificultava os passos de Louise. Suas vestes pesavam por estarem molhadas, e por sua barra carregar certa quantidade de lama. Sentindo seu cabelo ser puxado, foi jogada para trás, a lama amortecendo sua queda. Enquanto tentava enxergar em meio aos pingos da chuva, a figura se jogou em cima dela. Com um único golpe, afundou a faca em seu peito.
Louise arfou, buscando por ar. Em uma tentativa de fazê-la parar, segurou a mão com que a garota segurava a faca. Mas, estando lisa por estar molhada, ela a retirou, se livrando de seu aperto e tornou a afundar a lâmina em seu peito. Mais uma vez o ar lhe foi roubado. Precisava reagir, ou morreria sozinha naquele lugar. Tirando forças para se levantar, empurrou a garota e conseguiu afastá-la de si. A faca ainda estava cravada em seu peito, e somente naquele momento ela foi atingida pela dor dos profundos cortes.
Louise se levantou, a dor tomando seu corpo, roubando sua força. Mas assim que abriu os olhos notou que estava em sua cama.
Olhando para si mesma, conferiu seu corpo e os ferimentos que havia sofrido. Eles não estavam lá, e ela estava segura no seu dormitório. Respirando fundo, olhou a sua volta. As demais meninas dormiam tranquilas, alheia a sua aflição. Colocando a mão sobre o peito, Louise respira fundo mais algumas vezes. Ela estava bem, mas a terrível sensação da lâmina da faca entrando em sua carne estava vívida em sua mente, assim como a sensação quente de seu sangue escorrendo em sua pele e se impregnando em suas vestes.
Tinha sido o pesadelo mais real que teve até aquele momento de sua vida, talvez estivesse muito cansada, tinha sido muito afetada pelos acontecimentos do dia anterior. Voltando a se aclamar, Louise se jogou sobre a cama e fitou o teto. O cansaço ainda tomava seu corpo, o que a ajudou a adormecer novamente.
Dessa vez ela teria um sono tranquilo, imaginou. Mas outro pesadelo veio visita-la. Desta vez, se encontrava em um quarto. Sem janelas e apenas uma porta de madeira decrépita, a única luz que iluminava o cômodo vinha de uma fresta por debaixo da porta.
Quando seus olhos se acostumaram com o nível de luz do ambiente, Louise percebeu um vulto passar de um canto a outro dentro do quarto. Era muito rápido, e andava abaixado. Pensou se tratar de um animal, mas então, percebeu que era a figura misteriosa de antes.
Não! Definitivamente não!
Desta vez ela não segurava nada, mas seus grunhidos traziam o medo de Louise à tona. Desesperada, Louise correu até a porta. Batendo na madeira com as mãos serradas, gritou, implorando para que alguém a salvasse. Contudo, tudo o que ouviu foi uma voz ríspida, dizendo que não era hora dela sair.
Várias perguntas passaram pela mente de Louise, a principal era: Por quê? Por que não poderia sair? O que ela tinha feito?
Se virou procurando pela garota, mas foi surpreendida por ela. Pulando em cima de Louise, ela mordeu seu pescoço, e apesar de sentir a garanta arder devido os gritos, tudo estava silencioso. Com os dentes presos em sua carne, Louise sentia sua carne sendo cortada, e mais uma vez seu sangue corria quente sobre sua pele.
Empurrando a garota para tirá-la de cima de si, sentiu sua carne ser rasgada no processo. A dor era excruciante, mas ela não ia morrer naquele quarto! Conseguindo se livrar da garota, ouviu o som do corpo dela ao se chocar com o chão a sua frente. Como se nada tivesse acontecido, ela voltou a se levantar e pulou em cima de Louise. Rolando para o lado, Louise acordou com a dor. Ao abrir os olhos, notou que estava no chão do dormitório, ao lado de sua cama. Dessa vez o som tinha acordado suas colegas.
— Louise!? Você está bem? – Uma delas lhe perguntou, enquanto as outras tapavam a boca, escondendo os risos. Sentando no chão, Louise respirou fundo. A segurança do dormitório e a presença de suas colegas... Ela finalmente estava acordada.
— Eu? Estou ótima! Penso melhor no chão do que na cama, faço muito isso em casa. Em Londres é uma tendência, não sabiam? – Questionou, desdenhosa. As colegas já acostumadas com a personalidade de Louise, a olharam pelo canto dos olhos, mas se levantaram e foram até ela para ajudá-la.
— Pode ser tendência, mas está frio. Precisa cuidar de sua saúde, faça isso quando o clima estiver mais quente.
Louise aprendia rápido, sabia que se encostasse a cabeça no travesseiro e sonhasse novamente, poderia acontecer algo pior. Temendo pela sua segurança, se levantou do chão aceitando a ajuda das amigas, mas ficou sentada em sua cama. Não voltaria a dormir, de forma alguma, e ninguém a obrigaria a isso!
Se manteria firme, e quando seu corpo estivesse cansado, ela cairia para os lados, e isso a despertaria. Sim, ela conseguiria! Era uma dama forte, tinha que conseguir!
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Atualizado até capítulo 47
Comments
Lala.123@ 🦋
Me arrepiei, que isso , a história foi bem contada , adorei , tá de parabéns foi um dos melhores livros que já li, até hj rsrsrs.
2024-07-06
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