"Será que o meu pai vai querer ficar aqui no hospital comigo?"
Isso a perturbou por vários minutos até que João retornou ao quarto.
— Como está se sentindo, Dan?
— Estou bem. Onde está o meu pai?
— Otilo o chamou para ir até a fazenda.
— Eles foram embora?
— Sim. Dan, O Otilo me falou dos seus exames, você está com anemia e início de gastrite. Como pode se alimentar tão mal, minha filha? Tem cálculos na vesícula e nos rins, por sorte ainda estão pequenos. Por Deus, Dan!
— Eu sinto muito.
— Dan, eu estou no meu limite, tenho respeitado as suas vontade até aqui, mas não dá mais! Você é como a filha que eu nunca tive, como um pai pode assistir à filha ser maltratada dessa forma e não fazer nada?
— Seu João...
— Eu tive vontade de matar o teu pai hoje!
— Velhote...
Dan falou com a voz fraca.
— Eu prefiro ser odiado por você, contanto que seja livre desses maus tratos.
— Não faça nada, eu estou bem perto de me livrar disso, eu vou me casar com o Otilo!
— Casar?
— Sim.
— Mas... Acabaram de se conhecer.
— Ele é uma pessoa decente e gosta muito de mim. Eu sinto que estarei protegida ao lado dele.
— Não vai se casar apenas para se livrar do seu pai, você tem a mim. Não permitirei que acabe com sua vida dessa maneira.
— Casamento é tão rui assim?
— Não é isso. Um casamento pelos motivos certos são uma benção, mas pelos motivos errados, uma maldição. Se você não gosta dele, não irá dar esse passo tão arriscado, a menos que seja por cima do meu cadáver!
— Seu João...
Dan começou a chorar.
— Desculpe, acabei me exaltando, mas não retiro nenhuma das palavras que acabei de falar.
Otilo retornou no final da tarde.
— Como está você, Dan?
— Bem, obrigada.
— Ela dormiu bastante a tarde, acordou agora.
Contou João.
— Se alimentou direito?
— Sim, ela comeu bem.
— Trouxe isso para você.
Otilo entregou uma caixa de Donut's recheados. Os olhos de Dan brilharam ao abrir.
— Muito obrigada!
João os deixou com resistência. Gostaria de ficar com ela em todo o tempo.
— E o meu pai, Otilo?
— Está bem, estivemos juntos pela manhã e ele foi para casa.
Ele sentou em sua cama e a abraçou com cuidado e então beijou a sua face. Ela se sentiu incomodada, não era de seu hábito receber nenhum tipo de carinho. Encolheu-se e ele notou.
— Te machuquei?
— Não. Aceita um Donut's?
Ela levou um na sua direção. Ele abriu a boca e ela se sentiu confusa. Ele esperava que ela o desse na boca? Sim, Dan ficou corada enquanto o alimentava na boca.
— Hum, está deliciosa.
Pela primeira vez, Dan olhou bem para o rosto do seu noivo. A sua barba era espessa e bem cuidada e sua boca possui lábios levemente cheios e vermelhos. Observava isso quando o percebeu se aproximar demais e quando se deu conto a boca dele estava chegando na sua. Ela se inclinou um pouco e tapou a boca dele. Otilo sorriu e dispensou um beijo em seus dedos.
— Desculpa, é que seus olhos estavam tão fixos na minha boca que achei que você quisesse.
Dan arregalou os olhos e os desviou rapidamente.
Mais uma vez, Dan foi atormentada por pesadelos durante a madrugada e aconteceu o mesmo da noite anterior.
Pela manhã, Otilo sugeriu uma avaliação com psicólogo, mas Dan recusou. Otilo insistiu, mas a consulta foi em vão. Dan não disse uma palavra ao profissional depois que ele se apresentou.
— Não seja tão teimosa! Essa conversa te faria bem, está sendo assombrada por algum coisa todas as noites, se continuar assim, vai ficar ainda mais doente.
João tentou, mas nem mesmo ele teve sucesso.
Depois da quinta noite com a mesma ocorrência, Dan já estava desgastada.
— Dan, por favor, converse comigo, eu posso te ajudar com seu problema de sono.
O profissional de psicologia insistiu mais uma vez.
Otilo saiu chateado com a recusa dela. Como nos outros dias voltou a sua fazenda.
— Dan, me conta o que está acontecendo. Por que está tendo tantos pesadelos e acordando transtornada?
João ainda insistia.
— Eu não sei. Acho que sonho com a queda do cavalo.
— Precisa quebrar essa barreira e se abrir com um profissional, isso pode ser sério!
— Eu vou ficar bem.
— Bom dia!
Entra o médico que a tem acompanhado.
— Bom dia.
— Pronta para ir para casa, jovem?
"Casa?"
Dan engole em seco.
— Ela já está liberada?
— Sim, senhor. Avaliei com cuidado todos os exames e não vejo porque ela continuar aqui, só precisa tomar todas as medicações prescritas com rigor e ter repouso, bastante repouso para se recuperar bem e rápido.
Dan nem ouviu a última parte da fala do médico. Estava mais preocupada com a sua volta para casa.
— O senhor pode ligar pro Otilo?
Dan pediu a João.
— Sim.
João tentou algumas vezes, mas estava sem sinal.
Convenceu Dan a tomar um banho e se trocar. Ela colocou a calça xadrez que ele trouxe e a blusa sem mangas com o cardigã por cima.
Reuniram todos os seus pertences e em alguns minutos estavam na caminhonete de João.
— O senhor pode me fazer um favor?
— Claro!
— Pode me levar até o Otilo?
— Para quê?
— Eu preciso conversar com ele.
— Estiveram juntos até essa manhã.
— Por favor, é importante.
— Está bem.
Mesmo contrariado, em uma hora e pouco de estrada, estavam na propriedade de Otilo. Chegando em frente a sua casa, Dan notou a ausência da caminhonete e deduziu que estivesse fora. Perguntou a um funcionário que estava passando e este respondeu que Otilo estava no escritório.
— É logo ali. Dan mostrou a direção a João e seguiram até lá.
Dan ficou petrificada ao ver a caminhonete do seu pai estacionada na frente do escritório.
— Você está bem, Dan?
João a observou paralisada.
— Sim, estou bem. Pode ir chamar o Otilo, estou cansada para sair do carro.
— Está bem.
João saiu do carro e foi até a porta do escritório. Era de vidro e Otilo, ao sair de sua sala naquele momento, avistou Dan.
— Seu João, o que fazem aqui?
— Dan recebeu alta.
Otilo passou por ele e caminhou na direção de Dan. Abriu a porta dela e a cumprimentou.
— Oi, não imaginei que sairia ainda hoje.
— Pois é, nem eu.
— Que bom que veio até aqui.
— Eu precisava conversar com você...
— Minha filha!
Artur se aproximou num grande alvoroço obrigando Otilo a dar abertura para ele se aproximar dela.
— Oi, pai. Como o senhor está?
— Bem, apenas com muitas saudades suas. Já está de alta mesmo?
— Sim.
— Que maravilha! Aposto que você está morrendo de saudades de casa!
Os olhos de Artur brilhavam de contentamento. Otilo e João se perguntavam se não se tratava de um maníaco. Como pode ser tão hipócrita com a filha a qual maltratou por tanto tempo?
Dan olhou para Otilo com um olhar que remetia uma súplica. Otilo não sabia se era real ou coisa de sua cabeça, ela sempre procura manter suas emoções em oculto.
— Estou, sim, pai, mas o Otilo...
Como ela diria tal mentira? Especialmente na frente de João, que absurdo. Estava a um passo de desistir quando recebeu apoio.
— Pedi que ela fique aqui enquanto se recupera. Estive em aflição esses dias em que ela esteve internada e quero ter certeza de que ela se recupere bem.
— Entendo sua preocupação, mas quem melhor que um pai para cuidar da sua filha doente?
Artur ainda insistia.
— Você poderá vir visitá-la.
Otilo não cedeu.
— Vamos para casa, Dan.
Otilo fechou a porta dela e entrou pela porta traseira. João dirigiu até em casa. Artur os seguiu no carro dele.
As coisas de Dan foram colocadas num quarto de frente para o quarto de Otilo. Ela se sentia muito cansada da viagem e ficou deitada.
— Vou ficar um pouco com você, filha.
Artur estava desconfiado que estavam protegendo sua filha dele mesmo e precisava ter certeza disso.
— Está bem, pai. Quero mesmo saber como andam as coisas na fazenda.
O seus dois protetores não viram saída senão os deixar.
— Andam bem, contratei um funcionário para trabalhar no trator e outro para cuidar do gado. Agora o serviço vai render já que você mais dormia do que trabalhava.
— Como assim?
— Acha que eu sou idiota? Que não sabia que você passava o dia fingindo que estava trabalhando, fazendo o mínimo e dormindo tudo que podia.
Dan não conseguia entender de onde seu pai tirava essas acusações. Ela nunca fez tais coisas de que era acusada.
— Sua irmã não está errada quando te chama de cobra sorrateira. Sempre fingindo inocência, sempre mostrando não querer, mas no oculto consegue tudo o que quer. Não foi difícil conquistar o Otilo, conseguiu até ficar internada no melhor hospital de Pontília. O que você não é capaz de arrancar desse homem?
— Por que pensa tão mal de mim, pai?
— Você não me engana, cobra. Tenho toda certeza de que foi você quem se convidou para vir para cá!
Dan gostaria de perguntar porque ele a odeia tanto, mas já tem a resposta, para quê se ferir mais ainda?
— O senhor é um homem cruel, nem que eu viva 100 anos sob seus pés, conseguirá descarregar todo o seu ódio.
Artur ergue a mão para esbofeteá-la.
— Não se atreva, agora eu tenho quem me proteja e o senhor nunca mais poderá me tocar.
— Maldita, onde encontrou coragem para me enfrentar dessa maneira?!
Os olhos de Artur se encheram de ódio.
Dan poderia dizer que foi nas noites de pesadelos em que revivia o momento em que foi lançada de um cavalo a toda velocidade, ou no apoio que recebeu de João e Otilo, ou na sua falta de forças para continuar sendo maltratada. Já se aproximava dos 20 anos e nada do que fez por sua família esses anos todos, foi o suficiente para que a perdoassem por tirar a vida de sua mãe.
Mas a sua mente ainda era alienada e nesse momento, tudo que mais temia é que João cumprisse sua palavra e se lançasse contra Artur.
O olhava com o semblante neutro, nenhuma emoção ou pensamento explícito em seus olhos.
— Quando ele te descartar, veremos aonde vai para essa sua ousadia!
Artur a deixou, finalmente.
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Atualizado até capítulo 95
Comments
ROSIMEIRE DA CONCEIÇAO FRANÇA
misericórdia mesmo que pai é esse
um monstro
2025-02-27
0
Anonymous
Será que existe um pai assim? Misericórdia!
2025-02-14
0
Maria Ida Duarte
esses dois deviam fuçar ouvindo atrás da porta
2025-01-28
0