Capítulo 20

— DAVID? — HUGO NÃO QUERIA admitir que ficou mexido com a presença dele.

— Mais uma vez eu te encontrando por aqui — ele se dirigiu para perto de Hugo, mantendo uma distância para não soar invasivo. — Eu juro que dessa vez foi por acaso.

— E o que você tá fazendo em Fortaleza? — Hugo franziu a testa, apressando-se em dizer: — Caso não se importe em responder, claro.

— Vim pra cá a trabalho — David se aproximou mais um pouco, a quase um palmo de distância. — Pensei que você iria passar as férias em algum país diferente.

— Também cogitei isso — Hugo olhava o horizonte que ficava cada vez mais escuro. — Neste instante, até.

— Antes de te ver aqui?

— Bem na hora que você chegou.

— Então eu arranquei você dos seus devaneios… — David brincou.

Hugo se limitou a dar um meio sorriso sincero.

— Olhaí — David deu uma risadinha. — Eu arranquei você dos seus devaneios. Não tem como negar mais.

— Quer saber? Arrancou — Hugo brincou de volta.

— Foi mal, então — David deu três batidinhas no ombro dele, mas repousou a mão ali.

Hugo não se importou. Sentia aquele toque, transformando-se num afago.

— No que você estava pensando?

A brisa era um pouco mais forte agora. E a iluminação, remota e não natural. Eles estavam na penumbra, ali.

— Tantas coisas… — Hugo deu de ombros, soltando o ar. — Como tudo pode acontecer rápido demais, mudar rápido demais… Enfim.

— E o que mudou rápido demais pra você?

— Um lance antigo — começou ele. — Acabei reencontrando essa criatura e, mesmo que seja algo recíproco, não dá pra acontecer agora. De novo.

Houve um momento de silêncio. David deu dois passos para frente, até que se virou para olhar Hugo nos olhos.

— Preciso abrir o jogo com você.

— Como assim? — Aquilo pegou Hugo de surpresa.

— Eu não esqueço daquela última conversa que a gente teve no parque.

Hugo sentiu o coração martelar um pouco mais alto. Ele quer tocar nesse assunto…

...****************...

— MANDEI PRO SEU E-MAIL — O recepcionista soltou o ar, completando: — Mas, por favor, olha lá o que vai fazer com essa lista…

— Não se preocupe — Pedro procurava tranquilizar o rapaz. — Eu só quero mesmo o nome de Janine nela.

— Espero que você consiga encontrar a moça.

— Também espero — Pedro olhou para os lados e perguntou: — Você se lembra do momento que ela saiu? E para qual direção ela foi?

— Só lembro que ela seguiu para a esquerda. Somente.

— Ok — Pedro assentiu com a cabeça. — De qualquer forma, muito obrigado.

Os dois trocaram um aperto de mão, como cumprimento.

...****************...

CAMILA ENXAGUAVA UMA LOUÇA, até que o seu celular tocou. Colocou o prato de lado e foi correndo atender. Era um número local.

— Alô?

— Camila?

— Ela mesma. Quem é? — Camila franziu a testa.

— É Irina, querida. Boa noite!

— Boa noite! — Camila sentiu o coração martelar. Só ela sabe o quanto estava ansiosa pela ligação de Irina.

— Tudo bem com você?

— Tô bem, obrigada.

— Tá podendo falar agora?

— Claro que sim! — Camila soltou o ar, evitando fazer barulho.

— Tenho uma notícia pra te contar — No outro lado da linha, Irina piscou para Ruy. — Você foi aprovada!

— Sério?

— Sim, garota! — Irina revirou os olhos. — Você consegue vir aqui na segunda para entregar os documentos?

— Claro! Consigo sim. Que horas eu posso ir?

— Dez horas da manhã. Vou te passar o endereço. Tem como anotar?

— Peraí, um instantinho… — Camila pegou papel e caneta fácil. — Pode falar.

Irina passou o endereço para Camila, que era familiar. Conhecia o bairro.

— Então, nos vemos na segunda.

— Ótimo! — Camila deu um pulinho.

— Boa noite, querida!

— Boa noite… — Camila encerrou a ligação. Assim que largou o celular no sofá, começou a dar pulinhos de alegria.

Lucimar chegou bem na hora. Ela tinha ido ao mercado comprar algumas verduras que faltavam.

— Mãe! — Ela foi até Lucimar aos pulos. — Eu fui aprovada…

— Sério? — Lucimar ficou surpresa, sorrindo.

— Sério! Aprovadíssima.

— Que coisa boa! Quando você começa?

— Segunda-feira eu entrego os documentos. Aí ela vai me dizer, com certeza, o dia exato.

— Que maravilha! — Lucimar foi até a cozinha.

— Nem acredito que consegui um trabalho, mãe — Camila ficou encostada na soleira. — Agora tudo vai entrar pros eixos. Sinto assim… Um alívio enorme!

— Vai dar tudo certo, minha filha.

— Vai — a expressão no rosto dela transparecia como sonhadora. — Vai sim…

...****************...

— PRONTO — IRINA GIRAVA na cadeira. — Quinta candidata aprovada.

— Hank pensou no próximo passo? — Ruy mexia no laptop. — Primeiro, que era pra ter avisado na oferta de emprego que o trabalho era fora do país.

— Pois é… — Irina bateu com a mão aberta na mesa. — Ele me disse que desta vez será diferente. Não sei como esse pessoal da PF conseguiu achar o nosso cangote pra ficar em cima.

— Aura tá em São Paulo pra saber, não tá?

— Chegou ontem, parece.

— Tô aqui pesquisando um galpão para acomodar as máquinas, que também aluguei. Pensando em tudo, já.

— Muito bem. Eu também vou pensar por mim… Porque Hank tá demorando um pouco pra mandar uma resposta.

— Por que não liga pra ele?

— Por que só eu que devo falar com ele? — Irina franziu a testa.

— Porque você é mais próxima, talvez? — A resposta dele foi irônica.

— Porque eu sou mais cabeça do que você — ela rebateu, discando o número do chefão.

— Jura… — Ruy balançou a cabeça para os lados.

...****************...

— JÁ AVISARAM AS GAROTAS, ENTÃO? — Hank passeava num shopping, pela Holanda, enquanto falava no telefone.

— Eu avisei — Irina ressaltou. — Qual vai ser o próximo passo?

— Montei um complexo temporário no meio do nada.

— Onde? — No outro lado da linha, Irina recostou-se. Aquele trunfo nem ela sabia. — Aqui?

— Sim, aí no Brasil. Mais precisamente no estado de São Paulo.

— Onde fica?

— Não vou poder te contar isso agora. Tô no shopping — Hank entrou numa cafeteria. — Você sabe que as palavras o vento leva para lugares perigosos. E as paredes por aqui podem ter ouvidos…

Com isso, ele encerrou a ligação.

...****************...

— QUE CRETINO — Irina brincou, ao pousar o telefone na mesa. — Você nem sabe o que ele fez…

— O que foi? — Ruy ergueu uma sobrancelha, ainda concentrado no notebook.

— Primeiramente… — Irina se levantou, começando a andar com as mãos no bolso pelo escritório. — Nem precisa mais se dar ao trabalho de comprar ou alugar um galpão.

— Qual foi? — Ele ficou surpreso.

— Hank construiu outro complexo. No meio do nada. Ele quer fazer uma migração, certeza.

— Vai ser bom — Ruy deu de ombros. — Imagina a gente fazer aqueles canalhas da PF andarem em círculo, sendo que a gente tá aqui… Bem debaixo do nariz deles.

— É uma boa… — Irina bateu de leve com o celular no queixo, pensando. — Vamos ver o que Hank nos reserva dessa vez.

...****************...

JÁ ERA MADRUGADA em Barcelona. Pedro Henrique aguardava o embarque de volta para o Brasil, dessa vez sem escala. Seria um voo longo. Falava com Alex no telefone.

— Eu aproveitei para pegar algumas câmeras de circuito externo em alguns estabelecimentos próximos que Janine pode ter passado em frente — Pedro Henrique olhava o painel acima. — Só assim vou conseguir saber por onde, exatamente, ela foi pela última vez.

— É uma boa. Você molhou algumas mãos pra conseguir isso, não foi?

— Tive que molhar — admitiu ele. — E eu nem falei que era investigador da polícia. Eu me passei por detetive particular, o que gerou mais crédito pro meu lado. Consegui tudo o que podia. Agora, tô voltando.

— Você vai tirar um dia de folga — determinou Alex. — Vai contar a partir do momento que você chegar em solo brasileiro.

— Beleza. Chego aí de manhã, provavelmente.

— Então venha só amanhã de manhã.

...****************...

HUGO E DAVID CONTINUAVAM no mesmo lugar, pela praia. Como o silêncio ainda reinava após David tocar no assunto que eles tiveram no parque, Hugo começou:

— Eu acredito que a gente não tem mais nada para conversar sobre isso.

— Temos — David discordou. — Nós temos sim.

— David… — Hugo o olhava. — Eu já disse tudo o que tinha para dizer.

— Eu ainda sou apaixonado por você.

Mais um momento de silêncio. David pegou na mão dele.

— Desde sempre — continuou. — Desde o momento que Aron me apresentou você. Desde o momento que eu vi aquele babaca censurando o teu jeito espontâneo de ser, de viver… Foi por esse jeito que eu me apaixonei e não mudaria nada. Eu não ia censurar nada, nenhum gesto, nenhum jeito seu. Eu adoraria ter chegado primeiro do que ele…

— Seria diferente — Hugo admitiu. Pela primeira vez, ficou sem palavras.

— Eu cuidaria de você — o tom dele era firme, embora tivesse sussurrado. Chegou mais perto, e disse: — Você não merecia um minuto do seu tempo do lado daquele canalha. Ele não fez valer o tempo que você ficou com ele. E ainda quase te matou.

— David… — Hugo começava a fraquejar com a pouca distância entre eles. Sentiu a mão de David na altura dos seus ombros, deslizando até a cintura. — Como você pode me garantir que não tem mais nenhuma ligação com Aron…?

— Que se dane o Aron — David foi veemente. — Já paguei a minha dívida que ele mesmo inventou que eu tinha.

— Vou colocar você em perigo — Hugo sussurrou, mas sabia que aquela afirmação seria em vão.

— Ele não vai ter coragem de fazer mal a nós dois — David o apertava forte na cintura. Trouxe o corpo de Hugo para junto dele. Tocou-lhe o rosto, terno. — Ele vai ter que passar por cima de mim para tocar em você. Isso eu garanto.

— Não faz isso… — Hugo sussurrou de olhos fechados, sentindo-se vencido com a boca de David tocando-lhe na maçã do rosto. Pediu, em vão: — Não se arrisque por mim.

— Tarde demais.

David roçou os lábios nos dele. Até que Hugo deixou se envolver, cravando as mãos na nuca dele, correspondendo o beijo que começou numa fração de segundos.

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Comments

Da Silva Lopes Clinger

Da Silva Lopes Clinger

esse Hugo e terrível já tomou banho pra tirar o cheiro do Luiz ou David vai ficar com o resto do outro fora que ainda estou esperando o romance entre ele e PH

2024-08-26

3

Carla Santos

Carla Santos

Aí não sai dessa Hugo

2023-11-22

0

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