Capítulo IX – Não julgue um livro pela capa

Amelie

Lille, França – 1881

05/04/1881

Amelie sempre foi uma menina quieta, devido a reputação de sua família. Sendo uma família de mordomos e governantas, isso a moldou de uma maneira a sempre estar pronta para buscar o melhor para a família que no futuro serviria. Porém, com o passar do tempo, Amelie percebeu que a natureza mesquinha dos empregadores respingava sobre sua família. Eles eram lembrados de serem fieis, até mesmo diante da guilhotina. Cegos, como cavalos por influência de viseiras, viam e agiam apenas de acordo com os comandos de seus mestres, e dessa forma muitos foram executados. Culpados por atrocidades que jamais fizeram. 

Não que desprezasse sua família por se sujar em nome da lealdade, mas não concordava com as injustiças cometidas. Quando seus pais lhe mostraram o livro das famílias influentes a quem tanto seus ancestrais serviram no passado, Amelie se questionou se realmente haveria uma que a fizesse agir de forma cega. Não queria decepcionar sua família e nem muito menos manchar o sobrenome da mesma, no entanto, não podia simplesmente passar por cima de suas convicções.

Matriculada ao instituto para “aprender” novos modos para agradar a alta sociedade, Amelie Laviolette, foi intuída a procurar novas famílias prestigiosas para servir. Tudo isso era fútil para Amelie, cada família que ela colocava os olhos, já sabia e sentia que algo estava errado. Até mesmo a família mais doce, possuía um sabor amargo e vil escondido em suas sombras.

Sem muitas escolhas, adentrou no instituto, mas já presumia que todas ali dentro tinham algo para mostrar, seja riqueza sem limites, etiqueta capaz de enganar a todos, ou planos escrupulosos, para puxar o tapete dos “concorrentes”.

Não demorou muito para identificar certas figuras que lhe fossem chamativas: Famílias pouco conhecidas, que seriam engolidas mais tarde pelas mais influentes, e a nata da sociedade francesa, sempre no topo, com nenhuma força a colidir de frente com eles.

Como tinha que escolher uma, acabou por escolher a que aparentemente não possuía um passado fraudulento. Mas, em compensação, a futilidade parecia reinar na família Delyon. Sendo o chefe da família um duque e uma figura militar, as mulheres da família ostentavam uma vida de excessos. Entre joias e vestidos feitos unicamente para elas, a vida na família Delyon era estritamente pavimentada no status e na influencia que a aproximação com as demais famílias lhes garantia.

Poder. Tudo se resumia a isso.

A decisão de Amelie se baseava justamente no legado de sua família, mas não tinha intenção nenhuma de servir a uma família com tais conexões. Com isso, decidiu observar a primogênita da família Delyon. Uma moça educada, porém, mostrava a imponência de sua figura: Adornos enfeitados, com toques de amarelo dourado, luvas de seda, uma pele clara, unhas bem feitas e um aspecto de superioridade.

Amelie se decepcionara um pouco, já que ela se encaixava na perfeitamente da imagem de pessoa que vivia da aparência.

Contudo, como o sobrenome dela carregava um peso maior que as outras, e Amelie precisava encontrar alguém... Decidiu observar para se adequar aos gostos da nova “mestra”.

No primeiro dia, Amelie notou alguns traços característicos de Louise. As falas que mostravam superioridade em todos os tipos de assunto, a postura com a cabeça alta, risos sobre a falta de classe de outras meninas... Tudo se encaixava no que Amelie mais detestava. Mas, no fim, seria fácil servir alguém assim. Ela não se vincularia, e ainda faria um bom trabalho servindo essa menina. 

Ao menos foi isso que imaginou.

Foi quando Louise estava sozinha que realmente chamou a atenção de Amelie. Sem olhares de admiração ou inveja, ela retirava suas joias, seus lenços e luvas de seda, e olhava atentamente para um espelho pequeno que carregava. Sua expressão mostrava uma melancolia, olhos desprovidos de qualquer vontade de ser a imagem que aparentava ter: Uma alta dama da sociedade, com inimigos poderosos e aliados querendo sua queda a qualquer momento.

Ela também olhava os pertences das outras colegas de quarto, sejam bichinhos de pelúcia, brincos simples, sapatos gastos, poderia ser o material que fosse, mas ela não esbanjava repulsa nem sequer um sinal de esnobismo. Amelie conhecia aquele olhar, já havia visto antes.

Era inveja.

Não poderia ser possível, certo? Uma dama da alta sociedade jamais poderia sentir inveja de objetos que ela poderia facilmente adquirir em quantidades monstruosas. Caso ela quisesse um brinquedo, haveria os melhores artesãos para confecciona-los. Algo novo, único para ela, incluindo sapatos e vestimentas.

Ao notar uma boneca de pano simples na cama de uma das colegas, Louise a pegou e a ergueu diante de seus olhos. O brinquedo aparentava estar um pouco gasto, mas tinha cabelos lindos, que infelizmente estavam desarrumados. Louise pôs-se a ajeitar o cabelo da boneca, alinhou a roupa e lhe concedeu um abraço.

Uma amostra sincera de cuidado, sem nenhuma intenção ruim. Esse gesto chocou Amelie, que de tudo o que já havia visto, aquilo era de longe um acontecimento único. 

Notando que uma menina vinha em direção ao dormitório, Amelie fingiu passar pela garota. Acenou e a cumprimentou, mas parou antes mesmo de chegar no fim do corredor. Assim que a garota entrou no mesmo dormitório em que Louise estava, Amelie voltou alguns a se aproximou da porta, queria ouvir o desenrolar da interação da Louise com a garota: 

— Oh! Olá senhorita Delyon, você estava se preparando para o início das aulas? 

— Isso mesmo, devo usar joias diferentes para cada ocasião, igual a um banquete. Devemos nos portar adequadamente para cada situação.

Amelie ouvia atentamente, Louise voltara a ser uma menina esnobe, mas somente porque havia alguém com ela.

— A senhorita deve possuir muitas coisas, as melhores, de certo. 

— Claro que sim, cada item que eu tenho foi feito por alguém muito famoso!

A menina se virou para sua cama e olhou para seus pertences. Nenhum deles possuía um valor alto.

— Não tenho muita coisa importante, apenas tenho o que realmente preciso. – Afirmou. 

Um silêncio preencheu o dormitório, Amelie esperava alguma resposta de Louise que desmerecesse a menina de estar ali, essa demonstração de vulnerabilidade só serviria para ser engolida pelas outras pessoas e ela estava cansada de presenciar isso. Então, quando Amelie estava prestes a sair do lado da porta, ouviu a voz de Louise. Estava baixa, e trazia um tom de sinceridade.

— O fato é que você manteve bem suas coisas, afinal de contas, uma dama deve saber cuidar de seus pertences. Isso demonstra cuidado e atenção.

Tomada de novo por um choque, já que Louise não se aproveitou da situação para engolir e aumentar sua lista de vítimas, Amelie paralisou.  

— Sua boneca é única, olhando para os cabelos dela, é possível ver o cuidado que você tem em manter algo único assim intacto. Sua dedicação é admirável! – Louise continuou. Surpresa, a garota a encarou. Sentia o rosto coberto de sardas esquentar diante os elogias dela.

— Mas... Não se compara com os seus pertences, senhorita.

— E quem disse que é preciso comparar? Se você cuida, ninguém tem o direito de lhe falar nada. O que você tem que fazer é mostrar aos outros como o que você tem é valioso. – Louise exclamou, enquanto levanta a cabeça e esboçava um sorriso de canto. 

— Acho que tem razão, obrigada. Estou lisonjeada por seus elogios, senhorita.

— Disponha! Posso sempre dar dicas sobre tudo.

Amelie acabara de presenciar muitos fatos curiosos em um período muito curto de tempo. Seu choque era visível pelo tamanho de seus olhos e uma pequena entrada em sua boca. 

— Mas ainda acho que falta um toque na sua boneca... Aqui, pegue isto.

Louise estendeu um lenço de seda para a menina.

— Mas... Por que?

— Ora, detalhes são muito importantes! Enfeitar ela da maneira que puder para atrair atenção. Temos aulas de costura também, você pode até mesmo fazer algo para ela com o lenço.

— Mas, senhorita, seda é algo caro para eu usar assim.

— Exatamente! Vestidos são feitos de seda, você pode fazer uma peça única para sua boneca, e ainda colocar uma fita como acessório. Entendo muito sobre moda, então tenho certeza que ficara muito bom!

Louise desconversou totalmente a pergunta, mas ela acabara de entregar um item que não era de fácil acesso.

Talvez... Só talvez, ela fosse digna de ser observada mais de perto, pensou Amelie.

Capítulos
1 Lille, França - 06 de janeiro de 1881
2 Capítulo II — Uma estrela sem nome
3 Capítulo III - Em busca da estrela
4 Capítulo IV – Mente nublada
5 Capítulo V – A figura misteriosa
6 Capítulo VI – Fora de si
7 Capítulo VII – Perdendo a sanidade?
8 Capítulo VIII – Medo do desconhecido
9 Capítulo IX – Não julgue um livro pela capa
10 Capítulo X – A força na união
11 Capítulo XI – Efeito dominó
12 Capítulo XII – Desgraça eminente
13 Capítulo XIII – O mau desperta
14 Capítulo XIV – A culpa corrói
15 Capítulo XV – A dor na vida, e mesmo depois dela
16 Capítulo XVI – Mente quebrada
17 Abertura do capítulo XVII – O pesadelo se torna realidade
18 Capítulo XVII – Mal invisível
19 Capítulo XIX – O que me falta, você completa
20 Capítulo XX – Coração cruel
21 Capítulo XXI – Hipocrisia
22 Capítulo XXII – Encurraladas
23 Capítulo XXIII – Buscando a força interior
24 Capítulo XXIV – Quero ser útil!
25 Capítulo XXV – Estaca Zero
26 Capítulo XXVI – A Chave de Ouro
27 Capítulo XXVII – O covil da bruxa
28 Capítulo XXVIII – A figura encapuzada
29 Capítulo XXIX – Entidade maligna
30 Capítulo XXX – Indisciplinada
31 Capítulo XXXI – Perda Irreparável
32 Capítulo XXXII – Descendente de bruxas
33 Capítulo XXXIII – O pesadelo da vida real de Sophie
34 Capítulo XXXIV – Dimensão Invisível
35 Capítulo XXXV – Abismo
36 Capítulo XXXVI – Sem volta
37 Capítulo XXXVII – Indo a caça
38 Capítulo XXXVIII – O porão
39 Capítulo XXXIX – Aquele que se agarra
40 Capítulo XL – Não perderei outra amiga!
41 Capítulo XLI – Contra o tempo
42 Capítulo XLII – Perdidas
43 Capítulo XLIII – Não é justo!
44 Capítulo XLIV – A única que conseguiria traduzir
45 Capítulo XLV – Irmãs de alma
46 Capítulo XLVI – Prontas para seguir
47 Epílogo
Capítulos

Atualizado até capítulo 47

1
Lille, França - 06 de janeiro de 1881
2
Capítulo II — Uma estrela sem nome
3
Capítulo III - Em busca da estrela
4
Capítulo IV – Mente nublada
5
Capítulo V – A figura misteriosa
6
Capítulo VI – Fora de si
7
Capítulo VII – Perdendo a sanidade?
8
Capítulo VIII – Medo do desconhecido
9
Capítulo IX – Não julgue um livro pela capa
10
Capítulo X – A força na união
11
Capítulo XI – Efeito dominó
12
Capítulo XII – Desgraça eminente
13
Capítulo XIII – O mau desperta
14
Capítulo XIV – A culpa corrói
15
Capítulo XV – A dor na vida, e mesmo depois dela
16
Capítulo XVI – Mente quebrada
17
Abertura do capítulo XVII – O pesadelo se torna realidade
18
Capítulo XVII – Mal invisível
19
Capítulo XIX – O que me falta, você completa
20
Capítulo XX – Coração cruel
21
Capítulo XXI – Hipocrisia
22
Capítulo XXII – Encurraladas
23
Capítulo XXIII – Buscando a força interior
24
Capítulo XXIV – Quero ser útil!
25
Capítulo XXV – Estaca Zero
26
Capítulo XXVI – A Chave de Ouro
27
Capítulo XXVII – O covil da bruxa
28
Capítulo XXVIII – A figura encapuzada
29
Capítulo XXIX – Entidade maligna
30
Capítulo XXX – Indisciplinada
31
Capítulo XXXI – Perda Irreparável
32
Capítulo XXXII – Descendente de bruxas
33
Capítulo XXXIII – O pesadelo da vida real de Sophie
34
Capítulo XXXIV – Dimensão Invisível
35
Capítulo XXXV – Abismo
36
Capítulo XXXVI – Sem volta
37
Capítulo XXXVII – Indo a caça
38
Capítulo XXXVIII – O porão
39
Capítulo XXXIX – Aquele que se agarra
40
Capítulo XL – Não perderei outra amiga!
41
Capítulo XLI – Contra o tempo
42
Capítulo XLII – Perdidas
43
Capítulo XLIII – Não é justo!
44
Capítulo XLIV – A única que conseguiria traduzir
45
Capítulo XLV – Irmãs de alma
46
Capítulo XLVI – Prontas para seguir
47
Epílogo

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