Capítulo 17

ELA SAIU, BEM DEVAGAR. Sem reação, ela foi caminhando até chegar no que parecia ser um penhasco. Deu uma volta, ainda sem acreditar ao deduzir que estava fora do complexo. O duto do seu alojamento ultrapassa as muralhas de concreto com cerca elétrica de arame farpado. Janine viu um lampejo de esperança, até se dar conta de que o complexo fica numa ilha remota. A cidade estava ali, mas precisava de uma lancha para chegar até lá. Uma lágrima escapou de um dos olhos.

— Eu vou sair daqui — prometeu, baixinho. — E vou levar todas comigo também. Vou acabar com essa máfia maldita que superfatura com o sofrimento de tantas. Ah, se vou…

...****************...

— ALÔ? — PEDRO HENRIQUE andava para os lados do quarto de hotel. — Eu falo com Nano?

— Olá — o homem respondeu em português, com um sotaque espanhol bem carregado. — É ele mesmo. Você é o rapaz que está procurando a moça, certo?

— Sim, sou eu. — Ele resolveu sentar na cama, apoiando-se nos joelhos. — Tudo certo pro nosso encontro de hoje?

— Dei a você a minha palavra. Portanto, vou cumpri-la.

— Muito obrigado por isso — Pedro assentiu com a cabeça. — Onde vai ser o encontro e que horas?

— Conheço um pub discreto. Não é muito longe. Fica bem na zona central.

— Ótimo — Pedro ficou satisfeito. A zona central é onde ele está hospedado. — Me passa o endereço desse pub, por favor.

O homem informou o endereço completo. Pedro anotou tudo no bloquinho. Bateu com a ponta da caneta no papel após ter finalizado.

— Qual o seu melhor horário?

— Por mim, tanto faz.

— Que tal às oito? — Pedro propôs.

— Às oito é ótimo. Chegarei antes. Estarei no balcão.

— Combinado.

A ligação foi encerrada. Pedro deixou o celular em cima da cama, esfregando as mãos uma na outra com um olhar enigmático. Ele sentia que estava chegando perto, mas por outro lado sentia também que essa próxima pista desencadearia outras. Não era uma solução, mas pelo menos é um avanço. Pegou o celular de volta, retornando uma chamada.

— Alex?

...****************...

JANINE VOLTOU PARA A CAMA. Pela primeira vez, depois de uma semana que parou no complexo, ela sentiu uma onda de esperança invadir as suas sensações. Alguém mais tinha descoberto essa saída? Ou foi puro golpe de sorte — e erro da administração de mapeamento — que a fez parar ali. Ela só tinha certeza de uma coisa: da determinação em sair do lugar. Janine pensou no quanto é estranho a tentativa da máfia de fazer uma “lavagem cerebral” para que as meninas fiquem acomodadas com o trabalho escravo. O alojamento, por exemplo, é muito confortável. Colchão macio, banheiro privativo e sem objetos pérfuro-cortantes, e uma comida básica porém com sabor.

Essa falsa sensação de acomodação era bom para a máfia. Eles podiam escravizar as garotas por mais tempo. Aquilo perturbou Janine. Como se acostumar com a ideia de trabalhar durante doze a dezesseis horas por dia e receber apenas um euro por peça produzida? Fora o desconto enorme que eles dão, por causa dos gastos que as meninas geraram para serem trazidas pra cá.

Ou seja, a pessoa cai na emboscada e ainda leva a culpa por isso. E paga com o trabalho escravo.

Se arrependimento matasse… pensou Janine. Ela lembrou-se do penhasco que dava direto para o mar. Um penhasco cheio de pedras. As ondas batiam violentamente ali. Fazia muito frio lá fora. A mente fervilhava, criando várias formas de fugir dali. Ficou tentada a passar pelo penhasco, mas o que ela iria fazer assim que chegasse na beira do mar? Corria o risco de morrer por hipotermia. Um pouco frustrada, mas concordando com a sua própria razão, voltou até o quarto. Por sorte, não tinha sido descoberta mais uma vez.

Lembrou-se do conselho de Valquíria: não agir por impulso; não gerar suspeita de que está tramando algo; ser calculista. Lembrou-se também da última tentativa de fuga que fracassou. Já sabe que não pode contar com a polícia local, porque Hank já molhou algumas mãos. Esse detalhe causou-lhe insegurança.

Decidiu não planejar nada, no momento. Prometeu a si mesma que pensaria nisso a partir de amanhã, com mais calma.

...****************...

HUGO E LUÍS CONVERSAVAM num banquinho da praça, ali próximo da aglomeração que se formava. A Dragons chegou no seu pico.

— Então você acabou de sair de um casamento… — Luís bebeu um gole de cerveja.

— Não era um casamento — Hugo levantou um dedo, como quem ressalta. — Foi uma espécie de união estável. A gente namorava. Decidimos morar juntos. Sabe como é… Emoção.

— Você acha que foi uma emoção?

— Acho — Hugo também bebeu um gole de cerveja. E continuou: — Acho que a precipitação partiu tanto dele quanto de minha parte. Em menos de cinco meses, a gente foi morar junto. E deu no que deu…

Hugo contou para Luís sobre a experiência de quase morte.

— E dessa vez você aprendeu a não se precipitar mais.

— Até então, sim — Hugo fez uma pausa. — Quero permanecer solteiro por algum tempo. Vou deixar a vida me levar. No momento, preciso focar na mudança pra São Paulo e na minha nova função na Polícia.

— Você foi promovido?

— Sim. Sou investigador agora.

— Que legal.

Houve um momento de silêncio.

— E você? É psicólogo, não é mesmo?

— Sim. E também sou Professor Doutor.

— Uau — Hugo deu um meio sorriso.

— Que foi?

— Nada não… — Hugo deu de ombros, sem graça. E cruzou as pernas. — Foi só uma interjeição boba. Você, como Professor Doutor… Enfim. Nem sei mais o que tô falando. A bebida tá batendo.

Luís pegou na mão dele. Ficaram assim, de mãos dadas, por um tempo e em silêncio. Hugo havia gostado daquilo.

— Esses dias me lembrei da última vez que a gente ficou — começou Luís, ainda mantendo a mão dele na sua. — E foi uma surpresa muito boa te ver aqui.

— Eu digo o mesmo sobre te ver por aqui — Hugo mantinha o olhar no dele. Lembrou-se o quanto era louco de tesão pelo rapaz, mas ficaram apenas nos beijos.

— Você foi embora cedo demais.

— Fui?

— Pensei que ficaria por aqui mais tempo. Mas você mesmo disse, na última vez, que a vida continua e algumas coisas acontecem com pressa demais.

— Verdade — Hugo também se lembrou desse momento. — Esse momento que assumi a vaga de escrivão na Polícia do Rio. Foi muito depressa.

— Pois é.

Eles não soltaram as mãos até que Luís repousou o braço no encosto do banco, mantendo a mão agora no ombro direito de Hugo. E começou a afagá-lo. Hugo encostou o ombro esquerdo de leve no peitoral dele. Pintava um clima, agora. Luís bebeu um longo gole de cerveja. Hugo o observava — os olhos, a boca carnuda e bem desenhada…

— Juro pra você — começou Luís. — Se tudo tivesse acontecido de outro jeito… Era pra gente estar junto até agora.

— Você queria naquela época?

— Queria — admitiu ele. — Parece que não, mas queria. A timidez é foda.

— Não se culpe por isso — Hugo passou um dedo na maçã do rosto dele, que logo abaixo fica a barba recém aparada. — Eu me acanhei também. Pensei que não quisesse mais…

— Porra… — Luís deu uma risadinha curta. — Eu tava pensando em mil e uma formas de te pedir em namoro.

— Uau — Hugo arqueou uma sobrancelha. — Agora você me pegou com essa.

— Pois é. Agora você sabe.

Houve um momento de silêncio. Eles ficavam cada vez mais próximos fisicamente. Luís repousou a testa na cabeça de Hugo, que sentia a respiração dele tocando-lhe no rosto. Ele sabia que se virar um pouquinho mais…

— Uma pena que não tenha acontecido — Hugo fechou os olhos.

Luís começou a roçar o seu rosto com os lábios, lentamente.

— Não lamente mais — pediu, baixinho, entre beijos.

Sem resistir, Hugo levou a mão na nuca do rapaz e os dois começaram a se beijar. A palma da mão de Luís ficou aberta nas costas de Hugo, na intenção de trazer o rapaz para mais perto, e foi deslizando até chegar na cintura.

...****************...

PEDRO HENRIQUE CHEGOU no Pub, cinco minutos antes da hora marcada. O motorista informou na última mensagem que era o único homem sentado no balcão. De fato, Pedro o encontrou logo de cara. Sentou-se ao lado do rapaz discretamente.

— Boa noite — disse ao barman. — Vou querer uma água com gás e gelo, por favor.

O barman assentiu com a cabeça, saindo.

— Água com gás — o homem brincou, bebendo um gole de uísque. — Zoeiras à parte, Nano aqui.

Ele ofereceu a mão, e Pedro aceitou o cumprimento. A água com gás e gelo foi entregue pelo barman, que se retirou logo em seguida.

— Você o Pedro — Nano afirmou.

— Exato. O rapaz que quer saber da moça.

— Você trouxe a foto dela aí?

Pedro Henrique tirou a foto de dentro da jaqueta, colocando discretamente no balcão. Nano franziu a testa ao ver melhor Janine.

— Me lembro dela — disse ele. — Ela me deu uma gorjeta muito boa quando chegou no hotel. Parecia ansiosa. Disse que estava realizando um sonho.

— Ela só falou isso?

— Só — Nano bebeu mais um gole de uísque. — Pobre moça. Espero que não tenha acontecido nada de ruim com ela.

— É o que espero também.

— Você é detetive?

— Sim. Particular — Pedro omitiu por segurança. — A família me mandou até aqui.

— Ela deve ser bem de vida no país dela, né… — Nano assentiu com a cabeça, como quem concorda com a própria afirmação. E levou a mão até o bolso. — Você quer o endereço do hotel que ela foi, certo?

— Exato — Pedro Henrique observou o rapaz colocando um pedaço de papel em cima da foto de Janine. Ele pegou as duas coisas de volta.

— Tá tudo aí — Nano disse.

Pedro Henrique abriu o papel, lendo o endereço. Reconheceu o lugar.

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Comments

Andreia Gregorio

Andreia Gregorio

Essa deve ser a pista falsa dos traficantes!😡🤬😡🤬

2023-12-27

2

Carla Santos

Carla Santos

também acho e outra esse motorista pra mim trabalhar pra eles mesmo sendo de uma frota de táxi de companhia eles devem ser pagos como os policiais daí

2023-11-22

1

Cleide Almeida

Cleide Almeida

acho q esse taxista tá acoliado cm aquele mafioso Hank

2023-10-09

1

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