Capítulo VII – Perdendo a sanidade?

Louise

Lille, França – 1881

09/04/1881

Apesar do dia anterior conter eventos que teriam abalado Louise, na noite anterior ela apenas teve bons sonhos. Nenhum pesadelo, ou mesmo sentimento ruim havia se revelado a ela. Amelie permaneceu ao lado de Louise durante boa parte da noite, apesar de cansada e um pouco assustada com a atitude da colega de dormitório, ela sentia genuinamente que Louise era uma boa pessoa. Por debaixo daquela imagem de dama perfeita, existia apenas uma menina assustada e exigida para mostrar sempre o melhor.

Muitas outras meninas se comportavam da mesma maneira dentro da Instituição, afinal, o nome da família era tudo para a reputação de uma dama. Contudo, Louise tinha um lado sensível, que aquele mundo não estava acostumado a demonstrar interesse. Ela sabia bem o que queria para si, e o que desejava não estava relacionado a aquelas aulas cansativas de etiqueta.

Embora se orgulhasse de ser uma verdadeira dama perante a sociedade, não gostava da forma como esse papel se assumia nela. Louise queria ser respeitada e ouvida, mas não por ter roupas de grifes e perfumes recém lançados. Isso podia ser confirmado em suas expressões de tédio, sempre que assuntos relacionados a isso eram o centro da discussão nas tardes de chá. Contudo, esse era o único motivo de muitas das meninas se aproximarem dela. Era a única razão de Louise não ter ficado totalmente isolada, depois do incidente com a boneca.

Na manhã seguinte, Louise acordou leve. Tinha tido uma noite de sono revigorante, os pesadelos por fim haviam a abandonado. Recobrando os motivos de perder o sono, o que consequentemente a tinha levado aos acontecimentos ocorridos na noite anterior, Louise abriu os olhos.

Permanecendo estática sobre a cama, ela fitou o teto com os olhos arregalados. A dúvida sobre o que tinha acontecido rondava sua mente. Aquilo tinha mesmo acontecido? Ela havia mesmo feito algo tão horrendo?

Sentando na cama, ela olhou em direção a cama de Amelie e respirou fundo. Precisava confirmar.

Levantando em um pulo, foi até o beliche de Amelie, caminhando na ponta dos pés. Assim que chegou, se inclinou para observar a colega de dormitório. Amélia dormia tranquila, mas para a surpresa de Louise, ela tinha marcas avermelhadas em volta de seu pescoço.

Era verdade, ela realmente tinha feito aquilo!

Levando ambas as mãos a boca, tentou conter o horror de se imaginar fazendo tal atrocidade com alguém. Suas pernas amoleceram, mas Louise se manteve firme. O que estava acontecendo com ela, afinal?!

Ainda sonolenta, Amelie abriu os olhos e se deparou com Louise ao pé de sua cama. Surpresa, Louise teve um breve espasmo e virou de costas para a colega. Estava prestes a voltar para sua cama, quando foi parada pela voz dela.

— Senhorita...

Seu sussurro foi tão suave, que Louise se questionou se realmente ela havia dito algo. Temeu se virar para verificar, a imagem de sua terrível ação na noite anterior lhe dava calafrios. Porém, devia explicações e desculpas a Amelie. Embora não soubesse o que diria, se virou e encontrou os olhos castanhos. Para sua surpresa, a garota tinha um lindo sorriso nos lábios, e isso deixou Louise confusa.

— Olá senhorita, dormiu bem?

Seus modos deviam ser invejados em qualquer parte da alta sociedade, mas o que mais lhe surpreendia era sua gentileza genuína. Perante o que Louise havia feito, Amelie deveria odiá-la, mas enquanto olhava para a garota, não via qualquer sinal de mágoa ou raiva.

Sendo tomada pelo pavor, ao imaginar o que poderia ter feito a alguém tão amável, seus olhos se encheram de lágrimas.

— Eu sinto muito Amelie, eu... Fiz algo terrível...

– Você estava muito cansada senhorita, todas estamos sob constante pressão.

— Não... Aquilo, não era eu.  – Louise afirmou com convicção. Amelie a encarou em silêncio. Os olhos azuis estavam arregalados, alertas a algo que nenhuma das duas fazia ideia. 

De forma abrupta, um som de chaves vindo da porta do dormitório alertou a ambas. Ao abrir a porta, a monitora adentrou no dormitório conferindo as meninas. Sacudia as garotas obrigando-as a acordarem.

Como de costume, as cortinas de seda se abriram, e os pequenos feixes da luz do sol adentraram no dormitório. As areias do sono iam embora, deixando apenas o início de mais um dia na instituição.

Louise cumprimentou a monitora quando esta veio em sua direção, sua mente era preenchida com as lembranças da noite anterior, onde com suas próprias mãos, tentou em acesso de raiva, machucar uma colega. Por um breve segundo, sua boca se abriu, pronta para contar tudo o que havia acontecido. Ela receberia a punição sem hesitar. Porém, foi surpreendida com a voz de Amelie:

— Bom dia monitora, agradecemos sua vinda nesta linda manhã.

Louise se virou, e viu no pescoço de Amelie um lenço vermelho, amarrado ao redor dele. Um adereço sutil, mas que escondia com precisão a marca de seus dedos na pele pálida.

Amelie se virou para Louise e sorriu, fechando os olhos enquanto acenava de forma negativa com a cabeça.

A situação era difícil de ser entendida para Louise, o que tinha acabado de acontecer? Como ela tinha percebido sua intenção?

Com o deixar da monitora do dormitório, notando a confusão no rosto de Louise, Amelie se aproximou.

— Senhorita, sei que não faria aquilo em outras circunstâncias. A observo há um tempo, e apesar dos assuntos sobre a alta moda lhe causarem certo tédio, nunca desmereceu outra menina com o intuito de humilhá-la. E a julgar pelos seus olhos ainda cansados, passou por muita coisa nesses dias, certo?

Louise apenas escutou cada palavra, e no final da pergunta, sua respiração ficou trêmula.

Em um impulso, se jogou sobre Amelie a abraçando. O que estava acontecendo com ela?

— Sinto muito... – a sua fala expressava culpa, mas seu coração era tomado pelo pavor. Não sabia mais se podia confiar em suas próprias ações. Estava a ponto de enlouquecer.

A voz que tinha ouvido na noite anterior ainda estava em sua mente, e fazia seu corpo inteiro se arrepiar só de lembrar.

Amelie retribuiu o abraço, e com uma voz calma, pontuou:

— Sei do seu dever aqui dentro, senhorita. Todos esperam algo de nós, apenas vamos continuar fortes.

Atônita, Louise concordou com a colega de dormitório confirmando com a cabeça. Contudo, não sabia com o que concordava exatamente. Se com o seu dever, ou com a necessidade de se manter forte. A dúvida a tomando em relação à última afirmação.

Respirando fundo, se afastou de Amelie e se recompôs. As duas se arrumaram em silêncio, e seguiram para o refeitório.

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Comments

Cecilia geralda Geralda ramos

Cecilia geralda Geralda ramos

Estou maravilhada com a história.

2024-07-25

1

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Capítulos
1 Lille, França - 06 de janeiro de 1881
2 Capítulo II — Uma estrela sem nome
3 Capítulo III - Em busca da estrela
4 Capítulo IV – Mente nublada
5 Capítulo V – A figura misteriosa
6 Capítulo VI – Fora de si
7 Capítulo VII – Perdendo a sanidade?
8 Capítulo VIII – Medo do desconhecido
9 Capítulo IX – Não julgue um livro pela capa
10 Capítulo X – A força na união
11 Capítulo XI – Efeito dominó
12 Capítulo XII – Desgraça eminente
13 Capítulo XIII – O mau desperta
14 Capítulo XIV – A culpa corrói
15 Capítulo XV – A dor na vida, e mesmo depois dela
16 Capítulo XVI – Mente quebrada
17 Abertura do capítulo XVII – O pesadelo se torna realidade
18 Capítulo XVII – Mal invisível
19 Capítulo XIX – O que me falta, você completa
20 Capítulo XX – Coração cruel
21 Capítulo XXI – Hipocrisia
22 Capítulo XXII – Encurraladas
23 Capítulo XXIII – Buscando a força interior
24 Capítulo XXIV – Quero ser útil!
25 Capítulo XXV – Estaca Zero
26 Capítulo XXVI – A Chave de Ouro
27 Capítulo XXVII – O covil da bruxa
28 Capítulo XXVIII – A figura encapuzada
29 Capítulo XXIX – Entidade maligna
30 Capítulo XXX – Indisciplinada
31 Capítulo XXXI – Perda Irreparável
32 Capítulo XXXII – Descendente de bruxas
33 Capítulo XXXIII – O pesadelo da vida real de Sophie
34 Capítulo XXXIV – Dimensão Invisível
35 Capítulo XXXV – Abismo
36 Capítulo XXXVI – Sem volta
37 Capítulo XXXVII – Indo a caça
38 Capítulo XXXVIII – O porão
39 Capítulo XXXIX – Aquele que se agarra
40 Capítulo XL – Não perderei outra amiga!
41 Capítulo XLI – Contra o tempo
42 Capítulo XLII – Perdidas
43 Capítulo XLIII – Não é justo!
44 Capítulo XLIV – A única que conseguiria traduzir
45 Capítulo XLV – Irmãs de alma
46 Capítulo XLVI – Prontas para seguir
47 Epílogo
Capítulos

Atualizado até capítulo 47

1
Lille, França - 06 de janeiro de 1881
2
Capítulo II — Uma estrela sem nome
3
Capítulo III - Em busca da estrela
4
Capítulo IV – Mente nublada
5
Capítulo V – A figura misteriosa
6
Capítulo VI – Fora de si
7
Capítulo VII – Perdendo a sanidade?
8
Capítulo VIII – Medo do desconhecido
9
Capítulo IX – Não julgue um livro pela capa
10
Capítulo X – A força na união
11
Capítulo XI – Efeito dominó
12
Capítulo XII – Desgraça eminente
13
Capítulo XIII – O mau desperta
14
Capítulo XIV – A culpa corrói
15
Capítulo XV – A dor na vida, e mesmo depois dela
16
Capítulo XVI – Mente quebrada
17
Abertura do capítulo XVII – O pesadelo se torna realidade
18
Capítulo XVII – Mal invisível
19
Capítulo XIX – O que me falta, você completa
20
Capítulo XX – Coração cruel
21
Capítulo XXI – Hipocrisia
22
Capítulo XXII – Encurraladas
23
Capítulo XXIII – Buscando a força interior
24
Capítulo XXIV – Quero ser útil!
25
Capítulo XXV – Estaca Zero
26
Capítulo XXVI – A Chave de Ouro
27
Capítulo XXVII – O covil da bruxa
28
Capítulo XXVIII – A figura encapuzada
29
Capítulo XXIX – Entidade maligna
30
Capítulo XXX – Indisciplinada
31
Capítulo XXXI – Perda Irreparável
32
Capítulo XXXII – Descendente de bruxas
33
Capítulo XXXIII – O pesadelo da vida real de Sophie
34
Capítulo XXXIV – Dimensão Invisível
35
Capítulo XXXV – Abismo
36
Capítulo XXXVI – Sem volta
37
Capítulo XXXVII – Indo a caça
38
Capítulo XXXVIII – O porão
39
Capítulo XXXIX – Aquele que se agarra
40
Capítulo XL – Não perderei outra amiga!
41
Capítulo XLI – Contra o tempo
42
Capítulo XLII – Perdidas
43
Capítulo XLIII – Não é justo!
44
Capítulo XLIV – A única que conseguiria traduzir
45
Capítulo XLV – Irmãs de alma
46
Capítulo XLVI – Prontas para seguir
47
Epílogo

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