05:00 am
Lille, França – 1881
10/04/1881
O dia amanheceu chuvoso, e a coordenadora Delphine ordenou que a monitora levasse o café da manhã de Camille antes mesmo do dia se iniciar. As ações dela no dia anterior tinham sido incompreensíveis, como uma dama poderia agir de tal forma?
Em seu histórico médico nada tão sério tinha sido mencionado, então, ou os pais de Camille haviam mentido, ou ela tinha escondido seus problemas muito bem.
Até aquele momento.
Pegando o molho de chaves do bolso do uniforme com dificuldades, a monitora girou a chave sem se preocupar se iria despertar a garota com um susto. Pouco se importava com isso, ela havia sido acordada pela coordenadora ainda mais cedo para fazer aquele maldito café da manhã!
Era um verdadeiro saco ter de lidar com aquelas garotas. Nasciam tendo tudo do bom e do melhor, herdando terras e o destino de pessoas com quem sequer se importavam...
Enquanto ela, como monitora, vivia da sujeira que os ricos deixavam cair das mesas e da mesquinhez de seus bolsos. Aquelas crianças ingratas jogavam tudo fora com comportamentos irresponsáveis.
Aquele mundo só era injusto para quem não tinha nada, como podia isso fazer algum sentido? Cansada das desgraças de sua vida, a monitora desejava todo dia que algumas daquelas garotas simplesmente desaparecessem.
Sem paciência, ela abriu a porta gritando.
— Levante Camille, venha tomar seu café da manhã!
Contudo, a garota sequer se mexeu na cama.
Irritada, a monitora jogou a bandeja com o desgejum na mesa com força, e se didirigiu-se a cama em que Camille estava. Quão preguiçosa poderia ser? Mimada! Pensava que agora que não frequentaria mais as aulas, iria ficar a vadiar?
Era típico daquela gente apenas deitar e esperar, nem mesmo suas próprias roupas conseguiam vestir sozinhas. Eram todos inúteis!
— ESTÁ SURDA! – A monitora puxou o corpo da garota, virando-a. Porém, o que seus olhos viram a deixaram em completo choque.
Camille tinha os olhos arregalados. As mãos enxarcadas com seu próprio sangue... Em uma delas, segurava um pedaço de vidro, enquanto de seus pulsos eram expostos profundos ferimentos, de onde haviam saído todo seu sangue, que agora inundava a cama em que se encontrava já sem vida.
Levando as mãos até a boca, a monitora não conseguiu segurar o grito que rasgou a sua garganta. Recuando, ela esbarrou na mesa em que há pouco deixara o café da manhã de Camille. O seu corpo inteiro tremia, mas ela precisava avisar a coordenadora.
Como aquilo era possível? Ela havia inspecionado o quarto inteiro, e não encontrara nada perigoso.
O cheiro metálico tomava o quarto, fazendo seu estômago revirar. Precisava sair e avisar a coordenadora, mas tinha perdido a força das pernas. O rosto de Camille pendeu, virando na direção dela, e a monitora deixou escapar outro grito. Dessa vez, medo algum a impediu de se mexer.
Tropeçando nos próprios pés, correu desesperada pelo corredor, sentindo as lágrimas brotarem de seus olhos sem que pudesse controla-las. Se arrependia amargamente pelo que havia desejado segundos antes.
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Atualizado até capítulo 47
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