Mal desceram da caminhonete, Ávila avançou na irmã e lhe deu alguns tapas na cara, Dan tentou defender seu rosto, mas não revidou em nenhum momento. Foram tantos xingamentos que Dan já nem conseguia ouvir mais nada. Sequer percebeu quando sua irmã arrancou seu anel e jogou bem longe.
Precisava tratar dos animais, deviam estar famintos após tanto tempo sem comer. Assim que terminou voltou para casa, precisava trocar de roupas.
- Dan\, vá gradear e não volte até a tarde.
Artur ordenou assim que a viu. Já estava perto do horário do almoço. Ela pega uma garrafa pet e enche de água da torneira.
Quando retornou no fim da tarde, seu pai estava preparando um frango caipira para o jantar. Dan estava com bastante fome, nas refeições na casa de Otilo, embora a comida fosse gostosa, se disciplinou a comer o mínimo possível para não aborrecer seu pai e o prato que ele trouxe no quarto era bem pequeno. Seguiu para o banho e vestiu seu pijama de calça e camiseta azul-claro. Criou coragem e foi até a cozinha na esperança de jantar.
Artur havia saído por um instante e Ávila chegou logo atrás dela. A viu espionando as panelas e debochou:
— Parece delicioso esse franguinho, não é mesmo?
— Sim.
— Mas você não vai comer nem um pedacinho dele, meu pai fez só para mim. Cai fora logo!
— Estou com muita fome.
Dan estava trêmula de fome.
— Pouco me importa, por mim já teria morrido de fome!
Dan sai pela porta da cozinha e foi caminhar ao relento. Encontrou algumas goiabas nas goiabeiras em frente de casa e as comeu. Trabalhou o dia inteiro pensando no que aconteceu de manhã. Otilo só podia estar ficando louco!
"Aonde isso vai dar?"
"Que velho maluco!"
Dan observa quando a cozinha fica vazia. Sabe muito bem que não sobrou nada do jantar, eles sempre jogam para os cães o que não conseguem comer.
Não poderia dormir sem comer algo, certamente passaria o dia seguinte na grade outra vez.
Entrou sorrateira pela porta dos fundos da cozinha e colocou meia dúzia de ovos para cozinhar.
Artur percebeu a movimentação, mas não se atreveu a impedi-la.
Na manhã seguinte de segunda-feira, Artur partiu bem cedo para Palmeiras com Dan. Ela precisava pegar um ônibus as 7 horas. Dan cozinhou mais alguns ovos e levou com uma garrafa de água fresca. Trabalhou quase o dia inteiro no trator e, no meio da tarde parou para selar seu cavalo e ir verificar os rebanhos.
Do pasto já seguiu para a fazenda de João. Haviam passagens na divisa das terras já que eram muito próximos.
— Boa tarde, velhote!
— Boa tarde, Dan.
— Como foi o seu fim de semana?
— O de sempre.
— Eu fui visitar a fazenda do seu Otilo com meu pai e minha irmã.
— Humm...
Dan buscava coragem para contar sobre o pedido de casamento.
— Quer me dizer alguma coisa?
João notou a sua inquietação.
— Eu acho que não.
— Ele tentou alguma coisa com você?
João ficou apreensivo.
— Quem?
— Ora quem! De quem estamos falando Dan?
— Não me deixe nervosa, velhote.
— Por que estaria nervosa? Diga-me o que aconteceu, seu que o seu pai não te protegeria se alguém tentasse te fazer mal, mas eu mataria um fácil.
Dan olhou para a figura daquele que ela desejava que fosse o seu verdadeiro pai e se sentiu emocionada. Não poderia esconder seu possível casamento dele.
— Ele me tratou bem, seu João. Assim como o senhor me trata.
Acrescentou buscando coragem para dizer de uma vez. Então outro funcionário de João apareceu e o assunto morreu. Ao terminar a apartação, Dan correu para casa.
Seu pai não lhe deu atenção alguma nem lhe dirigiu palavra.
No silêncio do seu quarto abriu seu diário.
Diário
Olá, quero contar do fim de semana, ms estou tão cansada. Posso acabar adormecendo.
Eu, meu pai e minha irmã fomos visitar a fazenda do seu Otilo, o que conhecemos na festa de vaquejada.
Meu pai está mesmo interessado em se envolver com agricultura, justo agora que estou reformando os pastos. Não sei o que ele planeja, nosso ramo nem está ruim, o problema deve ser as dívidas que ele vem acumulando.
Foi um terror assistir meu pai pagar sapo para aquele homem rico o dia inteiro. Nunca tinha visto minha irmã tão deslumbrada também, senti o maior vexame da minha vida no meio deles.
Eu achei os seus cavalos muito lindos, senti uma vontade enorme de montar um deles e correr por aquelas paisagens lindas da fazenda, ainda bem que me contive
Ficou evidente no fim do sábado que eles planejavam dormir lá e não me contaram nada. Não havia levado sequer uma escova de dentes, então o seu Otilo, que me tratou de forma gentil o dia inteiro, me deu algumas coisas para eu tomar banho, até mesmo xampu, e ainda conseguiu roupas para eu vestir a noite.
Eu devia ter notado as sutilezas dele, suas intenções, agora que paro para pensar, eram muito claras. Sinto vergonha em confessar diário, mas eu vacilei e ele me embebedou com um vinho muito bom, disse que era um vinho especial e eu gostei e fui bebendo. Ai que burra que fui, ela poderia ter se aproveitado de mim e ninguém nem saberia, talvez nem eu mesmo lembraria, porque no ritmo que eu estava bebendo, logo perderia a consciência.
Enfim! Isso não foi o pior do fim de semana. No café da manhã de domingo, do nada o seu Otilo veio até mim na mesa e me pediu em casamento.
Não escrevi errado, é isso mesmo! O velho que conheci há pouco mais de uma semana disse que gosta de mim e me pediu pra ser a esposa dele.
Tenho muito pra escrever, mas estou com sono...
Minha irmã ficou furiosa e me bateu. Meu pai tem se contido, mas não tá nem olhando na minha cara.
Boa noite diário.
Dan precisava levar combustível para o trator para iniciar seu dia de trabalho, como estava gradeando na extremidade sul da fazenda não compensava trazer o trator para o galpão. Pegou os galões e carregou a caminhonete. Estava fechando a carroceria quando notou uma caminhonete se aproximando, pelo símbolo na lateral já sabia se tratar de Otilo.
"Ele não pode ter falado sério!"
Dan estremeceu. O galpão onde ela estava ficava a cerca de 400 metros da casa, pensou em fingir ignorar a chegada dele e ir embora, mas sabia que isso só deixaria seu pai irado e eles ainda iriam atrás dela.
— O que eu faço?!
Levou a mão direita a cabeça e então se lembrou do anel. Como explicaria que o perdeu?
Em menos de 5 minutos, Otilo e Artur chegaram até ela.
— Bom dia, Dan!
— Bom dia, senhor.
Otilo estendeu a mão para ela, constrangida estendeu a sua também. Otilo notou a ausência do anel, mas não esperava mesmo que ela estivesse usando, estava muito atordoada quando deixou sua fazenda no domingo.
— O que está fazendo?
— Tenho que levar combustível para o trator.
— Faz esse tipo de trabalho sozinha?
Otilo não podia acreditar, era demais pra uma garota de 19 anos, tão frágil e magrela um trabalho tão braçal.
— Vamos para casa servir um café ao nosso convidado, filha.
Artur se sentiu embaraçado.
— Eu tenho que levar isto logo, pai, lembra que o senhor tem reunião daqui a pouco na cidade?
De fato, Artur tinha uma reunião no banco para renegociar alguns débitos. Havia contado a Dan há uma semana para que ela o ajudasse a lembrar.
— É verdade, sua mente é infalível! Mas, ainda assim, precisamos receber bem o seu noivo.
Essa última palavra fez Dan engolir em seco.
— Deixe-me te ajudar com isso enquanto seu pai se arruma, em dupla faremos isso mais rápido e tomamos um cafezinho.
Otilo teve a ideia.
— Ótimo! - Disse Artur. - Mas tenham juízo, somos de família tradicional, viu Otilo.
Artur pensou que fingir esse tipo de cuidado paternal o tornaria mais admirável.
— Não se preocupe quanto a isso, respeito muito sua filha. Vamos, Dan!
Ela assistiu Otilo entrar no banco do passageiro e nem podia acreditar. Sentou no banco do motorista, não havia forma de escapar disso.
— Senti sua falta, Dan.
Ela não sabia o que dizer, não podia mentir que sentiu o mesmo.
— Eu tenho trabalhado muito desde que cheguei, mas estou me organizando para tirar mais tempo para você.
— Não se esforce tanto.
— Sei que não desperto interesse em você ainda, mas eu não desisto fácil, me ajude a entender você e eu serei o homem dos seus sonhos.
— Nos meus sonhos, não tem homem, senhor.
Otilo deu uma breve risada silenciosa. Do canto do seu olho, Dan conseguiu ver.
— Que tipo de coisas gostaria de fazer num encontro? A que lugares que ir?
— Pode abrir o colchete, senhor?
— Claro.
Otilo desceu depressa e abriu. Dan gostaria de deixá-lo ali mesmo, mas precisava se conter. Não poderia ir contra seu pai e apenas estava se divertindo tirando o velho de tempo. Ele devia saber que ela não recusaria o casamento uma vez que ela já disse que fazia qualquer coisa pelo seu pai.
— Você já namorou alguém, Dan?
Dan não pode deixar de rir dentro de si mesma. Quem a namoraria? Quem sequer teria interesse por ela a não ser esse velho doido que deixou uma mulher linda como Ávila escapar para se rastejar por uma menina com cara de menino.
— Dan, precisa se abrir comigo, ou desistiu de se casar?
Mais uma vez ele está apelando.
— Só quem pode desistir dessa loucura é o senhor.
— Não me chame mais de senhor, estamos noivos.
Hum,
— E não tem que ser assim. Podemos nos conhecer melhor se você se permitir, eu tenho certeza de que sou capaz de conquistar o seu coração. Se não quiser escolher nada pro nosso encontro, eu mesmo vou decidir.
— Isso é mesmo necessário? Não podemos nos ver só no dia do casamento?
— Você tem pressa em se casar, Dan?
Ele usou de uma dose de sarcasmo e sedução.
- Nenhuma!
Pela primeira vez Dan se sobressaltou. Otilo riu satisfeito por quebrar sua barreira impenetrável mais uma vez.
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Atualizado até capítulo 95
Comments
Beth Silva
se ele tem interesse na Dan tem que quebrar a barreira que existe no coração dela. pois constantemente ela é agredida pelo pai e a irmã.
2025-02-05
0
Beatrizz 🤍
Espero quê ele cuide dela com um homem cuidaria de uma mulher.
2025-02-01
1
ROSIMEIRE DA CONCEIÇAO FRANÇA
gente gostando da leitura
parabéns
2025-02-26
0