Eu tentava entender aquele homem, mas Thanatos era tão confuso quanto o seu linguajar. Ainda terei que fazer um curso intensivo para entender o que ele fala. De qualquer forma, o que eu estou pensando, eu não posso simplesmente abrir mão da minha vida, do que construi até hoje com dificuldade. Ainda mais por algo desconhecido e claramente perigoso. Eu não estava pensando direito. Era certo.
— Sabe que eu já tenho um consultório, né? Tudo que me ofereceu eu já tenho, em um lugar bem mais tranquilo. — Eu não podia simplesmente abrir mão do consultório. Foi difícil conseguir o que tenho. E estamos falando em trabalhar no morro. Ele deixou claro que boa parte do seu intuito é manter ele vivo, enquanto briga de tiro por aí. Isso é impossível.
— Sério? É isso que tu quer? Ficar atendendo playboy? Ou você quer realmente ajudar pessoas? Você parou e me ajudou sem perguntar nada sobre mim. Não parece em nada com os doutores que tentam ficar por aqui, eles nem costumam olhar para os pacientes. Nos tratando como lixo. Quero alguém humano, que possa cuidar dos meus. E eu acho que você é a pessoa certa para isso. Farei com que tenha um consultório ainda melhor que o que tinha. Só precisa dizer o que quer. Aqui você fará uma diferença enorme. Bem diferente do que faz no asfalto. — Thanatos estava certo, eu fiz medicina com intuito de ajudar pessoas, mas precisava pagar as contas e Félix não gostava que eu trabalhasse. Então tinha que ser naquele bairro que morava, com horários reduzidos. Só apareciam crianças com gripe, adolescente pedindo anticoncepcional ou querendo saber como abortar. Já os homens, só apareciam com ressaca ou para conseguir atestado. A proposta dele não era ruim. Na verdade, era tentadora, mas bastante perigosa.
— Se eu aceitar, você resolve todos os meus problemas que me prendem ao Félix e terei o consultório do jeito que eu quiser? Serei paga por você ou pelos pacientes? — Eu precisava saber se tinha algo que eu estava deixando passar. Eu estava realmente tentada a aceitar. Talvez só quisesse ficar longe do Félix, mas saber que eu seria útil, parecia sedutor. Eu vinha me sentindo inútil, de tanto que ouvi isso do meu marido. E eu odiava me sentir assim. Talvez no morro eu esteja até mais segura do que nas mãos do Félix. Sempre imaginei que um dia, ele chegaria bêbado e acabaria com minha vida. Além disso, acho que Thanatos não me deixaria ir embora.
— Sim, resolverei tudo com seus pais. O consultório, eu não entendo nada disso, vai ter que escrever tudo e eu mando comprar. Sobre o pagamento, a galera aqui não tem dinheiro, então, você não cobra nada, eu pagarei um salário mensal para você. Podemos negociar um valor. — Thanatos não parecia está escondendo nada.
— Quero tudo isso em um contrato. Você tem computador? Eu quero algo que comprove tudo que você falou. Posso chamar meu advogado? — perguntei receosa. Tinha medo da reação que ele teria. Não posso esquecer que ele chegou todo armado na minha casa.
— Eu posso fazer o contrato, você ler e assina. Sou formado em direito. Vou pegar o computador. Amanhã quando for resolver o negócio do seus pais, passo e um cartório para oficializar, se você se sente segura assim. — Thanatos falou rindo. Jade deu uma gargalhada.
— Qual a piada? Seu irmão não é formado mesmo? — questionei tentando não parecer preconceituosa, enquanto Thanatos tinha ido buscar o computador.
— Não, ele é. Você que não entendeu ainda onde está. Aqui é o morro. As leis lá do asfalto não funcionam aqui. Meu irmão é a lei e a ordem do lugar. Ninguém entra ou saí sem que ele permita. Tudo só acontece aqui com autorização dele. Então, no fim, não faz tanto sentido o contrato, mas uma coisa eu posso dizer, meu irmão não quebra a palavra dele. Faça o contrato, será um meio de lembrar ele caso acabe esquecendo algo, mas se pensar em buscar "seus direitos", aqui não funciona assim. Meu irmão é o juíz e o carrasco. — Jade explicou. Me deixou arrepiada. Quer dizer que ele mandava em tudo e todos aqui? Eu acho que me meti em um problema dos grandes.
— Quer adicionar algo mais ao contrato, senhora? — Thanatos perguntou debochado.
— Você não pode mandar em mim. Eu tenho direito de ir e vir. Minha opinião sempre será ouvida. — Eu não podia me deixar nas mãos dele. Se a irmã dele estava certa, ele não quebrava com as palavras e também mandava em tudo por aqui, eu precisava me manter segura dessa sua ditadura.
— Só quando tiver apenas nós dois. Na frente dos outros tu só cala e obedece o que eu disser. Se tiver alguma reclamação, me fala depois. Aqui não é bairro de playboy. Tu não entende direito ainda, mas há uma razão para todos obedecerem. Preciso manter a ordem. E para isso, tu vai ficar com a boca calada na frente dos outros. — Thanatos me olhava sério, mas não foi contra a condição, apenas quer manter com a pose marrento. Tanto faz. Acho que não tenho muita saída mesmo.
— Combinado. — concordei. Primeiro, eu deixo ele resolver meu problema, depois o ajudo com os moradores carentes como combinado, depois eu penso no terceiro passo. Por enquanto, algo me diz que é melhor concordar. Até porque, se todos obedecem ele, se eu fugir, ninguém vai me ajudar. Preciso entender direito o todo. O funcionamento do lugar. Querendo ou não, eu sou de certa forma prisioneira dele, mesmo que não pareça.
Ouvi um papel saindo de uma impressora portátil. Me pergunto porque ele tinha uma coisa dessa em casa, mas parece bem mais prática.
— Aqui. Veja se tá tudo certo e assina. — Thanatos disse enquando assinava o papel e passava para mim.
Tinha tudo que conversamos, ele não colocou nenhuma condição da parte dele além de cuidar dos moradores. O salário, ele colocou exatamente o piso de médico, não poderia questionar. Eu vou morar aqui, nem pagar clínica ou nada. O salário era bom. E tinha algo relacionado a ser a fiel, que ele já havia falado, diria isso para me proteger. Não entendi, mas parecia ser apenas algo relacionado a segurança. Bom. O contrato era perfeito, deixava claro tudo, até moradia sem custo algum. Eu apenas assinei e entreguei.
— Boa noite. Vou subir e dormir com a Beatriz. Prometi para ela. — Thanatos disse levantando com os papéis e saindo.
— Beatriz é a namorada dele ou filha? — perguntei curiosa.
— Ele não te contou? Beatriz é a filha dele. E meu irmão não tem namorada ou não teria colocado você como a fiel dele. Seria te jogar para morte — Jade disse levantando.
— E o que tem? Qual a relação? Não entendi nada. O que quer dizer fiel? — Comecei a me preocupar. Algo me diz que descobri onde que eu escorreguei naquele contrato.
— Não sabe? Fiel quer dizer oficial. Você é agora a mulher oficial do meu irmão. Bem-vinda a família, cunhadinha. — Jade disse rindo.
— Quê? — Eu não sabia o que pensar. Achei que estava sendo cuidadosa, mas acabei caindo em uma pegadinha. O que vou fazer? Ele vai querer que eu seja mulher dele real? Ou será apenas um disfarce?
***Faça o download do NovelToon para desfrutar de uma experiência de leitura melhor!***
Atualizado até capítulo 74
Comments
Jaqueline Morares Moraes
barbaridade tchê kkkk
2025-02-19
0
Marta Hedwig Schley
kkkkkkkkkkkkkk onde ela se meteu
2024-09-15
0
Karla Barbosa Marinho
se ele me quiser eu quero kk
2024-06-03
3