— Sim, pai.
Dan se afundou em vergonha após confirmar a palavra de Otilo.
Otto passou por perto desse momento e se encheu de ódio ao ouvir isso. Ele havia notado certa perturbação nos olhos de seu pai e isso o fez confiante de que esse relacionamento estava com os dias contados.
Durante as refeições ele não via em Dan nada além de indiferença. Como estavam juntos agora?
João pensou que isso já era o esperado. Todos os dias em que chegava ao hospital encontrar o casal dormindo abraçado. Era evidente que se tornaram mais próximos depois desse acidente.
O café terminou com um total ar de constrangimento. Nenhum dos quatro presentes queria continuar esse assunto e nem tiveram ânimo para começar um novo.
— Dan, você já consegue ir à cidade?
João perguntou a ela em particular.
— Creio que sim. Do que o senhor precisa?
— Quero comprar algumas coisas para você.. Hum… roupas.
— Roupas?
Dan olhou para suas roupas. Desde o hospital ela só veste pijamas o dia inteiro por
conta das lesões.
— Eu tenho roupas, seu João. Além das que me deu, Otilo também comprou algumas.
— Quase tudo pijamas.
— Não quero que gaste comigo, já dei muito trabalho e gasto ao senhor e ao Otilo.
— Deixe de ser teimosa, eu sei que você precisa de roupas.
— Desculpem a minha intromissão. Acabei de ouvir sem querer.
Era Otilo a se aproximar.
— Amanhã devo levar a Dan ao retorno no hospital, vamos aproveitar a viagem e comprar tudo que ela precisa. Inclusive, seu João, quero conversar com o senhor sobre a conta no hospital. Eu liguei lá e soube que o senhor
pagou por tudo, aqui está um cheque no valor da conta.
— Eu não preciso Disso, Otilo.
— Por favor, aceite, Dan agora é minha responsabilidade.
— Sua responsabilidade, mas não anula o que ela é para mim. Não, não receberei nenhum centavo do que gastei com minha filha.
Artur ouviu isso e se encheu de ira, mas não podia fazer nada. Ainda se punia por ter sido tão fraco e ter derrubado Dan, isso poderia ter custado muito a ele. Sabia que Dan não o denunciaria, mas estes dois estavam MUITO desconfiados dele.
Otilo os acompanhou a ir até a secadora e Dan prefere ficar em casa. Foi até a cozinha, uma das duas funcionárias estava lá.
— Bom dia, Marta.
— Bom dia, Dan, como está hoje?
— Estou bem.
— Não é o que parece, está pálida e seus olhos tristes.
— Hum… Eu estou sentindo algo muito forte aqui dentro.
Ela apertou o peito esquerdo com o punho cerrado.
— Seria na alma?
— Acho que é… Eu sempre senti, mas agora que não estou trabalhando, fica mais difícil
vencer.
— Você deveria procurar ajuda.
-Como assim?
— Um tratamento com um psicólogo. Pelo que eu vejo em você, deve estar com depressão. Eu já tive e sofri bastante, se não fosse a ajuda do meu esposo e a terapia, só Deus sabe onde eu estaria agora.
— Eu acho que terei que ceder e fazer essa consulta, não posso continuar dando trabalho
ao Otilo.
— Faça isso, vai ver como se sentirá melhor.
— Obrigada pelo conselho.
Marta é uma mulher de 32 anos, gordinha, porém alta. Pele clara e cabelos pretos e lisos. Tem sido gentil com Dan desde que ela chegou aqui.
Os visitantes vieram para o almoço, mas Dan estava dormindo e não participou. Otilo estava preocupado e foi até o seu quarto assim que despediu os dois.
Ela dormia abraçada bem forte ao travesseiro. Sua testa mostrava tensão. Ele tocou em seu ombro.
-Dan?
-Pai?
— Não, sou eu...
-Otilo…
Ela abriu os olhos devagar.
— O anel que você me deu, eu perdi no mesmo dia. Não foi de propósito, quando me dei conta, não estava mais comigo.
— Está tudo bem, era folgado, por isso perdeu com facilidade. Amanhã a gente compra um certinho no seu dedo.
Dan ainda estava bêbada de sono e falava do anel por haver sonhado com ele enquanto dormia.
— Eu pedi pra não me envergonhar na frente do seu João, por que disse a ele que estamos… juntos?
— Desculpe, eu só fiquei com medo do seu pai te levar embora.
— Não quer que eu vá embora?
-Não.
Dan reuniu forças e se sentou na cama.
— Eu quero consultar com o psicólogo.
“Que garota aleatória, meu Deus!”
— Amanhã em Pontília?
-Se possível, sim.
— Como foi essa noite? Teve pesadelos?
-Não, eu não tive.
“Mas, também não dormi.”
— Eu já estava achando que era o seu remédio, que convencido eu fui.
Dan o olhou sem saber o que responder.
— Eu estou brincando com você, Dan.
— Você não parece bem. Está com problemas?
“Que menina observadora, pena que não entende nada das coisas do coração.”
— Alguns, mas não tenho dúvidas de que resolverei todos.
— Eu sinto que estou atrapalhando o seu trabalho.
— Não está. Eu meio que estou treinando o meu filho para gerenciar os negócios, então quando eu paro, os negócios não param.
— Hum…
Dan não conseguiu olhar diretamente para ele. Ficava constrangida.
— O que você sente por mim, Dan?
Ela levou a mão aos cabelos e nesse mesmo movimento os olhos.
-Eu não sei...
Otilo segurou o queixo dela antes que ela baixasse os olhos novamente.
— Quando estamos juntos assim, o que você sente? O que deseja fazer?
— Eu… Quero ir pra bem longe…
Otilo congelou nesse momento.
— Mas, ao mesmo tempo, quero ficar perto.
Ela terminou a frase segurando a mão dele que prendia seu queixo.
— Mas você sempre foge quando chego perto, tem certeza que quer ficar perto?
Ele manteve-se sem tirar os olhos dela.
Dan fica nervosa e fecha seu semblante.
— Não faz isso, não me confunde desse jeito.
— Está me deixando nervosa.
— Eu estou nervoso há dias. Você tá virando minha cabeça ao avesso.
Dan se inclinou e o abraçou afundando sua cabeça no peito dele.
— É isso que quero fazer quando estamos juntos.
Respondeu com a voz fina e sem a força de sempre.
Otilo correspondeu o abraço e a apertou.
— Você quer mesmo ser a minha esposa?
-Quero.
— Espero que não mude de ideia, porque estou muito apaixonado.
A noite chegou e Dan preparou suas coisas para a viagem no dia seguinte, foi avisada que poderia precisar dormir em Pontília. Preparou uma pequena bagagem numa bolsa que ganhou de presente de Otilo enquanto estava internada.
Ela estava com medo de tudo que aconteceria dali para frente, mas a cada dia a ideia de se casar se mostrava melhor e mais desejado.
Assim que terminou de arrumar suas coisas, foi ao quarto de Otilo.
— Entre.
— Já arrumou suas coisas?
Ela perguntou escorada na porta aberta.
— Sim, acabei agora mesmo. Entre.
Soltou a porta e caminhou até ele. Otilo estava no sofá assinando alguns documentos.
— Precisa de algo?
Ela negou com a cabeça assim que sentou ao seu lado. Vestia pijama e calça e camiseta manga longa. Inclino a cabeça encostando no ombro de Otilo.
-Quer conversar?
— Não. Pode terminar o que está fazendo.
Ele obedeceu e terminou de rever e assinar seus papéis. Logo notou que ela já estava dormindo. A levou pra cama e se deitou junto dela.
“Continua-me revirando de ponta a cabeça, essa menina danada! Como vou conseguir dormir assim com ela, sabe lá Deus por quanto tempo?”
Dan teve uma noite de sono tranquilo e acordou assim que Otilo se levantou.
-Bom dia, querida.
— Bom Dia. Vou me arrumar, tá bom?
-Tá.
Dan veste a calça xadrez que ganhou de João, uma camiseta branca e cardigã preto por cima. As feridas estavam quase cicatrizadas, mas a aparência ainda era horrível.
Durante o café da manhã, soube que Otto iria junto, já que tinha alguns negócios para resolvedor.
Dan viajou no banco de trás, silenciosa como uma planta, enquanto Otilo e seu filho discutem negócios.
O primeiro destino foi o hospital onde Dan esteve internada. Otto deixou os dois lá e foi cuidar dos seus assuntos.
— Você está ótima, Dan! Parabéns pela recuperação. A costela já está quase 100%
Dizia avaliando o raio-x recém tirado.
— As feridas estão todas fechadas e em alguns dias estarão 100% também.
— Que notícia maravilhosa.
Vibrou Otilo.
— E o seu sono, como está?
— Ela ainda tem dificuldades, mas aceitou consultar com o psicólogo.
Respondeu Otilo.
— Isso é ótimo, você vai gostar.
1 hora depois Dan estava na sala com o psicólogo.
— Fiquei feliz que me procurou, Dan.
— Eu preciso de ajuda.
Confessou.
— Me conta, o que mais te aflige agora?
— Eu estou muito cansada. Muito mais do que quando eu trabalhava o dia inteiro. Tenho pesadelos a noite e eles me perturbam ao longo do dia inteiro. Sinto uma dor muito forte dentro de mim, mas não é no meu corpo,
parece que é... na alma.
— Entendo. Há quanto tempo sente essa dor?
-Há muito tempo.
— O que mais te incomoda? Me fala o que quiser sobre qualquer coisa na sua vida, estou aqui pra te ouvir.
— Não é fácil estar aqui.
— Eu sei que não, Dan, mas em breve você vai se sentir mais confortável, como as primeiras consultas são mais difíceis, a gente precisa se conhecer e criar uma ligação para encontrar o melhor caminho para você se livrar dessa dor.
— E tem como se livrar dela?
— Tem, sim, e a gente vai encontrar esse caminho juntos.
-Está bem.
— Você tem 19 anos, correto?
-Sim.
— Mora com quem, Dan?
— Atualmente eu moro com o meu noivo e o filho dele.
— Interessante, quer falar sobre o seu noivo?
— Agora não.
— Com quem morou antes?
— Com o meu pai. E a minha irmã. Faz alguns anos que ela se mudou para a capital para estudar e eu fiquei só com o meu pai. Moramos numa fazenda no município de Palmeiras.
-Como é o seu pai?
— Um homem muito sofrido e de coração endurecido. Eu me forço a acreditar que quando minha mãe era viva, ele era um homem alegre.
-Sua mãe morreu?
— Sim, durante o meu parto.
— Nossa! Eu sinto muito, Dan.
— Eu também sinto. Foi o meu pior castigo.
-O quê?
— Ter nascido ao custo da vida dela. Eu não consigo me perdoar por isso, é a maior razão da minha dor na alma. O meu pai jamais conseguirá me perdoar, nem ele, nem a minha irmã.
— Dan, você não tem culpa!
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Atualizado até capítulo 95
Comments
Jussana Soares
a dor dela está bem longe de acabar,pelo que percebi o filho dele tmb vai fazer a vida dela um inferno
2025-02-03
2
Beth Silva
tomara que esse filho de Otília não tente atrapalhar o relacionamento dele com Daniela
2025-02-05
0
ROSIMEIRE DA CONCEIÇAO FRANÇA
Dan vc não tem culpa pela morte de sua mãe
seu pai que é um sem coração
2025-02-27
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