Capítulo 5

— EU TÔ DE MUDANÇA… — Hugo e David resolveram caminhar pelo Parque Guinle, no meio do caminho que era todo envolvido pelo verde. — … E só não te chamo pro meu apê, porque não tem mais nenhum lugar pra sentar — finalizou.

— Sem problemas — David deu de ombros. — Se você não se importa em responder… Está se mudando pra onde?

— São Paulo.

— Entendi.

— Por causa do trabalho.

Eles caminhavam devagar. O parque estava relativamente vazio.

— Então… — Hugo parou de frente a ele. — Sobre o que você quer conversar comigo?

Como pararam em frente a um banco da praça, eles se sentaram.

— É sobre Aron — David respondeu.

Hugo fez muxoxo.

— Se for recadinho pode esquecer.

— Não é, não.

O tom de voz um pouco incisivo chamou a atenção de Hugo. Ele o olhou fixamente, como quem espera uma resposta a mais.

— Vocês continuam se falando?

— De vez em quando — David olhou para o lago, ali na frente. Pegou uma pedrinha e atirou. Não tinha nenhum ganso, por ora. Só uns pássaros que saíram voando. E continuou: — A última vez foi ontem, no Leblon.

— Eu também vi ele por lá. Mas saí logo.

— Ele também te viu.

— Imaginei.

— Eu também.

Houve um momento de silêncio.

— Mas você estava um pouco mais longe. Mesmo assim, te reconheci.

— Bacana — Hugo disse sem expressão alguma, a voz seca.

— Quero te falar algo sério.

— Era aí onde eu queria chegar — Hugo se recostou no banco. — Fala.

— Toma cuidado com ele.

— Disso eu sei. E eu quero distância.

— É sério — David tocou na base do joelho dele.

— Tira a mão.

— Desculpe.

Outro momento de silêncio. Dessa vez, um pouco constrangedor. Hugo soltou:

— Um dia você tá defendendo um sujeito, que sai da prisão após conseguir um habeas corpus para responder em liberdade… Depois de invadir a minha casa e tentar me matar, por sinal… Aí no outro você me chama pra conversar, pedindo pra ter cuidado. Sério isso?

— Eu sei que as coisas não saíram do jeito que você quis, mas… Eu posso fazer o quê? Era meu cliente. — David deu de ombros.

— Era?

— Era. A gente se afastou. O caso já não é mais comigo.

— Como assim?

— Ele me dispensou. Disse que… — David hesitou. — Disse que só recorreu a mim, por ser uma opção mais próxima. E que ainda não perdoou aquilo que… Aquilo que acabou acontecendo. Entre a gente.

Hugo sabia muito bem o que era. Aron era capaz de provocá-lo de formas distintas — e algumas delas bem descaradas. Ele não queria que aquilo chegasse à tona de novo, continuando:

— Mas se encontraram na praia ontem.

— Por coincidência.

— E ele falou o quê pra você vir até aqui?

David contou sobre a conversa com Aron na praia. Hugo pergunta:

— E você acha que ele é capaz de fazer mais alguma coisa? Seja sincero.

— Acho.

— Hum.

— Se eu não achasse, não estaria aqui.

— Ele não representa mais perigo pra mim.

— Assim eu espero.

— Quanto menos ele souber de mim, vai ser melhor — Hugo fez uma pausa proposital, a fim de encarar David. — Você entendeu o que eu disse.

— Jamais faria isso.

— Acho bom.

— Jamais — enfatizou ele, com a mão no joelho de Hugo novamente.

Quando Hugo fez menção de tirar, Diego entrelaçou seus dedos nos dele. Ficaram ali, por uma fração de minutos, sustentando o olhar um do outro.

— Eu vou embora — Hugo disse, baixinho. Levantou-se. — Agradeço a preocupação, embora tenha vindo um pouco tarde.

Ele seguiu andando. David hesitou ali, por um momento. Mas decidiu seguir o rapaz, rapidamente. Pegou-o no braço.

Hugo não conseguiu pensar numa maneira de se esvair. O olhar profundo dele chamou atenção. Havia sentimento ali.

— A gente poderia ter dado certo — disse ele.

Eles haviam parado debaixo de uma árvore. Hugo, sentindo um pouco do peso das palavras que David queria transmitir, recostou-se no tronco. Eles já estavam mais próximos. Antes que David fizesse menção de beijá-lo, Hugo virou o rosto.

— Você chegou num limite perigoso — disse, seco.

— Me desculpe. — David se afastou um pouco.

Assim que Hugo encontrou o olhar dele, David começou a sustentá-lo.

— Você sabe.

— Sim — Hugo admitiu. — Você, no fundo, é um cara muito… Muito bom. Bacana. Só escolheu andar com uma certa amizade errada.

— Se não fosse por causa dele, eu jamais te conheceria.

— Mentira.

David soltou uma risadinha.

— A gente acabaria se conhecendo de um jeito ou de outro — frisou Hugo. — Trabalhamos na mesma área, na mesma cidade…

— Se eu ainda não te conhecesse, ficaria mais difícil. Você vai se mudar pra outra cidade.

— A vida se encarrega de fazer acontecer.

— Verdade — David encostou na lateral do tronco. — O destino.

Silêncio. O parque seguia calmo. A tarde sem sol era agradável.

— O que eu vou te dizer agora, você vai ouvir apenas uma vez. Somente desta vez.

David se virou, a fim de olhá-lo.

— Diga.

Hugo ficou hesitante. Algo que raramente acontecia.

— Se fosse numa circunstância bem diferente, eu adoraria ter gostado de você. Provavelmente, ter construído algo com você. De verdade.

Mais silêncio. Hugo olhou para ele, de relance.

— Eu acredito que sim — foi o que David disse.

Dessa vez, quem tomou a iniciativa de segurar a mão foi Hugo. Embora a distância deles estivesse equivalente apenas dois palmos, ficaram assim por um tempo.

— Eu sei que não dá mais — David admitiu. — Isso é o que o meu racional diz, e tá tudo certo. Mas o sentimento ainda existe.

— Eu sei que existe — Hugo falou baixinho. — Em mim também, só um pouco. Mas existe. Porém vejo que só dá mais.

Pegando o homem de surpresa, Hugo direcionou o olhar dele para o seu usando o indicador.

— Você seria um bom namorado e até mesmo um bom marido — Hugo afirmou com um meio sorriso.

David pegou na mão dele. Entrelaçou os dedos novamente.

— Eu viveria para isso — David sustentou o olhar dele. Antes de Hugo decidir se esvair, beijou-lhe a mão.

Mas foi pego de surpresa com o rapaz dando um único beijo em seu rosto. Fechou os olhos.

— Preciso ir.

Hugo seguiu em frente. David se permitiu ficar estático por mais um tempo, com a brisa agora batendo levemente no seu rosto.

...****************...

— PODEMOS CONVERSAR? — Pedro repousou a mão no balcão de atendimento. Eliza, por um momento, ficou estática. A boutique estava vazia. Uma mulher de terninho lilás se aproximou dela. Deve ser a dona ou gerente do estabelecimento. Pedro observava ali.

— O que aconteceu? — Perguntou baixinho.

A mulher se afastou junto com Eliza. As duas, de longe, começaram a cochichar por um bom tempo. A gerente se aproximou de Pedro.

— É sobre Janine, não é?

— Exatamente.

— Quero ressaltar que fiquei muito surpresa com a demissão repentina dela — a mulher começou. — Só fiquei sabendo dessa proposta de emprego, fora do Brasil, apenas no dia que ela foi até a minha sala para pedir as contas.

— Imaginei que sim.

— Eliza vai cooperar nesse caso — ela olhou de volta a moça que ainda estava longe. — Com medo ou não.

— Ela não precisa ter nada a temer — assegurou Pedro. — O caso está correndo em sigilo.

— Imagino que sim — a gerente ajeitou o terninho. — Tem uma sala reservada aqui dentro. Deseja utilizar?

— Claro. Por favor.

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Comments

Cleide Almeida

Cleide Almeida

acho estranho essa gerente e essa tal Elisa 🤔

2023-10-07

9

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