Amelie
Lille, França – 1881
10/04/1881
Assim que chegaram ao saguão do hotel, Amelie avistou Sophie no meio da multidão de garotas. Percebendo o estado em Louise se encontrava, ela correu até elas.
— O que houve? – Sophie quis saber.
— Ajude-me a leva-la até aquele banco, por gentileza. – Sem questionar, Sophie atendeu o pedido da amiga. Depois de já se encontrarem sentadas, Sophie voltou a questionar.
— Sabe o que aconteceu? Nos trouxeram com urgência, não nos disseram nada.
— Ao que pude conferir... Aconteceu o que temíamos. – Amelie falava esfregando a mão esquerda nas costas de Louise, que em estado de choque, apenas olhava para um canto vazio. Sophie a encarou sem conseguir dizer nada.
— Não sei os detalhes, mas... Uma garota do nosso andar perdeu a vida ontem.
— O que?! - Sophie perguntou, sua voz desaparecendo durante a questão.
Nesse momento, uma das monitoras, a mesma que havia encontrado com elas no corredor na tarde anterior, apareceu para conferir as garotas. De forma automática, andou entre todas recebendo perguntas que não podia responder. Tinha as duas mãos no peito, seu olhar passava rápido pelas meninas, conferindo cada mínimo detalhe. Amelie conhecia bem aquele olhar, era preocupação e medo.
— Senhora Suyane, o que está acontecendo? – Algumas questionaram, cercando-a na multidão.
— Meus pais terão conhecimento disso! Não basta a pressão das aulas, agora nos tiram o tempo de descanso? – Outra afirmou, recebendo apoio de um grupo específico. Olhando para a garota, a monitora respirou fundo.
— Logo tudo será explicado, enquanto isso não acontece, todas ficarão aqui! – Foi incisiva, calando as perguntas. Ainda podia se ouvir sussurros de confusão, mas nada podia ser feito se a monitora não estava disposta a falar.
Avistando Amelie, ela abriu caminho entre as garotas e se aproximou.
— Estão todas bem? – As questionou com um tom completamente diferente do que havia acabado de usar com as demais.
— Senhora Suyane... – Sophie se levantou e foi até a monitora. A mulher segurou as mãos dela, em uma tentativa de lhe passar conforto. De uma forma estranha, nos poucos momentos em que tinha tido a chance de conversarem, Amelie percebeu que ela havia desenvolvido um apreço especial por Sophie.
Talvez fosse o fato de ela ser uma garota solitária, cujo os pais sequer enviavam cartas ou pertences, ou fosse apenas a monitora projetando algo pessoal nela. Independente do que fosse, ao menos elas tinham um adulto por perto. Mesmo que isso não garantisse a segurança delas, Amelie se sentia aliviada.
Suyane era uma mulher alta, forte, mas também afável. As características indígenas se mesclavam a uma possível mistura com os genes Franceses, e o sobrenome de sua família – Dufresne – era tão antigo que Amelie teve dificuldades para mapear a árvore genealógica.
— Pedirei que preparem um chá de camomila para todas, não irei demorar. – A monitora avisou, e Sophie afirmou com a cabeça, soltando as mãos da mulher. Com ela já distante, Sophie se sentou do lado esquerdo de Louise e pegou em sua mão esquerda. Ela esmagava o tecido da camisola com tanta força que os nós de seus dedos estavam brancos. Reagindo ao toque da amiga, pareceu despertar de seu transe.
Olhando para Sophie, Louise não esboçou qualquer expressão. Assim como muitas outras garotas, ela era a única entre Amelie e Sophie que reagia conforme a realidade da situação. A senhorita Beaufay podia parecer uma garota nobre comum, mas Amelie sabia que ninguém buscava a fantasia por mero encanto. A mente sempre buscava por uma escapatória, quando o coração se encontrava vazio.
Assim como ela, Sophie tinha uma vida solitária, voltada para a necessidade de cuidar de si mesma, uma vez que seus pais, sempre ocupados com reuniões e figuras importantes da sociedade vitoriana, sequer lembravam que ela existia. A jovem garota havia aprendido a sobreviver em meio as feras, enquanto Louise, como um coelho acuado, sucumbia a triste realidade que se desenrolava envolta delas.
Era nesses momentos que Amelie entendia o motivo de ser proibida de desenvolver apreço por outras pessoas além de seu mestre. Naquele mundo cruel, apenas os mais fortes de mente se saiam vitoriosos, e se esquecesse seu papel, seu mestre seria engolido.
Por muito tempo havia se questionado sobre o que desejava para si, além de servir de forma cega conforme sua família desejava. Esperava que seu futuro mestre fosse digno, mas nem sempre ser digno significava ter força. Às vezes, era preciso recorrer aos mesmos métodos do inimigo, para se obter sucesso no objetivo. Louise não conseguia pensar por si mesma, então Amelie chegara à conclusão de ela seria sua mente, enquanto Louise seria o coração que lhe fora impedido de sentir.
Louise era sensível, e Amelie não queria que ela perdesse aquela parte dela. Havia por fim encontrado a resposta para sua questão. Enquanto olhava para sua mestra e segurava sua mão direita, afirmava para si mesma que, não importava o que acontecesse, ela iria garantir que Louise sobrevivesse.
O chá foi servido, conforme a monitora havia pedido, e depois de toma-lo Louise parou de tremer. Embora parecesse anestesiada, tinha voltado a conversar. Não citava nada relacionado ao acontecimento, falando apenas de amenidades, e entendendo sua dificuldade, Sophie puxava um assunto atrás do outro.
Vestidos, tecidos, perfumes, e até mesmo tipos de louças... Qualquer coisa tinha se tornado mais importante do que a situação, e Amelie sentiu orgulho de Sophie por saber se adaptar com facilidade ao que Louise precisava.
De fato, a senhorita Delyon era uma garota muito observadora e esperta.
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Atualizado até capítulo 47
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