Juro, eu beijei o Thanatos com uma coragem que não existia. O Bruno demorou bem mais do que o normal, só com meu medo do que ele diria. Posso ignorar o fato dele ser o dono do morro, mas ele seguia sendo isso. Quando finalmente tive que me afastar por falta de ar, Thanatos me olhou sério, dentro dos meus olhos, antes de sua crise de riso.
— Vaza, vocês. A patroa chegou. E não parece querer me dividir com ninguém. — Thanatos nem olhava para garotas. Pude ouvir elas indignadas se afastando.
— Eu pensei que o senhor estava comprometido. Andam dizendo por aí que você tem uma fiel, mas acho que eu estava enganada. — Eu brinquei.
— Ih! Que ciumenta. — Thanatos fez sinal chamando Jade e Letícia para mesa. — Vieram almoçar?
— Sim, a manhã foi bastante cansativa. — Eu confessei suspirando e indo para cadeira do lado.
— Me disseram que vocês atenderam muita gente, vou pedir algo para a gente comer. — Thanatos levantou a mão.
— Cunhada, você tem um jeito diferente de expulsar piranhas. Quando crescer quero ser que nem você. Eu já chego puxando cabelo e no chute. Você é bem mais delicada, sutil e implacável. Seu método parece melhor. Deixou meu irmão sem fala. — Jade disse rindo.
— Eu fiz nada. Sou totalmente inocente. Será que a comida demora para sair? Temos que voltar antes da 14h. — Alertei olhando para ao relógio em minha mão.
— Já devem tá trazendo. Vou pedir as caipirinhas. Você não vai querer? — Jade perguntou.
— Você vai beber antes de voltar ao trabalho? Está louca? — Thanatos gritou a irmã.
— Hey! Nem de mete. A chefe liberou. — Jade fez careta enquanto pedia aí garçom
— Você está mimado demais minha irmã. Era para ela aprender algo, não beber em pleno dia de trabalho. — Thanatos realmente era engraçado.
— Está tudo bem. É só uma. O dia foi realmente cansativo para aquelas duas. — Expliquei para ele.
— E para você? Não parece tão cansada como elas duas. E algo me diz que você deve ter trabalhado mais que elas. — Thanatos me olhava dos pés a cabeça.
— Todas trabalhamos muito. Dividi tudo entre as três. Cada um teve sua função. Ninguém trabalhou mais ou menos. A diferença, eu já venho no ritmo. É o primeiro serviço sério das duas. Normal cansar tanto. — Eu não podia levar todo o mérito. Eu não teria feito metade do que fiz sem aquelas duas.
Thanatos me olhou um pouco mais, mas logo o almoço chegou. Eu não fazia ideia do que era aquilo na minha frente. Tinha macarrão, almôndegas, acho que molho de tomate e ovo por cima. Não fazia qualquer sentido, mas não podia gritar que loucura de comida era aquela, vendo que todos atacaram o prato assim que chegou. Não tendo opção, acabei colocando um pouco no meu prato também. Por mais louco que fosse, estava delicioso.
— Chefe! Deu ruim. O Pedrinho estava vindo da escola, como estava gripado, a mãe pediu que levasse um guarda-chuva. Na volta, estava vindo com ele na mão, os homens acharam que era um ferro e meteram bala. — Um homem falou. Acho que já tinha visto ele em algum lugar.
— Você pode ajudar ele? Eu vou cuidar desse B.O. — Thanatos estava puto. Nem me esperou responder e saiu.
— Ajudar em quê? Entendi nada. Tradução, produção. — Perguntei confusa.
— Vem! Nós levava até onde Pedrinho tá, Gavião. — Jade me puxou da cadeira com tudo.
Não demorou muito para várias motos aparecerem, nos levaram para clínica. A porta já estava aberta. Eu tinha certeza que tinha fechado tudo. Como eles conseguiram entrar?
— Desculpa, Patroa. Era urgente, então usei a chave de emergência. Colocamos ele em uma das camas. — O tal do Gavião disse enquanto eu descia da moto. Então quer dizer que não sou apenas eu que tenho a chave? Quem será tanto que tem a chave.
— Eu não faço ideia do que está acontecendo. — Insisti. Precisava de uma explicação.
— Pedro foi para escola de guarda-chuva, estava um pouco gripado. Na volta, a polícia confundiu o guarda-chuva com uma arma e atirou nele. Ele é um menino de 13 anos. Um menino tão bom. Não merece nada disso — Jade me explicou nervosa.
— Como alguém confunde um guarda-chuva com uma arma? Isso não faz sentido algum. Tem certeza que foi isso? — Perguntei surpresa. Não fazia sentido.
— Eles atiram primeiro, depois perguntam. É assim que fazem quando encontram um de nós. — Jade gritou.
— Sarah, você não entende, mas vivemos com um alvo em nossas cabeças. A explicação é simples. Só basta pensar um pouco. Não é a primeira e nem muito menos a última vez que acontece por aqui. Vai se acostumando. — Letícia disse entrando com tudo na clínica. Estava vestida de ódio.
— Ainda não faz sentido para mim. É uma criança. Com um guarda-chuva. — Minha mente estava rodando. Como que pode ter acontecido isso.
— Deixe para se questionar depois, primeiro salve o garoto. — Jade me puxava com tudo para a sala de procedimentos.
Quando cheguei, o menino estava branco como papel. Tinha sangue por todo lugar. Não foi um tiro. A roupa do garoto estava toda vermelha e cheia de furos. Tinha uma senhora ao lado dele, orando e segurando sua mão.
— Letícia, pega uma bolsa de sangue para mim 0. — Eu disse me aproximando do garoto — Jade, tirem todos aqui. Preciso de espaço.
Todos começaram a sair, a mãe ficou ignorou todas as tentativas de Jade de tirar ela. Comecei a transfusão de sangue e parti para tentar estacar o sangue. Logo percebi que a pulsação do garoto estava despencando. Tentei com o máximo de medicação que pude para deixar ele confortável e estabilizar seu coração, mas foi inútil. Percebi tarde demais que um dos tiros tinha sido nas suas costas. Tinha atingido o seu pulmão ou coração. Tudo aconteceu em pouco minutos. Eu não consegui salvar aquela criança. Ainda tentei ressuscitar, mesmo sabendo que não conseguiria salvar ele, mas tentando ter esperanças. Tentando fazer minha parte. Em menos de dez minutos, aquela menino, que tinha toda uma vida pela frente, perdeu a vida, em minhas mãos. Por uma confusão da polícia.
A mãe gritava agarrada com o garoto. Jade e Letícia tentavam acalmar ela. Eu estava sentada, em choque. Que realidade é essa que essas pessoas estão vivendo? Podem ser mortas por uma confusão? Não tem medicamento? Alimentação? A água não é tratada? Uma criança de 13 anos acaba de morrer de tiro. Eu não entendo. O que está acontecendo nesse lugar? Porque ninguém faz nada?
— Hey! Vem comigo. — Thanatos disse me puxando da cadeira que eu estava sentada, enxugou minhas lágrimas, que eu nem sequer havia percebido que caia. — Jade, Letícia, cuidem de tudo e fechem a clínica. Sarah não vai conseguir trabalhar mais hoje. Aliás, Jade, pega a Beatriz na escola.
Eu não falei nada. Thanatos me levou até o carro. Limpou o sangue que estava nas minhas mãos. Tirou a blusa que eu estava e vestiu uma dele em mim. Eu estava em choque. Não conseguia dizer nada, apenas chorava. Ele nos levou até a praia. Me pediu para tirar os sapatos. Me levou até o mar. A água batia nos meus pés e voltava.
— Acho que tudo aconteceu muito rápido, né? A realidade do morro bateu na sua cara. — Thanatos disse me abraçando.
— Ele tinha 13 anos. É impossível confundir um guarda-chuva com uma arma. — Eu gritei chorando. Estava com raiva.
— Sim, coloca tudo para fora. Só que ... É algo rotineiro, sabe? Às vezes batem apenas, por absolutamente nada. Apenas encontram a gente no meio do asfalto, nos batem ou matam. Sem muita explicação, apenas fazem o que querem. — Thanatos falou.
— Que merda de superioridade é essa? A polícia deveria proteger! Não matar crianças inocentes por falta de capacidade. Que merda! Uma criança de 13 anos acabou de morrer em seus braços, enquanto sua mãe segurava e orava por ele. Ele morreu! Por absolutamente nada. Apenas morreu. — Eu berrava enquanto minhas lágrimas caiam.
— Eu sei, mas se isso te acalma, todos aqueles que atiraram nele, não vão sobreviver por muito tempo. — Thanatos olhava para o mar, parecia que sua mente estava em outro lugar.
— Eu não sei se isso realmente me acalma. Não acho que violência se combate com violência. — Eu disse surpresa.
— Acha que vai tudo melhorar se distribuir flores ou caminhar por aí com faixas? Não sei se você sabe, mas já fazem isso direto. E continuam mantando como se nós não fossemos nada. Temos dias opções revidamos no mesmo nível ou apenas ficamos esperando a morte chegar. E para ser sincero, não está nos meus planos morrer nas mãos dessa galera. — Thanatos falou.
— Então, você caça todos aqueles que fazem mal a comunidade? — Perguntei surpresa. Será que isso que Jade quis dizer quando falou que Thanatos é o juíz e o carrasco.
— Alguns conseguimos fácil descobrir quem são e conseguimos fazer justiça. Outros é mais complicado. Estão envolvidos com milícias e tem as costas mais largas. Tenho que ser cuidado, não posso colocar toda comunidade em perigo. No caso de agora, eram apenas idiotas. Já consegui o nome de todos e já foram buscar eles. — Thanatos sorriu.
— Você vai realmente matar eles? — Perguntei receosa. Não queria realmente saber a resposta, ao menos tempo que queria. Fico me questionando como todos sorriam tanto, mesmo vivendo essas situações diariamente.
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Atualizado até capítulo 74
Comments
Ingrid Natassia Nascimento de Brito
essa parte de pega sangue pra mim, nem sabe o tipo sanguíneo, ficou sem lógica, autora tem que corrigir aqui, perguntar pra senhora pelo menos o tipo sanguíneo do rapaz pra fazer sentido 😉
2024-11-19
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S Ramos
que realidade cruel 😔
2025-01-25
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Katia Lannes
que livro espetacular parabéns autora amei
2024-09-15
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