Capítulo IV – Mente nublada

Louise

Lille, França – 1881

07/04/1881 — período da tarde

Louise estava incrédula, incapaz de entender o motivo de ser arrastada pelo braço, como se tivesse sido ela a ter feito algo errado. Claramente fora obra de Sophie, não bastava uma menina daquele status social estar naquela escola, ela ainda tinha que desejar o que era realmente do direito de outras.

Enquanto a sua fúria aumentava em relação a Sophie, mais meninas apareciam no corredor para vê-la. Louise nunca fora vista tendo um comportamento fora do esperado, até porque ela era uma menina da alta sociedade. Com sua graça e educação era foco de atenção e elogios, mas nunca de repreensão.

Depois de alguns passos ecoando pelo corredor, ambas a monitora e Louise chegam à sala da coordenadora. Assim que entrou, não foi dito nenhuma formalidade. Louise observava a monitora que a levava como se fosse uma serva incapaz de estar naquela posição. Rude e sem modos. Como poderia tê-la arrastado até aquele lugar? Não conhecia quem eram seus pais?

A coordenadora ergueu o olhar e o direcionou a ela, Louise reconheceu o olhar surpreso. O mesmo que a monitora lhe dera minutos antes. Os olhos severos da coordenadora seguiam para a mão que segurava a boneca, o que fez Louise notar que o motivo de ter sido tratada daquela forma tinha sido aquele brinquedo.

Talvez Sophie não tenha roubado de outra aluna, mas sim da escola. Um golpe ainda mais baixo, quase cuspindo no prato que a alimentava. Uma completa falta de respeito, com a instituição e com tudo o que ela representava!

Louise inspirou, enquanto um sorriso de orgulho se formava em seus lábios. Mal sabia ela que a situação em que estava não se resolveria de forma tão fácil.

A coordenadora acenou para que a monitora deixasse a sala e fez mais um gesto, dessa vez apontando para a cadeira que estava à frente de Louise. Apesar das condições em que fora levada para aquela reunião com a coordenadora, nada disso importava mais. Finalmente era hora de expor tudo o que Sophie tinha feito.

— Onde encontrou a boneca que está em suas mãos? – Quebrando o silêncio, Delphine perguntou com um tom ríspido, mas com uma expressão desprovida de qualquer emoção.

Louise ergueu o queixo, estava pronta para receber seu prêmio.

— Encontrei no jardim senhora. A aluna Sophie Beaufay carregava o brinquedo quando a encontrei!

Delphine apertou os olhos.

— Louise Delyon, sua família é muito conhecida neste lugar. Então, em respeito a seu sobrenome, irei lhe perguntar mais uma vez. Onde encontrou a boneca que está em suas mãos?

Um sentimento de confusão tomou Louise, ela claramente dizia a verdade. Com os olhos arregalados, questionou a coordenadora:

— Estou dizendo a verdade, por que não acredita em mim?!

— É rude responder uma pergunta com outra, Louise. Uma dama deve ter ciência disso. – Delphine explicou, mas travava o maxilar. Segura a raiva perante as visíveis desculpas de Louise.

— Mas estou dizendo a verdade!

Encarando a menina, Delphine respirou fundo. Levantando de sua mesa, ela andou até a porta.

— Muito bem. Se essa é sua palavra final, vamos aos fatos.

Delphine abriu a porta e chamou uma das monitoras. Diante de Louise, pediu a ela para que encontrasse a monitora responsável pelo grupo da aluna Sophie Beaufay, e que a apresentasse em sua sala imediatamente.

Como uma espécie de guarda, Delphine permaneceu perto da porta. Os olhos grudados em Louise, como se a menina fosse desaparecer. Curiosa, Louise se virou, encontrando a coordenadora parada. Os olhos selvagens, sem nenhuma expressão, fizeram Louise se encolher na cadeira. Voltando a olhar para a mesa, a menina começou a duvidar de suas próprias memórias.

Ouvindo os batimentos de seu próprio coração, não sabia se poderia se virar novamente. Afinal, já havia respondido à pergunta, e nada em sua resposta mudaria. O silêncio foi quebrado por um som de batida vindo da porta, no que a coordenadora pediu para que a pessoa entrasse.

A jovem monitora cumprimentou Delphine e a aluna, e perguntou como poderia ajudar. Delphine se pronunciou.

— Por favor, me relate quem é Sophie Beaufay.

— Uma boa aluna. Apesar de nos primeiros dias seus comportamentos mostrarem um excesso de timidez, sua atitude com relação as aulas mudaram recentemente. Se mostrou interessada até nos mínimos detalhes de cada matéria, mostrando um traço de curiosidade que pode parecer fora de foco, mas com relação aos bons modos e ao decoro, demonstra desejo em aprender. – A monitora respondeu.

— Ela já foi encontrada com algum objeto de outra aluna? Ou já demonstrou pegar objetos sem permissão? – Questionou Delphine.

— Não senhora. Ela frequentemente visita a biblioteca, mas os livros são entregues dentro de prazo e bem cuidados. Apesar de não possuir tantos objetos pessoais, mantem uma organização constante no dormitório e na sala de aula.

— Entendo. Isso é tudo, muito obrigada.

A monitora se curvou para a coordenadora e saiu da sala. A sós novamente, Delphine se virou para Louise.

— Como pode ver, Sophie mantem um status bom com a escola e com as outras alunas. Não vejo sentido em acusa-la senão uma atenção tola.

— Mas coordenadora, estou lhe dizendo, o que vi é exatamente isso!

– Louise já desesperada para ser entendida, mostrava sinais de agitação. Apertava com os dedos o seu vestido e a boneca.

— Entenda Louise, o item que está em suas mãos é de extrema importância para esta escola...

– Louise olhou para a própria mão, e percebendo o que fazia, afrouxou os dedos ao redor do pescoço da boneca.

— Sua família sempre foi uma ótima colaboradora desta instituição, e por isso deve ser grata a ela. Desta vez será apenas advertida verbalmente, mas caso algo assim volte a acontecer, receberá uma punição mais severa. Me fiz clara o suficiente?

Louise não iria ganhar aquele argumento, mal possuía forças para explicar os detalhes que agora estavam borrados em sua mente.

Abaixando a cabeça, ela estendeu a boneca para Delphine.

— Acredito que me compreendeu. Não sei como teve acesso a esta boneca, mas espero que esta seja a última vez que a encontro fora do seu lugar. – Enfatizou Delphine.

Com um tom baixo e melancólico, Louise respondeu:

— Sim, senhora.

— Muito bem, está dispensada.

Louise se levantou, com um olhar triste, os olhos marejados. Fazendo uma reverência, saiu da sala.

Sozinha, Delphine ergueu a boneca até a altura de seus olhos e a encarou. Um alívio escapou de seus lábios em forma de suspiro. Como se, por poucos minutos, tivesse esquecido de como respirar.

Capítulos
1 Lille, França - 06 de janeiro de 1881
2 Capítulo II — Uma estrela sem nome
3 Capítulo III - Em busca da estrela
4 Capítulo IV – Mente nublada
5 Capítulo V – A figura misteriosa
6 Capítulo VI – Fora de si
7 Capítulo VII – Perdendo a sanidade?
8 Capítulo VIII – Medo do desconhecido
9 Capítulo IX – Não julgue um livro pela capa
10 Capítulo X – A força na união
11 Capítulo XI – Efeito dominó
12 Capítulo XII – Desgraça eminente
13 Capítulo XIII – O mau desperta
14 Capítulo XIV – A culpa corrói
15 Capítulo XV – A dor na vida, e mesmo depois dela
16 Capítulo XVI – Mente quebrada
17 Abertura do capítulo XVII – O pesadelo se torna realidade
18 Capítulo XVII – Mal invisível
19 Capítulo XIX – O que me falta, você completa
20 Capítulo XX – Coração cruel
21 Capítulo XXI – Hipocrisia
22 Capítulo XXII – Encurraladas
23 Capítulo XXIII – Buscando a força interior
24 Capítulo XXIV – Quero ser útil!
25 Capítulo XXV – Estaca Zero
26 Capítulo XXVI – A Chave de Ouro
27 Capítulo XXVII – O covil da bruxa
28 Capítulo XXVIII – A figura encapuzada
29 Capítulo XXIX – Entidade maligna
30 Capítulo XXX – Indisciplinada
31 Capítulo XXXI – Perda Irreparável
32 Capítulo XXXII – Descendente de bruxas
33 Capítulo XXXIII – O pesadelo da vida real de Sophie
34 Capítulo XXXIV – Dimensão Invisível
35 Capítulo XXXV – Abismo
36 Capítulo XXXVI – Sem volta
37 Capítulo XXXVII – Indo a caça
38 Capítulo XXXVIII – O porão
39 Capítulo XXXIX – Aquele que se agarra
40 Capítulo XL – Não perderei outra amiga!
41 Capítulo XLI – Contra o tempo
42 Capítulo XLII – Perdidas
43 Capítulo XLIII – Não é justo!
44 Capítulo XLIV – A única que conseguiria traduzir
45 Capítulo XLV – Irmãs de alma
46 Capítulo XLVI – Prontas para seguir
47 Epílogo
Capítulos

Atualizado até capítulo 47

1
Lille, França - 06 de janeiro de 1881
2
Capítulo II — Uma estrela sem nome
3
Capítulo III - Em busca da estrela
4
Capítulo IV – Mente nublada
5
Capítulo V – A figura misteriosa
6
Capítulo VI – Fora de si
7
Capítulo VII – Perdendo a sanidade?
8
Capítulo VIII – Medo do desconhecido
9
Capítulo IX – Não julgue um livro pela capa
10
Capítulo X – A força na união
11
Capítulo XI – Efeito dominó
12
Capítulo XII – Desgraça eminente
13
Capítulo XIII – O mau desperta
14
Capítulo XIV – A culpa corrói
15
Capítulo XV – A dor na vida, e mesmo depois dela
16
Capítulo XVI – Mente quebrada
17
Abertura do capítulo XVII – O pesadelo se torna realidade
18
Capítulo XVII – Mal invisível
19
Capítulo XIX – O que me falta, você completa
20
Capítulo XX – Coração cruel
21
Capítulo XXI – Hipocrisia
22
Capítulo XXII – Encurraladas
23
Capítulo XXIII – Buscando a força interior
24
Capítulo XXIV – Quero ser útil!
25
Capítulo XXV – Estaca Zero
26
Capítulo XXVI – A Chave de Ouro
27
Capítulo XXVII – O covil da bruxa
28
Capítulo XXVIII – A figura encapuzada
29
Capítulo XXIX – Entidade maligna
30
Capítulo XXX – Indisciplinada
31
Capítulo XXXI – Perda Irreparável
32
Capítulo XXXII – Descendente de bruxas
33
Capítulo XXXIII – O pesadelo da vida real de Sophie
34
Capítulo XXXIV – Dimensão Invisível
35
Capítulo XXXV – Abismo
36
Capítulo XXXVI – Sem volta
37
Capítulo XXXVII – Indo a caça
38
Capítulo XXXVIII – O porão
39
Capítulo XXXIX – Aquele que se agarra
40
Capítulo XL – Não perderei outra amiga!
41
Capítulo XLI – Contra o tempo
42
Capítulo XLII – Perdidas
43
Capítulo XLIII – Não é justo!
44
Capítulo XLIV – A única que conseguiria traduzir
45
Capítulo XLV – Irmãs de alma
46
Capítulo XLVI – Prontas para seguir
47
Epílogo

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