Capítulo 15

...TRÊS DIAS DEPOIS...

HUGO ACORDOU ASSUSTADO. A primeira coisa que olhou foi para o teto que não era mais igual ao do seu quarto. Era um teto de madeira agora. Depois de meio segundo, lembrou-se de que estava hospedado num apartamento que havia alugado pelo Airbnb. Não estava mais no Rio, nem tinha chegado a pisar em São Paulo. Ele havia chegado em Fortaleza algumas horas antes. Foi conferir o horário no celular. Três e meia da manhã. Fez questão de manter o hábito de escrever no caderninho. Lembrou-se que tinha deixado na mesinha de cabeceira.

Sonhei com ele de novo. Ele, que nem faço ideia de quem seja, nem como se chama. Só sei que ele é um homem um pouco mais alto do que eu. Como descobri isso? Foi no próprio sonho. Nem acredito que tenho o último sonho anotado aqui…

Hugo folheou até encontrar a antepenúltima descrição que havia feito. Releu, tendo uma sensação de que já não era mais suficiente saber desse sonho específico. O sonho mais recente era o que mais importava. Era o que mais sentia. Voltou a escrever:

Acabei de ler o último sonho. Foi há dez dias. Eu não senti nada, sinceramente falando. Parece que ele perdeu a importância. Todo sonho que escrevo, perde a importância. Mas esse de agora me assustou. Sonhei que estava com o mesmo homem. Era uma noite e estava meio escuro lá fora. Parece que a gente estava entrando no hotel. Que lugar era aquele? E por que eu estava indo com ele para um hotel? Intrigante. Só me lembro da parte que nós estávamos subindo alguns degraus que davam acesso ao hall do hotel e ouvi um disparo. No meu lado, vi uma mancha de sangue no peito dele. Ele caiu no chão, bem nos meus pés. Daí acordei.

Hugo fechou o caderninho, pensativo. Cogitava parar de escrever os próprios sonhos, porque não esperava sentir indiferença ao ler algo que escreveu assim que tinha acordado. Esse sonho de agora, provavelmente, seria apenas mais um sonho escrito no papel. Ele acha essa experiência interessante — mas no fundo, sabia que não levaria a nada. Por um lado, existem sonhos tão bons que valem a pena falar sobre; por outro, Hugo só vinha tendo sonhos estranhos e esporádicos, praticamente com a mesma pessoa.

Cansado, ele deixou o caderninho na mesinha de cabeceira e voltou a dormir.

...****************...

ELE MARCOU DE ENCONTRAR Joyce na Praia do Futuro, às onze da manhã. Enquanto andava pelo calçadão, rumo ao restaurante à beira mar, viu que a manhã estava quente e fresca. Joyce havia mandado mensagem. Ela o esperava.

Assim que Hugo passou pela recepção, informando que estava sendo aguardado pela irmã, não foi difícil encontrá-la. Ela estava sob o guarda-sol, numa espreguiçadeira. A bolsa dela repousava em outra espreguiçadeira ao lado. Hugo se aproximou.

— Oiê…

— Oi, meu anjo… — Joyce ficou de pé.

Eles se abraçaram.

— Quanto tempo… — Hugo beijou o alto da cabeça dela. — Tu não mudou quase nada, menina.

— Nem tu — ela riu. — Senta aí.

Eles se acomodaram na espreguiçadeira.

— Já pedi um petisquinho e cerveja pra gente — Joyce colocou os óculos escuros de volta. — Agora me conta: como foi esse babado de se mudar pra São Paulo do nada?

— Simplesmente aconteceu…

Hugo contou mais detalhes sobre a mudança de cargo para Investigador na Polícia Federal e o ofício de transferência para assumir as funções em São Paulo.

— Aí, menina, foi uma loucura. Tive que vender algumas coisas que não valia a pena levar, porque era mais fácil comprar outro… — ele continuava. — E o resto coloquei tudo num caminhão de mudança pro novo apartamento… Acabei de conferir com o Tande, meu amigo, que me ajudou a organizar essa mudança…

— E conseguiu gerenciar tudo isso de longe? — Joyce o interrompeu.

— Claro, meu anjo — Hugo deu de ombros. — Acompanhei por foto, vídeo chamada… Não foi complicado. Mantive o jeito minimalista.

— Entendi… — Joyce olhou o garçom chegando com os petiscos e a cerveja. — Obrigada, moço.

O homem assentiu com a cabeça, desejou “bom apetite” e saiu.

— Como anda os contatinhos?

— De novo essa pergunta… — Hugo balançou a cabeça para os lados. — Eu não tenho contatinho, garota. Tenho uma história mal resolvida.

— Oi? — Joyce franziu a testa.

— Foi isso mesmo que você ouviu… — Hugo bebeu um gole de cerveja, como quem havia gostado de ter deixado alguma coisa no ar.

— Conta essa história direito. Eu tenho ansiedade!

Hugo riu. Abriu a galeria do celular, mostrando uma foto a Joyce. Era David.

— Então é essa história mal resolvida?

Ele apenas assentiu com a cabeça.

— Pois resolva — Joyce bebeu mais um gole de cerveja.

— Bem que eu gostaria — Hugo se recostou na espreguiçadeira e olhou para o mar.

— E por que não resolve?

— Você sabe todo o lance com meu ex namorado, né? Ele foi preso, mas depois foi solto… Enfim. Ele foi o advogado que conseguiu soltar aquele desgraçado do Aron.

— Como assim, gente… — Joyce ficou impressionada com essa parte da história. — Esse lance de vocês dois já tem um tempo?

Hugo contou tudo: como conheceu David através de Aron; a amizade que Aron e David tinham; e o lance entre eles que aconteceu após o conturbado término do seu namoro com Aron.

— Vocês dois já transaram? — Ela ficou boquiaberta, e soltou uma risadinha. — Essa história só melhora.

— Não, e tem mais… — Ele contou também sobre Aron ter descoberto essa transa entre os dois e ter dado uma surra em David. — Enfim, e isso resultou naquele dia horrível que o cretino invadiu minha casa já querendo me matar.

Houve um breve momento de silêncio.

— A vida é muito louca, né… — Joyce comentava entre um gole e outro. — Mas, afinal, essa defesa que ele fez pra Aron foi uma “dívida de jogo” né?

— Basicamente isso — Hugo a acompanhava no gole, continuando: — Aron tinha o poder de ferrar com a vida de alguém. Um cara que tem influência, mesmo não sendo uma figura pública. Ele é um cretino. David só fez aquilo para preservar a sua reputação.

— Complicado.

— Pois é.

— E o que te impede de ficar com esse cara? — Joyce se apoiou nos braços, olhando para Hugo. — Ele não fez isso por maldade. No caso, defender o teu inimigo. Eu acho. Agora que entendi o lado dele…

— Sei lá — Hugo olhava para o nada. — Não sei… Acho que fiquei tão bolado com essa situação que acabei desenvolvendo um “bloqueio”. Por mais que eu goste dele, não ficaria segura. Não por causa dele, mas por causa de Aron…

Hugo pensou no carro preto que ficou parado, de forma estratégica, na direção da janela do seu antigo apartamento.

— Faz o seguinte — Joyce ativou o seu modo prático, dizendo: — Na primeira oportunidade, você tira a prova dos nove. Se vai ou não. Se é agora ou nunca… Tem que ser assim. Melhor definir de uma vez do que ficar com essa dúvida cruel na cabeça.

Hugo assentiu com a cabeça devagar, pensativo.

— É. Você tá certa.

...****************...

AURA APROVEITAVA SÓ mais um dia no Rio de Janeiro. Os três dias estavam acabando e ela precisava ir para São Paulo logo à noite. Garantia isso para Hank, por telefone:

— Meu voo sai às vinte e trinta — ela brincava com uma mecha de cabelo. — Não. Você não vai rastrear meu voo, Hank. Você precisa confiar melhor na minha palavra. Sim, você é um chato. E eu tenho direito de passar quantos dias quiser no lugar que eu quiser, mas… Mas… — Ela estava sendo interrompida no outro lado da linha. — Deixa eu concluir meu raciocínio. Acabou? Pronto. Eu escolhi passar três dias no Rio porque eu quis, entendeu? Não foi por sua causa. Tá bom, Hank. A gente vai se falar de novo só em São Paulo. Passar bem! — Ela encerrou a chamada.

Apoiou-se nos braços, com as pernas esticadas, sobre a toalha. Sacudiu os cabelos ruivos, olhando para cima sob os óculos escuros. A brisa esvoaçava as madeixas quase que hipnoticamente. Aura era uma beldade e ter a beleza fazia com que várias portas fossem abertas.

— Oi…

Abriu os olhos ao ouvir a voz, que não gostaria de ter reconhecido. Fez uma careta. Era Irina, dando um sorriso debochado.

—… queridinha.

— Não sou sua queridinha — Aura deu uma resposta atravessada.

— Então você está aqui… — Irina ignorou a reprovação da moça, sentando-se ao lado dela na areia. — Curtindo a praia da Barra enquanto Hank está lá na Holanda fumaçando…

— Ele mandou você aqui?

—… e enchendo a porra do meu saco pra saber se você vai mesmo fazer o que ele mandou — Irina finalizou, com o olhar duro. Ela nem se deu conta que tinha sido interrompida.

— Quem manda ser a subalterna dele — Ela deu uma risadinha.

— Porra, teu irmão é um porre.

— Imagino que você não tenha vindo ao Brasil só pra correr atrás de mim — Aura colocou os óculos escuros sobre a testa, olhando Irina.

— Vim pegar mais garotas. Com o Ruy, claro.

— Aqui no Rio?

— Que nada — Irina repousou os braços sobre os joelhos, encarando o mar. — Me mandou pro Nordeste.

— O Nordeste tem nove estados.

— Recife — o tom de Irina foi seco.

— Entendi. — Aura se levantou, pegando a toalha de praia, usando-a na cintura. — Então, boa sorte. Tchauzinho…

Irina apenas encarou a moça de lado, logo voltando a atenção para o mar. Soltou o ar, colocando de volta os óculos escuros.

...****************...

A VAGA DE EMPREGO, que Camila leu no anúncio, parecia ter caído do céu. Ela não pensou duas vezes ao se candidatar para a vaga de Costureira Industrial — produção de peças para uma marca de roupas de grande porte no mercado. Salário inicial de dois mil e quinhentos reais, escala 12x36, vale alimentação e entre outros benefícios. Parecia um sonho. Com esse salário, Camila conseguiria pagar as dívidas e ajudar nas contas da casa. Foi até a cozinha para mostrar a mãe.

— Que vaga boa! — Lucimar disse, enquanto lavava as louças. — Tomara que dê certo, Camila. Você tem muita experiência na costura.

— Eu sinto que vai dar certo — Camila estava otimista, sonhadora. — Nossa, essa vaga foi um achado. Vou conseguir ajudar em tanta coisa com esse dinheiro…

— Vai mesmo — Lucimar secava uma panela. — Só assim o seu pai para de reclamar quando te ver parada aqui.

— Eu não tô parada. Faço meus bicos naquela máquina ali — apontou para a máquina de costura.

— Eu sei, minha filha.

As duas se sentaram na mesa da cozinha.

— Para o seu bem-estar — começou a mãe —, eu aconselho a você juntar um dinheirinho e voltar a morar sozinha. Vai ser bom.

— Verdade, mãe. Mas vai dar tudo certo. Com calma e paciência as coisas vão se ajeitando… — Camila olhava para a vaga novamente. Falou para si mesma: — Costureira Industrial, com esse salário… Meu Deus. É pra não colocar defeito.

...****************...

— ALEX? — PEDRO ESTAVA NO hotel em Barcelona. Ligava para o delegado a fim de atualizar dos seus passos na investigação — Depois de atravessar uma burocracia grande, consegui as filmagens que queria. As que são importantes para este caso. Circuito interno e externo.

— Boa. E o que você analisou aí?

— Consegui ver a placa do táxi que Janine entrou, ao sair do aeroporto. Descobri até a companhia e quem é o motorista.

— E o seu próximo passo?

— Falar com ele pessoalmente — ele fez uma pausa. E concluiu: — Vai ser hoje à noite.

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Comments

Carla Santos

Carla Santos

também concordo

2023-11-21

1

Cleide Almeida

Cleide Almeida

tomara q ñ aconteça nada cm pedro☹

2023-10-08

1

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