Thanatos me olhou, como se tivesse querendo encontrar a resposta certa, mais adequada para minha pergunta, mas parece ter desistido. Pegou na minha mão e voltamos para o carro novamente. O caminho de volta foi silencioso. Eu olhava milhares de pessoas sorrindo no calçadão. Era estranho. Eu estava sentindo uma dor tão grande. Era uma criança. Foi um erro. A paisagem me deixava ainda mais irritada.
— Vou te deixar em casa e irei para o velório do menino. — Thanatos disse sem me olhar.
— Velório? Não. Impossível. Ele tem que ir para o IML. Devem investir a causa da morte dele. — Eu falei nervosa. I
— A causa todo mundo sabe. A dor da pele dele. Se ele tivesse nascido branco. Morasse em um condomínio da zona sul. Pediriam até licença se tivesse que abordar ele. Não precisa ir para canto nenhum. Já resolveram tudo. — Thanatos estava irritado. Devo ter falado uma bobagem.
— Posso ir? — perguntei com o olhar na janela.
— Tem certeza? O clima vai está tenso. Não precisa ir. — Thanatos talvez estava querendo evitar que eu tivesse mais um choque de realidade. Estava sendo assim nos últimos dias.
— Você é um dono de morro muito fofo, alguém já te disse isso? — eu disse sorrindo, mas meus olhos lágrimas caiam.
— Tenta da próxima vez dizer isso tem está chorando. De qualquer, forma, a decisão de ir ou não é sua. Vou em casa só trocar de roupa. Se quiser ir, pode vir. Jade e Letícia já estão lá. Parece que a mãe do garoto não estava nada bem. — Thanatos disse parecendo que estava a cabeça em outro lugar.
Não falei mais nada. Ele conhecia o garoto, deve está controlando as emoções. Enquanto mal consigo ligar com fato. Entrando no morro, o lugar parecia diferente. Lembra os sorriso que via nos becos e ruas? Não existiam. Nem as crianças estavam brincando na rua. Tudo parecia de luto. Meu estômago revirou ao perceber. Que a morte daquele menino, era uma grande pancada para todos de lá. Cheguei em casa, fui direto para o quarto trocar de roupa. Coloquei um vestido longo preto e desci. Thanatos já estava pronto, falava no celular. Ao me ver, apontou para o carro.
Chegamos em uma casa bem humilde, tinha gente do lado de fora, alguns estavam chorando. Outros gritando. Alguns olhavam para o nada. Totalmente desnorteados. Nunca senti uma dor tão grande em um velório, não havia sido o primeiro que eu participava.
— Mais uma vida jogada fora! Porra! Mais um de nós na vala. O que fizemos para Deus? O garoto só queria ser alguém na vida. Acabou perdendo a vida. — Um homem gritava.
— Pedro descansa em paz, mas não se preocupa, não vamos deixar em paz aqueles que te colocaram nessa caixa. — Outro homem gritou.
A dor presente naquele lugar era gigante. Chega a ser sufocante. Ao entrar na casa, o sentimento era uma mistura de dor e indignação. O que esperava? Era um menina de 13 anos, com uma vida inteira pela frente.
— Pedro era tudo para família dele. Vai ser difícil superar a perda. A casa sem ele vai ser um tédio. Ele era o caçula. O bebê. O futuro da família. Acabaram de matar a esperança de dias melhores dessas pessoas. — Ouvi uma mulher dizendo enquanto acompanhava Thanatos. Que não soltava minha mão um minuto.
Não tinha jeito ou remédio. Eu tentava encontrar explicação para qual loucura, parecia um pesadelo. Quanto mais eu pensava, mas chegava a conclusão que não tem volta, por mais que eu pense nisso. Nada fará o coração daquele menino voltar a bater. Ao olhar ao redor era claro, os amigos não aceitam. O irmão mais velho, visivelmente abatido gritava revoltado, tendo que ser segurado. A família não acredita no que aconteceu. Como iriam compreender. Ninguém consegue entender porque o garoto morreu por carregar um guarda-chuva.
— Mano. Não se pode sonhar nesse lugar. Pedro mirava alto. Queria ser grande. Dizia aos quatro ventos que seria doutor e lutaria por nós. Disse que poderíamos ser mais. Que faria que fossemos mais. — Um homem alto, de cabelo branco falou para Thanatos.
— Sim, mano. Mais uma dezenas de sonhos que vão embora, antes da hora. Ele partiu os sonhos que ficam pra trás, mas Pedro mudou muitas pessoas. Tenho certeza que muitos outros vão acreditar e lutar pelo que ele defendia. — Thanatos respondeu olhando para o caixão.
— Caralho! Tiraram da gente um jovem tão inocente. O menino era de ouro. Já viu o estado da família? Todos estão destruídos. A sua avó que era crente, hoje está questionando onde estava o Deus, quando seu neto foi baleado. O pai até parece que envelheceu dez anos de ontem para hoje, era um cara que vivia sorrindo, agora está sério e triste. — O mesmo homem de cabelo branco disse apontando.
— E a mãe simplesmente não conseguiu aceitar. Está agarrada com o corpo desde que chegou. Gritou várias vezes que não queria mais viver. Não iria continuar com sem seu pequeno. Não é natural, filhos irem antes dos pais. Não é justo — Uma moça chorava abraçada com aquele rapaz.
— Até mesmo a nora, esposa do seu irmão mais velho não aguentou. Disseram que tomou tantos remédios que capotou. — Uma ruiva disse para Thanatos.
— Quem é aquela menina chorando tanto olhando para Pedro? — Thanatos perguntou.
— Aquela é Raquel. É a namoradinha. Estavam juntos a pouco tempo, mas juravam que iam se casar quando ficassem mais velhos. — A ruiva respondeu sorrindo, mas seus olhos caiam lágrimas. Na verdade, todos daquele não paravam de chorar.
— Vou falar com dona Marta. Prestar meus sentimentos. — Thanatos disse antes de ir em direção da mulher que chorava no caixão.
— Thanatos? — Letícia se surpreendeu. Nem tinha notado, que ao lado da mulher estava Letícia e Jade.
— Marta, eu não sei nem o que dizer. Eu farei justiça por ele. Prometo por minha vida. — Thanatos falou segurando a mão da senhora.
— Olhando para meu menino, eu só lembro dos planos que fazia. Desde pequeno sonhou grande. Muito riam, mas ele não ligava. Enchia o peito para dizer: "eu quero ser alguém um dia". Pensava no futuro desde bem novo. Insistiu várias vezes que eu deveria aprender a ler. Deste tamanho, tenhou me ensinar. E olha onde ele tá? Será que sonhar vale a pena? — A senhora chorava de soluçar enquanto falava.
— Pedro é grande. E fez diferença na vida de todos que conhecia. Era pequeno, mas a cabeça era para frente. Ninguém podia imaginar o seu destino que o esperava. Dói pensar que foi mais uma vítima de um mundo violento. Me pergunto, se Deus é tão justo, então quem fez o julgamento? Parece que justiça só existe para os brancos e ricos. — Thanatos apertava a minha mão enquanto falava.
— Meu menino adorava viver. Eu não consigo entender. Talvez nem mesmo qualquer resposta vai ser capaz, de trazer de novo a paz à da minha família. Sinto que fomos amaldiçoados. Pedro era uma benção muito grande para nós. Nossas vidas nunca mais serão como antes. Olha meu menino, Thanatos. — Marta disse mostrando uma foto do Pedro com enorme sorriso. — Como posso lidar com a dor de nunca mais ver esse brilho no olhar e o jeitão de criança que ele tinha, mesmo pensando como um adulto. Tudo agora só vai passar de uma lembrança?
— Eu sei que não vai diminuir a dor. Mas tenho certeza que ele esteja bem, seja onde for. Os humanos são injusto, mas Deus é justo. Ele vai dar tudo de melhor para Pedro. Não vai diminuir o vazio que ele deixou, mas é consolador pensar que está bem em um lugar melhor que esse. Seu filho sempre mereceu mais. — Thanatos falou olhando para Pedro. Ele tentava consolar pela fala, mas podia ser notar o ódio consumindo ele por seu rosto.
— Eu tento, sabe, meu filho? Pensar que ele tá com Deus, guardadinho, mas doi, pensar que meu bebê estava hoje pela manhã comigo. Eu até pedi para ele ficar, estava gripado, mas ele insistiu em ir para escola. Quem diria, que estudar levaria meu filho a morte. O que era para ser seu futuro, foi seu final. O que vou fazer em seu aniversário? Eu comprei tudo. É no final de semana. E as suas roupas no armário. Eu tenho a sensação que a qualquer momento ele vai entrar pela porta — Marta desabafou. Thanatos pela primeira vez, desde que saímos da sua casa, soltou minha não para abraçar aquela senhora.
— A tristeza às vezes é tão forte... A dor é maior do que qualquer pensamento. Eu entendo. Não tem palavra alguma que eu disser que vá diminuir a dor ou a falta que Pedrinho vai fazer. — Thanatos estava certo. Que palavra ameniza a dor de perder alguém que amamos? De forma tão abrupta e violenta? Como manter a chama do coração acessa? Talvez a ideia de que um dia se encontrarão novamente, não seja o suficiente.
Thanatos conversou muito com Marta, só se afastou quando viu que ela estava mais calma. Voltou a segurar minha mão. Passou para conversar com o pai do garoto, que não falou muito, bem diferente da mãe que estava em frangalhos. A avó passou mal, teve que ser socorrida, antes que eu pudesse me mover, Letícia já estava com a senhorinha. Thanatos se aproximou do irmão que gritava, estava completamente indignado.
— Não se preocupe. Os que fizeram isso com o Pedrinho vão pagar. Vou colocar todos na sua mão. Assim você fará justiça por seu irmão. Eu prometo. — Thanatos disse ao homem, que parou de gritar na mesma hora e abraçou Thanatos.
— Obrigado, mano. Minha família precisa disso. — O rapaz disse para Thanatos. Que deu uma batidinha nas costas e se despediu.
Eu pensei que ficaríamos um pouco mais, mas assim que falou com todos, Thanatos me levou para dentro do carro. Em segundos estava em casa. Estacionada no garagem. Ele tinha um olhar distante.
— Não vai entrar? — Perguntei confusa.
— Tu sacou como é a realidade do morro? Sabe, vou mandar o papo reto, se tu quiser ir embora daqui, pode me dizer. Eu vou entender. Viver aqui é para os fortes. — Thanatos disse sem me olhar.
— Eu estava com diversas dúvidas, hoje pela manhã. Me assustei a tarde, quando me deparei com Pedrinho e tudo que aconteceu. Eu não quero sair daqui. Ouvi muito que Pedrinho sonhava com mais. Queria mais. Acreditava que a comunidade poderia ser mais. Eu quero provar que mesmo que ele tenha partido, seus sonhos ficaram, não morreram. Não conheci ele, mas entendo o que aquele garoto queria dizer. Eu quero ficar. Quero te ajudar a melhorar tudo isso. — Eu confessei.
— Só relembrando que eu sou o dono do morro. Não sou o herói da história. Sou o bandido. Não iludo ninguém não. Se ficar vai sabendo da real. — Thanatos me olhou sério. Ele parecia absurdamente triste e abalado. Meu coração se apertou. Ele foi apoiou emocional de todos os membros daquela família.
— Vamos entrar? Deixa eu te dar um banho. Depois de um dia como esse, não vai fazer mal tomar banho e descansar um pouco abraçados na cama. Podemos? — Eu sei. Não deveria está me sentindo assim, mas o rosto de Thanatos parecia de quem estava preste as quebrar a qualquer momento.
— Você é absurdamente estranha, mas acho que vou aceitar. Não sei se vale a pena sair de cabeça quente como estou. Talvez consiga mais problemas. — Thanatos disse antes de descer do carro. — Aliás, vai ter que me dar banho nua. Só informando. Preciso de uma boa distração.
Tive uma crise de riso, eu sei, não era o momento, mas foi um alívio sentir que Thanatos estava de volta, pelo menos, uma fração dele. Agora preciso tentar me concentrar para não cair na tentação daquele homem. Só de pensar nele pelado, meu corpo se arrepia todo.
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Atualizado até capítulo 74
Comments
Juliana Soares
gostei de ter trechos da música de Gabriel o pensador pq está é a realidade de muitos por aí
2025-03-01
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2024-12-26
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